eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

Meti a colher

deitado na cama o Homem de olhar congelado como alguém que morre de olho aberto, mas ele

estava vivo, por isso

era ainda mais triste.

aquela deitada tinha o peso da desistência de um time de futebol inteiro

antes mesmo

de soar qualquer apito, só porque disseram1333264506433072159

no vestiário

que o time adversário era muito bom.

Chamei seu nome,

-Pai.

Pra soprar vida nele, já que era o seu aniversário e aquilo parecia tudo menos 1 comemoração.

Pai.

Chamei de novo porque ele não me olhava. Passei a mão no seu ombro numa tentativa de carinho.

-Que foi, Pai?

não tenho mais paciência pra isso

foi o que ele

me respondeu. Aconteceu 1 briga

de amor

com a mãe em pleno dia de fazer os anos e era assim sempre, as memórias de aniversário dele estavam intimamente ligadas com brigas

de amor

com ela.

-Não fica assim, pai.

Ele me olhou e quando me olhou

a vida voltou de leve no olho dele. Acho que ele lembrou dos velhos tempos, pois

em algum lugar do Antes,

meus pais se deram bem o suficiente pra fazerem filhos.

Eu queria muito ajudar a ficar tudo certo sem saber qual era o próximo passo depois de querer. Queria fazer ele mudar

de vida, mas sei que se ele mudar, tanta coisa vai cair e ficar devastada como num terremoto, a Cidade morre do jeito que a conhecíamos depois do abalo

sísmico, a cidade

seria a

mãe. E o terremoto seria

o pai.

Conversamos. Ele não queria presente de aniversário tipo um sapato novo pra usar com jeans, ele

Queria

um pouco de paz no amor, se ainda era amor, só porque algum dia

Foi. E disse que seu pai morreu aos 64 anos, então

pela lógica

ele teria mais 15 anos de vida pra conseguir

a paz.

Isso pela lógica, mas a vida

não tem lógica, eu sempre posso morrer antes de ver alguém que amo

Morrer.

Posso bater as botas

agora, podemos bater as botas

juntos, pai e filha se jogando do décimo segundo andar de tanta

tristeza.

Eu queria conseguir demostrar mais o meu amor pelo meu pai, como por exemplo preparar o café da manhã dele diariamente, mas isso seria rotina e toda rotina é uma pequena escravidão

silenciosa.

Somos silenciosos meu pai e eu. Somos castos nas escolhas das palavras.

Nunca dizemos de nós mesmos, ao menos que sejamos solicitados que sim então

dizemos com

conversas silenciosas.

Quando estamos juntos nunca ligamos a televisão, apesar que ele sempre me diz:

-tá tarde, vai dormir.

o que também é um jeito de se livrar. Eu entendo, pai.

É difícil ficar junto com alguém que conhece muito

dos seus rombos, é pior que espelho. Por isso é tão duro pra gente estar no mesmo cômodo, sabemos as cores

dos ternos

das dores que moram na gente. Ainda assim,

essa noite eu vou dormir do seu lado, nem que seja do alto da minha

própria cama.

 

 

pra ler no ritmo de corda pulada

duas irmãs brincam pequenas, brigam

pequenas, param

pro almoço é

Feijão. duas irmãs dormem pequenas,

correm

pequenas, acordam de pijama

azul.

duas irmãs voltam

pequenas, da Escola

Imensa, o primeiro

dia

de aula.

duas irmãs crescem pequenas,

sonhando e

pequenas, dormindo

no quarto

igual.

duas irmãs

ocupadas e grandes

agora crescidas,

já hoje sem mãe,

se ligam no meio

da noite:

até o Alô

é difícil.

Piscina

a primeira vez que nadei num Clube foi meu tio,

des-casado com a minha tia,

que me levou.

Eu estava de viagem na casa da prima. Ele veio buscar a menina que pais separados

veem filhos de sábado

e domingo, assinam papéis pra decidirem assim.

Ele chegou avisando de buzina. A prima pegou a mochila pronta e me deu um:

-Tchau.

bem seco, só pensava em Piscina naquele dia quente e ainda era cedo, 9 horas

da manhã.

Ficariam só os adultos na casa e eu.

Minha mãe me ofereceu Fanta uva num copo verde, ou seja, aparentemente

ia ficar azul o líquido e isso me animaria a beça se fosse outro dia qualquer, mas era muito Sozinha

ficar só eu de criança numa casa que não era

a minha.

