eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

depois que eu saí o segurança do mercado tirou elas de lá

fui comprar pão
além de algumas frutas, minha geladeira estava começando a ficar vazia e isso
é um sinal de que eu
ainda não
morri.
no corredor de entrada do mercado
1mãe
e
1filha
sentadas no chão me Pediram dinheiro,
a mãe com a boca falando pra eu comprar seus panos de prato e no fundo nós duas sabíamos que eu não precisava de pano de prato, a filha
com os olhos, os maiores
do mundo.
não dei. menti:
-não tenho.
e o peso do meu corpo aumentou em 300 quilos quando eu disse isso,
andei pelo mercado devagar.
ao invés de pão e fruta peguei detergente, couve e leite eu estava muito distraída pensando no meu
Não
sempre vindo antes de qualquer sim possível.
paguei com cartão minhas compras inúteis, 4 litros de leite na geladeira de uma pessoa sozinha estraga.
o dinheiro
eu dei
pra elas,
quase não achei os 50 reais escondidos em algum compartimento da minha carteira grande
e no Susto de não ter o dinheiro que eu imaginei que teria,
novos 300 quilos
se instalaram no meu corpo com sede de fazer alguma coisa, agora deu sede,
era como se 2 pessoas diferentes
morassem
em mim.
eu sei que são mais, pelo menos umas 30. exclusivamente naquele momento
pareciam só
2:
a que não deu o dinheiro antes
e
a que estava fazendo de tudo para achar o dinheiro agora.
a segunda
era um touro.
Achei.
entreguei pra mãe dizendo:
-espero que ajude.
ela sorriu:
-tudo ajuda.
e me ofereceu os panos de prato.
expliquei que não seco louça porque quando criança eu secava muita louça e mal tinha tempo pra brincar, agora eu deixo
a louça secar perto da janela, eu disse também que a filha dela
era muito Bonita com os seus 3 ou 4 anos.
a mãe me contou que a pequena chamava Giovana Bianca,
2 pessoas em 1 feito eu
naquela noite
esquisita.
sentei no chão com elas. fiquei da altura da pequena de pé que estava comendo a bolacha que uma moça tinha dado minutos antes de
eu
também
dar, não sei se Ajuda porque ajudar alguém não é em 5 minutos, mas
pelo menos
alguma Atenção.
Giovana Bianca comia e cantava uma música que eu nunca ouvi,
acho
que era inventada.
repeti:
-que rosto, o da sua filha.
a mãe disse:
-eu sei. tô vendo de inscrever ela num concurso de bebês.
e me contou também que a pequena era mais do que isso,
que ela
era muito Esperta, quando o pai batia
ela corria pro sofá dizendo alto:
-o papai bateu em mim, o papai bateu em mim.
pra casa inteira ouvir.

 

 

quem tirou a foto deve ter sido um amor e o amor acabou mas a foto foi antes do amor acabar

no retrato amarelo pelos anos minha mãe vestia um jeans.

a cor do tempo passando é

amarela, por isso não fico bem de blusa amarela, tenho medo de envelhecer mais que de morrer. prefiro azul,
morrer é azul.

o jeans

da minha mãe

era curto, ela estava em cima do muro da casa da minha

vó em

tijolos que eu não conheci, só ouço dizer que é a casa da Narcisa, a vizinha que alugou

pro meu vô ou era o nome da rua, Narcisa, não sei

tem coisas que eu não me lembro

mesmo tentando muito.

no muro baixo minha mãe sentou pra sair na foto com o rosto fazendo um charme que eu nunca vi

jogando o cabelo pra trás,

longos

cabelos

morenos, no máximo 18 anos ela tinha.

fiquei olhando tanto aquela foto mesmo depois que guardei de volta no álbum, olhei da minha cabeça,

a foto grudou na testa por dentro, um imã.

a minha mãe não morreu mas morreu daquele jeito que era, ela passou pelo corredor me perguntando:

– o que você tá fazendo aí?

como se soubesse

o que eu estava fazendo e não quisesse

que eu visse o estrago do tempo na gente porque aquilo de mudar tanto era muito

assustador. não vai acontecer comigo, é o que todo mundo pensa.

passa os anos.

