eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

Anúncios

sobre seu luto

– seu pai morreu,

telefonaram te avisando

 

não te vi recebendo a Notícia

mas Imagino

seu corpo derretendo

sobrando só duas bolas

soltas

com um preto no meio que é a sua íris

Petrificada.

todo dia

imagino o que seria de mim se o meu Pai

morresse,

se alguém me ligasse

contando o que já sei

mas espero que seja num futuro tão Longe

lá pra depois

do último

país

do mundo.

acontece que o futuro

Chega

e quando chega

cai no colo que ainda é nosso.

seu pai morreu jovem, 60 e

poucos,

o tempo passando é físico,

os cabelos brancos do meu namorado me assustam.

a morte

tem que ficar distante pra ninguém se matar,

o relógio guardando

o poder da data, mais um domingo passou.

e outro.

e nove. quem inaugurou a morte

na sua família foi seu pai desbravador,

homem-coragem que primeiro passou pelo estado de sexo, depois

o embrião que venceu.

depois vivo dentro da barriga crescendo,

depois vivo saindo da vagina elástica,

depois vivo na vida, andando

pintando, estudando,

pegando taxi, tendo você.

depois ele passou pelo estado de um pouco antes de morrer, os segundos antes, até que

finalmente

pela Morte em si

e o nada,

quando alguém

morre

a esperança de que deus existe morre junto.

seu pai

passou por tudo antes de você, ele te conta disso em detalhes

através do corpo

agora amarelo.

você teve que comprar caixão,

escolher uma roupa, foi terno?, pagar as despesas do velório

desde a gasolina pra chegar no velório

até o padre, no meio

as lágrimas, seu peito rasgando, aquela sensação de não Acredito ontem mesmo

ele estava vivo,

todos os mortos de hoje

ontem

respiravam.

também uma risada que brota tímida em você

por lembrar do quanto teu pai era maluco,

 

nesse exato

instante

no quarto que ele pintava

bate

um sol.

 

no dia daquela viagem pra praia teve briga, você voltou antes

e odiou seu pai por semanas.

passou quando vocês almoçaram juntos,

morrer desperta memórias

que nos fazem olhar pra elas com mais

carinho,

de que adianta brigar ou ser triste agora que Acabou?

você lidou com a morte de um jeito que fez o amor saltar.

o amor

virou protagonista da perda, o amor pela vida do seu pai.

naquela dia que conversamos,

e se você soubesse que seu pai tinha só mais 1 mês de vida?

o que você faria

antes de

enlouquecer?

pegaria um carro, um voo

pra Roma?,

pra casa da sua vó? comeria um bolo de fubá com eles

implorando tempo

ao Tempo?

sabe,

eu acho que você faria tudo igual.

seu jeito de ver a morte

me fez perder o medo e meu pai

eu vejo

só de fim de semana.

ou da minha

memória

quando ele me agride dizendo

que merda você ser assim com essa cabeça que não entra dinheiro,

e também aquele sorriso pequeno que ele tem.

pra rir escancarado

só se for criança.

ou 1 velho

tão velho que o medo nele já virou

algo inofensivo tanto quanto um lápis,

apesar que um caderno escrito a lápis quando cai no rio

não borra

nem some

as letras.

vou escrever a lápis

que aprendi alguma coisa com seu pai morto e você olhando pra isso,

andando de bicicleta com a sua esposa no domingo, tristíssimo mas também Alegre

e seguindo,

 

é como uma música.

 

 

Piscina

a primeira vez que nadei num Clube foi meu tio,

des-casado com a minha tia,

que me levou.

Eu estava de viagem na casa da prima. Ele veio buscar a menina que pais separados

veem filhos de sábado

e domingo, assinam papéis pra decidirem assim.

Ele chegou avisando de buzina. A prima pegou a mochila pronta e me deu um:

-Tchau.

bem seco, só pensava em Piscina naquele dia quente e ainda era cedo, 9 horas

da manhã.