Meu tio notou do portão o tamanho

do meu olho de

triste. Perguntou

– cê não Quer ir junto?

Com voz de quem realmente gostaria que eu fosse, até então eu não estava me sentindo bem vinda por culpa da prima que só queria

Competir.

Amei meu Tio aliviada e olhei

pra minha mãe

com esperança, ela olhou preocupada pra minha tia e disse:

– ela tá sem biquíni.

Ela nada de calcinha, eu ouvi

minha tia

dizer.

eu não queria nadar de calcinha. Escapou com força da minha boca a frase:

– eu não quero nadar de calcinha.

Apontei pra porta do quarto da prima:

– a Ju tem maiô guardado na gaveta.

– Mas a Ju é mais velha.

– prefiro nadar com maiô grande do que nadar de calcinha.

E prefiro nadar de calcinha do que não ir pro Clube, mas isso

eu não disse

pra ninguém.

Minha Tia foi até o quarto e pegou o maiô vinho da minha prima dois anos mais velha que eu.

A prima

colocou a cabeça pra fora do carro e ficou olhando

eu pegar tímida

o maiô dela e ir pro banheiro me trocar, nossas competições eram muito

sutis.

Entrei no banheiro, tirei a roupa.

O maiô da Ju tinha o cheiro dela, o formato

dela, colocar aquilo era quase como

Roubar aquilo, me sentia um pouco má com amargo no peito. Mas não ia nadar de calcinha na frente

do clube todo, muito menos na frente

da Ju pra depois virar

chacota. Vesti o maiô e encarei o espelho. Estava grande, um pouquinho, mas eu estava

bonita. Combinava com os meus joelhos aquela cor vermelha-escura.

Eu estava até

mais bonita que a Ju vestida com o mesmo

maiô, já vi ela usando no Natal do ano

passado, num pulo na piscina do vizinho e a visão

do seu

Bum

Bum não saiu da minha cabeça. O maiô continua servindo no Natal desse ano porque

a Ju

Cresceu pouco. Eu cresci muito. Tenho até

pelo

no lugar que fica a calcinha que agora

está o maiô

e que antes

ficavam os pelos da Ju mais velha, por isso

ainda mais

peluda. Pensar naquilo

me deu

1 tremedeira nas pernas e um

molhado no meio das pernas, coloquei a mão pra passar.

que coisa,

A sensação

de tremedeira ficou mais forte, eu me senti um

tigre,

Deitei de bruços no chão do banheiro e esfreguei meu corpo

No piso gelado pensando

naquele dia que a Ju mexeu por horas no meu cabelo pra fazer uma trança e irmos pra festa.

Minha mãe bateu na porta tentando abrir,

Deu certo, filha?

Levantai num

Salto. Respondi que:

-sim!

Ainda bem que eu tinha trancado e

antes de abrir a porta do banheiro me olhei de novo no

espelho pra ver se a minha cara

estava

Denunciante, mas

até que ela estava

1 cara

Normal.

longo9

precisa fazer doer pra parar de doer

minha avó tocava piano quando mocinha. um dia

ela comprou uma caixinha de música que era um

mini-piano, com bailarina dentro feita de ferro unilateral. Eu estava na loja com ela, daquelas lojas com muitos produtos num bairro velho em Ribeirão

Preto de tanto

calor.

Ela comprou o piano com o dinheiro que guardava dentro

do sutiã, minha vó nunca foi mulher de carteira e

me deu, eu

tinha espinhas.

E depois de guardar o piano por muitos anos, achei que ele não combinava mais com o meu quarto de madeira e a minha avó

já tinha morrido,

fiquei com uma fotografia 3 por 4 dela aos

60

com vestido de flor num pequeno sorriso, 1 que ela adorava me dar

e

pra minha mãe

eu dei o piano da Vó.

Ela guardou, inclusive uma Mágoa

por eu ter dado

O piano

Que a minha vó me deu.

– É Impressionante o quanto você não valoriza a sua família, ela dizia

que eu era má

Pessoa por isso.

Em toda e qualquer briga que tínhamos,

minha mãe falava do piano que minha vó tinha comprado pra mim e que eu

tive a Coragem

de dar

pra ela. Esse assunto deixava minha mãe tensa, vermelha, morrendo

de ódio

de mim. Minha mãe tem muito ódio de mim e também ciúme

quando coisas boas me acontecem. Ela gostaria que tivessem acontecido com

Ela, antes.

