quem tirou a foto deve ter sido um amor e o amor acabou mas a foto foi antes do amor acabar

no retrato amarelo pelos anos minha mãe vestia um jeans.

a cor do tempo passando é

amarela, por isso não fico bem de blusa amarela, tenho medo de envelhecer mais que de morrer. prefiro azul,
morrer é azul.

o jeans

da minha mãe

era curto, ela estava em cima do muro da casa da minha

vó em

tijolos que eu não conheci, só ouço dizer que é a casa da Narcisa, a vizinha que alugou

pro meu vô ou era o nome da rua, Narcisa, não sei

tem coisas que eu não me lembro

mesmo tentando muito.

no muro baixo minha mãe sentou pra sair na foto com o rosto fazendo um charme que eu nunca vi

jogando o cabelo pra trás,

longos

cabelos

morenos, no máximo 18 anos ela tinha.

fiquei olhando tanto aquela foto mesmo depois que guardei de volta no álbum, olhei da minha cabeça,

a foto grudou na testa por dentro, um imã.

a minha mãe não morreu mas morreu daquele jeito que era, ela passou pelo corredor me perguntando:

– o que você tá fazendo aí?

como se soubesse

o que eu estava fazendo e não quisesse

que eu visse o estrago do tempo na gente porque aquilo de mudar tanto era muito

assustador. não vai acontecer comigo, é o que todo mundo pensa.

passa os anos.

Acontece.

tô vendo a mulher que você era, eu queria dizer e não disse.

ao invés, falei:

– não tô fazendo nada, mãe. é domingo.

a expressão dura que habitava seu rosto de hoje me deu vontade de parar de ouvir música pela vida inteira, minha mãe sempre borrava

a maquiagem

pelo choro fácil de dor e de sono mas não no retrato. lá

nem parecia que a minha mãe seria capaz de brigar com alguém pra depois chorar. na foto ela era 1 Ilha

deserta com seios quietos
nunca antes
mamados, naquele frescor de ser jovem no

osso atumblr_static_bparlij18408oso8kkww0wgco.gif

pele

passada

a ferro,

me olhei no espelho pra ver se encontrava 1 pingo da velha mãe em mim: não, nada.

aquela mulher no muro

mudou pruma rua que derreteu.

quero saber o nome da última pessoa que a viu tão flor, a gente vai mudando aos poucos

o resquício existe

não acaba tudo de uma vez. preciso guardar nos olhos aquela candura da foto

vou dormir eternamente sem morrer, vou dormir fingindo acreditando que durmo igual o menino ontem no banco roncando

de mentira tão real.

vou me trancar num vestido justo pra não me escapar esse

vento, essa sede de

chuva, esse riso leve que mostra um pouco do dente mas não tudo e depois

todos os dentes, é um começo de sorriso

e por ser começo é bonito

porque traz

esperança.

minha mãe esqueceu como sorrir assim. ela diz que a culpa é da asma,

o tempo também

é culpado mas o nome

da culpa maior é A Perda e Jeito que a gente lida com ela

um nome comprido, de fato, preciso anotar

pra não esquecer.

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Meti a colher

deitado na cama o Homem de olhar congelado como alguém que morre de olho aberto, mas ele

estava vivo, por isso

era ainda mais triste.

aquela deitada tinha o peso da desistência de um time de futebol inteiro

antes mesmo

de soar qualquer apito, só porque disseram1333264506433072159

no vestiário

que o time adversário era muito bom.

Chamei seu nome,

-Pai.

Pra soprar vida nele, já que era o seu aniversário e aquilo parecia tudo menos 1 comemoração.

Pai.

Chamei de novo porque ele não me olhava. Passei a mão no seu ombro numa tentativa de carinho.

-Que foi, Pai?

não tenho mais paciência pra isso

foi o que ele

me respondeu. Aconteceu 1 briga

de amor

com a mãe em pleno dia de fazer os anos e era assim sempre, as memórias de aniversário dele estavam intimamente ligadas com brigas

de amor

com ela.

-Não fica assim, pai.

Ele me olhou e quando me olhou

a vida voltou de leve no olho dele. Acho que ele lembrou dos velhos tempos, pois

em algum lugar do Antes,

meus pais se deram bem o suficiente pra fazerem filhos.