Ficariam só os adultos na casa e eu.

Minha mãe me ofereceu Fanta uva num copo verde, ou seja, aparentemente

ia ficar azul o líquido e isso me animaria a beça se fosse outro dia qualquer, mas era muito Sozinha

ficar só eu de criança numa casa que não era

a minha.

Meu tio notou do portão o tamanho

do meu olho de

triste. Perguntou

– cê não Quer ir junto?

Com voz de quem realmente gostaria que eu fosse, até então eu não estava me sentindo bem vinda por culpa da prima que só queria

Competir.

Amei meu Tio aliviada e olhei

pra minha mãe

com esperança, ela olhou preocupada pra minha tia e disse:

– ela tá sem biquíni.

Ela nada de calcinha, eu ouvi

minha tia

dizer.

eu não queria nadar de calcinha. Escapou com força da minha boca a frase:

– eu não quero nadar de calcinha.

Apontei pra porta do quarto da prima:

– a Ju tem maiô guardado na gaveta.

– Mas a Ju é mais velha.

– prefiro nadar com maiô grande do que nadar de calcinha.

E prefiro nadar de calcinha do que não ir pro Clube, mas isso

eu não disse

pra ninguém.

Minha Tia foi até o quarto e pegou o maiô vinho da minha prima dois anos mais velha que eu.

A prima

colocou a cabeça pra fora do carro e ficou olhando

eu pegar tímida

o maiô dela e ir pro banheiro me trocar, nossas competições eram muito

sutis.

Entrei no banheiro, tirei a roupa.

O maiô da Ju tinha o cheiro dela, o formato

dela, colocar aquilo era quase como

Roubar aquilo, me sentia um pouco má com amargo no peito. Mas não ia nadar de calcinha na frente

do clube todo, muito menos na frente

da Ju pra depois virar

chacota. Vesti o maiô e encarei o espelho. Estava grande, um pouquinho, mas eu estava

bonita. Combinava com os meus joelhos aquela cor vermelha-escura.

Eu estava até

mais bonita que a Ju vestida com o mesmo

maiô, já vi ela usando no Natal do ano

passado, num pulo na piscina do vizinho e a visão

do seu

Bum

Bum não saiu da minha cabeça. O maiô continua servindo no Natal desse ano porque

a Ju

Cresceu pouco. Eu cresci muito. Tenho até

pelo

no lugar que fica a calcinha que agora

está o maiô

e que antes

ficavam os pelos da Ju mais velha, por isso

ainda mais

peluda. Pensar naquilo

me deu

1 tremedeira nas pernas e um

molhado no meio das pernas, coloquei a mão pra passar.

que coisa,

A sensação

de tremedeira ficou mais forte, eu me senti um

tigre,

Deitei de bruços no chão do banheiro e esfreguei meu corpo

No piso gelado pensando

naquele dia que a Ju mexeu por horas no meu cabelo pra fazer uma trança e irmos pra festa.

Minha mãe bateu na porta tentando abrir,

Deu certo, filha?

Levantai num

Salto. Respondi que:

-sim!

Ainda bem que eu tinha trancado e

antes de abrir a porta do banheiro me olhei de novo no

espelho pra ver se a minha cara

estava

Denunciante, mas

até que ela estava

1 cara

Normal.

longo9

Amor seria bom (demais) pra mim

Regiane sempre foi minha amiga, eu pensava.

Ficávamos juntas na hora do intervalo.

Tinha certeza que se um dia eu esquecesse meu lanche ela me daria sua bolacha de morango e no dia que eu esqueci minha maçã

ela

Não me deu

Absolutamente Nada,

fiquei assistindo Regiane comer e ela

comendo me assistindo Assisti-la. Pensei,

ela deve estar com fome. Foi na quinta aula de matemática que eu entendi o que era

Fome.