E num dia de briga, mais um de tantos, ela

foi no meu quarto

pegou todas as coisas que eu tinha ganhado de alguém que amo,

Uma máscara de Veneza que a minha melhor amiga

me trouxe da Itália sem eu

pedir,

Minha mãe a quebrou no chão da cozinha sem piso, estávamos em reforma.

O piso

estava no cimento e isso deixava a quebra mais violenta, os objetos se espatifavam em Pedaços

infinitos. Ficavam maiores

quando espalhados no

chão.

Ela quebrou a máscara, depois o quadro que ganhei do Júlio, um pintor que

me amou e foi

a primeira vez que transei, quebrou algumas cerâmicas também inclusive 1 que ganhei de um desconhecido numa feira de arte,

um Africano simpático que gostou do fato d`eu saber falar inglês e

falamos, minha mãe picotou um livroAndy Warhol drawing 3

de poesia

do Vinicius

Com 1 tesoura grande de costura azul, ela tirou

Tudo

Exatamente tudo

que tinha algum valor sentimental pra mim e jogou no chão

pra quebrar.

Quebrava sem pressa

Me olhando

porque queria que junto

alguma Coisa quebrasse dentro de mim, queria que eu sangrasse

um pouco

a cada

Peça quebrada por ela do alto de sua autoridade de mãe e

Conseguiu.

Ela conseguiu de verdade, dessa vez.

Chorei de cabeça

Baixa por muitos

e muitos anos.

Depois ela me fez varrer

a bagunça, eu enchi um saco grande de lixo e foi assim que a minha mãe me perdoou pelo piano,

sua Raiva

passou completamente, nunca mais falamos sobre isso. Já a minha

mora no Estômago e eu tenho que segurar muito forte

ela

lá, pra que eu não me torne a pessoa má

que a minha mãe tanto diz

que sou. Têm dias que são mais fáceis.

Têm dias que

pe(n)so,

– não vou conseguir.

fome

minha blusa estava larga pra mim. Cabia um palmo a mais

de peito além dos meus que não são grandes, mas

são Fêmeas que

querem boca

tanto quanto a própria

boca ou

mais, já que estão em 2.

Passei o dia com a Blusa e nada me aconteceu a não ser eu

me sentindo muito fresca com esses 30 graus em Sampa city, o vulcão

das cidades

Malditas e também alguns olhares, de homens distraídos

com o corpo feminino no caso o meu.

Fui ao cinema, não pensei mais em peitos. O filme era pretencioso sobre sexo,

de um grande Diretor Alemão que

por terem dito que ele é:

-Grande.

Agora se dá o direito de enlouquecer. Fui ao cabelereiro,

Fiz um coque, pedi um sorvete de palito no bar. Me deram, inclusive

o troco.

Voltei pra casa dirigindo pensando que amanhã daria tempo sim,

de fazer mercado e dormir

um pouco

mais. Voltar pra casa de carro é uma estrada longa que gosto de sentir com janela aberta.

A janela estava abertíssima, inclusive, no máximo que podia e eu querendo que ela fosse 1 porta. Parei no pedágio e disse

Boa Tarde pro homem que me olhava tão sorridente da cabine como se eu fosse uma pop star.

Peguei as moedinhas na carteira e ele sem tirar

Os dentes

do rosto

me disse:

-moça, a blusa.

Num balbuciar de sílabas semi-sem voz.

Olhei pra baixo e vi

1 peito de fora, o que estava do lado da janela,

absolutamente de fora,

nem o cinto do carro cobria e o Bico

Duro.

Olhei de volta pro moço que estava me olhando panorâmico. Um peito nu de mulher

no meio da cidade grande é

das misturas mais poderosas do mundo para desestabilizar 1 vida de

tédio.

Segurei os segundos antes de puxar de volta a

blusa, segundos esses que fizeram toda a diferença

pra deixar aquela cena

digna de ser contada em beira de bar pro’s amigos, quiçá até

daqui uns anos.

Então arrumei a blusa, devagar. Demostrei vergonha que não foi de toda mentira, pedi até

desculpa,

Ele tão leve me disse:

– não moça. desculpa eu.

e o outro cara,

da outra cabine,

me acenou de longe um tchau Gentil.

