Num restaurante beira de estrada foi quando descobri o que é ser atriz

O ônibus parou.
Entrou nele um homem até que
bem vestido e pedindo
dinheiro pra comprar passagem, não sem antes
contar uma história que
pouco Entendi porque eu estava no fundo do ônibus
e também porque
eu estava de
fone.
O sujeito
era um tipo profundo, lembrava muito os velhos homens de circo: tirei o fone do ouvido.
Ele falava com tremenda pena de si também nas sobrancelhas,
nos disse que precisava urgente da grana,
deu pra sacar que ele
tava na merda.
Vivia o fim dos seus anos 60 e tinha um problema esquisito nos olhos, que ficavam
Molhados com muita facilidade, mas
não era choro.
Não consegui encará-lo, várias pessoas
Sim. Elas o ajudaram, inclusive, com cinco e dois reais.
Se
a grana era prum porre ou mesmo pra passagem, isso
pouco importa.
Importa é ficar de consciência limpa, ainda mais nessas épocas de fim de ano, cê pensa ter comprado teu pedaço de terra no céu,
apesar de que deus
está morto, mas eu
ajudei o velho uma ova e Pensei em
Elis
Regina, ao invés. Essa sim, era cantora de lamentos de verdade. E também no que
meu pai me disse, ontem na janta, que eu era
Uma atriz
Sem talento.
– Não deu tempo de tentar mais – eu disse pro meu pai. Tem artista que morre sem ser descoberto, veja Van Gogh- me defendi
como pude mas
acho no fundo
Que ele tá certo.Talento
é mesmo
coisa Rara, quase tão morta quanto deus. Eu deveria ter passado no primeiro teste que fiz para a
Televisão: não passei.
O velho, passou.
Saiu do ônibus agradecido. Deve ter juntado quase o preço da tal passagem e cumprimentou no ombro o último tonto que lhe ofereceu uma nota de 5.

tumblr_nft36iQVcw1rjez7so1_500

Anúncios

asa Delta

Trancar pra não
perder
sempre foi o grande lema de quem
ama, não
do Amor. Do amor,
nunca.
Engaiolar o Belo é Medo disfarçado de
hábito, é
empalhar sentimento em Banho
Maria, afinal o
Momento
é coisa que
nasce pra
morrer mais
que a gente, um Fugaz de vida flash mas
as pessoas,
elas
pensam e
pensando
chegaram numa solução interessante, um
objeto que
guarda e
exibe
o que de mais doce
já aconteceu.
Se até as
Dores
passam, imagine então os Prazeres, eles
não passam,
eles
lampejam.
É aí que entra a
máquina.
Depois,
a foto.
Depois um
guarda foto, só para as melhores, de codinome Porta.
As piores
ficam no álbum,
as melhores
abrem Saudade sem
chave
toda vez que
somebody
olha um retrato e
não esquece.

 

Margarina

Feriado,

um porre.

Quando as pessoas estão de folga

elas não sabem o que fazer por si mesmas, ficam perdidas indo pra piscina com boias de verão

e veem

pela primeira vez em anos

o corpo

em sunga

de seus filhos.

Se assustam, acham que os pequenos cresceram rápido quando

na verdade

Longa tem sido a

Ausência e a jornada de trabalho. É uma espécie de salvação, se manter ocupado,

é conservar-se distraído

algo muito válido aos untados-de-medo em assumir que a

vida

é apenas isto,

essa tragédia sem heróis ou

portas que se abrem sozinhas, a maçaneta só move com o seu toque, não se iluda que

a ilusão

é o pior dos

demônios. Pro homem que entende isso e não reza, pra ele eu sirvo um café. E abro a porta de casa. E mostro-lhe meus livros preferidos.

Feriado, que

Maçada.

Há quatro anos,

eu estava fazendo as mesmas coisas num dia como Este.

Muda pouco,

A vida.

Quando dizem que:

– Muda bastante.

É  pra

evitar o

suicídio

coletivo.

Eu mesma, nunca tentei. Costumava acreditar nas propagandas de margarina, na tele sena, nas promessas de casamento que meu homem

fazia

quando tinha vontade de

comer

meu cu.

Hoje, já não consigo acreditar em muita gente e

nem me importo, really. Talvez essa seja a única coisa que tenha mudado ou

quem sabe

eu só esteja sendo mais honesta comigo mesma.

Do que me resta, ainda acredito em chá,

Virilidade suficiente naquela água quente

e colorida

apoiada numa xícara pra`s  visitas se sentirem bem

quando sentadas num sofá que não é delas. Passamos a vida fazendo isso, sentando em sofás que não são nossos. Acho bonito, me parece de uma coragem tão comovente

quanto

a Morte.

Também nos poemas de Bukowski eu acredito, aquilo sim tem alguma mágica , o brilho da velha escola e não nesses textos lotados de discurso de merda, se ao menos levássemos os versos ao pé da letra. Qual o quê.

Gastamos os dias dizendo, mas

de ação,

colocamos bem pouco

A mão

Na massa. Eis a sina do escritor, já dizia Miller. Se o cara fizesse metade do que diz, ele não precisaria estar escrevendo sobre isso.

Sinto-me Farta da vida.

No entanto

me alegro com pouco esforço, se me chamarem pr`um almoço noturno

eu vou e falo

groselhas,

até começo a achar o feriado bacana a beça,

melhor que trabalhar

o tempo

todo.

O cinema está lotado.

As igrejas,

cheíssimas. Cada um busca a resposta que gosta e não a que precisa.

Às vezes

penso que a vida pede mais do que sentido,

ela carece de

algo

melhor que

isso. Como o Humor, por exemplo.

Ter Humor

é possuir um kit de sobrevivência

no meio

da Floresta: não garante a vida, mas te faz acreditar que sim.

Eu tentaria

– em vão –

um suicídio. Por hora,

neste caso,

ainda prefiro  falhar.

 

robert-frank-_belle-isle_-1955-dia-no-t2008-821

 

(*foto de Robert Frank)

AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR PLÍNIO

Imagem

na paulista vi uns putos gritando preconceitos e pedindo assinaturas.
Algumas, não poucas, pessoas assinavam. Que porra de cidade de merda. Não aguentei e gritei sou gay pra ver se eles me queimavam. Os reaças deram de ombro.
Claro.

tenho bebido muito refrigerante, pegado metrô e descobri anteontem na revista
que gostar de cachorro é instinto.
5 páginas
sobre o amor que se sente,
do ponto de vista científico.
Certo.

a cidade é cheia de bosta.
gente fedida
gente mal perfumada
mal educada
e gulosa
o que dá tudo na mesma quando se está em horário
de pico.

andar na rolante
pegar o trem com blusa transparente.
Pés, passos, pés
Passos
Pés
mas
e os sonhos?
Nunca saberei o sonho de ninguém, quiçá só daquele fellow,
que não tirava os olhos do meu peito.
Cara de bobo, calça caída ele se esqueceu do meu rosto
ficou só com a teta.
Dele eu sei o sonho.

A cidade é feita de rodas.
em salas de espera só tem revista
nunca livro.
de vez em quando encontramos um conhecido
com o abraço e a promessa do encontro, prum café
que never ever
irá acontecer.

no banheiro do shoppinho, na vitrine ou na praça de alimentação eu sinto
a ânsia daquele feeling
de out of control porque hoje,
em pleno doismiletreze,
eu vi aqueles putos gritando preconceitos e pedindo assinaturas.

Algumas,

não poucas

pessoas assinaram.