eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

Anúncios

sobre seu luto

– seu pai morreu,

telefonaram te avisando

 

não te vi recebendo a Notícia

mas Imagino

seu corpo derretendo

sobrando só duas bolas

soltas

com um preto no meio que é a sua íris

Petrificada.

todo dia

imagino o que seria de mim se o meu Pai

morresse,

se alguém me ligasse

contando o que já sei

mas espero que seja num futuro tão Longe

lá pra depois

do último

país

do mundo.

acontece que o futuro

Chega

e quando chega

cai no colo que ainda é nosso.

seu pai morreu jovem, 60 e

poucos,

o tempo passando é físico,

os cabelos brancos do meu namorado me assustam.

a morte

tem que ficar distante pra ninguém se matar,

o relógio guardando

o poder da data, mais um domingo passou.

e outro.

e nove. quem inaugurou a morte

na sua família foi seu pai desbravador,

homem-coragem que primeiro passou pelo estado de sexo, depois

o embrião que venceu.

depois vivo dentro da barriga crescendo,

depois vivo saindo da vagina elástica,

depois vivo na vida, andando

pintando, estudando,

pegando taxi, tendo você.

depois ele passou pelo estado de um pouco antes de morrer, os segundos antes, até que

finalmente

pela Morte em si

e o nada,

quando alguém

morre

a esperança de que deus existe morre junto.

seu pai

passou por tudo antes de você, ele te conta disso em detalhes

através do corpo

agora amarelo.

você teve que comprar caixão,

escolher uma roupa, foi terno?, pagar as despesas do velório

desde a gasolina pra chegar no velório

até o padre, no meio

as lágrimas, seu peito rasgando, aquela sensação de não Acredito ontem mesmo

ele estava vivo,

todos os mortos de hoje

ontem

respiravam.

também uma risada que brota tímida em você

por lembrar do quanto teu pai era maluco,

 

nesse exato

instante

no quarto que ele pintava

bate

um sol.

 

no dia daquela viagem pra praia teve briga, você voltou antes

e odiou seu pai por semanas.

passou quando vocês almoçaram juntos,

morrer desperta memórias

que nos fazem olhar pra elas com mais

carinho,

de que adianta brigar ou ser triste agora que Acabou?

você lidou com a morte de um jeito que fez o amor saltar.

o amor

virou protagonista da perda, o amor pela vida do seu pai.

naquela dia que conversamos,

e se você soubesse que seu pai tinha só mais 1 mês de vida?

o que você faria

antes de

enlouquecer?

pegaria um carro, um voo

pra Roma?,

pra casa da sua vó? comeria um bolo de fubá com eles

implorando tempo

ao Tempo?

sabe,

eu acho que você faria tudo igual.

seu jeito de ver a morte

me fez perder o medo e meu pai

eu vejo

só de fim de semana.

ou da minha

memória

quando ele me agride dizendo

que merda você ser assim com essa cabeça que não entra dinheiro,

e também aquele sorriso pequeno que ele tem.

pra rir escancarado

só se for criança.

ou 1 velho

tão velho que o medo nele já virou

algo inofensivo tanto quanto um lápis,

apesar que um caderno escrito a lápis quando cai no rio

não borra

nem some

as letras.

vou escrever a lápis

que aprendi alguma coisa com seu pai morto e você olhando pra isso,

andando de bicicleta com a sua esposa no domingo, tristíssimo mas também Alegre

e seguindo,

 

é como uma música.

 

 

a hora mais tarde

eu pegava ônibus à noite com quase ninguém na rua exceto os que muito se atrasavam e corriam de guarda chuva para os seus

carros, apertando na chave

o barulho que abre

a porta.

eles aceleravam sem mim e na noite pelada se escuta tudo

até o barulho do rádio ligando

num programa da madrugada em que se ouve

jazz.

eu seguia esperando o último ônibus antes do hoje virar

ontem,

absolutamente sozinha exceto por um cachorro

dormindo com seu dono encostados no portão da loja de calçados Alaor.

quando meu ônibus atrasava me dava medo de não ter casa pra dormir,

onde?

eu ficaria, na frente da padaria que só abre às 5? até lá

que Exposta, eu fechava

meu casaco

de botão.

casa de amigos eu não tenho,

dos meus amigos eu fugi de todos, fomos parando de nos falar e a culpa foi minha, eu não atendia

nenhum telefonema. quando trombava com 1 na rua eu dizia:

