Elástico

Valéria acha sexo importante.

Dança salsa na academia e salsa

na boate mas na boate ela dança diferente porque

não é treino.

Ela tem que estar boa, na pista. Terrivelmente boa.

Na boate ela requebra o corpo magro, esbanja classe. O ritmo lhe toma os ossos, entra em cada poro e logo

seu cabelo longo marrom fica preto

por culpa

do suor. Ela faz um Coque. Dá pra ler na nuca que ela tem menos de 30

anos.

Valéria sempre Recebe convites pra dançar de homens mais velhos.

Aceita todos sem dizer sim com a boca e o que dá

Tesão na moça são as coxas

no meio das

dela.

Salsa é chave na trinca, peito com peito

Suor molhado e molhando, geralmente com um ser desconhecido até 5

minutos atrás, mas

na hora da dança, intimidade abso(luta).

Ela dá muito para os homens que dançam com ela,

às vezes no banheiro ou perto da chapelaria, o pessoal da boate

sabe e acha

fofo. Era Valéria uma grande cliente e o mundo vira livre pra quem paga que sim.

Outras vezes, o sexo com os homens da dança demoram 1 janta e demorar a janta já era demorar demais. Valéria pensa na morte e acha

sexo importante, não bom.

Ela Aprende muito com a dor da penetração, aprende mais com o encaixe dos corpos do que com as conversas

nas jantas pré-transas e na academia pré salsa, vida modesta a que ela levava, sem grandes descobertas.

Era mesmo só no sexo, com os tantos tamanhos de pau, que Valéria entendia o quanto Tudo cabe dentro da gente, por mais frágil que possamos

parecer.

Estraçalha a gente, Esfola, Encarde mas cabe.

Cabe e a gente aguenta qualquer tamanho de tragédia.

Quando ela vem, se vem, é porque estamos prontos pra ela.

Já no Amor,

Valéria prefere as mulheres.

Sobre aquela sensação

todas as possibilidades se voltam pra gente feito
flecha
quando estamos
Juntos.
Outro dia, ouvi um poeta dizer
que colar os sexos como a gente
se cola
era o jeito mais forte de Rezar no mundo, uma pena
que as religiões tantas
escolheram separar o sexo
de deus. Elas
não entendem que
Deus
é o maior gozador de
todos,
o grande Safado, talvez até
o único, nós
somos
adolescentes e
só. Ele
nos fez um pouco mortos mas
no fundo
cheios
de sonhos, foi
embora antes, não se despediu.
Esqueceu de nos contar
como faz pra não morrer,
Jeff Buckley tinha a voz de um anjo e
morreu
afogado
na represa. Foi nadar a noite, queria se
encontrar um pouco: morreu em 1997.
Deus não disse
como
deveríamos pensar o mundo, nos deixou sozinhos nas nossas manias
de explicar, ele
nos deu a natureza
mas ela é tão Boa que
a gente se perde logo no
próximo
passo, estamos nervosos,
estamos
falantes, às vezes tem a Lua
e uns almoços de Domingo, mas
de verdade

nos sentimos não-mortos
quando
colamos nossos sexos assim,
do jeito Bonito
que a gente
cola
quando
Ama.

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O Prego

da beleza das flores estão todos
cansados
de saber.
Ela é
linda, dizem,
desde a Grécia dizem, desde
o começo do Amor.
Mas
e quanto ao
Vaso, esse
pai
esquecido?
Flor não tem asa nem mão. Das que saem do jardim, das
adotas na Floricultura,
quem
segura
todas as barras?
Quem é o Discreto que sustenta o belo?
Quem é transparente mesmo se colorido?
O foco não é dele mas ele
não liga, não
há ego num vaso, há terra
ou
água, é como o chão do mundo e
ser útil
é tão comovente
quanto ser
bonito.

 

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(*ilustra by Leonardo Ramadinha)

asa Delta

Trancar pra não
perder
sempre foi o grande lema de quem
ama, não
do Amor. Do amor,
nunca.
Engaiolar o Belo é Medo disfarçado de
hábito, é
empalhar sentimento em Banho
Maria, afinal o
Momento
é coisa que
nasce pra
morrer mais
que a gente, um Fugaz de vida flash mas
as pessoas,
elas
pensam e
pensando
chegaram numa solução interessante, um
objeto que
guarda e
exibe
o que de mais doce
já aconteceu.
Se até as
Dores
passam, imagine então os Prazeres, eles
não passam,
eles
lampejam.
É aí que entra a
máquina.
Depois,
a foto.
Depois um
guarda foto, só para as melhores, de codinome Porta.
As piores
ficam no álbum,
as melhores
abrem Saudade sem
chave
toda vez que
somebody
olha um retrato e
não esquece.