Cheguei em casa num pequeno desespero que minha mãe se preocupou e pediu desculpas pelo

esquecimento. Eu disse tudo bem e almocei

muito rápido pra comida entrar logo em mim e matar aquela sensação de vazio, mas

o vazio não morreu depois do almoço,

fiquei a tarde toda com o Rombo de Regiane.

Tínhamos muitos momentos juntas. Ela era cheirosa e mais alta do que eu.

Os meninos

desmoronavam quando ela passava, ficavam falantes, jogavam bola com agilidade. Depois que ela ia embora pareciam

moscas.

Teve um dia que ela foi melhor

na prova de inglês

do que eu.

No intervalo, que tudo o que importa

Na escola

Acontece no

Intervalo,

Ela contou pra todo mundo da nota dela versus a minha e foi muito amada pelas pessoas.

Tínhamos aula de argila no colégio. Tínhamos que trazer camiseta maior pra cobrir o uniforme e não manchar.

A Camiseta, depois,

ficava com um cheiro forte de giz de cera vencido. A Regiane espirrava muito com o cheiro. Pedia pra colocar a camiseta no meu armário do colégio

que ficava com cheiro duplo,

o meu

o dela.

Eu nunca falava não. Mas me sentia triste de um jeito pequeno.

Virou o ano com peru morto na mesa da minha família,

Fogos no céu do recém chegado 1999 e a

Regiane

Mudou de sala. A diretora fazia isso, separava

as panelas

pra que brotassem outras relações.

Não Reclamei.

Regiane reclamou muito. Fez que lutou duramente pra mudar de sala

Mas quando perguntei pra diretora,

Regiane não tinha ido nenhuma vez falar com ela pra pedir qualquer coisa que fosse, nem 1 clips.

A gente se via nos corredores, ela dizia de saudade. Eu dizia de saudade. A verdade não existe em fatos, só em relações menos

na nossa.

Nossas classes eram porta com porta, nossos professores pediam gizes emprestados

1 para o outro e nós duas

Distantes como se fosse geográfico o nosso motivo.

Era ódio o nosso motivo, um ódio calado na companhia que nos obrigávamos a fazer uma pra outra.

Nossas mães

Nem se conheciam, nós não morávamos perto, não nos dávamos

Carona, nem intimidade, nem amor. Eu também fazia as minhas. Falo dela, mas um dia deixei uma saúva picar o braço de Regiane de caso pensado só pra ver

Coceira e

Inchaço no corpo da minha amiga ou

A vingança. A gente se obrigava a ficar juntas porque além do ódio mútuo

a gente

detestava muito

a si mesmas, precisávamos perdidamente nos machucar.

Nos mutilamos por anos, 2 Soldadas de guerra. Agora, mais velhas,

não aguentávamos mais tanta pele aberta.

Comecei a me amar com 17 quando eu e Regiane nunca mais nos vimos depois da formatura de colégio.

Tchau, tchau quando acabou a festa mas era

Adeus.

desespero lento

Palmas volumosas pra Ela,

elogios verbais e faciais, sons de sorrisos intermináveis na

Mesa

lotada de

gente, nenhum olho

olhava pra mim. Eu tinha pedido um garfo pro garçom, ele não trouxe, tive que

Levantar pra pegar enquanto Ela

tinha feito a coisa certa, fechado

um contrato milionário que melhoraria o mundo, quem sabe, em 10 ou 20 anos, a mulher

estava tentando, tinha estudado bastante inclusive na gringa e a mesa

Otimista, aplaudindo. Salivando.

Pela primeira vez na vida não senti ciúmes, meu ego querendo tudo estava

cochiloso. Também parabenizei a moça sem pensar que a moça

que mais amo

sou eu. Não quero nada, por hora.

Não preciso ser famosa, nem ter grandes ideias, nem dinheiro.

Não tenho um emprego mas tenho tempo. E posso ir à palestras em dias de semana não importa o horário.

Dentro de mim uma pequena paz, será que envelheci? Estou calma em estar onde estou,

Num almoço

De segunda sinto

Mini paz. Sem pressa chego nos lugares, cumprimento as pessoas sem

Pensar no que elas pensam de mim.

