de bairro novo

Deitada no peito da minha mãe com a correntinha dela balançando em mim num carinho de aço na

Estrada, que descobri mais tarde ser a Castelo Branco,

rumo à nova casa que eu não sabia que cara

teria.

Nem o Bairro,

que agora moro por mais de 15 anos, o tempo

correndo em frente como um Cavalo revirando o mato que somos. Cada vez que me perguntam,

– você mora por aqui faz tempo? eu digo

cada vez mais anos, me mudei

e não me mudo desde então.

andar de carro quando eu era menina tinha uma velocidade diferente. A cidade era maior e incompreensível, eu tentava dar significados

pr`os muros escritos que eu lia

metade das palavras, não todas,

as palavras com V e W eu não lia direito, nem

com 2 ss, era tudo

um código imenso que me deixava distraída no colo da minha

mãe, ela gostava muito de me pegar no colo

porque eu era

mini.

Quando chegamos na casa nova não me lembro do portão.

No apartamento dentro eu olhei bem fixo, antes eu morava em casa-casa e estranhei a falta de quintal explicada num pedaço de janela aumentada chamada de:

– Terraço.

O meu cachorro teve que partir porque não tinha Espaço

pra ele apesar que pra gente tinha, então

por que?

pra ele não. Eu pensava que membros da família

tinham que estar sempre juntos, não importa o drama.

Parece que nem sempre, pelo que me explicou meu pai na época.

Eu tomava muito milk shake do Mcdonalds e as cookies que a vizinha trouxe

enquanto meus pais tiravam as coisas das caixas

E colocavam as coisas das caixas

Espalhadas pelas cômodos da casa como se fosse lógico o lugar de cada 1.

Até que

eu gostei do tal do

Terraço. Batia um ar cheiroso que misturado

com o Milk shake acabou virando jeito

De lembrar com o passar dos anos.

Eu alugava fitas para assistir os filmes da moda. A tv era enorme atrás. Eu pensava

que as pessoas que faziam os programas que eu assistia estavam atrás da minha televisão. Chegavam de avião discretamente na minha sala e eu nunca conseguia pegar eles chegando, por mais que eu Tentasse.

O que mais me impressionava era quando aparecia o mar. Porque

O Mar pessoalmente era tão grande mas cabia no tubo da minha tv que também

Era grande, mas bem menor.

Eu ia na banca de jornal com a minha mãe de mãos dadas. Comprávamos revistas pra recortar a tarde

toda. Eu Estava gostando do bairro novo, sentindo falta só da Giovana, que

Iria me visitar no fim do ano, se tudo desse certo

Com a saúde da sua avó.

Deu tudo errado com a saúde da sua avó e eu nunca mais vi minha amiga, só

dentro da minha cabeça e nas cartinhas

que mandávamos uma pra outra e que foram

Ficando

cada vez mais escassas com o passar dos

anos.

O Passar dos anos.

Hoje,

olho pra minha casa que é a mesma desde então. Fui eu que perdi

aquele olhar

que Preenchia tudo. Tem alguma coisa muito velha e triste no Terraço, agora. Uma coisa feia, dura,

cheia de

Saudade chamada eu cresci.

ps: 

Anúncios

tobogã

Comer beterraba deixa o xixi
Rosado, aos 7 eu nem imaginava coisa dessa loucura que
corpo
é como um tobogã fechado, o que entra pela boca sai pela bunda eu só sabia que beterraba
deixava o
Dente rosado e gostava de mudar as cores em mim. Passava rímel colorido no cabelo. Passava sombra prata no olho. Caneta no braço. Vestido de Flor.
Teve um dia que pedi um prato
lotado de beterraba para a minha
Mãe. Ela me deu contente, eu não estava pedindo coca-cola, afinal.
Comi tudinho, só parava para olhar no espelho
Da sala
O dente cada vez mais rosa, sorria quadrado pra ver.
Se fosse hoje eu tinha tirado uma selfie, mas era anos 90, 1 e meia da tarde de uma sexta feira
Sem colégio de dezembro, quase natal naquele calor de não usar
nem lençol.
Depois de tingir todos os meus dentes de rosa, fui assistir tv, mas
a tv
tava 1 saco e isso não mudou muito dos anos 90 pra cá. Dormi no sofá, acordei
suada de verão com vontade de fazer
xixi.
Sentei no vaso que era
Um Vasão pra mim. Fiz, limpei bumbum, desci da privada com pulinho e meu coração
Deu outro
quando vi
A cor do meu
Xixi avermelhado.
Eu Tinha uma prima que sangrava por dentro, ela me contou Tudo sobre esse fenômeno e o que acontece depois dele, eu gritei:
-mãaaaaaaeeeeeeeeeeeeee!!!
Do banheiro, meus 7 anos
Agora Pesadíssimos no corpo, eu achando que tinha virado
Mulher.