-vamos marcar.

e seguia

não atendendo.

no dia em que o ônibus mais demorou estava uma ventania comigo de saia.

outono pode ser quente até às 6 da tarde, de noite

o tempo vira, eu sabia que não era

verão. coloquei saia porque quis, todo mundo se tortura como pode e é discreto.

depois de quase 1 hora de atraso meu ônibus surgiu no começo da rua com o seu farol

Alto, o seu

tamanho. pensei,

e se eu não levantar a mão

pra pedir que ele

pare?

e se eu ignorar

o último ônibus da noite e simplesmente ficar

aqui

no ponto, já pra amanhã?

algumas horas passam rápido ainda que passem

devagar.

levantei

a mão

com o ônibus quase indo embora, não sei se por escolha ou

reflexo. quando entrei

pensei na minha mãe. a gente pegava ônibus juntas no ano de 1992.

depois melhorou a vida

e minha mãe comprou um monza. fazia feira comigo no braço e as frutas no porta mala do semi

novo.

mas quando a gente pegava ônibus juntas, eu ficava no colo dela pra ocupar só

1 banco

e o cheiro que eu sentia era de terra depois da chuva,

cheiro de mãe limpa,

cheiro de pele que usou sabonete de manhã mas já era tarde, quase 11 horas da noite e o bebê

na rua.

minha mãe sempre teve medo da noite, piorou depois que eu nasci. hoje ela mal sai de casa, não sei se ela

saberia, eu saio todos os dias e

não sei.

meu ônibus

não me levava exatamente de volta pra casa, me levava Perto e isso pra mim já era suficiente para eu me sentir abraçada pelo transporte público.

eu sei

que é por dinheiro,

mas não estou falando do sistema. estou dizendo do ônibus como invenção pra levar muita gente pra mais

Perto.

quando alguém pega ônibus comigo é sinal de que temos algo em comum. muita gente já pegou ônibus comigo, somos

Irmãos e não temos 1 rosto, a cidade tira de nós em troca da máxima de ser

Massa.

eu voltava pra casa, diariamente, apesar de

Tudo. alguma coisa importante

eu deixava lá, por isso

eu voltava muito,

voltava todos

os dias, voltaria ainda que fosse

mais longe

que o japão.

os lugares contam histórias e as histórias que os lugares contam

contam da gente também em números, 20 milhões de pessoas cabem num ir e voltar. atualmente,

eu ando de carro porque meu salário

aumentou e sobre isso posso dizer que dirigir à noite

é

tão Só

quanto ser a única

criança

numa festa de marmanjos.

pra ler no ritmo de corda pulada

duas irmãs brincam pequenas, brigam

pequenas, param

pro almoço é

Feijão. duas irmãs dormem pequenas,

correm

pequenas, acordam de pijama

azul.

duas irmãs voltam

pequenas, da Escola

Imensa, o primeiro

dia

de aula.

duas irmãs crescem pequenas,

sonhando e

pequenas, dormindo

no quarto

igual.

duas irmãs

ocupadas e grandes

agora crescidas,

já hoje sem mãe,

se ligam no meio

da noite:

até o Alô

é difícil.

precisa fazer doer pra parar de doer

minha avó tocava piano quando mocinha. um dia

ela comprou uma caixinha de música que era um

mini-piano, com bailarina dentro feita de ferro unilateral. Eu estava na loja com ela, daquelas lojas com muitos produtos num bairro velho em Ribeirão

Preto de tanto

calor.

Ela comprou o piano com o dinheiro que guardava dentro

do sutiã, minha vó nunca foi mulher de carteira e

me deu, eu

tinha espinhas.

E depois de guardar o piano por muitos anos, achei que ele não combinava mais com o meu quarto de madeira e a minha avó

já tinha morrido,

fiquei com uma fotografia 3 por 4 dela aos

60

com vestido de flor num pequeno sorriso, 1 que ela adorava me dar

e

pra minha mãe

eu dei o piano da Vó.

Ela guardou, inclusive uma Mágoa

por eu ter dado

O piano

Que a minha vó me deu.

– É Impressionante o quanto você não valoriza a sua família, ela dizia

que eu era má

Pessoa por isso.

