o Aborto

O incêndio começou com o cigarro que Nana fumava violentamente com saudade de Caio, seu ex.

Caio, o ex

terminou com Nana pra ficar com Leila, uma gata urbana cheia de perfume porque fumava muito também e queria disfarçar

seu cheiro mas nunca causou

incêndio

nenhum. Talvez porque nunca

fumou violentamente como Nana, naquela tarde com vista pra Cidade da sua

Janela Alta, vigésimo quinto

Andar.

Um trânsito lá em baixo, uma

Gente amontoada, uma

angústia de Nana por ter de companhia só pessoas desconhecidas

pessoas

que não significam

Nada, pequenos vultos inúteis do tamanho de formigas

olhando assim

de cima, o Caio

dá saudade de deitar com ele na Cama pra assistir um filme e o filme

não rendia

Porque toda hora era pausa na tv pra se beijar, pausa na tv pra se chupar,

Pausa.

Que dor

dentro da Nana, ela tinha o cabelo na altura do queixo e ponta

do cabelo no queixo

dava a impressão de ser uma lança.

Nana fumava apertando o cigarro, digitando no

Celular 1 mensagem pra Caio que ela nunca

mandaria, ela escrevia não pra isso era

Pra tirar

a bala

do peito, aquele Chumbo de coito

interrompido, ela cuspia Abandono em palavras

digitadas e lágrimas

nos olhos,

pouca água porque Nana tinha só 45 quilos, mas

à sua maneira

aquilo era um mar.

Ela encostou a cabeça na cadeira, deixou o celular na cama pra desistir e jogou o cigarro na planta da mesa de cabeceira. Estava frio demais ficar sozinha, a Nana esperou passar a dor

asistindo o fogo se espalhar

não tão devagar

pela sua casa, era uma dança

pra matar

o prédio em que

Uma Planta foi a primeira vítima. Não conseguiu com o prédio porque os bombeiros chegaram antes, mas ela conseguiu se matar e destruir uma boa parte do seu apartamento, sim.

E também chamar a atenção de Caio, que percebeu pós morte

que amava a Nana

muito,

o lance com Leila era por conta da bunda na nuca

da gata e aqueles olhos

Caramelados que a Nana

Nunca teve aquele brilho, mas o Caio

Amava

a Nana,

ele pensou sobre isso no velório sem corpo, que

morrer queimado vira

mais rápido.

Fim

Por mensagem você me manda um curto:

Posso te ligar?

Me adiantei.
Te liguei antes, prefiro. Sabia que a notícia que viria não
seria boa,
intuitivamente eu já sabia, desde Semana Passada.
Desde que
te conheci. Os tempos
nunca são tempos, são
Términos, não vamos brincar que sim. Ainda que voltemos, não voltaremos nunca mais,
Talvez só de um jeito tão absolutamente novo que será estranho e curto te ver no Futuro, será
Esmagador.
Gostaria de poder congelar a vida, não consigo nem gelar
meu próprio copo. Evito
vinho tinto
nesse calor maldito e evito lembrar da gente
Em fotografia pra não sofrer.
As felicidades
passam
E voltam, eu mesma faço assim nas ruas quando ando,
Passo e
volto e
nunca sou a mesma que pisou ali. Posso fazer esse exercício a vida inteira: não entenderei.
Os dias
Rodam,
Mudam, fico
muda, devastada, mesmo sabendo que reviravoltas existem. Minha mãe me contou disso quando eu tinha cinco. Deu minha boneca preferida, ela era um palhaço. Chorei tanto, achei que perderia
1 olho, minha mãe me disse:
– Bonecas não são pessoas.
E me ensinou o que é morrer.
Tentei te arrastar comigo, você não quis, não
conhece a palavra amarra.
Te Perguntei, um dia,
Enquanto fumávamos no seu terraço:

– Tem coragem de largar tudo?

Você Disse que
sim. Você
sempre teve.

E eu,

A corda.