Eu queria muito ajudar a ficar tudo certo sem saber qual era o próximo passo depois de querer. Queria fazer ele mudar

de vida, mas sei que se ele mudar, tanta coisa vai cair e ficar devastada como num terremoto, a Cidade morre do jeito que a conhecíamos depois do abalo

sísmico, a cidade

seria a

mãe. E o terremoto seria

o pai.

Conversamos. Ele não queria presente de aniversário tipo um sapato novo pra usar com jeans, ele

Queria

um pouco de paz no amor, se ainda era amor, só porque algum dia

Foi. E disse que seu pai morreu aos 64 anos, então

pela lógica

ele teria mais 15 anos de vida pra conseguir

a paz.

Isso pela lógica, mas a vida

não tem lógica, eu sempre posso morrer antes de ver alguém que amo

Morrer.

Posso bater as botas

agora, podemos bater as botas

juntos, pai e filha se jogando do décimo segundo andar de tanta

tristeza.

Eu queria conseguir demostrar mais o meu amor pelo meu pai, como por exemplo preparar o café da manhã dele diariamente, mas isso seria rotina e toda rotina é uma pequena escravidão

silenciosa.

Somos silenciosos meu pai e eu. Somos castos nas escolhas das palavras.

Nunca dizemos de nós mesmos, ao menos que sejamos solicitados que sim então

dizemos com

conversas silenciosas.

Quando estamos juntos nunca ligamos a televisão, apesar que ele sempre me diz:

-tá tarde, vai dormir.

o que também é um jeito de se livrar. Eu entendo, pai.

É difícil ficar junto com alguém que conhece muito

dos seus rombos, é pior que espelho. Por isso é tão duro pra gente estar no mesmo cômodo, sabemos as cores

dos ternos

das dores que moram na gente. Ainda assim,

essa noite eu vou dormir do seu lado, nem que seja do alto da minha

própria cama.

 

 

a Leitora

 

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o tempo que ela tem pra ler tantos livros é mais alargado que o tempo dos outros que dizem

não ter tempo pra ler 1 romance inteiro ou tempo

É escolha?, na Lavandaria um cesto de roupa

Suja

 

 

há 30 dias.

São Lençóis

acumulados, calcinhas, toalhas

de banho, na mesa do almoço uma lasanha

Congelada\Descongelada em 15 minutos além do suco de caixinha e de grude

só o micro ondas que vai ficar

pra limpar

depois, também. Porque agora a Rita está na poltrona.

Agora a Rita está na cadeira da cozinha apoiando o livro na mesa.

Agora a Rita está

Grifando uma frase

que vai render tantas outras, que vai render olhar a rua

de um ângulo totalmente novo, vai render

uma torta de limão na boca com mais gosto de limão e menos de danone.

Agora a Rita está pensando em tudo o que o escritor disse

Sem dizer, agora a Rita

está na Internet

pesquisando o escritor pra depois

mandar um E mail pro escritor e discutir aquele conjunto de palavras que rendeu um

Mergulho na piscina do prédio que a Rita mora faz

15 anos e faz 15 anos que a Rita Nunca tinha nadado ali.

A roupa

Suja

não para de receber mais

roupas

sujas, no armário do quarto está um silêncio de algodão.

a lasanha

dura

estocada no freezer está acabando, faltam 2, e o pó

no chão

dança quando bate o vento da Janela sempre aberta, o pó

muda

de lugar mas sempre

Para

nos cantos por uma questão de proteção. As Obrigações

estão todas Mortas, estão todas A sete

palmos, esperando a Rita

pra ganharem

Vida, uma hora ou outra ela

 

Vai

Ter

que Fazer.

pra ler no ritmo de corda pulada

duas irmãs brincam pequenas, brigam

pequenas, param

pro almoço é

Feijão. duas irmãs dormem pequenas,

correm

pequenas, acordam de pijama

azul.

duas irmãs voltam

pequenas, da Escola

Imensa, o primeiro

dia

de aula.

duas irmãs crescem pequenas,

sonhando e

pequenas, dormindo

no quarto

igual.

duas irmãs

ocupadas e grandes

agora crescidas,

já hoje sem mãe,

se ligam no meio

da noite:

até o Alô

é difícil.

o atraso

chutei as pedrinhas da estrada quando senti que você não vinha

Mais.

Tirei elas do meu caminho, deixei só

a Terra,

que sempre levantava com o vento, nascido das rodas rápidas que passavam por ali e

não paravam.

Estava tudo certo para termos a melhor semana das nossas vidas, pelo menos eu.