Em toda e qualquer briga que tínhamos,

minha mãe falava do piano que minha vó tinha comprado pra mim e que eu

tive a Coragem

de dar

pra ela. Esse assunto deixava minha mãe tensa, vermelha, morrendo

de ódio

de mim. Minha mãe tem muito ódio de mim e também ciúme

quando coisas boas me acontecem. Ela gostaria que tivessem acontecido com

Ela, antes.

E num dia de briga, mais um de tantos, ela

foi no meu quarto

pegou todas as coisas que eu tinha ganhado de alguém que amo,

Uma máscara de Veneza que a minha melhor amiga

me trouxe da Itália sem eu

pedir,

Minha mãe a quebrou no chão da cozinha sem piso, estávamos em reforma.

O piso

estava no cimento e isso deixava a quebra mais violenta, os objetos se espatifavam em Pedaços

infinitos. Ficavam maiores

quando espalhados no

chão.

Ela quebrou a máscara, depois o quadro que ganhei do Júlio, um pintor que

me amou e foi

a primeira vez que transei, quebrou algumas cerâmicas também inclusive 1 que ganhei de um desconhecido numa feira de arte,

um Africano simpático que gostou do fato d`eu saber falar inglês e

falamos, minha mãe picotou um livroAndy Warhol drawing 3

de poesia

do Vinicius

Com 1 tesoura grande de costura azul, ela tirou

Tudo

Exatamente tudo

que tinha algum valor sentimental pra mim e jogou no chão

pra quebrar.

Quebrava sem pressa

Me olhando

porque queria que junto

alguma Coisa quebrasse dentro de mim, queria que eu sangrasse

um pouco

a cada

Peça quebrada por ela do alto de sua autoridade de mãe e

Conseguiu.

Ela conseguiu de verdade, dessa vez.

Chorei de cabeça

Baixa por muitos

e muitos anos.

Depois ela me fez varrer

a bagunça, eu enchi um saco grande de lixo e foi assim que a minha mãe me perdoou pelo piano,

sua Raiva

passou completamente, nunca mais falamos sobre isso. Já a minha

mora no Estômago e eu tenho que segurar muito forte

ela

lá, pra que eu não me torne a pessoa má

que a minha mãe tanto diz

que sou. Têm dias que são mais fáceis.

Têm dias que

pe(n)so,

– não vou conseguir.

o dia em que eu gastei dinheiro demais

era um cantor preto, careca, voz de

sereia, o meu cantante preferido daquele programa que, em meados dos anos 90, estava só

começando, mas

agora

já é a velha forma de reality

show.

Eram uns 15 cantores concorrendo a sabe-se lá o que, tinha a ver com 1 prêmio em dinheiro e

Vaidade, todos

tentavam muito ser o melhor segundo o público e os

jurados. Eu,

só tinha olhos pro meu calvo cantor preto.

Ele não era como os outros, bitolados na tela da televisão. Ele,

era trejeitado pra falar quando não estava cantando mas

na hora das suas apresentações

ele deixava

o acaso agir e destampava o palco que virava um buraco fundo de muito blues e sou(l). Eu acreditava em deus ouvindo esse homem

cantar. Ele carregava na voz

Aberta

a história da família inteira, a vó cantava na beira

do Rio

Lavando roupa, a dela e da metade da vizinhança, mulher-trabalho,

a gordura

nunca a impediu de acordar cedo todos os dias e

que Timbre!

A bisavó era coro na Igreja, ficou mais famosa que o padre, o pessoal só ia na missa pra ouvi-la

cantar. Rezava o terço em voz de lamuria e nunca se ouviu coisa mais bonita

em toda Minas

gerais.

O pai

Cantava na Obra e a voz do homem

se ouvia lá do último andar no prédio que morava colado no que ele construía.

Depois andando pro ponto de camisa aberta e

a pinga,

ninguém dava nada pelo sujeito, um tipo cu seco, vesgo, boca torta. Agora da janela dos prédios tinha gente que chorava ouvindo o homem cantar. Dona Dora, a síndica, dizia pro marido que pagaria até ticket

em teatro grã-fino só pra conhecer o dono

da voz

do blues. O marido ficava puto. E passava duro na rua

pelo pai do meu preto, procurando o maldito cantor que deixava Dona Dora tão acesa sem nem desconfiar

da reza

1/3.