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a bituca

Odiava cada canto do apartamento desde que
Ele se foi.
O abandono já fazia alguns meses, mas
não
os suficientes
para Ela o
Esquecer.

Tiveram um filho, que também ele
abandonou.
O bebê tinha alguns meses, mas
não os suficientes
para que alguém
pudesse tê-lo amado,
o pai o esqueceu muito rápido,
ainda mais rápido
do que esqueceu da mulher.

Ela
não tratava bem do bebê, como
não tratava bem da casa
muito menos
dela mesma. Queria desistir, estava
decidida, só ainda
não tinha
escolhido como.

Esquecia de comer mas nunca de
fumar.
Quando lembrou do Fogo estava
de cigarro na
boca: Sorriu

e

Jogou
a bituca no carpete.

a primeira coisa que pegou fogo
foi o berço do neném.
depois as plantas, os papéis. Depois ela.
Os bombeiros tentaram
mas
quase que o prédio inteiro
ficou destruído e
ela
passou da
solidão de sua casa
para
a Imortalidade
efêmera
dos Jornais.

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(*foto via Tumblr)

as Músicas são Normais

Comprar coisas não me faz feliz pra sempre.

Me faz feliz um tempo, depois

me faz

Melancolias.

Como é o caso desse anéis. Comprei os dois hoje e escrever com eles nos meus dedos está me

deixando feliz de um jeito simples.

Mas passa.

E depois que passa, fico pensando que troquei dinheiro por

Bobagens

perecíveis

enquanto tanta gente

Troca dinheiro por

Remédio pra

curar a dor. As físicas, provocadas por defeitos

Físicos. As provocadas por sentimentos

não tem

Cura. O amor não tem remédio, como numa vez que amei

demais.

O nome dele é Rafael. Hoje olho fotos e não sinto

nada

mas demorou anos pra parar de

sentir.

E chego a ter calafrios ao lembrar do

quanto

Sofri nesses tempos, me anulei, era inerte

Ou

Inútil tentar viver.

Perdi a alma em tudo que não era

Rafado.

Não conseguia existir longe dele e quando perto,

Não conseguia respirar direito. Passei o Natal

Sem entender,

Olhando pra’s nuvens

Comendo peru e pensando que

eu devia é estar transando com aqueles olhos de moço que fuma. Ele escrevia poemas maravilhosos depois que enrolava um beck e usava calça xadrez sem cueca.

Enquanto isso eu no Natal, rodeada de parentes falando coisas,

pra mim eles eram só lábios que se mexiam sem som. Achava-os patéticos cá dentro, sentia febre. Foi quando o Rafael me mandou uma mensagem no telefone.

Disse lindo do nosso amor

1999: não mencionou o menino jesus.

Quase chorei, tive suores nas costas, como doía ao invés de ser bom e não tinha remédio pra isso, nem ele mesmo

me adiantava porque a imagem que criamos do amor é sempre maior do que a pessoa amada.

Ninguém

pode satisfazer um Louco, eu sofri. Durou 3 anos, mas passou.

Assim como a alegria de comprar coisas passa. Troquei 400 mangos por 1 vitrola que, até mês passado, era a queridinha da casa. Hoje a olho como olho

um pão. Meu entusiasmo de colecionar discos passou, assim como um cachorro

na rua

Passa,

a dor de perder alguém

Passa,

as horas

passam

Não passam quando a gente ama junto.

aí congela e

depois

também isso

Passa.

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O diário da amante

(leia ao som de um cigarro)

Nossos olhos se encontraram pelo espelho.

Puta que pariu.

Eu estava mesmo a procura de um amor reviravolta, só achei que ia demorar mais um pouco.

Meus lençóis ainda estão quentes.

Eu quis fugir-te. Essa história de colocar olho no olho me cheira a estupro. Parece que a pessoa está te lendo toda, sugando teus pensamentos, te deixando nua.  Assim mesmo, sustentei tua encarada por alguns segundos. Foi o que aguentei. Minhas costas ficaram úmidas e também minha calcinha. Qual é o teu segredo?