De noite conversamos por telefone, você disse

das malas prontas, mas hoje

desviou o caminho,

preferiu pegar a estrada sem mim e eu aqui, na rodoviária feito

Besta, num choro engasgado de

peito, umatumblr_nikcox6FzL1u7p6r4o1_500

ânsia.

Pensei que podia ir atrás de você até a sua cidade, mas que ridículo isso seria.

Porque um dia

Morro

e não sei

Quando, desperdiçar o tempo é criminoso por ser jeito de matar, também.

Olhei minha mala em estado de

Espera, era

triste. Eu de calça jeans, batom e bota te esperando era

ainda mais Triste, o amor

É história pra boi

Dormir. O que existe

é a sede,

amor é feito de 2 ou mais pessoas e 2 ou mais pessoas

Raramente concordam em qualquer coisa, por isso viram pó e

desilusão.

Você foi muito Covarde, hoje.

Avisar antes

pode ser legal. Passou um ônibus escrito

Salvador

que parou para uma família entrar. Entrei junto,

pra não voltar, esperando sinceramente que você se Foda porque eu

estava Machucada

demais.

O pessoal que ficou na rodoviária

Te viu

Chegando

20 minutos depois, mas o pessoal da rodoviária não sabia quem era você e também não sabia

quem era Eu, 1 mulher sem celular

desde semana passada, por culpa do filho

da puta de um

Ladrão chamado Pedro, um garoto de

17 anos

que pretendia se casar com a namorada assim que tivesse grana

o Suficiente

pra isso.

Piscina

a primeira vez que nadei num Clube foi meu tio,

des-casado com a minha tia,

que me levou.

Eu estava de viagem na casa da prima. Ele veio buscar a menina que pais separados

veem filhos de sábado

e domingo, assinam papéis pra decidirem assim.

Ele chegou avisando de buzina. A prima pegou a mochila pronta e me deu um:

-Tchau.

bem seco, só pensava em Piscina naquele dia quente e ainda era cedo, 9 horas

da manhã.

Ficariam só os adultos na casa e eu.

Minha mãe me ofereceu Fanta uva num copo verde, ou seja, aparentemente

ia ficar azul o líquido e isso me animaria a beça se fosse outro dia qualquer, mas era muito Sozinha

ficar só eu de criança numa casa que não era

a minha.

Meu tio notou do portão o tamanho

do meu olho de

triste. Perguntou

– cê não Quer ir junto?

Com voz de quem realmente gostaria que eu fosse, até então eu não estava me sentindo bem vinda por culpa da prima que só queria

Competir.

Amei meu Tio aliviada e olhei

pra minha mãe

com esperança, ela olhou preocupada pra minha tia e disse:

– ela tá sem biquíni.

Ela nada de calcinha, eu ouvi

minha tia

dizer.

eu não queria nadar de calcinha. Escapou com força da minha boca a frase:

– eu não quero nadar de calcinha.

Apontei pra porta do quarto da prima:

– a Ju tem maiô guardado na gaveta.

– Mas a Ju é mais velha.

– prefiro nadar com maiô grande do que nadar de calcinha.

E prefiro nadar de calcinha do que não ir pro Clube, mas isso

eu não disse

pra ninguém.

Minha Tia foi até o quarto e pegou o maiô vinho da minha prima dois anos mais velha que eu.

A prima

colocou a cabeça pra fora do carro e ficou olhando

eu pegar tímida

o maiô dela e ir pro banheiro me trocar, nossas competições eram muito

sutis.

Entrei no banheiro, tirei a roupa.

O maiô da Ju tinha o cheiro dela, o formato

dela, colocar aquilo era quase como

Roubar aquilo, me sentia um pouco má com amargo no peito. Mas não ia nadar de calcinha na frente

do clube todo, muito menos na frente

da Ju pra depois virar

chacota. Vesti o maiô e encarei o espelho. Estava grande, um pouquinho, mas eu estava

bonita. Combinava com os meus joelhos aquela cor vermelha-escura.

Eu estava até

mais bonita que a Ju vestida com o mesmo

maiô, já vi ela usando no Natal do ano

passado, num pulo na piscina do vizinho e a visão

do seu

Bum

Bum não saiu da minha cabeça. O maiô continua servindo no Natal desse ano porque

a Ju

Cresceu pouco. Eu cresci muito. Tenho até

pelo

no lugar que fica a calcinha que agora

está o maiô

e que antes

ficavam os pelos da Ju mais velha, por isso

ainda mais

peluda. Pensar naquilo

me deu

1 tremedeira nas pernas e um

molhado no meio das pernas, coloquei a mão pra passar.

que coisa,

A sensação

de tremedeira ficou mais forte, eu me senti um

tigre,

Deitei de bruços no chão do banheiro e esfreguei meu corpo

No piso gelado pensando

naquele dia que a Ju mexeu por horas no meu cabelo pra fazer uma trança e irmos pra festa.