Acontece.

tô vendo a mulher que você era, eu queria dizer e não disse.

ao invés, falei:

– não tô fazendo nada, mãe. é domingo.

a expressão dura que habitava seu rosto de hoje me deu vontade de parar de ouvir música pela vida inteira, minha mãe sempre borrava

a maquiagem

pelo choro fácil de dor e de sono mas não no retrato. lá

nem parecia que a minha mãe seria capaz de brigar com alguém pra depois chorar. na foto ela era 1 Ilha

deserta com seios quietos
nunca antes
mamados, naquele frescor de ser jovem no

osso atumblr_static_bparlij18408oso8kkww0wgco.gif

pele

passada

a ferro,

me olhei no espelho pra ver se encontrava 1 pingo da velha mãe em mim: não, nada.

aquela mulher no muro

mudou pruma rua que derreteu.

quero saber o nome da última pessoa que a viu tão flor, a gente vai mudando aos poucos

o resquício existe

não acaba tudo de uma vez. preciso guardar nos olhos aquela candura da foto

vou dormir eternamente sem morrer, vou dormir fingindo acreditando que durmo igual o menino ontem no banco roncando

de mentira tão real.

vou me trancar num vestido justo pra não me escapar esse

vento, essa sede de

chuva, esse riso leve que mostra um pouco do dente mas não tudo e depois

todos os dentes, é um começo de sorriso

e por ser começo é bonito

porque traz

esperança.

minha mãe esqueceu como sorrir assim. ela diz que a culpa é da asma,

o tempo também

é culpado mas o nome

da culpa maior é A Perda e Jeito que a gente lida com ela

um nome comprido, de fato, preciso anotar

pra não esquecer.

Piscina

a primeira vez que nadei num Clube foi meu tio,

des-casado com a minha tia,

que me levou.

Eu estava de viagem na casa da prima. Ele veio buscar a menina que pais separados

veem filhos de sábado

e domingo, assinam papéis pra decidirem assim.

Ele chegou avisando de buzina. A prima pegou a mochila pronta e me deu um:

-Tchau.

bem seco, só pensava em Piscina naquele dia quente e ainda era cedo, 9 horas

da manhã.

Ficariam só os adultos na casa e eu.

Minha mãe me ofereceu Fanta uva num copo verde, ou seja, aparentemente

ia ficar azul o líquido e isso me animaria a beça se fosse outro dia qualquer, mas era muito Sozinha

ficar só eu de criança numa casa que não era

a minha.

Meu tio notou do portão o tamanho

do meu olho de

triste. Perguntou

– cê não Quer ir junto?

Com voz de quem realmente gostaria que eu fosse, até então eu não estava me sentindo bem vinda por culpa da prima que só queria

Competir.

Amei meu Tio aliviada e olhei

pra minha mãe

com esperança, ela olhou preocupada pra minha tia e disse:

– ela tá sem biquíni.

Ela nada de calcinha, eu ouvi

minha tia

dizer.

eu não queria nadar de calcinha. Escapou com força da minha boca a frase:

– eu não quero nadar de calcinha.

Apontei pra porta do quarto da prima:

– a Ju tem maiô guardado na gaveta.

– Mas a Ju é mais velha.

– prefiro nadar com maiô grande do que nadar de calcinha.

E prefiro nadar de calcinha do que não ir pro Clube, mas isso

eu não disse

pra ninguém.

Minha Tia foi até o quarto e pegou o maiô vinho da minha prima dois anos mais velha que eu.

A prima

colocou a cabeça pra fora do carro e ficou olhando

eu pegar tímida

o maiô dela e ir pro banheiro me trocar, nossas competições eram muito

sutis.

Entrei no banheiro, tirei a roupa.