A voz?

A barba?

Socorro, baby.

Esse teu jeito de como-quieto-e- não- te- ligo me deixa louca. Não me olhe mais assim ou eu vou te.

Bom.

Vou te dar uma chave de pernas.

Aposto que tu nem reclamaria. Sei que sonha comigo, que imagina a minha bunda e, na noite passada, imaginou meu peito. Minha barriga. Ai, que cê deve comer tua mulher

pensando em mim.

Teve um dia que cê veio me falar um não-sei-que e encostou a mão no meu ombro: meu sangue subiu pra bochecha. Não sou tímida, repare, só não sei lidar com a paixão.

O que eu sei é que nos daríamos muito bem.  Na cama e fora dela. Discutiríamos García Márquez ao som de John Coltrane. E depois falaríamos de deus

e de como ele tem sido um velho sacana. Conversaríamos sobre trabalho também,

mas só um pouco. Depois nos comeríamos, cada um com seus órgãos, mas nunca gozaríamos juntos.

Sou eu que preciso de mais tempo,  por causa do amor e também

por causa do clitóris.

Tua mão no meu ombro eu nunca esqueci. Prometo. Tu é rústico e isso me excita. Tu é casado e isso me fode.

Gostaria de conhecer tua mulher.

Ela faz o que? É arquiteta? Aposto que trabalha com decoração. Deve ser bonita, que tu merece. Mas não deve ter sal nem pimenta. Ela dorme de calcinha grande, acertei?

Eu durmo só de lavanda.

Ela deve ser loira, nariz perfeito, mas pouca bunda. Eu, amor,

sou puro Blues.

Te deixo louco sem você nunca ter me tocado.

Pensa nisso.

pensa em mim e pensa no meu corpo em cima do teu. As probabilidades de encaixe

são grandes.

Vou te deixar meu número na porta do carro, quer?

A gente combina um café, ué, não tem gente que pede indicação de livro?

Conselho pra vida?

Dinheiro emprestado?

Pois então.

Eu

só tô  te pedindo uma chance.

Quarta de cinzas

Bom mesmo tem sido essa sensação de mudança que me assola.  Essa intuição de que as coisas

(empoeiradas since 1987) 

vão sair do lugar,

trocar de cômodo,

de cor,

de cova.

Outro dia mesmo, pra vocês terem uma ideia, acendi meu cigarro

no fogão.

 

Vida rima com mudança . Por isso, nego

tudo o que for acomodado

atravancado

estático de dar desespero.

Quero o movimento, a surpresa,  a não-

rotina, o não-

diagnóstico: se é pra morrer, meu chapa

tudo bem, eu morro. Não me interessa saber o motivo.

 

Não duvido de mais nada. Nem de deus e muito menos do filho da puta que matou um cachorro na praia

só porque,

vejam vocês,

o dog estava atrapalhando os banhistas que jogavam frescobol. Estava atrapalhando

porque pegava a bolinha e não soltava, ficava brincando, queria atenção  

e morreu por isso, em meio a bundas encharcadas de filtro

solar  para

evitar o câncer

Percebem? Prum filho da puta, o motivo é o que menos importa.  E o escroto ainda comemorou o ano novo, teve a pachorra,

bebeu com os amigos e o cacete, rumo a podridão. Um brinde aos porcos, feliz doismiletreze.

 

Nojo.

 

Ainda bem que é tempo de mudança. Começo um novo emprego na segunda. O biscoito é fino, em bairro nobre.  Dessa vez eu me dou bem, juro. Parece até que acredito no futuro quando uma brisa de esperança

quase toma conta de mim.

 

Mas é só olhar pela janela e a gente entende que as coisas,

elas podem mudar o quanto quiserem.

However a merda, essa continua

sempre

a mesma.

 Imagem