as Músicas são Normais

Comprar coisas não me faz feliz pra sempre.

Me faz feliz um tempo, depois

me faz

Melancolias.

Como é o caso desse anéis. Comprei os dois hoje e escrever com eles nos meus dedos está me

deixando feliz de um jeito simples.

Mas passa.

E depois que passa, fico pensando que troquei dinheiro por

Bobagens

perecíveis

enquanto tanta gente

Troca dinheiro por

Remédio pra

curar a dor. As físicas, provocadas por defeitos

Físicos. As provocadas por sentimentos

não tem

Cura. O amor não tem remédio, como numa vez que amei

demais.

O nome dele é Rafael. Hoje olho fotos e não sinto

nada

mas demorou anos pra parar de

sentir.

E chego a ter calafrios ao lembrar do

quanto

Sofri nesses tempos, me anulei, era inerte

Ou

Inútil tentar viver.

Perdi a alma em tudo que não era

Rafado.

Não conseguia existir longe dele e quando perto,

Não conseguia respirar direito. Passei o Natal

Sem entender,

Olhando pra’s nuvens

Comendo peru e pensando que

eu devia é estar transando com aqueles olhos de moço que fuma. Ele escrevia poemas maravilhosos depois que enrolava um beck e usava calça xadrez sem cueca.

Enquanto isso eu no Natal, rodeada de parentes falando coisas,

pra mim eles eram só lábios que se mexiam sem som. Achava-os patéticos cá dentro, sentia febre. Foi quando o Rafael me mandou uma mensagem no telefone.

Disse lindo do nosso amor

1999: não mencionou o menino jesus.

Quase chorei, tive suores nas costas, como doía ao invés de ser bom e não tinha remédio pra isso, nem ele mesmo

me adiantava porque a imagem que criamos do amor é sempre maior do que a pessoa amada.

Ninguém

pode satisfazer um Louco, eu sofri. Durou 3 anos, mas passou.

Assim como a alegria de comprar coisas passa. Troquei 400 mangos por 1 vitrola que, até mês passado, era a queridinha da casa. Hoje a olho como olho

um pão. Meu entusiasmo de colecionar discos passou, assim como um cachorro

na rua

Passa,

a dor de perder alguém

Passa,

as horas

passam

Não passam quando a gente ama junto.

aí congela e

depois

também isso

Passa.

tumblr_n6536zF71S1rdjew0o1_500

Anúncios

Mesa pra um

Nas ruas os pés sem cabeça,tumblr_ljyo6lHa8t1qe7ucso1_500

as placas.

Não olho nunca pros rostos,

nunca pros olhos, que eles dizem demais pra quem sabe de menos.

Prefiro a janela e uma bela macarronada.

O apartamento em paz e sem tv.

Cortinas cremes, um suco, alguns livros que não sei qual começar, é difícil,

me parece definitivo escolher uma história só. Sou mulher de muitas, não há vazios por onde amo.

Tentei o rádio, mas é só notícia e eu não quero notícia: quero voar.

Voltei a vitrola, olhei discos.

Talvez eu devesse voltar a pintar. Ou talvez eu devesse continuar a dormir. Não sei. De que vale a vida, afinal? Me vem vontade de morte toda vez que o céu

fica assim rosado.

Mas quando escurece passa. É que escurece também em mim o medo e as coisas podres.

Queria juntar no peito todas as contradições do mundo. Queria que nada fizesse sentido, nem meu corpo, e que nenhum homem jamais se aproximasse de mim por causa dos seios.

Mas é sempre pelos seios e eu me sinto sozinha. Não quero ser carne, o desejo me assusta. Não gosto de festas e nem de sertanejos.

Da música,

preciso do blues e da cerveja e de alguns compassos que me façam ter coragem de olhar nos olhos.

Semana passada eu estava na rua.

Mês passado também, de bicicleta, que uma mulher, once in a while,  precisa de ar. E de amor. E de algumas carícias na coxa.

Qual o quê!

Impossível encontrar um ser que te queira como és. O que vejo são seres que querem a-si–mesmo, num dueto do sozinho infinito. Assim fica fácil, assim fica sexo. Eu passo.