Já não olho todos os espelhos ao lado das escadas rolantes no shopping,

Já não tenho a curiosidade de me ver de costas. No carro,

Já não abro a janela para que os motoristas

me vejam e buzinem meu look.

Quando não me buzinavam, eu pensava que minha bunda era melhor que o rosto, me buzinariam se eu estivesse de pé e olha que eu nem gosto tanto de sexo assim, isto

Era apenas uma competição.

Agora Quando alguém

Me elogia, escuto tudo, não sorrio antes. No entanto Ainda sinto frio na barriga quando

Me sinto amada,

estou sozinha, insegura, pequena, esmagada pelos

Pés dos mais bonitos fortes talentosos e jovens que eu, eles formam na minha frente uma fila quilométrica e são

a Muralha, mal vejo o céu. Não,

as palmas não são todas pra mim e

tudo bem. Me incomoda, isso sim, o tempo que faz

que não recebo

1 abraço por amor. Tentei dar um abraço na mulher muito próxima de mim na mesa.

Cheguei perto, enrolei os braços no pescoço dela, deixei meu corpo pesar, usei

A imaginação. Disse a ela:

– momentos felizes merecem um abraço.

Mas fiquei pendurada, ela não deixou ser abraçada nem

Muito menos

Me abraçou. Que medo de morrer.

Que medo de morrer

em vida. Eu gostava do meu ego porque eu tinha esperança e

Alegria. O mundo é marrom. Não

Tem água, a terra dura mas as verdades duram menos que 1

Segundo, não gosto dos meus amigos aqui presentes, queria começar

de novo, em agosto do ano mais recente de agora.

Preciso voltar pro Mar e olhar azul. Entendo a mulher que sou terrena, mas

aquela Pescoçuda que tanto acreditava no poder de ser ela mesma, deus, onde

essa mulher foi parar? Ela deve morar no eco

estridente dessas palmas incansáveis que eu não aguento mais, não

Suporto, desatei pro

Banheiro, as mãos

no ouvido.

tumblr_n74irtKXq71r7dee6o2_1280

Poli Amor

Fiz a janta, perdi horas

cortando tomate em busca da salada

Perfeita. Aprendi num buffet de restaurante, combinei o queijo com

manjericão. Coloquei a travessa no centro da mesa. Recorri às velas e a toalha de renda pra deixar

a noite

mais leve.

Abri um vinho dois mil e sete, olhei no relógio, Sabia que

apesar do trânsito

ele não demoraria nada e foi só eu sentar no sofá que

o Pedro chegou. Sempre foi assim, do lado dele

eu não descanso. Agora cansei, ainda hoje meu Outro

me espera, prometemos.

O quase ex abriu a porta sem campainha. Olhou pra mesa antes de mim:

-pra quê isso, Carla?

– Nada. Eu tava precisando falar com você.

– pois fale. Você sabe que eu tô de dieta.

– só fiz salada. Toma um banho, eu te espero pra gente jantar.

Ele foi. Voltou depois de 10 minutos que pelo menos com água ele é um cara legal. Estava de shorts sem camisa. Pedi pra ele colocar uma camisa,

não pôs. E disse pra eu largar a mão de ser:

– Chatinha.

Sentamos. Lhe servi, inclusive

o vinho. Ele queria ligar a tv. Eu disse:

-Espera.

que eu preciso contar 1 coisa. Ele não perguntou o que era, talvez

nem se importasse ou talvez de tanto falar ele tenha desaprendido a ouvir.

o Avisei baixinho, que grito

é ausência e eu

estava lotada.

– Vou te deixar, Pedro. Conheci um cara que me olha nos olhos quando transa comigo, eu tô indo morar com ele. Minha Mala tá pronta. Essa é a última janta que

a gente janta junto.