Acelerei,

amando ser mulher.

tobogã

Comer beterraba deixa o xixi
Rosado, aos 7 eu nem imaginava coisa dessa loucura que
corpo
é como um tobogã fechado, o que entra pela boca sai pela bunda eu só sabia que beterraba
deixava o
Dente rosado e gostava de mudar as cores em mim. Passava rímel colorido no cabelo. Passava sombra prata no olho. Caneta no braço. Vestido de Flor.
Teve um dia que pedi um prato
lotado de beterraba para a minha
Mãe. Ela me deu contente, eu não estava pedindo coca-cola, afinal.
Comi tudinho, só parava para olhar no espelho
Da sala
O dente cada vez mais rosa, sorria quadrado pra ver.
Se fosse hoje eu tinha tirado uma selfie, mas era anos 90, 1 e meia da tarde de uma sexta feira
Sem colégio de dezembro, quase natal naquele calor de não usar
nem lençol.
Depois de tingir todos os meus dentes de rosa, fui assistir tv, mas
a tv
tava 1 saco e isso não mudou muito dos anos 90 pra cá. Dormi no sofá, acordei
suada de verão com vontade de fazer
xixi.
Sentei no vaso que era
Um Vasão pra mim. Fiz, limpei bumbum, desci da privada com pulinho e meu coração
Deu outro
quando vi
A cor do meu
Xixi avermelhado.
Eu Tinha uma prima que sangrava por dentro, ela me contou Tudo sobre esse fenômeno e o que acontece depois dele, eu gritei:
-mãaaaaaaeeeeeeeeeeeeee!!!
Do banheiro, meus 7 anos
Agora Pesadíssimos no corpo, eu achando que tinha virado
Mulher.

Sally-Man-Holding-the-Weasel
(*foto de Sally Mann)

se eles não tivessem tido coragem de fugir eu não estaria aqui

minha avó sabia tocar piano mas não falava sobre isso,

era minha mãe, orgulhosa, que gostava de contar que sim sem

nunca

ter ouvido 1

nota sequer. Ninguém ouvia. Não tinha piano na casa da minha família, instrumento

custa

caro. Há mais de 40 anos minha vó não tocava. Incrivelmente,

sabíamos todos que era verdade, que

minha vó tocava piano como um anjo e que ela tinha sido muito rica

Anos e anos atrás.

Em época de menina, minha avó estudou música com famosos professores

de requinte, uma pompa.

Casou com um homem mais velho aos 16, por imposição. Meu avô apareceu na janela depois.

O marido dela viajava muito, ela

ficava no piano,

Dedo e ouvido

preenchido com música pra não morrer de tédio ou

Solidão.

E um homem de terno que fumava ficava na porta da janela, escutando. Algumas músicas eram composições próprias, mas

meu avô não entendia de sonata,

Achava que tudo era Beethoven e achava que ouvir música da janela era

Muito Melhor

Que qualquer vitrola.

Estar

no mesmo lugar da Música quando ela acontece é como

visitar deus, um

alívio.

Meu avô não sabia que quem tocava o piano tinha seios largos,

bicos enormes, nuca morena e uma quentura no ventre nunca vista antes num doce abrigo do Nu.

Já Minha vó sabia como ele era alto, cabelo escasso tão jovem, pose de nobre, via o reflexo pelo vidro da Janela.

Achava bom ele estar ali, seu pequeno público, o menor público do mundo o de

1 pessoa só.

Meu avô foi o único que ouviu minha avó tocar. O resto que ouviu

já estava morto há muito tempo e depois de tudo o que eles viveram, filhos, brigas, ausências, casas velhas e casas

emprestadas, dinheiro

pro cigarro antes do pão,

também meu avô morreu.

10 anos mais tarde foi a vez da minha avó.

E claro que nessa época de serenata invertida eles fugiram juntos, minha avó casada com outro, meu avô sem tostão na carteira. Eles Disseram:

– tudo bem.

pro’s infortúnios e fugiram

Pro rio

De Janeiro. E fizeram sexo. E tiveram medo.

De olhar

assim

as fotos,

Acredito piamente em todas as histórias que me contaram sobre

eles sem nunca

ter visto nenhuma por culpa da irrefutável impossibilidade cronológica.

112

Elástico

Valéria acha sexo importante.

Dança salsa na academia e salsa

na boate mas na boate ela dança diferente porque

não é treino.

Ela tem que estar boa, na pista. Terrivelmente boa.

Na boate ela requebra o corpo magro, esbanja classe. O ritmo lhe toma os ossos, entra em cada poro e logo

seu cabelo longo marrom fica preto

por culpa

do suor. Ela faz um Coque. Dá pra ler na nuca que ela tem menos de 30

anos.

Valéria sempre Recebe convites pra dançar de homens mais velhos.

Aceita todos sem dizer sim com a boca e o que dá

Tesão na moça são as coxas

no meio das

dela.