O maiô da Ju tinha o cheiro dela, o formato

dela, colocar aquilo era quase como

Roubar aquilo, me sentia um pouco má com amargo no peito. Mas não ia nadar de calcinha na frente

do clube todo, muito menos na frente

da Ju pra depois virar

chacota. Vesti o maiô e encarei o espelho. Estava grande, um pouquinho, mas eu estava

bonita. Combinava com os meus joelhos aquela cor vermelha-escura.

Eu estava até

mais bonita que a Ju vestida com o mesmo

maiô, já vi ela usando no Natal do ano

passado, num pulo na piscina do vizinho e a visão

do seu

Bum

Bum não saiu da minha cabeça. O maiô continua servindo no Natal desse ano porque

a Ju

Cresceu pouco. Eu cresci muito. Tenho até

pelo

no lugar que fica a calcinha que agora

está o maiô

e que antes

ficavam os pelos da Ju mais velha, por isso

ainda mais

peluda. Pensar naquilo

me deu

1 tremedeira nas pernas e um

molhado no meio das pernas, coloquei a mão pra passar.

que coisa,

A sensação

de tremedeira ficou mais forte, eu me senti um

tigre,

Deitei de bruços no chão do banheiro e esfreguei meu corpo

No piso gelado pensando

naquele dia que a Ju mexeu por horas no meu cabelo pra fazer uma trança e irmos pra festa.

Minha mãe bateu na porta tentando abrir,

Deu certo, filha?

Levantai num

Salto. Respondi que:

-sim!

Ainda bem que eu tinha trancado e

antes de abrir a porta do banheiro me olhei de novo no

espelho pra ver se a minha cara

estava

Denunciante, mas

até que ela estava

1 cara

Normal.

longo9

precisa fazer doer pra parar de doer

minha avó tocava piano quando mocinha. um dia

ela comprou uma caixinha de música que era um

mini-piano, com bailarina dentro feita de ferro unilateral. Eu estava na loja com ela, daquelas lojas com muitos produtos num bairro velho em Ribeirão

Preto de tanto

calor.

Ela comprou o piano com o dinheiro que guardava dentro

do sutiã, minha vó nunca foi mulher de carteira e

me deu, eu

tinha espinhas.

E depois de guardar o piano por muitos anos, achei que ele não combinava mais com o meu quarto de madeira e a minha avó

já tinha morrido,

fiquei com uma fotografia 3 por 4 dela aos

60

com vestido de flor num pequeno sorriso, 1 que ela adorava me dar

e

pra minha mãe

eu dei o piano da Vó.

Ela guardou, inclusive uma Mágoa

por eu ter dado

O piano

Que a minha vó me deu.

– É Impressionante o quanto você não valoriza a sua família, ela dizia

que eu era má

Pessoa por isso.

Em toda e qualquer briga que tínhamos,

minha mãe falava do piano que minha vó tinha comprado pra mim e que eu

tive a Coragem

de dar

pra ela. Esse assunto deixava minha mãe tensa, vermelha, morrendo

de ódio

de mim. Minha mãe tem muito ódio de mim e também ciúme

quando coisas boas me acontecem. Ela gostaria que tivessem acontecido com

Ela, antes.

E num dia de briga, mais um de tantos, ela

foi no meu quarto

pegou todas as coisas que eu tinha ganhado de alguém que amo,

Uma máscara de Veneza que a minha melhor amiga

me trouxe da Itália sem eu

pedir,

Minha mãe a quebrou no chão da cozinha sem piso, estávamos em reforma.

O piso

estava no cimento e isso deixava a quebra mais violenta, os objetos se espatifavam em Pedaços

infinitos. Ficavam maiores

quando espalhados no

chão.

Ela quebrou a máscara, depois o quadro que ganhei do Júlio, um pintor que

me amou e foi

a primeira vez que transei, quebrou algumas cerâmicas também inclusive 1 que ganhei de um desconhecido numa feira de arte,

um Africano simpático que gostou do fato d`eu saber falar inglês e

falamos, minha mãe picotou um livroAndy Warhol drawing 3

de poesia

do Vinicius

Com 1 tesoura grande de costura azul, ela tirou

Tudo

Exatamente tudo

que tinha algum valor sentimental pra mim e jogou no chão

pra quebrar.

