Amor seria bom (demais) pra mim

Regiane sempre foi minha amiga, eu pensava.

Ficávamos juntas na hora do intervalo.

Tinha certeza que se um dia eu esquecesse meu lanche ela me daria sua bolacha de morango e no dia que eu esqueci minha maçã

ela

Não me deu

Absolutamente Nada,

fiquei assistindo Regiane comer e ela

comendo me assistindo Assisti-la. Pensei,

ela deve estar com fome. Foi na quinta aula de matemática que eu entendi o que era

Fome.

Cheguei em casa num pequeno desespero que minha mãe se preocupou e pediu desculpas pelo

esquecimento. Eu disse tudo bem e almocei

muito rápido pra comida entrar logo em mim e matar aquela sensação de vazio, mas

o vazio não morreu depois do almoço,

fiquei a tarde toda com o Rombo de Regiane.

Tínhamos muitos momentos juntas. Ela era cheirosa e mais alta do que eu.

Os meninos

desmoronavam quando ela passava, ficavam falantes, jogavam bola com agilidade. Depois que ela ia embora pareciam

moscas.

Teve um dia que ela foi melhor

na prova de inglês

do que eu.

No intervalo, que tudo o que importa

Na escola

Acontece no

Intervalo,

Ela contou pra todo mundo da nota dela versus a minha e foi muito amada pelas pessoas.

Tínhamos aula de argila no colégio. Tínhamos que trazer camiseta maior pra cobrir o uniforme e não manchar.

A Camiseta, depois,

ficava com um cheiro forte de giz de cera vencido. A Regiane espirrava muito com o cheiro. Pedia pra colocar a camiseta no meu armário do colégio

que ficava com cheiro duplo,

o meu

o dela.

Eu nunca falava não. Mas me sentia triste de um jeito pequeno.

Virou o ano com peru morto na mesa da minha família,

Fogos no céu do recém chegado 1999 e a

Regiane

Mudou de sala. A diretora fazia isso, separava

as panelas

pra que brotassem outras relações.

Não Reclamei.

Regiane reclamou muito. Fez que lutou duramente pra mudar de sala

Mas quando perguntei pra diretora,

Regiane não tinha ido nenhuma vez falar com ela pra pedir qualquer coisa que fosse, nem 1 clips.

A gente se via nos corredores, ela dizia de saudade. Eu dizia de saudade. A verdade não existe em fatos, só em relações menos

na nossa.

Nossas classes eram porta com porta, nossos professores pediam gizes emprestados

1 para o outro e nós duas

Distantes como se fosse geográfico o nosso motivo.

Era ódio o nosso motivo, um ódio calado na companhia que nos obrigávamos a fazer uma pra outra.

Nossas mães

Nem se conheciam, nós não morávamos perto, não nos dávamos

Carona, nem intimidade, nem amor. Eu também fazia as minhas. Falo dela, mas um dia deixei uma saúva picar o braço de Regiane de caso pensado só pra ver

Coceira e

Inchaço no corpo da minha amiga ou

A vingança. A gente se obrigava a ficar juntas porque além do ódio mútuo

a gente

detestava muito

a si mesmas, precisávamos perdidamente nos machucar.

Nos mutilamos por anos, 2 Soldadas de guerra. Agora, mais velhas,

não aguentávamos mais tanta pele aberta.

Comecei a me amar com 17 quando eu e Regiane nunca mais nos vimos depois da formatura de colégio.

Tchau, tchau quando acabou a festa mas era

Adeus.

se eles não tivessem tido coragem de fugir eu não estaria aqui

minha avó sabia tocar piano mas não falava sobre isso,

era minha mãe, orgulhosa, que gostava de contar que sim sem

nunca

ter ouvido 1

nota sequer. Ninguém ouvia. Não tinha piano na casa da minha família, instrumento

custa

caro. Há mais de 40 anos minha vó não tocava. Incrivelmente,

sabíamos todos que era verdade, que

minha vó tocava piano como um anjo e que ela tinha sido muito rica

Anos e anos atrás.

Em época de menina, minha avó estudou música com famosos professores

de requinte, uma pompa.