Ele seguiu comendo. Mais uma vez Não teve coragem de olhar nos Meus olhos. Acabar com alguém depois que já acabou é

um pouco mais fácil, o arrependimento é do tamanho de um comprimido e fica o sentimento de que

o que foi feito

está Feito até tarde demais.

De cabeça baixa vi pela vela que ele chorava. Achei o mínimo, depois de quase 10 anos. Ele Disse pra mim o quanto era duro

Não mais me amar. Escutar o fim e sentir

só silêncio. A gente se acostuma a ficar junto, isso

é um jeito de amor

também. Conforto

é amor. Rotina

é amor. Anos juntos

É coragem. Largamos os talheres por 1 abraço e nele ficamos por minutos que nem sei.

Senti

o pau

do Pedro. Nos beijamos e

nos

Comemos depressa na nossa

Primeira-última transa

depois de tanto tempo.

O Cigano

A gente gostava de Dylan juntos, tínhamos um bocado de coisas em comum como o

ketchup da

batata

frita,

uns escritos,

whisky na madrugada, os balcões de boteco de estrada e

sonhos.

Nesse mundo cão,

as semelhanças ajudam a gente a pertencer. Com ele eu Pertencia,

ele tinha a mania de viajar sem dar satisfação,

Largava tudo e saia de férias, eram ordens do seu

eu

lírico, ele sabia bem que um dia morreria e esse dia podia ser hoje, um pouco mais tarde, ou

quem sabe,

amanhã bem cedo

antes mesmo

do sol nascer. A maior parte das pessoas se esquecem da sua morte, ele nunca, usava isso como desculpa para as maiores revoluções, era

bonito olhar pro cara enquanto ele falava de certos artistas, Bacon, Jack London, quanto mais sujo ele estivesse,

mais sexy ele ficava, devia ter uns quarenta anos meu novo amor e se sei disso não é pelo rosto, mas pelos casos que ele contava. Ou era tudo mentira ou ele tinha quarenta anos apesar de aparentar uns 30,

não teria dado tempo pra fazer tanta loucura, como da vez  em que ele viajou por anos em cima de uma moto

ou quando ele deixou o cabelo crescer até a cintura,

o vi em fotos antigas com fundo

de poeira,  pedi

pra ele deixar crescer de novo, o Cigano balançou a cabeça positivamente, não negava favores pras suas gatas.

Ele era do tipo de cara que parava pra ouvir um jazz num boteco qualquer

no matter who was waiting for him

at home.

Aliás,

Pra ele,

home was as dead as Good.

O cigano conhecia o mundo por terra, nada de aviões e sucos de latinha, odiava paparicos dos puxa

sacos, com ele

eu tinha de ser séria no amor,

o que sentia

eu dizia no duro, ele não gostava também de cerimonias. Por

isso

casamos de couro em cima da moto

cruzando fronteira com  o México, cabelo ao vento,

a gente se pediu em casamento, eu sei

é

bastante old Fashion pra dois malditos

irrecuperáveis

como nós, mas qualquer esponja de aço tem seu dia de algodão. Nessa noite, eu me lembro, a gente trepou no mato, uma formiga picou minha bunda, ficou inchado, parei no médico, tomei uns lances que me deixaram com mais tesão do que de costume e eu fiz meu homem chupar-me o cu no meio do posto de gasolina, ele

fez

ele fazia

tudo que eu pedia, me amava,

eu tinha dado sorte nessa, até que um dia

ele me disse:

– Vou viajar e dessa vez você não vai. Quero ficar sozinho.

Eu disse:

– Claro. Também preciso.

Mas precisava uma ova, estava Amando brutalmente esse sujeito e achei que ele

Nunca mais sairia de mim.

Seis anos se passaram feito vento, o Cigano nunca mais me ligou. Fiquei sabendo por outros que agora

ele tem um filho

com uma loira peituda e ex

modelo,

me pergunto se ele está contente com a vida burocrática, espero que não e que um dia

ele me procure.