Minha mãe bateu na porta tentando abrir,

Deu certo, filha?

Levantai num

Salto. Respondi que:

-sim!

Ainda bem que eu tinha trancado e

antes de abrir a porta do banheiro me olhei de novo no

espelho pra ver se a minha cara

estava

Denunciante, mas

até que ela estava

1 cara

Normal.

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um quarto na estrada, pelo amor de d(eus)

Conversei com um poeta não sobre poesia,

foi sobre o Brasil ser um país tão grande e ainda assim, continuar sendo 1 país e não

países. Ele me disse pra trocar a grana que gasto com plano de saúde

por

cair na estrada de bolso

cheio, já que a Saúde no brasil é nota

preta e eu

ainda sou moça, a chance de ter doença é curta ou vale o Risco pra ver o Rio

são Francisco

passar.

Outro amigo me disse que

no ano próximo

Ele larga Tudo

e pega o trailer

que tem montado ao longo dos anos até com gasolina

pra conhecer a América

Latina, só volta

Quando acabar de ver, mas

essas coisas de conhecer lugares

não acabam

nunca. Uma pessoa

só vira pé

soa

na Cidade, mergulhando nela. Pode ser uma cidade com ruas de terra batida, cadeiras na calçada onde sentam a gente pruma prosa sem pressa ou

pode ser uma cidade

de aço

que mal vê seus habitantes em carne

e osso, só

prédio,

terno,

sapato, não

importa, tendo várias vidas dentro, então a Cidade transforma e

transformará.

Uma vez fui pra Minas Gerais e vi

perto da rodoviária

um homem deitado na rua dormindo com o cabelo

duro, dormindo às 3 da tarde, se eu voltasse às 7 da noite

Ele ainda estaria dormindo, uma vida

de morte,

onde os que moram na rua Arranjam aqueles cobertores cinzas todos iguais? Ou já tinham, antes de morar sem casa, e depois sabendo que a noite é fria, levaram de mala 1 cobertor?

Onde eles cagam?

Cadê a merda das pessoas sem casa? Nunca trombei com merda humana fora dos banheiros públicos, mas penso nela

o dia inteiro

E depois de ver

Tanta gente pela janela do ônibus e depois de ver

Tanto asfalto9520039294_68c981a5b6_b

pela janela do táxi, dentro

e fora da cidade que

moro, eu

já não posso

escrever do mesmo

Jeito. Vou cancelar meu plano de saúde por telefone. Vai me demorar um bom (?) tempo

já que ninguém

nunca quer

Perder

Dinheiro. E quando eles me perguntarem do outro lado da linha por que raios

eu gostaria

de cancelar algo tão importante como o acesso à saúde, então eu direi que Ver o que der do Mundo é muito

mais importante, e que eu não tô falando de hotéis. Tô falando do ato

De se movimentar por terra em busca

Dela e do que as pessoas fizeram

Com ela. a Estrada

Abre

o terceiro olho

que fica sendo o

primeiro num buraco largo na cara

diante da Potência da vida rápida e nova que não é sua, mas

passa a ser, a partir do momento em que você coloca os olhos nela.