Casou com um homem mais velho aos 16, por imposição. Meu avô apareceu na janela depois.

O marido dela viajava muito, ela

ficava no piano,

Dedo e ouvido

preenchido com música pra não morrer de tédio ou

Solidão.

E um homem de terno que fumava ficava na porta da janela, escutando. Algumas músicas eram composições próprias, mas

meu avô não entendia de sonata,

Achava que tudo era Beethoven e achava que ouvir música da janela era

Muito Melhor

Que qualquer vitrola.

Estar

no mesmo lugar da Música quando ela acontece é como

visitar deus, um

alívio.

Meu avô não sabia que quem tocava o piano tinha seios largos,

bicos enormes, nuca morena e uma quentura no ventre nunca vista antes num doce abrigo do Nu.

Já Minha vó sabia como ele era alto, cabelo escasso tão jovem, pose de nobre, via o reflexo pelo vidro da Janela.

Achava bom ele estar ali, seu pequeno público, o menor público do mundo o de

1 pessoa só.

Meu avô foi o único que ouviu minha avó tocar. O resto que ouviu

já estava morto há muito tempo e depois de tudo o que eles viveram, filhos, brigas, ausências, casas velhas e casas

emprestadas, dinheiro

pro cigarro antes do pão,

também meu avô morreu.

10 anos mais tarde foi a vez da minha avó.

E claro que nessa época de serenata invertida eles fugiram juntos, minha avó casada com outro, meu avô sem tostão na carteira. Eles Disseram:

– tudo bem.

pro’s infortúnios e fugiram

Pro rio

De Janeiro. E fizeram sexo. E tiveram medo.

De olhar

assim

as fotos,

Acredito piamente em todas as histórias que me contaram sobre

eles sem nunca

ter visto nenhuma por culpa da irrefutável impossibilidade cronológica.

112

as Músicas são Normais

Comprar coisas não me faz feliz pra sempre.

Me faz feliz um tempo, depois

me faz

Melancolias.

Como é o caso desse anéis. Comprei os dois hoje e escrever com eles nos meus dedos está me

deixando feliz de um jeito simples.

Mas passa.

E depois que passa, fico pensando que troquei dinheiro por

Bobagens

perecíveis

enquanto tanta gente

Troca dinheiro por

Remédio pra

curar a dor. As físicas, provocadas por defeitos

Físicos. As provocadas por sentimentos

não tem

Cura. O amor não tem remédio, como numa vez que amei

demais.

O nome dele é Rafael. Hoje olho fotos e não sinto

nada

mas demorou anos pra parar de

sentir.

E chego a ter calafrios ao lembrar do

quanto

Sofri nesses tempos, me anulei, era inerte

Ou

Inútil tentar viver.

Perdi a alma em tudo que não era

Rafado.

Não conseguia existir longe dele e quando perto,

Não conseguia respirar direito. Passei o Natal

Sem entender,

Olhando pra’s nuvens

Comendo peru e pensando que

eu devia é estar transando com aqueles olhos de moço que fuma. Ele escrevia poemas maravilhosos depois que enrolava um beck e usava calça xadrez sem cueca.

Enquanto isso eu no Natal, rodeada de parentes falando coisas,

pra mim eles eram só lábios que se mexiam sem som. Achava-os patéticos cá dentro, sentia febre. Foi quando o Rafael me mandou uma mensagem no telefone.

Disse lindo do nosso amor

1999: não mencionou o menino jesus.

Quase chorei, tive suores nas costas, como doía ao invés de ser bom e não tinha remédio pra isso, nem ele mesmo

me adiantava porque a imagem que criamos do amor é sempre maior do que a pessoa amada.

Ninguém

pode satisfazer um Louco, eu sofri. Durou 3 anos, mas passou.

Assim como a alegria de comprar coisas passa. Troquei 400 mangos por 1 vitrola que, até mês passado, era a queridinha da casa. Hoje a olho como olho

um pão. Meu entusiasmo de colecionar discos passou, assim como um cachorro

na rua

Passa,

a dor de perder alguém

Passa,

as horas

passam

Não passam quando a gente ama junto.

aí congela e

depois

também isso

Passa.

