vírus

a felicidade bateu e eu comendo uma banana ao telefone, totalmente despreparada pra ela,
eu devia ter me vestido melhor pra receber
essa vontade doida de mostrar os dentes, pra ninguém
pra mim,
pro Mundo. Bateu um frio
na barriga
daqueles de descida numa montanha russa vermelha, as piores
os engenheiros pintam de:
– vermelho.
é um código entre os usuários de montanhas russas pelo
mundo, se o ferro for
vermelho cuidado, esteja
forte, os cabelos são indomáveis ao vento, o descontrole facial é absoluto, o estômago descola dá
um ímpeto de levantar os braços, dirigir por terras
quentes, viver, viver,
sem me preocupar se eu vou morrer quando, se eu vou ter algum
dinheiro daqui uns anos,
se eu vou precisar de muita ajuda quando eu estiver
velhota, felicidade
é não pensar.
É estar
terrivelmente de bem
com a vida por nada, só
por
estar aqui sentada na beira de uma sexta em começos de outubro ouvindo
o filho da minha vizinha cantar uma música que parece 1 hino que eu já devo ter ouvido antes, em algum
evento esportivo e não me lembro, infelizmente
não me lembro.
Estou feliz.
Tá durando tanto que eu nem sei o que fazer, jajá vai dar 40 minutos
de muita
euforia, e
agora?
Acho que é porque eu existo. E do mesmo jeito que amo a tranca do Triste,
Estou descobrindo também a roda do Leve, um mecanismo 0
Complicado.
Devo voar em pouco tempo, não é possível estar assim tão alegre e continuar na terra. É Indecente esse meu
sorriso, mas eu não
consigo
evitar, estou dou
rada. Estou
sabida. Despreocupada como quem bebe um Guaraná ao invés
de cachaça, meu cachorro
de olho
Em tanto Gozo sem porque.
Vou pra Rua, tenho planos de
Contaminar meu porteiro e a mulher do vigésimo primeiro
Andar
que trabalha vendendo cocada
Sempre tão fechada em suas dores que ficou
corcunda.
Espero me manter feliz até pelo menos
o fim da tarde.
Depois, coloco 1 disco da Billie Holiday e sigo melancólica no meu tapete de calcinha, o que também
é uma delícia, meu deus.

fa.fn8b (51x54- oil on canvas- 1999- Monte Carlo)

(na foto, a tela de Karim Hamid)

os Três

Passeiam na rua 1 cão,

1 homem e

1 mulher.

Eles têm qualquer coisa de Chilenos dentro

de si,

usam malhas escuras de inverno apesar de não ser ainda

inverno, é

fim de verão e caiu há pouco uma bela chuva que deixou a

rua

úmida como memória.

O homem e a mulher não carregam alianças ou

mãos um do outro, mas

Se nota que são esposos. Há entre eles um peso velado dos anos que

passaram juntos, inclusive o cachorro, velho,

um cão que deve ter sido

um possível presente

De casamento.

Era noite depois da janta. O homem e a mulher conversavam

Baixinho sobre:

 

– Separação.

Conversavam pingado,

Longas pausas, olhos de quem se desistiu.

Amor infinito não existe, eles

Tão sóbrios

Bem Sabem. Com quem vai ficar o cachorro é a questão complicada, o cão sem coleira

logo

morrerá dentro do tempo bastante estendido de sua existência. Quantos anos ele tinha, 18, 19? Com essa idade,

uma pessoa ainda é criança se for pra falar de

-Morte.

Já pro Cão, é preciso urgentemente que ele passe Feliz

os últimos anos, se forem anos, de sua vida. O futuro ex. casal deve isso a ele, além dos passeios noturnos, dos banhos semanais e da ração importada 3 vezes por dia.

O homem e

a mulher fingem que não sabem de quem

O cão

Mais Gosta, está claro que ele gosta mais do homem. Eu também,

mais do homem,

o cachorro trouxe muito do Chile, mas

veio. A mulher nem isso veio,

decerto ela se esqueceu por lá. O único Inteiro da turma era o homem. Com suas dores, suas saudades,

Suas estações de rádio preferidas, ainda assim,

Ele

era todo Agora.

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Insônia

(aos que preferem a vida que acontece de noite) 

Virei de costas pro espelho e olhei minha bunda:
Que merda, -pensei.
Quem dera ela nua
fosse tão boa quanto é de calça. Essa história de refrigerante é o que me fode.
Minha bunda
é o resultado do açúcar e eu devia mesmo tumblr_lst0nm0Ghy1qzutuuo1_500
é só comer fruta mas
existo
e prefiro
o chocolate.
Continuo a análise. Estou entre triste e
bem humorada, porque
afinal
é uma bunda feia que ninguém
jamais
recusou.
Só mulheres e, se eu fosse lésbica,
aí sim
eu estaria na merda. Não há nada pior do que o olhar de alguém
que tem
o mesmo que tu.
Largo do espelho, vou à cozinha. Escolho sempre a cozinha quando é noite de lua cheia.
Abro
a geladeira
ansiosa: quanta diversão, meu deus. Do pudim a cerveja, a vida deve ser terrível pra quem
não tem
comida.
Além de toda aquela merda do quem eu sou? e pra onde eu vou? Toda aquela porra de angústias existenciais,
ainda por cima
Você
Não tem nada
para comer.
Mas sempre resta o trepar, o que dá
praticamente,
na mesma.
Faço um sanduíche pensando nisso e pensando no pinto daquele professor de Geografia, enquanto meu dog dorme pesado ao lado do fogão.
Ligo o rádio, é John Coltrane e eu
tenho vontade de chorar.
Choro.
Os programas todos ficam bem melhores depois das 2,
assim como as janelas e também
as praias.
Já viu o mar de madrugada? Já viu você? As coisas ficam muito mais interessantes
sob a luz da lua.
Menos minha cama,
claro.