Prefiro a janela e uma bela siririca.

Não me importo de ficar nua ao meu lado, pelo contrário, me sinto leve.

Tenho Bukowski no travesseiro e Beatles no meu carro, eu tô legal.

Entre o amor só

e o amor egoísta

eu fico com o livro.

 

 

(Smiths aqui)

(c)oração da ex

tumblr_ldvjwpO32Y1qcaz72o1_500_thumbAcordei com um gosto na boca que não sei se era seu.

Ontem

dormi com pessoas que não eram você.  Pra te esquecer, amor,  que bobagem, mas não deu certo. O gosto daquela gente

lembrou-me o seu.

 

 

Que dor de cabeça, me olhei no espelho. Estava linda, que estranho.

Tu ia gostar.

Tomei um gole de whisky antes do café. Foi tu que me ensinou assim. Estava de camiseta sem calcinha mas com meia que,

em São Paulo,

outono parece inverno

e eu não tenho mais você.

Escovei o dente.

Teu terno ainda está aqui.

Eu o odeio, mas que merda.  Um dia

tu terá que vir busca-lo.

 

 

O porteiro contou, viu, do teu carro.  Estacionado,

de olho na minha janela. É vontade de boceta? Sei que é.

Aposto que cê ouviu dizer que agora eu faço dança. Te amo

mas não quero te ver. Corro o risco de sentir-te feliz. Constar penosa e lentamente que eu

já não te faço tanta falta.

Por deus não, que maçada, prefiro a saudade. Lembra dos nossos domingos sem tédio?

Líamos poesia um pro outro, nus, grifando frases, você sempre perdia o teu lápis mas nunca as mãos. Minha bunda era teu parque.

A gente beijava beijo longo

que molha

que leva

que agita.

Até filme de terror a gente via e eu não sentia medo. Com você nem da morte.

Nem da vida.

Morar contigo era melhor do que ter um cachorro.

Melhor que ouvir na vitrola

as canções malucas dos Mutantes.

Meu amor

Volta.

Tua vida sem mim não é tua.

Vamos tomar uma ducha

esquecer das besteiras que te fiz.

Cê me chupa e me perdoa, toma um drink, deixa a louça.

Volta. Que eu te mostro o quanto é lindo

comer a mulher da tua vida,

além dos novos truques que eu aprendi na aula de dança.

O Stalker

Uma mulher e sua casa. Ela é escultora, por isso mora em um galpão. Tudo ali tem cara de ateliê. Ela está sempre suja de argila, areia, gesso, terra. Até terra. Não sei o que ela apronta quando está trabalhando, mas que gênio. Que mãos. Que corpo. Por certo trabalha nua. Quisera eu ser um de seus modelos, mas não a interesso. Sou um ordinário cara de batata trabalhador da Sé bate carteira. Não tenho emoção. Que diabos. Daria tudo para ser passional, como ela. A essa altura já não sei mais se a desejo

ou se a invejo.

Essa mulher e sua banheira. Meia noite, meia Luz. No banheiro tem uma vitrola e uma taça de champanhe. Ela escuta e canta baixinho. Bem baixinho. Era Nina Simone. Quem sabe ela tivesse comemorando algo ou talvez tivesse apenas se divertindo sozinha. Se eu tivesse aquele corpo, baby, por certo eu também me divertiria sozinho. O banheiro cheirava lavanda. Mesmo nua, só dava para ver o seu rosto. A espuma cobria-lhe o corpo. Sua pele é tão clara. Eu a chuparia por todos os cantos e por toda a eternidade.

A mulher e sua roupa. Suas coisas estavam espalhadas pelo chão. Sutiã, meia-calça, sapato e um vestido azul em zíper aberto. Só não encontrei a calcinha. Safada. Na banheira, seu cabelo estava solto. Longo. Preto. E tinha também os olhos, que eram grandes. E bons. Todo artista tem olhos bons, é como um sinal da natureza pra que nós, seres comuns, percebamos a grandeza de poucos.

