o atraso

chutei as pedrinhas da estrada quando senti que você não vinha

Mais.

Tirei elas do meu caminho, deixei só

a Terra,

que sempre levantava com o vento, nascido das rodas rápidas que passavam por ali e

não paravam.

Estava tudo certo para termos a melhor semana das nossas vidas, pelo menos eu.

De noite conversamos por telefone, você disse

das malas prontas, mas hoje

desviou o caminho,

preferiu pegar a estrada sem mim e eu aqui, na rodoviária feito

Besta, num choro engasgado de

peito, umatumblr_nikcox6FzL1u7p6r4o1_500

ânsia.

Pensei que podia ir atrás de você até a sua cidade, mas que ridículo isso seria.

Porque um dia

Morro

e não sei

Quando, desperdiçar o tempo é criminoso por ser jeito de matar, também.

Olhei minha mala em estado de

Espera, era

triste. Eu de calça jeans, batom e bota te esperando era

ainda mais Triste, o amor

É história pra boi

Dormir. O que existe

é a sede,

amor é feito de 2 ou mais pessoas e 2 ou mais pessoas

Raramente concordam em qualquer coisa, por isso viram pó e

desilusão.

Você foi muito Covarde, hoje.

Avisar antes

pode ser legal. Passou um ônibus escrito

Salvador

que parou para uma família entrar. Entrei junto,

pra não voltar, esperando sinceramente que você se Foda porque eu

estava Machucada

demais.

O pessoal que ficou na rodoviária

Te viu

Chegando

20 minutos depois, mas o pessoal da rodoviária não sabia quem era você e também não sabia

quem era Eu, 1 mulher sem celular

desde semana passada, por culpa do filho

da puta de um

Ladrão chamado Pedro, um garoto de

17 anos

que pretendia se casar com a namorada assim que tivesse grana

o Suficiente

pra isso.

um quarto na estrada, pelo amor de d(eus)

Conversei com um poeta não sobre poesia,

foi sobre o Brasil ser um país tão grande e ainda assim, continuar sendo 1 país e não

países. Ele me disse pra trocar a grana que gasto com plano de saúde

por

cair na estrada de bolso

cheio, já que a Saúde no brasil é nota

preta e eu

ainda sou moça, a chance de ter doença é curta ou vale o Risco pra ver o Rio

são Francisco

passar.

Outro amigo me disse que

no ano próximo

Ele larga Tudo

e pega o trailer

que tem montado ao longo dos anos até com gasolina

pra conhecer a América

Latina, só volta

Quando acabar de ver, mas

essas coisas de conhecer lugares

não acabam

nunca. Uma pessoa

só vira pé

soa

na Cidade, mergulhando nela. Pode ser uma cidade com ruas de terra batida, cadeiras na calçada onde sentam a gente pruma prosa sem pressa ou

pode ser uma cidade

de aço

que mal vê seus habitantes em carne

e osso, só

prédio,

terno,

sapato, não

importa, tendo várias vidas dentro, então a Cidade transforma e

transformará.

Uma vez fui pra Minas Gerais e vi

perto da rodoviária

um homem deitado na rua dormindo com o cabelo

duro, dormindo às 3 da tarde, se eu voltasse às 7 da noite

Ele ainda estaria dormindo, uma vida

de morte,

onde os que moram na rua Arranjam aqueles cobertores cinzas todos iguais? Ou já tinham, antes de morar sem casa, e depois sabendo que a noite é fria, levaram de mala 1 cobertor?

Onde eles cagam?

Cadê a merda das pessoas sem casa? Nunca trombei com merda humana fora dos banheiros públicos, mas penso nela

o dia inteiro

E depois de ver

Tanta gente pela janela do ônibus e depois de ver

Tanto asfalto9520039294_68c981a5b6_b

pela janela do táxi, dentro

e fora da cidade que

moro, eu

já não posso

escrever do mesmo

Jeito. Vou cancelar meu plano de saúde por telefone. Vai me demorar um bom (?) tempo

já que ninguém

nunca quer

Perder

Dinheiro. E quando eles me perguntarem do outro lado da linha por que raios

eu gostaria

de cancelar algo tão importante como o acesso à saúde, então eu direi que Ver o que der do Mundo é muito

mais importante, e que eu não tô falando de hotéis. Tô falando do ato

De se movimentar por terra em busca

Dela e do que as pessoas fizeram

Com ela. a Estrada

Abre

o terceiro olho

que fica sendo o

primeiro num buraco largo na cara

diante da Potência da vida rápida e nova que não é sua, mas

passa a ser, a partir do momento em que você coloca os olhos nela.