Essas historias,

meu cantor contava em entrevistas rápidas

nos bastidores do vídeo Show. Suas falas nunca eram protocolares,

Ele aumentava as lentes das câmeras de televisão e chegava imenso na gente sentada no sofá o assistindo, aquele sujeito

Era Incrível. Eu tinha 10,

11 anos, pouca coisa pra fazer na parte da tarde e um dia,

No programa dos cantantes,

meu cantor ficou na Berlinda,

Estava pra sair do programa e dependia das nossas

ligações. Pediu ajuda olhando pra`s câmeras, eu gelei.

As minhas tardes sem ele, imagine, ficariam

Desastrosas de tristes naquele calor horroroso de novembro, minha mãe me chamando

Pra secar louça e eu

sem desculpas pra dar de que estou fazendo

Outra coisa, mãe, agora não, porque eu não estaria fazendo absolutamente nada e ela perceberia, meu ócio estava por 1 fio. Além do mais o preto ainda não tinha cd gravado,

o programa era a sua chance,

aos 11 anos eu não sabia que existia Muddy Waters e Nina Simone, meu cantor era único e eu queria que ele tivesse

todas as chances do mundo, meu primeiro

grande

Amor.

Peguei o telefone e disquei o zero

800

do time dele. Liguei quantas vezes, 1000,

2000? Eu tinha tempo, era menina e meu preto

saiu coisa nenhuma do programa, ficou que foi uma beleza até a semifinal, o problema foi quando

veio

a conta de telefone e meu pai gritou meu nome

lá da cozinha de

cinta

com uma voz

Rasgada

que não lembrava em nada

meu cantor voz de

sereia.

se eles não tivessem tido coragem de fugir eu não estaria aqui

minha avó sabia tocar piano mas não falava sobre isso,

era minha mãe, orgulhosa, que gostava de contar que sim sem

nunca

ter ouvido 1

nota sequer. Ninguém ouvia. Não tinha piano na casa da minha família, instrumento

custa

caro. Há mais de 40 anos minha vó não tocava. Incrivelmente,

sabíamos todos que era verdade, que

minha vó tocava piano como um anjo e que ela tinha sido muito rica

Anos e anos atrás.

Em época de menina, minha avó estudou música com famosos professores

de requinte, uma pompa.

Casou com um homem mais velho aos 16, por imposição. Meu avô apareceu na janela depois.

O marido dela viajava muito, ela

ficava no piano,

Dedo e ouvido

preenchido com música pra não morrer de tédio ou

Solidão.

E um homem de terno que fumava ficava na porta da janela, escutando. Algumas músicas eram composições próprias, mas

meu avô não entendia de sonata,

Achava que tudo era Beethoven e achava que ouvir música da janela era

Muito Melhor

Que qualquer vitrola.

Estar

no mesmo lugar da Música quando ela acontece é como

visitar deus, um

alívio.

Meu avô não sabia que quem tocava o piano tinha seios largos,

bicos enormes, nuca morena e uma quentura no ventre nunca vista antes num doce abrigo do Nu.

Já Minha vó sabia como ele era alto, cabelo escasso tão jovem, pose de nobre, via o reflexo pelo vidro da Janela.

Achava bom ele estar ali, seu pequeno público, o menor público do mundo o de

1 pessoa só.

Meu avô foi o único que ouviu minha avó tocar. O resto que ouviu

já estava morto há muito tempo e depois de tudo o que eles viveram, filhos, brigas, ausências, casas velhas e casas

emprestadas, dinheiro

pro cigarro antes do pão,

também meu avô morreu.

10 anos mais tarde foi a vez da minha avó.

E claro que nessa época de serenata invertida eles fugiram juntos, minha avó casada com outro, meu avô sem tostão na carteira. Eles Disseram:

– tudo bem.

pro’s infortúnios e fugiram

Pro rio

De Janeiro. E fizeram sexo. E tiveram medo.

De olhar

assim

as fotos,

Acredito piamente em todas as histórias que me contaram sobre

eles sem nunca

ter visto nenhuma por culpa da irrefutável impossibilidade cronológica.

112

Família

foram pro festival de música juntas, forjavam a felicidade em sorrisos

curtos,

usavam roupas parecidas nos corpos

parecidos das

2, iam ao cinema, bolavam conversas,

tentavam sem jeito ou

do jeito

duro

delas,

se Amar

um pouco

que fosse.