Ela se levantou da banheira. Que visão. Pegou a toalha. Difícil dizer o que nela era melhor. Isso acontece quando a mulher é muito bonita: sua graça é por inteiro. Ela se secou devagar, prendeu os cabelos num coque alto. Linda. Colocou uma camiseta qualquer e foi trabalhar.

Uma mulher e sua escultura. Ela trabalhando me deixava ainda mais excitado. Aquelas mãos tocando argila e formando mundos, aquilo, poxa, aquilo exigia coração. Ela tinha um gato também, que lhe fazia companhia. Recebia poucas visitas, da mãe e do irmão, quase não tinha amigos. Se não fosse o gato, ela enlouqueceria. E eu também, se não fosse ela, ficaria maluco. Essa mulher tinha algo de tão forte que me sugava os dias. A mente. Eu não ligava mais a tv, não lia livros. Nunca gostei de cinema. Ela era o meu entretenimento. Tudo girava em torno dela, o meu acordar, as minhas punhetas, eu sentia ciúmes até do gato e principalmente do irmão, eles tinham uma relação estranha, falavam muito perto, ficavam nus e davam risadinhas de coisas que pouco importa, aquilo me irritava, ela passava por mim na calçada e não me via, sempre cheirosa e tão magrinha com aqueles trabalhos grandiosos na sua sala, a sua casa que era incrível, de madeira, cheirava incenso e aquele gato tão quetinho e companheiro, parecia um cachorro, e aquela vitrola cheia de discos tão bem colocada ao lado da banheira, o espelho, a porta de entrada, as cortinas roxas, a boca, a pele, os bons olhos, aqueles peitos suculentos que nunca sentiriam o gosto da minha saliva e aquilo tudo me deixava louco de tesão,
de raiva
de amor.
Ela era mulher e uma mulher
sempre está a frente de seu tempo. A essa altura já não sabia mais se a queria ou
Se a matava.

 

Homesick

no telefone

ouvi de ti muitas coisas de ontem

enquanto tomava um café

salgado

porque quando se tem sono

sal e açúcar se parecem

tanto

que chega a ser perigoso.

 

 

Ando em minha casa descalçada: de camiseta e sem calcinha porque

porra,

se eu não posso ser

rainha

da minha sala

que puta de merda eu farei na rua?

 

 

Minhas janelas são sem cortina, tá tudo lavando, o que é bem normal em apartamentos de cidade grande. Minha

casa

tá pelada e hoje a tarde me bateu uma vontade

de trocar de roupa bem na  frente da janela, o que é que tem?

um par de tetas não é lá grande coisa

prum vizinho que me olha da esquina.

 

 

Fiquei de jeans sem blusa

pelo tempo de um cigarro na varanda.

O corpo nu é sempre um alarde.

 

 

eu não entendo porque as pessoas se ofendem mais

com bundas

do que com elas mesmas.

Outro dia, pra tu ter uma ideia, fui à uma loja de cosméticos e a moça,

uma tetéia,

tirou de mim a maquiagem, na frente do espelho,

pra ver se a nova base que eu comprara

caia bem na minha pele.

A moça  me pegou de surpresa, me deixou de cara limpa, eu mal conseguia olhar no espelho, tive náuseas,  a tetéia

me fodeu,  arrancou de mim o que me esconde e eu, porra, fiquei mais nua sem rouge

do que sem blusa.

 

 

Sai da varanda, fui pro quarto.

liguei meu abajur em meia luz.

seis da tarde e tu

me ligando

feito louco.

Não atendi  teu telefone.

Ouvi de ti tantas coisas de ontem que queria mesmo

era ficar sozinha.

Coloquei na vitrola o jazz que me faltava porque o blues, baby, esse me sobrava.

A vida

às vezes

é

tão

pesada.

Eu só queria ir ao cinema sem ter que pensar nas mil coisas que vão desde o preço do estacionamento

até a cor do sutiã que combina ou não com a blusa.

Meu deus.

Eu só queria ir na porra

de um cinema

ler o Hank e te mandar

pra puta que pariu.

girl