Quebrava sem pressa

Me olhando

porque queria que junto

alguma Coisa quebrasse dentro de mim, queria que eu sangrasse

um pouco

a cada

Peça quebrada por ela do alto de sua autoridade de mãe e

Conseguiu.

Ela conseguiu de verdade, dessa vez.

Chorei de cabeça

Baixa por muitos

e muitos anos.

Depois ela me fez varrer

a bagunça, eu enchi um saco grande de lixo e foi assim que a minha mãe me perdoou pelo piano,

sua Raiva

passou completamente, nunca mais falamos sobre isso. Já a minha

mora no Estômago e eu tenho que segurar muito forte

ela

lá, pra que eu não me torne a pessoa má

que a minha mãe tanto diz

que sou. Têm dias que são mais fáceis.

Têm dias que

pe(n)so,

– não vou conseguir.

mãe morta

tropecei no bambolê também porque usei uma velocidade muito acima do necessário pra buscar a bola

de vôlei que

Ia cair

em Cheio

no Jardim do velho rabugento, eu

já estava vendo

aquelas Margaridas

Voando

com as pétalas

em migalhas, culpa da cortada

Mal dada

diretamente na cabeça das

Plantinhas.

Eu corri, mas tropecei no bambolê intrometido, esquecido na beira da calçada acho que até por mim, e caí

de joelho

no asfalto sem poder evitar

a morte, as pétalas

Voaram

exatamente do jeito que eu imaginei porque não era a primeira vez.

Deu pra ouvir os passos

pesados

Do velho rabugento descendo as escadas Louco da vida,

louco também pra furar a nossa bola pra sempre, assim a gente parava de Destruir

O jardim

Dele, éramos Bomba.CKjrv4ZWsAAy7Cu

Até tentávamos brincar longe

Da casa

Do velho, mas

que batata, a bola

tinha Imã e caia categoricamente em cima

das plantinhas mais bonitas do Jardim, pra matar.

Corri pra pegar a bola antes do velho, o sangue no joelho

escorrido pra canela

não me assustava porque

eu ainda não tinha o visto.

Peguei a bola, o bambolê (mas não devia) a mão da minha amiga que me disse preocupada:

-cê tá bem?

Fiz Uhum com a cabeça, só pensava em dar o fora antes do velho chegar, tínhamos a idade curta ao nosso favor o que era

um vento e corremos

Pra dentro

Da minha casa, latejantes.

2 criminosas.

-Bandidinhas! – o velho gritou

Ouvimos com o coração

na boca.

Tínhamos medo da cara do velho. Fechamos a porta pra tudo isso e sentamos de costas pra ela

Rindo

Nervosas, tão

meninas. Foi quando eu vi a minha meia antes branca

Agora

Vermelha.

Foi quando eu vi o Rombo

no joelho

direito, tudo vermelho na minha

Pele

Marrom. Senti um Peso na perna como se eu não pudesse dar mais nenhum passo na vida, o olho

Ficou molhado,

As bochechas

Vermelhas molhadas,

A boca

Salgada Abrindo do tamanho do mundo

pra chorar muito

Alto,

assim quem sabe a minha mãe conseguia me ouvir.

de bairro novo

Deitada no peito da minha mãe com a correntinha dela balançando em mim num carinho de aço na

Estrada, que descobri mais tarde ser a Castelo Branco,

rumo à nova casa que eu não sabia que cara

teria.

Nem o Bairro,

que agora moro por mais de 15 anos, o tempo

correndo em frente como um Cavalo revirando o mato que somos. Cada vez que me perguntam,

– você mora por aqui faz tempo? eu digo

cada vez mais anos, me mudei

e não me mudo desde então.

andar de carro quando eu era menina tinha uma velocidade diferente. A cidade era maior e incompreensível, eu tentava dar significados

pr`os muros escritos que eu lia

metade das palavras, não todas,

as palavras com V e W eu não lia direito, nem

com 2 ss, era tudo

um código imenso que me deixava distraída no colo da minha

mãe, ela gostava muito de me pegar no colo

porque eu era

mini.