Eram obrigadas, irmãos precisam se dar

bem.

E de tanto convívio,

incentivadas pelos laços de sangue, lá pelos 60 e poucos anos, elas

começaram a

se Amar, de fato. Estavam distraídas trocando a cortina da sala, uma na escada a outra segurando a escada quando

Brotou no peito 1 flor, a flor

da Convivência. Elas

não perceberam. Continuaram dividindo

as tarefas da casa

herdada

como se fossem obrigadas e não por Amor.

Nenhuma das duas se casou. Viviam da grana do passado, a

aposentadoria. A mais velha fazia almoço, a mais nova fazia jantar. Tinham 1 gato que morreu semana passada, no sofá

ficou o rombo

ao lado da almofada que Fred tanto gostava de

deitar, rombo de ausência. Já as duas não tinham nomes. Era uma

irmã da outra, a cidade toda as conheciam assim, fora que o bairro do Limão cresceu muito nesses últimos anos, no fundo

ninguém se importava.

Férias

achei

Diversos retratos três por

quatro numa caixa

Antiga de

Gaveta:

era dia de faxina.

Tirei do armário o que não me cabe inclusive as mini-fotos,

9 ao todo,

3 da mesma pessoa, 1

de uma amiga que não vejo mais. Tinha também o meu vizinho na época

em que nadávamos juntos

aqui

na piscina do meu apartamento onde moro por 15 anos, quase

16.

Tinha um retrato da minha avó usando um vestido

de tecido

fininho, eu me lembro

daquele pano por conta de um abraço que nos demos, o tecido

tinha cheiro

de varejo.

Guardei também o retrato das minhas três primas, hoje

todas casadas, mas

no tempo da foto

ainda colegiais.

Olhei, não sem nostalgia, para aqueles rostos tão conhecidos de dias que não voltam mais.

Rasguei todos fora,

não preciso de foto pra lembrar que já

Amei.

Acontece que

a da minha avó

eu não consegui jogar, Tentei.

A dela

eu passei cola pritt.

Grudei-a num caderno, ainda novo, vai demorar um pouco pra ele

Acabar.

O retrato dela

eu não joguei, não

Pude, ela morreu em 2006.

Foi um grande ano, esse, eu ainda fazia o Teatro que

não faço mais, sou

ex-atriz.

Sinto

um medo danado de esquecer o rosto

de uma das mulheres

Mais bonitas

Que já vi e o Lixo

cheio,

de

desapegos.

tumblr_ngxsjaUrh81sl85lio1_500

Golf

deus sem você é deus.tumblr_ncalpo0VHh1tlkm4zo1_500
você
sem deus
é nada, li
a frase
na traseira de um
caminhão.

Fiquei pensando,

eu sou
tanta coisa

enquanto deus
é um sujeito que nunca vi. Superestimado ele,
com certeza, no fundo um omisso. Sem coragem de dar as caras pra falar
abertamente
das merdas que fez.
Quando olho a cidade do carro
sinto vontade de morrer, o rio
acompanha o asfalto, o rio
é Sujo,
feio e, ao redor dele inteiro,
acontecem diversas obras, o governo
quer construir um Futuro além dos sofás sem dono na estrada, dá pena,
a pessoa pensa,
não quero mais esse troço, então
ela joga
o troço
na Rua que a Cidade
é grande, ela sempre
aguenta.
Ultrapassei o caminhão, queria conhecer o Motorista com tanta certeza das coisas que não existem.
Olhei o sujeito,
ele tinha bigode e na boca
uma goma
de mascar.
A cidade está lotada, fora as pessoas que não estão ali, estão em casa, nos shoppings, nas lojinhas. Do carro,
vi um cara no celular rindo pra tela, vi uma família atravessando na faixa, fazendo o certo, eu vi sacolas,
faróis vermelhos e constantes, a
Velocidade reduzida, as multas, a mãe sem paciência e sem sorriso,
O trabalho de
Merda até às 18, um mar de gravatas mal pagas eu vi
do carro a gente toda e
Deus é deus,
Você
é nada. O dose
é que sinto que sou tanta coisa, como posso caber no
Nada? Se me amo num homem que quero
Conhecer mas
não conheço, se compro discos, se acendo luzes, fecho armários, leio livros, penso em mim, como posso
simplesmente
não Ser?
Deus
é um Esporte pra poucos.