Salsa é chave na trinca, peito com peito

Suor molhado e molhando, geralmente com um ser desconhecido até 5

minutos atrás, mas

na hora da dança, intimidade abso(luta).

Ela dá muito para os homens que dançam com ela,

às vezes no banheiro ou perto da chapelaria, o pessoal da boate

sabe e acha

fofo. Era Valéria uma grande cliente e o mundo vira livre pra quem paga que sim.

Outras vezes, o sexo com os homens da dança demoram 1 janta e demorar a janta já era demorar demais. Valéria pensa na morte e acha

sexo importante, não bom.

Ela Aprende muito com a dor da penetração, aprende mais com o encaixe dos corpos do que com as conversas

nas jantas pré-transas e na academia pré salsa, vida modesta a que ela levava, sem grandes descobertas.

Era mesmo só no sexo, com os tantos tamanhos de pau, que Valéria entendia o quanto Tudo cabe dentro da gente, por mais frágil que possamos

parecer.

Estraçalha a gente, Esfola, Encarde mas cabe.

Cabe e a gente aguenta qualquer tamanho de tragédia.

Quando ela vem, se vem, é porque estamos prontos pra ela.

Já no Amor,

Valéria prefere as mulheres.

desespero lento

Palmas volumosas pra Ela,

elogios verbais e faciais, sons de sorrisos intermináveis na

Mesa

lotada de

gente, nenhum olho

olhava pra mim. Eu tinha pedido um garfo pro garçom, ele não trouxe, tive que

Levantar pra pegar enquanto Ela

tinha feito a coisa certa, fechado

um contrato milionário que melhoraria o mundo, quem sabe, em 10 ou 20 anos, a mulher

estava tentando, tinha estudado bastante inclusive na gringa e a mesa

Otimista, aplaudindo. Salivando.

Pela primeira vez na vida não senti ciúmes, meu ego querendo tudo estava

cochiloso. Também parabenizei a moça sem pensar que a moça

que mais amo

sou eu. Não quero nada, por hora.

Não preciso ser famosa, nem ter grandes ideias, nem dinheiro.

Não tenho um emprego mas tenho tempo. E posso ir à palestras em dias de semana não importa o horário.

Dentro de mim uma pequena paz, será que envelheci? Estou calma em estar onde estou,

Num almoço

De segunda sinto

Mini paz. Sem pressa chego nos lugares, cumprimento as pessoas sem

Pensar no que elas pensam de mim.

Já não olho todos os espelhos ao lado das escadas rolantes no shopping,

Já não tenho a curiosidade de me ver de costas. No carro,

Já não abro a janela para que os motoristas

me vejam e buzinem meu look.

Quando não me buzinavam, eu pensava que minha bunda era melhor que o rosto, me buzinariam se eu estivesse de pé e olha que eu nem gosto tanto de sexo assim, isto

Era apenas uma competição.

Agora Quando alguém

Me elogia, escuto tudo, não sorrio antes. No entanto Ainda sinto frio na barriga quando

Me sinto amada,

estou sozinha, insegura, pequena, esmagada pelos

Pés dos mais bonitos fortes talentosos e jovens que eu, eles formam na minha frente uma fila quilométrica e são

a Muralha, mal vejo o céu. Não,

as palmas não são todas pra mim e

tudo bem. Me incomoda, isso sim, o tempo que faz

que não recebo

1 abraço por amor. Tentei dar um abraço na mulher muito próxima de mim na mesa.

Cheguei perto, enrolei os braços no pescoço dela, deixei meu corpo pesar, usei

A imaginação. Disse a ela:

– momentos felizes merecem um abraço.

Mas fiquei pendurada, ela não deixou ser abraçada nem

Muito menos

Me abraçou. Que medo de morrer.

Que medo de morrer

em vida. Eu gostava do meu ego porque eu tinha esperança e

Alegria. O mundo é marrom. Não

Tem água, a terra dura mas as verdades duram menos que 1

Segundo, não gosto dos meus amigos aqui presentes, queria começar

de novo, em agosto do ano mais recente de agora.

Preciso voltar pro Mar e olhar azul. Entendo a mulher que sou terrena, mas

aquela Pescoçuda que tanto acreditava no poder de ser ela mesma, deus, onde

essa mulher foi parar? Ela deve morar no eco

estridente dessas palmas incansáveis que eu não aguento mais, não

Suporto, desatei pro

Banheiro, as mãos

no ouvido.

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