o Gato

me disseram de você, me disseram tantas coisas sobre o seu olho

verde, seus músculos de

magro, sua cor negra branca, seu hálito com dentes

tortos na medida

certa, imagina as mordidas que ele dá quando

ama, imagina como ele olha quando o pau

está duro.

o humor dele, me diziam.

o pelo dele, suspiravam.

Escutei as impressões das pessoas em você como se escuta

uma história

muito antiga num livro

didático e você

ao meu lado, sem se saber

tão desejado pela esmagadora

maioria.

A gente se olhou algumas vezes

bem na cara. Eu estava distraída à beça com a paisagem, mas

a gente se olhou bem na cara

e aquela conexão dentro de nervos como tomada se dava em silêncio, não prestei atenção.

Só soube o quanto

você me Transtorna depois, que nunca mais te vi.

Agora,

fotos e punhetas no banheiro.

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Uma boa mulher

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Mudei de sobressalto. O medo é um animal oleoso, mas chegou minha hora de voar. Comecei a fumar de piteira e a tratar melhor dos meus anseios.
Entrei pra academia. Estou ficando com um corpo resistente.
Firme.
Melhorei no sexo, na cavalgada. Agora, os homens me adoram.
Eles me ligam e me dizem do amor.
Eu os beijo com a intimidade de uma puta.
Acredito no sonho de alguns, não de muitos.
Aprendi que as pessoas podem se ajudar de vez em quando. E que morar sozinho talvez seja a maior urgência de um ser humano.
Vou mudar pra vila Madalena, viu, fazer minha fita ou pelo menos
Fazer minha feira.
Tem uns muros legais por lá, pra tirar foto. Comprei uma câmera, sabe,
chama Carmem e vai dar tudo certo.
Soltei o passarinho da minha mãe. Estava na gaiola há quatro anos e há quatro anos aquilo me matava.
Minha mãe ficou chorando a tarde toda: Foda-se.
Desarrumei meu quarto, dei algumas roupas e poucos livros. Decidi pelo desapego e por paredes cor de laranja.
Prefiro madeira do que vidro e troco meus lençóis uma vez por semana.
Não tomo banho depois do sexo: Espero o esperma secar.
Parei de vez de usar calcinha e não corto mais o cabelo. Só as unhas, e pinto de vermelho.
Não tenho vergonha do meu corpo e me masturbo 3x por semana. Em duas delas, penso em mulheres. Em seios.
Contei a verdade para alguns amigos. Discuti com eles. Dei umas dicas pro meu porteiro. Comprei o cd novo da Gal e um colar com pingente de bicicleta. Tirei a grade da minha janela e mandei aquele merda, que chutou um mendigo ontem, pra a puta que o pariu.
Achei que ele ia me bater, mas parece que ele ficou com tesão. O mundo é lugar escroto pra quem decide lutar.

Homesick

no telefone

ouvi de ti muitas coisas de ontem

enquanto tomava um café

salgado

porque quando se tem sono

sal e açúcar se parecem

tanto

que chega a ser perigoso.

 

 

Ando em minha casa descalçada: de camiseta e sem calcinha porque

porra,

se eu não posso ser

rainha

da minha sala

que puta de merda eu farei na rua?

 

 

Minhas janelas são sem cortina, tá tudo lavando, o que é bem normal em apartamentos de cidade grande. Minha

casa

tá pelada e hoje a tarde me bateu uma vontade

de trocar de roupa bem na  frente da janela, o que é que tem?

um par de tetas não é lá grande coisa

prum vizinho que me olha da esquina.

 

 

Fiquei de jeans sem blusa

pelo tempo de um cigarro na varanda.

O corpo nu é sempre um alarde.

 

 

eu não entendo porque as pessoas se ofendem mais

com bundas

do que com elas mesmas.

Outro dia, pra tu ter uma ideia, fui à uma loja de cosméticos e a moça,

uma tetéia,

tirou de mim a maquiagem, na frente do espelho,

pra ver se a nova base que eu comprara

caia bem na minha pele.

A moça  me pegou de surpresa, me deixou de cara limpa, eu mal conseguia olhar no espelho, tive náuseas,  a tetéia

me fodeu,  arrancou de mim o que me esconde e eu, porra, fiquei mais nua sem rouge

do que sem blusa.

 

 

Sai da varanda, fui pro quarto.

liguei meu abajur em meia luz.

seis da tarde e tu

me ligando

feito louco.

Não atendi  teu telefone.

Ouvi de ti tantas coisas de ontem que queria mesmo

era ficar sozinha.

Coloquei na vitrola o jazz que me faltava porque o blues, baby, esse me sobrava.

A vida

às vezes

é

tão

pesada.

Eu só queria ir ao cinema sem ter que pensar nas mil coisas que vão desde o preço do estacionamento

até a cor do sutiã que combina ou não com a blusa.

Meu deus.

Eu só queria ir na porra

de um cinema

ler o Hank e te mandar

pra puta que pariu.

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