Daqui, vou  levando

sempre um pouco mais triste e estava certa quanto a ele não sair de mim nunca mais, são tantas as noites que bato uma pensando nele. Depois eu choro e levo pra cama todo e qualquer sujeito de cabelo

comprido,

uma hora

dá bingo.

 

madmag-2

 

O Conselho

um faroeste dedicado às dores

das mulheres malditas

 

Falei pra ele:

– Esta noite é sua, baby.

Ele me ouviu obediente. Devo ter dito a frase com bastante convicção,  talvez por culpa do álcool que rondava meu corpo.

Devo ter dito tudo alto demais,

sexy demais durante o fumo do charuto Cubano.

Dançamos colados, eu

estava apaixonada e

depois

fui embora, tinha que passar no aniversario de outra amiga.

O problema

é que

ele levou muito a sério o que eu lhe disse, achou mesmo que era Dono da Noite, um pouco também por culpa do álcool,

sempre o álcool e

quebrou tudo no bar, xingou o gerente, se revelou um novo sujeito muito mais interessante. Fiquei sabendo por amigos. A história ficou bem famosa na cidade, quem não conhecia o troublemaker ou estava morto ou

era surdo, o bom de interior é isso,

1 copo quebrado e voilá

tu

vira

popstar. Pouca coisa acontece em cidade  pequena, até chuva passa só de vez em quando e as mulheres querem sempre a mesma coisa: grana. Pode ser fama também, meu amigo

ficou famoso

naquela noite,

quebrou cadeira,

bateu num puto 3 vezes maior que ele,

roubou whisky,

mijou na pia,

a mulherada

ficou maluca.

A policia chegou, ele se intimidou o cacete.

O garçom apontou:

– Foi esse o cara que estuprou a loira.

Meu amigo argumenta:

-Nem tanto. Apenas comi a gata sem ela querer. E outra, a loira gozou.

Os policiais deram risada, a loira também e o meu amigo lascou um soco na beiça do garçom dedo-duro.

A loira

tinha gozado e quem poderia culpa-la, esse meu chapa ficava tremendamente sensual quando estava sanguíneo e no fundo

eu tinha me arrependido do conselho que lhe dei. O deixei famoso na terra das víboras, que burrada, ele acabou virando o

Pica-de-ouro.

Eu,

Enciumada,

dizia:

-Sou a mentora do Pica.

As pessoas riam aquele riso escrachado dos bêbados, deus, como eu odeio esse tipo de gente. E respondiam complacentes:

– Claro, guria. Claro.

Tomar no cu. Estava cansada de não ser prezada pelas coisas que fazia. Decidi tentar chamar alguma atenção já que esse meu amigo nem ligar ele me ligava,  estava ocupado demais comendo 90 por cento das mulheres da cidade. As que sobravam ou tinham mais de 60 ou

eram da família,

menos as primas que prima não é parente e quando digo que esse cara era um perigo, I

mean it.

Também não o culpo, ele não comia mulher há tantos anos e tenho minhas dúvidas se ele não perdeu o cabaço com a loira do bar no dia do conselho. Me deve mais essa, o maldito. Fui à casa dele. Por sorte

ele estava. Atendeu a porta apressado, acho

que ele pensava

que eu era outra

Pessoa:

– E aí, Pica! Esqueceu das velhas amigas?

Ele ficou me olhando.

– Vim cobrar pelo conselho daquele noite. Te ajudei como se ajuda um filho na merda e tu nem me cumprimenta direito quando me cruza na rua. Qual é a tua?

– O que é que tu quer? Dinheiro?

Não.

-Então o que? Meu carro? Aquele vinil roubado?

– É, até que teu carro não seria uma má ideia, mas não. Eu quero o teu pau.

– Sério? Mas… eu não posso te comer, cara, tu pra mim é quase uma irmã.

– Quase, mas, não sou.

Ele ficou em silêncio.

– Ao menos tente, seu puto, se não espalho pro mundo que cê é um viado de merda.