Quando chegamos na casa nova não me lembro do portão.

No apartamento dentro eu olhei bem fixo, antes eu morava em casa-casa e estranhei a falta de quintal explicada num pedaço de janela aumentada chamada de:

– Terraço.

O meu cachorro teve que partir porque não tinha Espaço

pra ele apesar que pra gente tinha, então

por que?

pra ele não. Eu pensava que membros da família

tinham que estar sempre juntos, não importa o drama.

Parece que nem sempre, pelo que me explicou meu pai na época.

Eu tomava muito milk shake do Mcdonalds e as cookies que a vizinha trouxe

enquanto meus pais tiravam as coisas das caixas

E colocavam as coisas das caixas

Espalhadas pelas cômodos da casa como se fosse lógico o lugar de cada 1.

Até que

eu gostei do tal do

Terraço. Batia um ar cheiroso que misturado

com o Milk shake acabou virando jeito

De lembrar com o passar dos anos.

Eu alugava fitas para assistir os filmes da moda. A tv era enorme atrás. Eu pensava

que as pessoas que faziam os programas que eu assistia estavam atrás da minha televisão. Chegavam de avião discretamente na minha sala e eu nunca conseguia pegar eles chegando, por mais que eu Tentasse.

O que mais me impressionava era quando aparecia o mar. Porque

O Mar pessoalmente era tão grande mas cabia no tubo da minha tv que também

Era grande, mas bem menor.

Eu ia na banca de jornal com a minha mãe de mãos dadas. Comprávamos revistas pra recortar a tarde

toda. Eu Estava gostando do bairro novo, sentindo falta só da Giovana, que

Iria me visitar no fim do ano, se tudo desse certo

Com a saúde da sua avó.

Deu tudo errado com a saúde da sua avó e eu nunca mais vi minha amiga, só

dentro da minha cabeça e nas cartinhas

que mandávamos uma pra outra e que foram

Ficando

cada vez mais escassas com o passar dos

anos.

O Passar dos anos.

Hoje,

olho pra minha casa que é a mesma desde então. Fui eu que perdi

aquele olhar

que Preenchia tudo. Tem alguma coisa muito velha e triste no Terraço, agora. Uma coisa feia, dura,

cheia de

Saudade chamada eu cresci.

ps: 

tobogã

Comer beterraba deixa o xixi
Rosado, aos 7 eu nem imaginava coisa dessa loucura que
corpo
é como um tobogã fechado, o que entra pela boca sai pela bunda eu só sabia que beterraba
deixava o
Dente rosado e gostava de mudar as cores em mim. Passava rímel colorido no cabelo. Passava sombra prata no olho. Caneta no braço. Vestido de Flor.
Teve um dia que pedi um prato
lotado de beterraba para a minha
Mãe. Ela me deu contente, eu não estava pedindo coca-cola, afinal.
Comi tudinho, só parava para olhar no espelho
Da sala
O dente cada vez mais rosa, sorria quadrado pra ver.
Se fosse hoje eu tinha tirado uma selfie, mas era anos 90, 1 e meia da tarde de uma sexta feira
Sem colégio de dezembro, quase natal naquele calor de não usar
nem lençol.
Depois de tingir todos os meus dentes de rosa, fui assistir tv, mas
a tv
tava 1 saco e isso não mudou muito dos anos 90 pra cá. Dormi no sofá, acordei
suada de verão com vontade de fazer
xixi.
Sentei no vaso que era
Um Vasão pra mim. Fiz, limpei bumbum, desci da privada com pulinho e meu coração
Deu outro
quando vi
A cor do meu
Xixi avermelhado.
Eu Tinha uma prima que sangrava por dentro, ela me contou Tudo sobre esse fenômeno e o que acontece depois dele, eu gritei:
-mãaaaaaaeeeeeeeeeeeeee!!!
Do banheiro, meus 7 anos
Agora Pesadíssimos no corpo, eu achando que tinha virado
Mulher.