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Li(cor)

Detentor de conhecimento(s), parece. Possuidor
daquela
dor que te deu as
rugas.
Não é de tragarias, Classe
não se traga. Se respira,
depois
Inspira ares de um livro
bom.
Charutos parecem canudos de grandes historias que
depois
viram fumaça
expeça
ao redor de ti.
O cheiro é difícil, como
também é a
vida e
nem por isso
menos bela.
O ato, os
olhos, a posição da cabeça que fica, não há humildade e também
não há
tragédia: o pior dos problemas espera
o fumo
do charuto
sem presa.
 

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Trilogia

de todos os homens dessa última semana você foi o único que me convenceu. A vida está verdadeiramente muito frágil, qualquer dor que tenho no peito acho que é infarto, as

pessoas

estão vazias, tentando conquistar as outras da mesma maneira que tentaram conquistar a conquista passada, a velha maçada do amor com um plus de poder ficar sem sexo por no máximo 3 dias e só. Somos cães, ultimamente,

somos búfalos, fortes e

sem foco, eu

já vi homens mais bonitos que tu,

mais bem acabados, inclusive,

me

querendo

querendo me dar carona

me levar pra casa

assim como você tentou. Digo não pra todos, deslizo como desliza a mão nos azulejos, quero

tudo até o ter, quando consigo

desisto. Não sou nenhuma gata de beleza inesquecível, mas

confesso que estou numa fase boa, homens interessantes andam me dando bola e eu fui escolher justo você pra beijar na boca, foi

um beijo

Ótimo

um pouco rápido no começo mas

depois te mostrei meu ritmo e a gente flutuou, você disse que ia bater punheta pensando em mim essa noite. Eu disse,

– Para.

E também bati a minha pensando em tu, teus dentes preenchem a boca, meus dentes são feios,  esquisitos, mas você me disse

que eram bonitos

e que também

você dava sorte

com

Mulheres, do ponto de vista estético. É culpa do seu charme. É uma tranquilidade sua seduzir moças. Amei todos aqueles livros que você me deu, a cidade

é tão grande, dará tempo de ler cada um?, ainda há espaço pra poesia?, mesmo quando temos que pegar condução mas

ao invés

pegamos gripe?

E pegamos pessoas também, nesse compromisso social falido que chamamos de amor, hoje em dia tem até aplicativo pra descolar uma foda, e que tipo de foda seria essa quando sei a quantos metros exatos está a tal pessoa que penso que desejo comer? Ficou pior que pagar almoço por quilo, procuro a dignidade e não encontro, escrevo-te de

olhos fechados no computador, não preciso ver as letras, minha mente está em Ontem, compreendo o teclado de cor e vou jajá ao mercado

te comprar um vinho

e te ligar às 11, perguntar teu endereço, pra gente passar a noite junto como se fôssemos casados, dois estranhos num grau máximo de intimidade é a nova ordem, um amor

a qualquer custo,

quero teus dedos na minha boceta, enfiados, se movendo lento na minha dança molhada enquanto a gente se beija, você aos 38, eu aos 26,

faltando poucos dias pra copa

pra`s férias

escolares

pra aquele show que tu tanto esperava,

faltando 2 dias pro domingo, mais 1 domingo dos não-sei-quantos

ainda terei,

qualquer coisa pode esperar, não

acredito em

urgências,

exceto

quando digo

de Amor.Bild 4

O Cigano

A gente gostava de Dylan juntos, tínhamos um bocado de coisas em comum como o

ketchup da

batata

frita,

uns escritos,

whisky na madrugada, os balcões de boteco de estrada e

sonhos.