Aquilo o deixou furioso, eu adorava quando ele ficava assim. Me beijou de língua grossa, me agarrou pela bunda e me levou pro seu quarto. A gente foi tirando a roupa nos corredores, fazia tanto tempo que eu queria aquele homem. Uma pena ter sido na base da chantagem mas, pelo menos

consegui o que queria. Ou achei que conseguira porque

Na hora

H

O Pica de Ouro

Não foi nem de lata

Nem de bronze. Me disse:

– Não consigo, cara, tu é minha amiga.

Aquilo me deixou emputecida.

-Então pra me comer eu sou sua amiga, ne, puto? Agora pra me cumprimentar na porra da rua eu sou uma estranha?

– Calma, pô, eu tô exausto, a culpa não é sua.

Ficamos em silêncio por um tempo. Depois ele me disse, visivelmente aborrecido:

– Ou talvez seja caralho!  Tu nunca foi meu tipo.

Olhei pra ele incrédula. Eu fiz tudo por esse cara. A gente é amigo há mais de 10 anos. Já emprestei dinheiro, já perdi foda, deixei o cara famoso,  já fiz até

mercado pra ele e

quando peço em troca

uma simples trepada

ele tem a pachorra de me dizer que eu não sou a porra do seu tipo?

Não pensei duas vezes.

Desci pra cozinha, procurei nas gavetas a faca de churrasco. Achei. Voltei pro quarto com ela nas costas, ele já estava assistindo Futebol. Cravei-lhe rápida a metálica no peito e pensei que os homens

todos

não valem o brinquedo que guardo

na gaveta.

tn_FrostLynn_CountryGirl

 

(* foto de Lynn Frost)

Homem ao Mar

as Canelas, eu

nunca

havia pensado nelas como qualquer coisa

além

de um

couvert de

pés mas

Tu,

que espalha as Belezas em

rede,

me confessou que Canelas são

na verdade

os termômetros mais confiáveis de uma Transa. Sim, nós

fêmeas

fingimos.

Quantas,

tantas vezes,

não sentimos  n a d a e aquele sujeito sem fim em cima da gente

se movendo

feito

bicho

e isso

não acaba mas

tem que acabar.

Porém,

na hora do teatro,

duvido muito que qualquer mulher tenha pensando

em suas

Canelas.

Garotas enganam bem no rosto, o peito,

o tórax contraído,

o pescoço que  tomba e o cabelo

que fica mais longo

invariavelmente.

Tenho passado tempo demais pensando nisso, no clímax  de todas as mulheres do mundo e no meu próprio, claro, já que não consigo mais

chegar no Ponto sem análise. Se tivéssemos escamas

elas

Abririam

e

Fechariam

feito valsa

num

orgasmo. Mudariam de cor mas não de tom. Iriam de um azul

mentolado

pr`um

verde severo caso

fossemos

sereias. Não existiria engano, mas

somos mulheres e

as canelas

não mentem.

Achei tesudo tu me dizer dessas coisas. Queria arrancar mais poesia de você. Sei que cê guarda na barba 4 ou 5 segredos e  me diz:

– Não conto. É trabalho de uma vida, essas observações. Não as revelo assim de graça.

Entendo,

você

está certo

somehow. De resto,

sei apenas que tu Aprecia canelas roliças além de ter confessado

nas entrelinhas

que as minhas

São

seu

Par.

Implorou-me, no entanto, pra que eu não usasse polainas, que

essas meias sem pé não passam de calcinhas de canela e tu é o tipo de homem

que gosta

de tranco,

desses focados que arrancam

a calça e metem

com força. Eu:

-Mas eu adoro polainas, baby.

E me encontro assim,

dando justificativas pr`um homem que

eu

nunca

vi

mas

kind of Amo nessa

massa

de gente

carente daquele velho

Brilho

que eu só encontro

nos marujos e

nos

malditos.

Dancer

(*foto by Jean Loup Sieff)