O Prego

da beleza das flores estão todos
cansados
de saber.
Ela é
linda, dizem,
desde a Grécia dizem, desde
o começo do Amor.
Mas
e quanto ao
Vaso, esse
pai
esquecido?
Flor não tem asa nem mão. Das que saem do jardim, das
adotas na Floricultura,
quem
segura
todas as barras?
Quem é o Discreto que sustenta o belo?
Quem é transparente mesmo se colorido?
O foco não é dele mas ele
não liga, não
há ego num vaso, há terra
ou
água, é como o chão do mundo e
ser útil
é tão comovente
quanto ser
bonito.

 

ramadinha-desenhos-02

 

 

(*ilustra by Leonardo Ramadinha)

Lolita Pimenta ou A presa

Olhos azuis tão azuis os seus. Coisa rara, linda de se ver. De se ter e você
tem.
São olhos pequenos
rasgados
que me causam arrepios
por todos os lados. Olhos celestes de uma terra muy distante.
Têm um quê de loucura também, um tempero, uma malícia de homem que já viu muita estrada, comeu poeira e mais de mil mulheres, ao som de Johnny Cash. Sempre o Cash, que eu te conheço. Sou menina, mas cê não me engana. Na cama
es um lince.
Um bárbaro.
On the road, o asfalto tem seu cheiro. Cê é livre, prematuro e sabe que a poesia vem do sexo.
Não tem casa só tem carro e claro,
não se apaixona nunca
(ou quase nunca)
porque sabe do poder de uma buceta.
Sou menina, mas leio muito
e achei Bukowski outro dia, na sua prateleira.
Entrei no teu quarto, fucei nas tuas coisas, cheirei tuas cuecas e
levei uma.
Minha mãe descobriu, me deu uma surra.
é que ela não entende que eu

gosto de tu.

E gosto também da sua cara. Cê é jovem
mas tem ruga.
No cartório, 29, mas te olhando uns 34.
35.
Boca fina
Avermelhada
que se abre em gozo quando passa uma mulher que te agrada.
Já te vi olhando uma mulata.
Tua boca denuncia o desejo,
te reparo.
cê me mata.
amo tua barba, que é das grossas e é morena, como eu. Sou pequena, mas cê me cabe. Cê me ensina, eu te aprendo.
Quando tu senta na calçada de perna aberta e jeans antigo
eu sinto que o mundo inteiro
podia parar ali,
acabar em ti.
Cê é a soma de todos os homens que eu sonhei pra mim.

Daí num belo dia, foi na quarta ou na segunda,
Você provou da minha boca.
Eu tava lavando teu carro, do jeito que cê tinha mandado. Fazia um calor da peste e eu vestida de branco. Me molhei um pouco.
Fiquei transparente.

Você, que me olhava da rede, abriu a boca de desejo
daquele jeito que eu tanto conhecia.
Senti um frio na barriga. Há anos que eu morava ali,
contigo,
e você nunca
tinha me visto.
Agora me vinha assim, sem pressa, andando safado em minha direção.
Teu jeans
Tua bota
Teu cheiro cada vez mais perto.
Eu tremia por dentro, era menina. Te provocava do meu jeito mas não sabia das coisas. Tive medo.
Me virei de costas pra ti. Minha calcinha
era vermelha, eu tinha
15 anos e você cada vez mais perto.
Mais perto
Feito lince.

Já podia sentir tua respiração.

Me virei de novo. Dei de cara com a sua
boca.
Teus olhos azuis
ainda mais azuis
por causa do fogo.
Cê me pegou pela cintura e sussurrou entre os dentes:
– Você cresceu demais, Mariana. Tua mãe te criou direito.
– Senhor, eu..
Me beijou a boca
me arrancou a roupa e me comeu ali, do lado do carro. Não deu nem tempo de desligar a mangueira.

 Imagem