o retorno

que rosto, o teu.
é de garoto com esses olhos de janela pro mato,
uma casa nova
num velho bairro que chove muito no verão, você.
Não reparei na sua altura,
Nem na sua falta de tato no
abraço, nem nos seus textos. Quase não
Reparei que reparei em você de tão leve que foi.
Percebi depois, que passou o dia,
e teu rosto ficou insistente no fundo do meu olho enquanto eu dormia e até hoje.
Entro no sono e vejo
teu rosto que percorro com todo o meu corpo como quem viaja de bicicleta pra longe e precisa ir lento
porque a perna é 1 só.
não tive coragem de perguntar a tua idade, você deve ter não mais de 20
anos.
Se veste de caso pensado, acha importante umas coisas
que não tem a menor importância no meu hall de presto atenção, como meu cadarço desamarrado da bota que você me avisou:
– cuidado.
pensando que eu podia cair.
Acho que te ganho em altura por uns 5 centímetros.
Fico imaginado nosso beijo em um lugar dançante. As pessoas aglomeradas nos juntando cada vez mais até que a nossa boca cole, tua língua
Entra,
engulo um hálito
morno e,
Um pouco mais tarde,
engulo teu pau
no que seria
Uma chance que nos daríamos para esse ímpeto de encaixe que bate e é forte, faz o peito crescer.
No fundo, a gente só quer se conhecer
melhor porque estamos muito curiosos nos achando parecidos.
Não seria amor, seria uma
Chance que eu daria também pruma cidade inédita que me fizesse Sentir. Moraria nela, tenho 1 amiga que fez isso e está viva,
tomando cerveja
na rua de quinta, a nova sexta.
Ela Foi pra Porto Alegre e nos bares se sentiu em casa, agora está em busca de um apartamento.
Gosto de pensar em você como um apartamento que quero morar porque tem uma vista das mais Bonitas, inclusive de dentro das minhas pernas com
a tua língua num entra e sai
de buracos, teu pau te fazendo morar
Em mim, com
Você inteiro, homem-menino, dentro de mim e já no útero, no fundo penso
que o apartamento sou
eu.

Soledad é a palavra mais bonita para Solidão

Roberto dava chilique pra cantar. Numa hora qualquer da música ele debatia o corpo, rangia o rosto

Negro, encolhia os ombros e a voz altíssima não necessariamente no refrão, era lindo.

As pessoas da plateia ficavam como se estivessem vendo a Lua de dentro do mar e a água

quente, inclusive eu ou

especialmente.

Roberto usava um terno preto rigoroso mas a gravata era de glitter. O brinco

Era dourado, numa orelha 1 argola

Na outra

um botão.

Nada em seu canto era comum e quando era o solo

Dos músicos, Roberto

Virava de costas pro Público

Pra se tornar ele mesmo parte do público dos músicos de jazz.

A figura

Dele se apagava quando ele virava de costas, mas nunca esquecido.

Era como se ele emprestasse a sua luz pro moço do piano, pro menino

Da batera, pro homem-cara-fechada do

Contra

Baixo. O homem do contra

Baixo morava dentro do seu instrumento como numa quitinete de aluguel muito caro. O do piano ás vezes comia em cima do

Piano e derramava líquidos

Sem querer

Nos teclados.

O menino da batera tocava seu instrumento de toalha pós-banho.

Já O Roberto tinha a voz de instrumento, definitivamente vivia na Música, voz

Não se vende nem se troca nem se compra numa loja melhor. Voz é de deus, se existisse coisa

Desse tamanho. Como não existe, voz

É gravidez.

O cantor é gestante da música, o Roberto do Jazz e entregava tudo que sabia

Pra gente-plateia, inclusive eu

ou especialmente, que tomava meu drink sem acertar a Boca porque estava hipnotizada. A maioria das mesas da casa

eram de no máximo 4 pessoas,

com 2 casais amigos quase sempre perto dos 50 anos, vestidos elegantemente em perfumes variados no ar. Tinham vivido pra estar ali.

Pelo Roberto, essas pessoas

paravam.

Erravam seus garfos na boca, como eu, só que mais discretos.

Não pensavam mais se fazia quase uma hora que não saiam pra fumar um pouco de ar, se tinham

Medo de morrer, se fazia anos que não transavam com seus maridos e esposas em noites de um dito:

-Boa noite.

apenas, seguido com o pagar do abajur do seu lado do criado mudo enquanto o outro ficava lendo

Qualquer coisa que não

Importa nem no macro nem no micro do Mundo. O silêncio dos casais depois dos anos é triste porque não é um silêncio

Preenchido. Mas no momento da música do Roberto,

toda gente que ouvia Esqueceu.

Eu pedi nina Simone porque o lugar era pequeno e podia pedir.

O roberto me disse que não sabia cantar Nina Simone, mas sabia

Cantar uma música que era a cara dela e eu vi a Nina

Deitada tomando Sol enquanto ele cantava aquela canção que eu não conhecia e nem sei

Como Encontrar.

Então houve um Intervalo. O roberto sentou

na cadeira do corredor fora da luz do palco, os músicos foram pro bar,

Cada um descansa

Como pode não como deve e os Casais começaram a pedir a conta.

débito.

Crédito.