Sally-Man-Holding-the-Weasel
(*foto de Sally Mann)

o Estrago

A priori somos apaixonados pela vida. Isso

até uns 7.

Depois, encontramos Pessoas

pra nos dizerem o quanto

não somos o que deveríamos ser e

então

começa o sofrimento pelo o que se é.

O que se é

nunca é bom

o bastante,

não importa o quanto se Tente. E na estrada das tentativas, vamos parando

de pular tanto

enquanto andamos a caminho da padaria.

Vamos encarando as ruas

com olhos de medo, por conta do tio que morreu atropelado e que você nunca mais viu,

Morrer é isto – cê descobre cedo, mas

entende deus ainda menos

especialmente naquelas missas.

Vamos, com o passar dos anos, tirando as mãos das coisas, em memória da primeira mordia que levamos de um dog.

Os desenhos em nuvens vão ficando menos possíveis depois do primeiro tapa

que levamos da mãe. E vamos ficando um pouco mais céticos,

depois de descobrir a nota baixa que tiramos na prova de geografia, apesar do estudo.

Prova.

Provas

e então

de repente

você

não pode mais

ir naquele aniversário que cê tanto queria.

O primeiro grito da amiga,

o lanche que vazou na

lancheira, hastear a bandeira toda segunda, o primeiro

amor não correspondido e pior,

Ignorado,

os insetos assustam, dores de barriga também,

o primeiro xixi na cama, a primeira

queda em público, a rua inteira

rindo da sua cara, o

mundo todo

rindo do seu tombo e lá se foram quase 11 anos:

está na hora de escolher a faculdade. O

marido. Uma

casa

e tudo isso

Estraga

gradativamente

a vida de um ser

Humano: Aos 50,

o pó.

Ma (r) te

Estou na minha mesa, computador ligado, word em branco e assim será pelo resto da tarde, máquina fotográfica, farelo no chão, uns talheres em cima do prato com cheiro de

janta,

rastro de vinho

no copo

eu

Sinceramente, não me

Suporto

mais.

Espero, inclusive bastante tranquila,

o dia em que escrever seja tão fácil

quanto

Ouvir um disco

Na vitrola, uma vitrola sem mesa, sem suporte, longe da tomada, em que você tenha que montar uma poção de coisas pra que ela funcione,

é prazeroso ouvir o disco e compensa esses pequenos conflitos,

como a falta de espaço em um apartamento no centro

De São Paulo.

Não me aborreço mas me preocupo, tem muito artista no mundo pra

Pouca arte, quantas pessoas são minhas vizinhas e quantas delas tem qualquer ambição artística? Acho que quase a metade, e

Quantas

Apesar do talento, estudo e o esforço absurdo que a arte demanda, quantas são

os verdadeiros poetas, pintores, atores,

quantas realmente mudarão a vida de alguém? E se não mudarem, a culpa seria delas?tumblr_n52wg3wpjF1rard87o1_500

Ou foi o editor

Que enxergou neblinado ou

é culpa do Brasil que não vai ao teatro, que

Não lê, prefere a cerveja mas vida não é eliminatória. Busco um herói da geração 2000,

que dance valsa e use óculos

escuros, gostaria que esse herói fosse

eu, mas

isso

Não existe, os líderes estão mortos ou nunca souberam caber nas gavetas das coisas nossas.

Melhor que nos sejamos Suficientes,

Geralmente eu me basto, menos quando não me suporto como tem acontecido nos últimos dias.

Eu queria escrever um livro

roxo, estou reunindo minha obra e desprezo todos os

Poemas que falam sobre eles mesmos, me lembra muito o ser

humano,

Que

doença, quanta saudade, quanta gente que eu não vejo há anos, marco almoços que não vou, tenho pressa. Eu disse pruma amiga:

 

– o mundo só fica menor quando encontramos alguém pra amar.

Eu a amo, no caso. E amo também A mim. E amo também a Ana Cristina Cesar, que era moça bonita e gostosa por isso

Se matou. A Hilda também, com whisky e aos poucos. A Clarice

Quase morreu de cigarro. Eu

Morrerei de tédio

E de falta de assunto no hall do elevador. Morar em prédio é a maior tragédia urbana que nos pode acontecer, mil famílias empilhadas, comendo, fodendo, brigando uma em cima da outra e depois se cumprimentam

Parcialmente

no elevador. Vejo da janela as crianças no playground. Lembro da minha infância, do meu casaco de veludo que eu usava até pra ir ao mercado, minha mãe dizia:

-pelo amor de deus, menina.

eu lembro de tudo, escrevo

e luto

pra me encontrar de novo em mim. Consigo de pouco e da janela noto um mini-fio

de sol. Ele resiste,

em meio a uma possível tempestade

que acontecerá em poucos segundos,

segundo aquela nuvem

gorda

Da direita.

