o homem que eu vi só de costas

uma moto ouvindo música ecoa pela cidade até o fim da rua.

depois

quem vai ouvir a música

é quem estiver

na próxima rua que a moto

passar, não eu. eu

escuto pequeno do lugar em que estou e sempre

estou

em poucos lugares, 1

de cada

vez. Não

Lembro qual era a música que tocava, mas lembro que ela era

Gorda

dentro da moto, mal sobrava espaço pro homem de capacete dirigir.

Ele estava orgulhoso disso, provavelmente a música não era filha da rádio,

era filha

de uma escolha pessoal e também sair naquele horário era pessoal, também fazer aquela

Rota, também usar

aquela roupa, o homem do capacete escolheu tudo menos nascer, além do clima.

A moto passou tão rápida por mim.

Fiquei a pé de boca aberta e o abandono dentro

da minha

boca.

Andar é lento, faz a gente ver

tanta coisa que passa num segundo virando vulto.

eu estava a caminho do supermercado. a moto com música me deu 1 galho de apoio, não cair no Abismo era

por enquanto, um galho

é magro e a rua está molhada de uma chuva

que durou 4 minutos mas molhou. Muita gente esperou a chuva passar sem assistir gota nenhuma da janela.

Eu mesma

não assisti,

preferi só ouvir e lembrar da chuva que conheço dos dias que

Namorávamos de frente pro janelão do teu quarto,

um império de quarto não pela grana, mas porque

teu quarto

era todo o seu apartamento de 50 metros

quadrados. Esse amor

nosso

acabou mas a gente se encontra e somos amigos. Muitos amores acabam. O duro seria nunca mais te ver. Não é como o Meu primeiro namorado que hoje tem 34 anos.

Quando namorávamos ele me

dava uma rosa de presente por nada. A saudade é nenhuma porque saudade não nasce das coisas que já passaram e sim das que

Ficam.

Não quero deixar de tentar nenhuma pessoa possível de virar

1 grande amor, eu disse isso também pra Chuva. Quando ela parou

desci pro mercado pensando em comprar sabão pra lavar minha roupa de solteira, mas pensando principalmente que eu precisava dar pra mim mesma um bom motivo que justificasse minhas

andanças: foi quando a moto passou

deslizante

direito pro

fim

da esquina, a rua molhada

ficou lotada com a música do homem mais ou menos livre porque

ele usava capacete, então

estava claro pra mim que ele tinha Medo.

Da sua moto, era como se ele concordasse comigo quando digo que não quero deixar de tentar pessoas possíveis de virar 1 grande amor.

Mas ele também pedia pra eu ter cuidado

só pelo fato

de usar capacete.

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os Três

Passeiam na rua 1 cão,

1 homem e

1 mulher.

Eles têm qualquer coisa de Chilenos dentro

de si,

usam malhas escuras de inverno apesar de não ser ainda

inverno, é

fim de verão e caiu há pouco uma bela chuva que deixou a

rua

úmida como memória.

O homem e a mulher não carregam alianças ou

mãos um do outro, mas

Se nota que são esposos. Há entre eles um peso velado dos anos que

passaram juntos, inclusive o cachorro, velho,

um cão que deve ter sido

um possível presente

De casamento.

Era noite depois da janta. O homem e a mulher conversavam

Baixinho sobre:

 

– Separação.

Conversavam pingado,

Longas pausas, olhos de quem se desistiu.

Amor infinito não existe, eles

Tão sóbrios

Bem Sabem. Com quem vai ficar o cachorro é a questão complicada, o cão sem coleira

logo

morrerá dentro do tempo bastante estendido de sua existência. Quantos anos ele tinha, 18, 19? Com essa idade,

uma pessoa ainda é criança se for pra falar de

-Morte.

Já pro Cão, é preciso urgentemente que ele passe Feliz

os últimos anos, se forem anos, de sua vida. O futuro ex. casal deve isso a ele, além dos passeios noturnos, dos banhos semanais e da ração importada 3 vezes por dia.

O homem e

a mulher fingem que não sabem de quem

O cão

Mais Gosta, está claro que ele gosta mais do homem. Eu também,

mais do homem,

o cachorro trouxe muito do Chile, mas

veio. A mulher nem isso veio,

decerto ela se esqueceu por lá. O único Inteiro da turma era o homem. Com suas dores, suas saudades,

Suas estações de rádio preferidas, ainda assim,

Ele

era todo Agora.

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Paixão

Sei que
do nosso amor
não vou me esquecer
nunca.
Sempre haverá no travesseiro
na nuca
no creme de passar na pele
algo de ti
um pouco de mim
um cheiro de nós.
Fizemos no carro
Assistimos Zé Celso
Fomos na padaria de sábado a tarde
Eu fiquei te esperando
Você perdeu a hora
E depois tomamos chuva.
No meu aniversario, você me deu bombons e perguntou o porquê
daquela cicatriz na minha coxa.
Fomos ao teatro ver comédia de mãos dadas.
Agora
você é o ator.
Seus sucos, que você sempre tomava
E o documentário de carnaval que assistimos
Jantamos na rua de luzes.
Entramos na loja de máscaras.
Nos beijamos em cada farol vermelho.
cê arrancou minha calcinha com os dentes.
E me lambeu por vezes que não pude aguentar.
Não pude.
Fomos ao municipal ver a ópera, eu tava de chinelo e a sopa do intervalo te fez muito mal.
Eu guardei aquela garrafinha azul, sabe?, queria lembrar de você
pra sempre.
Como se precisasse.
Jogamos xadrez
Você fumou
E me mostrou suas mágoas
Seu quarto
Sua cama
Me deu um livro
Me deu dois livros
Um cd gravado do Chico
E uma bata
E uma carta que eu achei que era pra mim
Mas era uma conta
Cê ficou sem graça, me deu um beijo
E o teu cachorro morreu.
Tenho saudade dos seus lençóis e das músicas que você me colocava.
Toda vez que escuto Joni Mitchell
ou Bob Dylan
em alguns bairros,
quase em todas as flores e
Em muitos homens
morenos
Eu vejo você
Eu sinto você
Faz tempo que a gente não transa, mas não nos meus sonhos.
Podemos ficar a vida sem se ver, com você casado, apaixonado,
não importa.
Toda vez que penso em ti, eu juro, é a mesma sensação do primeiro dia
que você chamou meu nome.
cê me tocou no rosto em maio.
Me beijou a boca em junho.
No frio
Sentados
Na escada, com suas meias pretas e seu tênis claro, seus pelos e sua vergonha.
Você é um homem tímido pro seu quase um metro e noventa. Não sabe olhar nos olhos, mas sabe beijar um corpo.

Não se engane se algum dia tu achar que acabou.
O que eu sinto por você me acompanha e segue firme
desde o momento em que te (re)conheci.

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