Dinheiro não se vê mais. O dinheiro é só uma ideia guardada nos números que faz o mundo funcionar como uma Roda.

O Break de Roberto era de 15 minutos. Ele na cadeira sem luz parecia um

Velho que desistiu.

As pessoas foram embora de mansinho.

Aquelas mesas vazias ainda estavam quentes. Depois do intervalo de 15 minutos que pareceu mais longo,

Só ficou na casa de jazz o Roberto, a banda

E eu,

Além dos garçons, que só podiam ir embora depois das 2 da manhã.

O Roberto cantou pra mim sem me olhar, cantava olhando pra frente como se a casa estivesse Cheia.

Cantou igual com se a casa estivesse cheia.

Deu chilique do mesmo jeito, apresentações incríveis só para 1 pessoa dá vontade de chorar. É como uma cidade

Vazia.

O roberto e a banda cantaram mais 5 músicas que eu não pedi nenhuma. Quando acabou tentei aplaudir o mais forte que pude pra

Compensar a plateia que não estava.

Queria dizer com os meus aplausos que era só eu, mas

eu estava escutando pra caramba.

Dei parabéns a todos com palavras, também. Sai pela porta da frente, a bolsa solta

no corpo. Pedi meu carro pro manobrista que foi bus(car) no quarteirão e que demora, o Roberto saiu

Enquanto eu esperava.

Saiu pequeno, com a pasta de músicas debaixo do braço. Disse pro segurança da casa:

– Só volto semana que vem.

Os 2 pareciam velhos amigos e eram negros como

Seus ternos. O segurança o chamou de:

-Robertão.

Com tapas nas costas, Imaginavam que voltariam a se ver semana que vem, mas

no fundo ninguém sabe exatamente se sim porque a morte

Existe.

Depois,

o Roberto saiu caminhando pela alta madrugada sem nenhum resquício de ser

1 Gênio.

Fim de tarde

Uma pilha de roupa pra passar e um sol lá fora.

Uma pilha de roupa passada e o sol continua,

Lá fora.

Eu sempre penso que vai dar

tempo

de pegar o sol, pelo menos a ponta dele, e tomá-lo num copo de pingado em gole único.

Mas o Dia anda com passos largos, quando vejo já é a Lua no lugar

do Sol.

Eles se dão bem. Nunca roubam o lugar 1 do outro e se roubam, a gente não percebe,

como não percebemos um bocado de coisas que mudam com

Discrição.

A lua

é lésbica. Namora a noite, o sol

É gay,

marido do

Dia.

O ano

tem pressa em passar pra se livrar logo dos humanos aqui na terra, por isso tão rápido o tempo de relógio, somos péssimos habitantes e

a Terra

precisa se Defender. Na minha correria de tentar, penso que vou ler tanto,

Conquistar

Uma porção de sonhos, como deixar Pronto 1 livro meu antes d`eu sumir pra Morte.

Por enquanto só porta fechada.

E quando abrir, quando alguém topar enfim fazer de mim

1 livro,

então haverá mais portas fechadas, agora na hora de colocar a mão no bolso e
pagar o livro-(m)eu. Vão desistir de me comprar no caixa das livrarias.

Depois irei pro’s sebos e lá acontecerá o mesmo. Depois irei pra’s caixas empoeiradas das prateleiras mais altas dos sebos onde ninguém põe a mão. Encosto,

deito e

durmo nos Nãos.

Esquento os Nãos sentando neles.

Espero que dezembro chegue menos rápido do que de costume,

Alarga Novembro, Lua,

odeio o natal e tenho que segurar a respiração nessas épocas do ano até passar as festanças e elas

Passam

demoradíssimas em

Chumbo.

Monta-se árvore de natal, Desmonta-se árvore de natal.

Guarda-se na caixinha

árvore de natal pro ano que vem,

Abre-se a caixinha para árvore de natal nesse ano. Não é possível que a vida seja cerrada nos 365 dias se repetindo

em tédio, deve haver outro jeito de contar o existir e lá vem o Sol,

de novo,

trocando incansável o turno com

a Lua.

Acontece que, diariamente,

tem 1 instante em que o Céu fica pelado sem nenhum dois 2, então

eu acho que o sol e a lua são

1 só Bola

que troca

de roupa e o espaço sem nada no céu é tempo de

Coxia.

Apesar de que eu já vi o sol com sombra de lua uma vez, numa sobreposição de roupas até que bonita porque estava

Muito Frio.