Nesse mundo cão,

as semelhanças ajudam a gente a pertencer. Com ele eu Pertencia,

ele tinha a mania de viajar sem dar satisfação,

Largava tudo e saia de férias, eram ordens do seu

eu

lírico, ele sabia bem que um dia morreria e esse dia podia ser hoje, um pouco mais tarde, ou

quem sabe,

amanhã bem cedo

antes mesmo

do sol nascer. A maior parte das pessoas se esquecem da sua morte, ele nunca, usava isso como desculpa para as maiores revoluções, era

bonito olhar pro cara enquanto ele falava de certos artistas, Bacon, Jack London, quanto mais sujo ele estivesse,

mais sexy ele ficava, devia ter uns quarenta anos meu novo amor e se sei disso não é pelo rosto, mas pelos casos que ele contava. Ou era tudo mentira ou ele tinha quarenta anos apesar de aparentar uns 30,

não teria dado tempo pra fazer tanta loucura, como da vez  em que ele viajou por anos em cima de uma moto

ou quando ele deixou o cabelo crescer até a cintura,

o vi em fotos antigas com fundo

de poeira,  pedi

pra ele deixar crescer de novo, o Cigano balançou a cabeça positivamente, não negava favores pras suas gatas.

Ele era do tipo de cara que parava pra ouvir um jazz num boteco qualquer

no matter who was waiting for him

at home.

Aliás,

Pra ele,

home was as dead as Good.

O cigano conhecia o mundo por terra, nada de aviões e sucos de latinha, odiava paparicos dos puxa

sacos, com ele

eu tinha de ser séria no amor,

o que sentia

eu dizia no duro, ele não gostava também de cerimonias. Por

isso

casamos de couro em cima da moto

cruzando fronteira com  o México, cabelo ao vento,

a gente se pediu em casamento, eu sei

é

bastante old Fashion pra dois malditos

irrecuperáveis

como nós, mas qualquer esponja de aço tem seu dia de algodão. Nessa noite, eu me lembro, a gente trepou no mato, uma formiga picou minha bunda, ficou inchado, parei no médico, tomei uns lances que me deixaram com mais tesão do que de costume e eu fiz meu homem chupar-me o cu no meio do posto de gasolina, ele

fez

ele fazia

tudo que eu pedia, me amava,

eu tinha dado sorte nessa, até que um dia

ele me disse:

– Vou viajar e dessa vez você não vai. Quero ficar sozinho.

Eu disse:

– Claro. Também preciso.

Mas precisava uma ova, estava Amando brutalmente esse sujeito e achei que ele

Nunca mais sairia de mim.

Seis anos se passaram feito vento, o Cigano nunca mais me ligou. Fiquei sabendo por outros que agora

ele tem um filho

com uma loira peituda e ex

modelo,

me pergunto se ele está contente com a vida burocrática, espero que não e que um dia

ele me procure.

Daqui, vou  levando

sempre um pouco mais triste e estava certa quanto a ele não sair de mim nunca mais, são tantas as noites que bato uma pensando nele. Depois eu choro e levo pra cama todo e qualquer sujeito de cabelo

comprido,

uma hora

dá bingo.

 

madmag-2

 

O Conselho

um faroeste dedicado às dores

das mulheres malditas

 

Falei pra ele:

– Esta noite é sua, baby.

Ele me ouviu obediente. Devo ter dito a frase com bastante convicção,  talvez por culpa do álcool que rondava meu corpo.

Devo ter dito tudo alto demais,

sexy demais durante o fumo do charuto Cubano.

Dançamos colados, eu

estava apaixonada e

depois

fui embora, tinha que passar no aniversario de outra amiga.

O problema

é que

ele levou muito a sério o que eu lhe disse, achou mesmo que era Dono da Noite, um pouco também por culpa do álcool,

sempre o álcool e

quebrou tudo no bar, xingou o gerente, se revelou um novo sujeito muito mais interessante. Fiquei sabendo por amigos. A história ficou bem famosa na cidade, quem não conhecia o troublemaker ou estava morto ou

era surdo, o bom de interior é isso,

1 copo quebrado e voilá

tu

vira

popstar. Pouca coisa acontece em cidade  pequena, até chuva passa só de vez em quando e as mulheres querem sempre a mesma coisa: grana. Pode ser fama também, meu amigo

ficou famoso

naquela noite,

quebrou cadeira,

bateu num puto 3 vezes maior que ele,

roubou whisky,

mijou na pia,

a mulherada

ficou maluca.

A policia chegou, ele se intimidou o cacete.

