tobogã

Comer beterraba deixa o xixi
Rosado, aos 7 eu nem imaginava coisa dessa loucura que
corpo
é como um tobogã fechado, o que entra pela boca sai pela bunda eu só sabia que beterraba
deixava o
Dente rosado e gostava de mudar as cores em mim. Passava rímel colorido no cabelo. Passava sombra prata no olho. Caneta no braço. Vestido de Flor.
Teve um dia que pedi um prato
lotado de beterraba para a minha
Mãe. Ela me deu contente, eu não estava pedindo coca-cola, afinal.
Comi tudinho, só parava para olhar no espelho
Da sala
O dente cada vez mais rosa, sorria quadrado pra ver.
Se fosse hoje eu tinha tirado uma selfie, mas era anos 90, 1 e meia da tarde de uma sexta feira
Sem colégio de dezembro, quase natal naquele calor de não usar
nem lençol.
Depois de tingir todos os meus dentes de rosa, fui assistir tv, mas
a tv
tava 1 saco e isso não mudou muito dos anos 90 pra cá. Dormi no sofá, acordei
suada de verão com vontade de fazer
xixi.
Sentei no vaso que era
Um Vasão pra mim. Fiz, limpei bumbum, desci da privada com pulinho e meu coração
Deu outro
quando vi
A cor do meu
Xixi avermelhado.
Eu Tinha uma prima que sangrava por dentro, ela me contou Tudo sobre esse fenômeno e o que acontece depois dele, eu gritei:
-mãaaaaaaeeeeeeeeeeeeee!!!
Do banheiro, meus 7 anos
Agora Pesadíssimos no corpo, eu achando que tinha virado
Mulher.

Sally-Man-Holding-the-Weasel
(*foto de Sally Mann)
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Ela queria demais

ouvia blues

descontroladamente

e pintava as unhas do pé

de vermelho,

numa tentativa frustrada de

tentar ser mais feliz. Não lembrou do que sua mãe lhe dizia, que

ser um pouco

feliz já está muito bom, queria mais

queria tudo, olhava até pra Lua

com uma certa

desconfiança.

Achava que escutando a música mais triste e usando um esmalte de musa

ela ficaria quente por dentro. Porque assim estaria

pronta pra quando

o mal viesse, feito um amuleto. Um pouco ela ficava mesmo, mas a vida

tem outras necessidades. Como amar os animais

e comer comida boa.

Ela fazia exercícios, chamava Martha, inclusive um

específico

de ignorar as pessoas do mundo.

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EsMalte

assopra pra secar,
fuuuu…fuuuu…
já novinhos fazíamos isso, pintávamos a unha das bonecas,

mini-unhas geralmente de vermelho e

usávamos o vento
da boca
pra secar cor
de unha.
As cores
na unha são
jeitos dos dedos ampliarem as pontas, eles
voam
pairam, ficam mais céus, tudo por causa de um mini pincel
(zinho) num
ponte de cores com
cheiro fortinho
chamado
EsMalte, tão frágil só
a casca, mas
que casca
arco
de
Íris.

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Fiu Fio

das cores
podemos só
escolher
meia dúzia
pra passar nablade-runner-tournage-polaroid-01
boca.
Podiam ser mais, podiam ser todas, o azul 
o verde
o banqueiro
o médico
todo mundo que quisesse passar batom que passasse
os feirantes, os rabugentos, imagine aquele puto brigando contigo de
batom, seria bom, seria
humano, minha avó, tua sogra,
passar cor na
boca devia ser decreto
pra antes das refeições, assim
a gente não esqueceria nunca do quanto existir é
efêmero, a Morte
estraga festas como um
guardanapo estraga
a pintura, esse
creme de
lábios,
amanteigado e
didático
devia ser also
democrático,
assim como
o Amor e também
Deus,
no dia do juízo
final,
deve
passar Batom pra
conversar com a gente sobre
suas
Sapecagens.

 

Era Carmem que abria a perna mais que eu

Imagem

No vestiário a conheci. Ela faz hidro, eu aeróbica. E musculação também, que agora acabou a brincadeira.  De repente, minhas manhãs foram tomadas por atividades físicas que eu

nunca

jamais

tinha feito.

Tenho ficado rosada com frequência, usado mais meia que chinelo e descobri alguns músculos bem divertidos no meu corpo.

Suo feito gorda,  na esteira minha mente vai a mil.

Pra piorar, o professor me disse hoje,  no exercício de abrir as pernas:

– Tem senhoras de oitenta que

abrem

mais

que tu.

Pois sim.

Mas essa senhora que conheci no vestiário, por certo não era dela que o professor estava falando.  Tinha também uns 80 anos. Seu cabelo era roxo, curtinho. Simpática ela, com um senso de humor plausível, especialmente pruma mulher.

No entanto, dona Carmem tinha algo de diferente das outras ladies que faziam hidro: Ela gostava de ficar pelada.

Era uma senhora bastante sóbria, you know, sem problemas de saúde e etc.

No entanto era gorda e tinha quase

1

século

de existência.

Todas as outras senhoras se trocavam dentro do banheiro Até as moças preferiam um pouco mais de privacidade. No máximo, saiam do banho de calcinha e sutiã.

Mas não dona Carmem.

Ela passava mais de meia hora pelada, sem motivo nenhum.

Não estava se secando

se trocando

ou passando creme.

Ficava simplesmente sentada, bunda no banco, sorrindo e conversando com as amigas. Suas pelancas cobriam-lhe as partes mais intimas e as tetas caiam vesgas, por cima de sua pança. Veias grossas  saltavam de suas coxas cruzadas,

coxas essas que já serviram de apoio para  alguns homens que a amaram.

E talvez, quem sabe, ainda servissem.

Seus pés eram pequenos.

Sua bunda era sebo,

Sua pele era seca,

sem brilho

nem cor.

Pra mim, era inevitável não olhá-la.

Pra ela, era um prazer ser vista.

Dona Carmem estava gargalhando com as amigas quando percebeu meu excesso de curiosidade. Ajeitou calmamente seus cabelos roxos e me disse num semi-sorriso:

–       Sou velha mas ainda estou viva.

E eu,

55

anos

mais

nova

y tantas vezes

mais morta.