Sally-Man-Holding-the-Weasel
(*foto de Sally Mann)

Youtubiado

tumblr_l3e7ujX0go1qa73qsAcho
não defino.
Prefiro.
Todas as coisa do mundo
respiram comigo.
Como não amá-las?
Participo por dentro do funcionamento das peles macias.
O amor deve ser isso, afinal:
esse não conhecer infinito.
Toda casa tem um quintal que cê nunca viu.
Teu cachorro vê,
pergunte.
Ele sabe mais da vida
porque não sabe mais da morte.
A ti, te resta apenas a Descoberta Do quintal do Mundo
e também da velha chave que, de palha em palha,
chega ao fundo
antes que seja tarde de menos.
Sinta, pense pouco.
importe-se pra dentro. também sua mãe morrerá um dia.
também você
e aquele diretor de cinema que cê tanto gosta.
Não sobraram nem os dinossauros.
por que
justo você
sobraria?

O pedido

                (um guia-casório em dois atos) tumblr

Saudade.
de tomar banho no seu banheiro de abajur. 
Aquela proposta de irmos juntos a banheira 
ainda vale nos dias que correm?
Hãn?
Que por aqui não mudou nada, viu. 
Tu continua enlouquecendo minha cabeça. 
Quero um amor carnal(val) contigo mas não só. 
Não só, pretinho. 
Quero contigo um encontro de almas. 
E, quem sabe, até um filho.
Nunca tinha pensado em filho antes de você. 
Sou mulher-não-mãe: me dou melhor sozinha. 
Nunca quis criança no peito,
me chupando só os homens. 
Mas toda vez que olho pra tu
sinto que um filho poderia ser
a melhor ideia do século.

Gosto do jeito que você mexe comigo, 
do seu apartamento de mobília solta. 
A gente pode fumar por ali, entende, 
conversar sobre arte. Sobre gente.  
Gosto do que sinto quando olho pra você, 
um lance caleidoscópico.
Tu é noturno, parece que bebi 
quando te escuto
vindo.
Olha pra você.
Porra, te acho lindo. 
Mesmo acostumada com beleza anatômica.

Queria te ligar, me ligar em ti. 
Queria que a gente já fosse casado pra acordar
com teu peso na minha lombar.
Quer café na cama?
Eu levo. Faço tudo, até mamão. 
Leio pra você histórias de vida pública. 
Getúlio Vargas, John Lennon, esses caras 
souberam morrer. Leio poemas também, 
leio seus sonhos.
Posso até  cantar, se te distrai. 
Não sei amar de pouco.
Pra mim
tem que ser de infinito.

Por que tu não troca a cor da camiseta?
Sempre de branco, que coisa.
Ficarias bem de vermelho. 
Quer minha calcinha? Uma carona, quem sabe?
Eu dou.
Quero te ver pela manhã até 2060, 
quando já estivermos murchos.
Velhos pro sexo e pro suicídio.
Até lá te proponho uma vida nova. 
Não faltará comida nem música. 
Não haverá documentos
Cartórios
Ou coisas funcionais.
Nada que estrague
a criatividade
de um homem.
Nossa casa será galpão onde 
os cômodos 
se dividirão por uso, não por tédio.
Nosso moleque andará pelado
E jamais tomaremos chá.
Viajaremos uma vez por mês 
para lugares que nos enlouqueça. 
Não visitaremos sua mãe no domingo, 
talvez na terça ou
na madrugada.
Não faremos média, 
não andaremos de carro e, 
principalmente, 
não acordaremos antes do meio dia.
Juraremos sinceridade sem sequer 
abrir a boca. 
Nossa casa será macia
E será nosso pequeno refúgio lunar.
Pra você que é noturno, 
um cometa com telhados
e uma chica bem peituda 
te esperando.
Topas?