O garçom apontou:

– Foi esse o cara que estuprou a loira.

Meu amigo argumenta:

-Nem tanto. Apenas comi a gata sem ela querer. E outra, a loira gozou.

Os policiais deram risada, a loira também e o meu amigo lascou um soco na beiça do garçom dedo-duro.

A loira

tinha gozado e quem poderia culpa-la, esse meu chapa ficava tremendamente sensual quando estava sanguíneo e no fundo

eu tinha me arrependido do conselho que lhe dei. O deixei famoso na terra das víboras, que burrada, ele acabou virando o

Pica-de-ouro.

Eu,

Enciumada,

dizia:

-Sou a mentora do Pica.

As pessoas riam aquele riso escrachado dos bêbados, deus, como eu odeio esse tipo de gente. E respondiam complacentes:

– Claro, guria. Claro.

Tomar no cu. Estava cansada de não ser prezada pelas coisas que fazia. Decidi tentar chamar alguma atenção já que esse meu amigo nem ligar ele me ligava,  estava ocupado demais comendo 90 por cento das mulheres da cidade. As que sobravam ou tinham mais de 60 ou

eram da família,

menos as primas que prima não é parente e quando digo que esse cara era um perigo, I

mean it.

Também não o culpo, ele não comia mulher há tantos anos e tenho minhas dúvidas se ele não perdeu o cabaço com a loira do bar no dia do conselho. Me deve mais essa, o maldito. Fui à casa dele. Por sorte

ele estava. Atendeu a porta apressado, acho

que ele pensava

que eu era outra

Pessoa:

– E aí, Pica! Esqueceu das velhas amigas?

Ele ficou me olhando.

– Vim cobrar pelo conselho daquele noite. Te ajudei como se ajuda um filho na merda e tu nem me cumprimenta direito quando me cruza na rua. Qual é a tua?

– O que é que tu quer? Dinheiro?

Não.

-Então o que? Meu carro? Aquele vinil roubado?

– É, até que teu carro não seria uma má ideia, mas não. Eu quero o teu pau.

– Sério? Mas… eu não posso te comer, cara, tu pra mim é quase uma irmã.

– Quase, mas, não sou.

Ele ficou em silêncio.

– Ao menos tente, seu puto, se não espalho pro mundo que cê é um viado de merda.

Aquilo o deixou furioso, eu adorava quando ele ficava assim. Me beijou de língua grossa, me agarrou pela bunda e me levou pro seu quarto. A gente foi tirando a roupa nos corredores, fazia tanto tempo que eu queria aquele homem. Uma pena ter sido na base da chantagem mas, pelo menos

consegui o que queria. Ou achei que conseguira porque

Na hora

H

O Pica de Ouro

Não foi nem de lata

Nem de bronze. Me disse:

– Não consigo, cara, tu é minha amiga.

Aquilo me deixou emputecida.

-Então pra me comer eu sou sua amiga, ne, puto? Agora pra me cumprimentar na porra da rua eu sou uma estranha?

– Calma, pô, eu tô exausto, a culpa não é sua.

Ficamos em silêncio por um tempo. Depois ele me disse, visivelmente aborrecido:

– Ou talvez seja caralho!  Tu nunca foi meu tipo.

Olhei pra ele incrédula. Eu fiz tudo por esse cara. A gente é amigo há mais de 10 anos. Já emprestei dinheiro, já perdi foda, deixei o cara famoso,  já fiz até

mercado pra ele e

quando peço em troca

uma simples trepada

ele tem a pachorra de me dizer que eu não sou a porra do seu tipo?

Não pensei duas vezes.

Desci pra cozinha, procurei nas gavetas a faca de churrasco. Achei. Voltei pro quarto com ela nas costas, ele já estava assistindo Futebol. Cravei-lhe rápida a metálica no peito e pensei que os homens

todos

não valem o brinquedo que guardo

na gaveta.

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(* foto de Lynn Frost)

Homem ao Mar

as Canelas, eu

nunca

havia pensado nelas como qualquer coisa

além

de um

couvert de

pés mas

Tu,

que espalha as Belezas em

rede,

me confessou que Canelas são

na verdade

os termômetros mais confiáveis de uma Transa. Sim, nós

fêmeas

fingimos.