Escapismos Primeira Edição

Tenho uma longa mania de roer as unhas, faz

tanto tempo, desde

Menina.

Fico tentando lembrar do dia que começou, o

primeiro dia de unha na boca.

Acho que foi em 94.

Estava subindo a rampa do prédio de educação física, eu estudava num colégio grande e pra se locomover entre as aulas, tu era obrigado a andar um bocado. Quando se tinha 6 anos, a professora de classe ia contigo. Depois dos 9,

tu ia sozinho e isso era

Legal.

Nos sentíamos adultos,

andando de um lado pro outro só com os amigos, sem pais ou professores,

só a gente, cuidando dos nossos

próprios rabos, nada de:

amarra o tênis!

toma o lache!

cuidado a pedra!

Ser criança é muito difícil. Especialmente quando

cê carrega no peito o

desejo de ser

Livre. Eu sempre gostei de fazer o que tenho vontade. Não lido bem com ordens ou pedidos-imperativos do tipo Preciso que você fique

ou

Pegue isto agora,

desprezo interesses pessoais que não sejam os meus.

Na época do colégio, eu achava uma violência ter que pedir pra ir ao banheiro toda vez que precisasse, mas

que merda, quem sabia do meu xixi era

eu.

E quando eu estava menstruava era ainda pior, uma questão de vida ou morte. Fechava fundo o mods na mão, pedia acanhada a pausa pra professora. Às vezes,

ela não me dava.tumblr_static_8y3q3nacbeo0oc0cskscc440k

Eu dizia baixinho:

– Mas que Canalha!

E

do alto dos meus 11 anos,

aprendi em sala o que era abuso de

poder.

Sem saber como enfrentar as regras eu roía as unhas, sempre as unhas, quando não me deixavam as coisas. Era o meu Escapismo,

o dedo

na boca, meu jeito de aliviar as angústias. Uma chance de reagir pacificamente aos infortúnios, de extravasar sem machucar ninguém além de mim. Porque às vezes eu tiro sangue do dedo, tem horas

que apelo. Mas as situações, elas

apelam mais do que eu. Como quando

eu achava que era bonita. Daí um cara publicou no Facebook as 20 gatas

mais tchucas

das redes

Sociais, segundo algum site machista.

Fui olhar,

um pouco por tesão, um pouco por garantia.

As moças

Eram

Incrivelmente

Maravilhosas. Mesmo. Os dentes, as poses, os peitos, os cabelos impecáveis, na lancha, em Bariloche, em Barcelona. Eram ricas, além de tudo. E frígidas, aparentemente. Umas bonecas.

Perdi a tarde inteira com elas. Esqueci que Tempo é precioso, que a gente um dia morre, por isso

é melhor ser feliz. E depois de t a n t o olhá-las,

fui eu me olhar no espelho. Tentei tirar umas selfies também, nada feito. Pensei:

– Certo. Então, quer dizer que sou feia?

Feia, não: muito feia. Chego a precisar de uma dose de Rum se comparada com essas gatas internáuticas. Fiquei ansiosa. Me cobrando de uma beleza impossível, que jamais terei e

pra que teria?

Pelo menos sou inteligente. Até eu conhecer pessoas

mais inteligentes que eu. A comparação é sempre um jogo de perder mais que tudo.

Naquela tarde, roí minhas unhas até o talo. O esmalte ficou descascado cada um de um jeito, tipo aos 7 quando eu pintava os dedos com aqueles esmaltes de Brinquedo.

Era mesmo

bem difícil ser criança, mas

é assustadoramente pior ser Mulher. As possibilidades de fuga vão ficando menores, mais fracas, menos

Convincentes.

Alecrim

não enche
ela
muito não, ninguém gosta
de ser enchido. Fica pesado pra você, ficaart-bird-cute-drawing-illustration-Favim.com-427542
pesado
pra ela.
Mala devia guardar só essências, memórias, certas pessoas que trouxeram a melhor cor possível de você
pra você, teu maior horizonte estampado em formas de sorriso.
Mala devia guardar isso,
cheirinhos de quando tu
tinha 6 anos,
o balanço
distraído
das árvores, o silêncio que a gente faz por dentro quando se descobre apaixonado, o passarinho que é no peito reconhecer um amigo
no tamanho desse mundo louco,
Mala
devia guardar tão pouco, só
epifanias, menos
roupas.
Por Lei as
roupas
deviam ficar pra fora, numa
mala

o nu.