 

Pausas são luzes

um
não-se-perca-no-mundo-das-Letras, é como na vida
numa
cidade turbulenta mesmo que boa, é tanta coisa, tanto som, tem horas que a gente
não aguenta, é preciso desistir por hoje, vem o sono, o carro, compromissos, os
chamados
pra existência
burocrática, a gente
é obrigado
a parar
mesmo quando não
queremos
nem
um pouco.
Mas calma, o
marcador
te guarda a página,
a última,
e caso tu tenha vários,
eles
podem marcar teu lugar prefiro no mundo daquele livro e quem disser
que ler
não carece de ajuda
está louco
no sentindo da falta de entrega
no ato
de entrar em
contanto
com as palavras de um poeta

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Margarina

Feriado,

um porre.

Quando as pessoas estão de folga

elas não sabem o que fazer por si mesmas, ficam perdidas indo pra piscina com boias de verão

e veem

pela primeira vez em anos

o corpo

em sunga

de seus filhos.

Se assustam, acham que os pequenos cresceram rápido quando

na verdade

Longa tem sido a

Ausência e a jornada de trabalho. É uma espécie de salvação, se manter ocupado,

é conservar-se distraído

algo muito válido aos untados-de-medo em assumir que a

vida

é apenas isto,

essa tragédia sem heróis ou

portas que se abrem sozinhas, a maçaneta só move com o seu toque, não se iluda que

a ilusão

é o pior dos

demônios. Pro homem que entende isso e não reza, pra ele eu sirvo um café. E abro a porta de casa. E mostro-lhe meus livros preferidos.

Feriado, que

Maçada.

Há quatro anos,

eu estava fazendo as mesmas coisas num dia como Este.

Muda pouco,

A vida.

Quando dizem que:

– Muda bastante.

É  pra

evitar o

suicídio

coletivo.

Eu mesma, nunca tentei. Costumava acreditar nas propagandas de margarina, na tele sena, nas promessas de casamento que meu homem

fazia

quando tinha vontade de

comer

meu cu.

Hoje, já não consigo acreditar em muita gente e

nem me importo, really. Talvez essa seja a única coisa que tenha mudado ou

quem sabe

eu só esteja sendo mais honesta comigo mesma.

Do que me resta, ainda acredito em chá,

Virilidade suficiente naquela água quente

e colorida

apoiada numa xícara pra`s  visitas se sentirem bem

quando sentadas num sofá que não é delas. Passamos a vida fazendo isso, sentando em sofás que não são nossos. Acho bonito, me parece de uma coragem tão comovente

quanto

a Morte.

Também nos poemas de Bukowski eu acredito, aquilo sim tem alguma mágica , o brilho da velha escola e não nesses textos lotados de discurso de merda, se ao menos levássemos os versos ao pé da letra. Qual o quê.

Gastamos os dias dizendo, mas

de ação,

colocamos bem pouco

A mão

Na massa. Eis a sina do escritor, já dizia Miller. Se o cara fizesse metade do que diz, ele não precisaria estar escrevendo sobre isso.

Sinto-me Farta da vida.

No entanto

me alegro com pouco esforço, se me chamarem pr`um almoço noturno

eu vou e falo

groselhas,

até começo a achar o feriado bacana a beça,

melhor que trabalhar

o tempo

todo.

O cinema está lotado.

As igrejas,

cheíssimas. Cada um busca a resposta que gosta e não a que precisa.

Às vezes

penso que a vida pede mais do que sentido,

ela carece de

algo

melhor que

isso. Como o Humor, por exemplo.

Ter Humor

é possuir um kit de sobrevivência

no meio

da Floresta: não garante a vida, mas te faz acreditar que sim.

Eu tentaria

– em vão –

um suicídio. Por hora,

neste caso,

ainda prefiro  falhar.

 

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(*foto de Robert Frank)

Mesa pra um

Nas ruas os pés sem cabeça,tumblr_ljyo6lHa8t1qe7ucso1_500

as placas.

Não olho nunca pros rostos,

nunca pros olhos, que eles dizem demais pra quem sabe de menos.

Prefiro a janela e uma bela macarronada.

O apartamento em paz e sem tv.