Quantas,

tantas vezes,

não sentimos  n a d a e aquele sujeito sem fim em cima da gente

se movendo

feito

bicho

e isso

não acaba mas

tem que acabar.

Porém,

na hora do teatro,

duvido muito que qualquer mulher tenha pensando

em suas

Canelas.

Garotas enganam bem no rosto, o peito,

o tórax contraído,

o pescoço que  tomba e o cabelo

que fica mais longo

invariavelmente.

Tenho passado tempo demais pensando nisso, no clímax  de todas as mulheres do mundo e no meu próprio, claro, já que não consigo mais

chegar no Ponto sem análise. Se tivéssemos escamas

elas

Abririam

e

Fechariam

feito valsa

num

orgasmo. Mudariam de cor mas não de tom. Iriam de um azul

mentolado

pr`um

verde severo caso

fossemos

sereias. Não existiria engano, mas

somos mulheres e

as canelas

não mentem.

Achei tesudo tu me dizer dessas coisas. Queria arrancar mais poesia de você. Sei que cê guarda na barba 4 ou 5 segredos e  me diz:

– Não conto. É trabalho de uma vida, essas observações. Não as revelo assim de graça.

Entendo,

você

está certo

somehow. De resto,

sei apenas que tu Aprecia canelas roliças além de ter confessado

nas entrelinhas

que as minhas

São

seu

Par.

Implorou-me, no entanto, pra que eu não usasse polainas, que

essas meias sem pé não passam de calcinhas de canela e tu é o tipo de homem

que gosta

de tranco,

desses focados que arrancam

a calça e metem

com força. Eu:

-Mas eu adoro polainas, baby.

E me encontro assim,

dando justificativas pr`um homem que

eu

nunca

vi

mas

kind of Amo nessa

massa

de gente

carente daquele velho

Brilho

que eu só encontro

nos marujos e

nos

malditos.

Dancer

(*foto by Jean Loup Sieff)

 

 

Mesa pra um

Nas ruas os pés sem cabeça,tumblr_ljyo6lHa8t1qe7ucso1_500

as placas.

Não olho nunca pros rostos,

nunca pros olhos, que eles dizem demais pra quem sabe de menos.

Prefiro a janela e uma bela macarronada.

O apartamento em paz e sem tv.

Cortinas cremes, um suco, alguns livros que não sei qual começar, é difícil,

me parece definitivo escolher uma história só. Sou mulher de muitas, não há vazios por onde amo.

Tentei o rádio, mas é só notícia e eu não quero notícia: quero voar.

Voltei a vitrola, olhei discos.

Talvez eu devesse voltar a pintar. Ou talvez eu devesse continuar a dormir. Não sei. De que vale a vida, afinal? Me vem vontade de morte toda vez que o céu

fica assim rosado.

Mas quando escurece passa. É que escurece também em mim o medo e as coisas podres.

Queria juntar no peito todas as contradições do mundo. Queria que nada fizesse sentido, nem meu corpo, e que nenhum homem jamais se aproximasse de mim por causa dos seios.

Mas é sempre pelos seios e eu me sinto sozinha. Não quero ser carne, o desejo me assusta. Não gosto de festas e nem de sertanejos.

Da música,

preciso do blues e da cerveja e de alguns compassos que me façam ter coragem de olhar nos olhos.

Semana passada eu estava na rua.

Mês passado também, de bicicleta, que uma mulher, once in a while,  precisa de ar. E de amor. E de algumas carícias na coxa.

Qual o quê!

Impossível encontrar um ser que te queira como és. O que vejo são seres que querem a-si–mesmo, num dueto do sozinho infinito. Assim fica fácil, assim fica sexo. Eu passo.

Prefiro a janela e uma bela siririca.

Não me importo de ficar nua ao meu lado, pelo contrário, me sinto leve.

Tenho Bukowski no travesseiro e Beatles no meu carro, eu tô legal.

Entre o amor só

e o amor egoísta

eu fico com o livro.

 

 

(Smiths aqui)