Paixão

Sei que
do nosso amor
não vou me esquecer
nunca.
Sempre haverá no travesseiro
na nuca
no creme de passar na pele
algo de ti
um pouco de mim
um cheiro de nós.
Fizemos no carro
Assistimos Zé Celso
Fomos na padaria de sábado a tarde
Eu fiquei te esperando
Você perdeu a hora
E depois tomamos chuva.
No meu aniversario, você me deu bombons e perguntou o porquê
daquela cicatriz na minha coxa.
Fomos ao teatro ver comédia de mãos dadas.
Agora
você é o ator.
Seus sucos, que você sempre tomava
E o documentário de carnaval que assistimos
Jantamos na rua de luzes.
Entramos na loja de máscaras.
Nos beijamos em cada farol vermelho.
cê arrancou minha calcinha com os dentes.
E me lambeu por vezes que não pude aguentar.
Não pude.
Fomos ao municipal ver a ópera, eu tava de chinelo e a sopa do intervalo te fez muito mal.
Eu guardei aquela garrafinha azul, sabe?, queria lembrar de você
pra sempre.
Como se precisasse.
Jogamos xadrez
Você fumou
E me mostrou suas mágoas
Seu quarto
Sua cama
Me deu um livro
Me deu dois livros
Um cd gravado do Chico
E uma bata
E uma carta que eu achei que era pra mim
Mas era uma conta
Cê ficou sem graça, me deu um beijo
E o teu cachorro morreu.
Tenho saudade dos seus lençóis e das músicas que você me colocava.
Toda vez que escuto Joni Mitchell
ou Bob Dylan
em alguns bairros,
quase em todas as flores e
Em muitos homens
morenos
Eu vejo você
Eu sinto você
Faz tempo que a gente não transa, mas não nos meus sonhos.
Podemos ficar a vida sem se ver, com você casado, apaixonado,
não importa.
Toda vez que penso em ti, eu juro, é a mesma sensação do primeiro dia
que você chamou meu nome.
cê me tocou no rosto em maio.
Me beijou a boca em junho.
No frio
Sentados
Na escada, com suas meias pretas e seu tênis claro, seus pelos e sua vergonha.
Você é um homem tímido pro seu quase um metro e noventa. Não sabe olhar nos olhos, mas sabe beijar um corpo.

Não se engane se algum dia tu achar que acabou.
O que eu sinto por você me acompanha e segue firme
desde o momento em que te (re)conheci.

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AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR PLÍNIO

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na paulista vi uns putos gritando preconceitos e pedindo assinaturas.
Algumas, não poucas, pessoas assinavam. Que porra de cidade de merda. Não aguentei e gritei sou gay pra ver se eles me queimavam. Os reaças deram de ombro.
Claro.

tenho bebido muito refrigerante, pegado metrô e descobri anteontem na revista
que gostar de cachorro é instinto.
5 páginas
sobre o amor que se sente,
do ponto de vista científico.
Certo.

a cidade é cheia de bosta.
gente fedida
gente mal perfumada
mal educada
e gulosa
o que dá tudo na mesma quando se está em horário
de pico.

andar na rolante
pegar o trem com blusa transparente.
Pés, passos, pés
Passos
Pés
mas
e os sonhos?
Nunca saberei o sonho de ninguém, quiçá só daquele fellow,
que não tirava os olhos do meu peito.
Cara de bobo, calça caída ele se esqueceu do meu rosto
ficou só com a teta.
Dele eu sei o sonho.

A cidade é feita de rodas.
em salas de espera só tem revista
nunca livro.
de vez em quando encontramos um conhecido
com o abraço e a promessa do encontro, prum café
que never ever
irá acontecer.

no banheiro do shoppinho, na vitrine ou na praça de alimentação eu sinto
a ânsia daquele feeling
de out of control porque hoje,
em pleno doismiletreze,
eu vi aqueles putos gritando preconceitos e pedindo assinaturas.

Algumas,

não poucas

pessoas assinaram.

Quarta de cinzas

Bom mesmo tem sido essa sensação de mudança que me assola.  Essa intuição de que as coisas

(empoeiradas since 1987) 

vão sair do lugar,

trocar de cômodo,

de cor,

de cova.

Outro dia mesmo, pra vocês terem uma ideia, acendi meu cigarro

no fogão.

 

Vida rima com mudança . Por isso, nego

tudo o que for acomodado

atravancado

estático de dar desespero.

Quero o movimento, a surpresa,  a não-

rotina, o não-

diagnóstico: se é pra morrer, meu chapa

tudo bem, eu morro. Não me interessa saber o motivo.

 

Não duvido de mais nada. Nem de deus e muito menos do filho da puta que matou um cachorro na praia

só porque,

vejam vocês,

o dog estava atrapalhando os banhistas que jogavam frescobol. Estava atrapalhando

porque pegava a bolinha e não soltava, ficava brincando, queria atenção  

e morreu por isso, em meio a bundas encharcadas de filtro

solar  para

evitar o câncer

Percebem? Prum filho da puta, o motivo é o que menos importa.  E o escroto ainda comemorou o ano novo, teve a pachorra,

bebeu com os amigos e o cacete, rumo a podridão. Um brinde aos porcos, feliz doismiletreze.

 

Nojo.

 

Ainda bem que é tempo de mudança. Começo um novo emprego na segunda. O biscoito é fino, em bairro nobre.  Dessa vez eu me dou bem, juro. Parece até que acredito no futuro quando uma brisa de esperança

quase toma conta de mim.

 

Mas é só olhar pela janela e a gente entende que as coisas,

elas podem mudar o quanto quiserem.

However a merda, essa continua

sempre

a mesma.

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