Cortinas cremes, um suco, alguns livros que não sei qual começar, é difícil,

me parece definitivo escolher uma história só. Sou mulher de muitas, não há vazios por onde amo.

Tentei o rádio, mas é só notícia e eu não quero notícia: quero voar.

Voltei a vitrola, olhei discos.

Talvez eu devesse voltar a pintar. Ou talvez eu devesse continuar a dormir. Não sei. De que vale a vida, afinal? Me vem vontade de morte toda vez que o céu

fica assim rosado.

Mas quando escurece passa. É que escurece também em mim o medo e as coisas podres.

Queria juntar no peito todas as contradições do mundo. Queria que nada fizesse sentido, nem meu corpo, e que nenhum homem jamais se aproximasse de mim por causa dos seios.

Mas é sempre pelos seios e eu me sinto sozinha. Não quero ser carne, o desejo me assusta. Não gosto de festas e nem de sertanejos.

Da música,

preciso do blues e da cerveja e de alguns compassos que me façam ter coragem de olhar nos olhos.

Semana passada eu estava na rua.

Mês passado também, de bicicleta, que uma mulher, once in a while,  precisa de ar. E de amor. E de algumas carícias na coxa.

Qual o quê!

Impossível encontrar um ser que te queira como és. O que vejo são seres que querem a-si–mesmo, num dueto do sozinho infinito. Assim fica fácil, assim fica sexo. Eu passo.

Prefiro a janela e uma bela siririca.

Não me importo de ficar nua ao meu lado, pelo contrário, me sinto leve.

Tenho Bukowski no travesseiro e Beatles no meu carro, eu tô legal.

Entre o amor só

e o amor egoísta

eu fico com o livro.

 

 

(Smiths aqui)

Youtubiado

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não defino.
Prefiro.
Todas as coisa do mundo
respiram comigo.
Como não amá-las?
Participo por dentro do funcionamento das peles macias.
O amor deve ser isso, afinal:
esse não conhecer infinito.
Toda casa tem um quintal que cê nunca viu.
Teu cachorro vê,
pergunte.
Ele sabe mais da vida
porque não sabe mais da morte.
A ti, te resta apenas a Descoberta Do quintal do Mundo
e também da velha chave que, de palha em palha,
chega ao fundo
antes que seja tarde de menos.
Sinta, pense pouco.
importe-se pra dentro. também sua mãe morrerá um dia.
também você
e aquele diretor de cinema que cê tanto gosta.
Não sobraram nem os dinossauros.
por que
justo você
sobraria?

Uma boa mulher

Imagem
Mudei de sobressalto. O medo é um animal oleoso, mas chegou minha hora de voar. Comecei a fumar de piteira e a tratar melhor dos meus anseios.
Entrei pra academia. Estou ficando com um corpo resistente.
Firme.
Melhorei no sexo, na cavalgada. Agora, os homens me adoram.
Eles me ligam e me dizem do amor.
Eu os beijo com a intimidade de uma puta.
Acredito no sonho de alguns, não de muitos.
Aprendi que as pessoas podem se ajudar de vez em quando. E que morar sozinho talvez seja a maior urgência de um ser humano.
Vou mudar pra vila Madalena, viu, fazer minha fita ou pelo menos
Fazer minha feira.
Tem uns muros legais por lá, pra tirar foto. Comprei uma câmera, sabe,
chama Carmem e vai dar tudo certo.
Soltei o passarinho da minha mãe. Estava na gaiola há quatro anos e há quatro anos aquilo me matava.
Minha mãe ficou chorando a tarde toda: Foda-se.
Desarrumei meu quarto, dei algumas roupas e poucos livros. Decidi pelo desapego e por paredes cor de laranja.
Prefiro madeira do que vidro e troco meus lençóis uma vez por semana.
Não tomo banho depois do sexo: Espero o esperma secar.
Parei de vez de usar calcinha e não corto mais o cabelo. Só as unhas, e pinto de vermelho.
Não tenho vergonha do meu corpo e me masturbo 3x por semana. Em duas delas, penso em mulheres. Em seios.
Contei a verdade para alguns amigos. Discuti com eles. Dei umas dicas pro meu porteiro. Comprei o cd novo da Gal e um colar com pingente de bicicleta. Tirei a grade da minha janela e mandei aquele merda, que chutou um mendigo ontem, pra a puta que o pariu.
Achei que ele ia me bater, mas parece que ele ficou com tesão. O mundo é lugar escroto pra quem decide lutar.