ombro

andava tão quieta. em todas as conversas ela
só ouvia.
tinha um rosto de gente interessada, daí o abuso, mas
por dentro
ela era
lotação da
Sé.
Precisava dizer umas boas, também,
Umas perguntas do tipo
Depois que morro nunca mais vejo meu corpo nem os corpos das pessoas que amei?
Só que antes
Ela precisava encontrar alguém de ouvido grande
maior que a boca ou pelo menos os 2
do mesmo tamanho,
que luta, ela pensava,
olhando a cidade de são Paulo 6 da tarde esperando o
busão
que demoraria muito,
muitíssimo
pra passar.
Antes
precisavam passar os carros que estavam na frente e parecia que sempre
tinham carros demais
na frente
de Ana.
Respirou fundo, de uma profundidade que
se fosse em metros,
Dava longe na nova
Zelândia, saltos
de bungy Jump
Sem vista pro mar. Cidade de pedra essa são Paulo, com suas
pessoas de pedra.

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Não adianta olhar a mesma imagem achando que vai ser diferente

ela puxou o espelho da bolsa,

era só 8 e 15 da matina, um espelho pequeno

que veio

Com o batom que ela também puxou, mas

antes de passar na boca, mexeu insistentemente na franja e no canto

do olho pra

esticar as rugas, como se pudesse mudar qualquer coisa no rosto sendo apenas

persistente.

Queria parecer Bonita, isso

Era certo. Vestiu com cuidado o batom cor de boca. Foi quando na catraca

um homem entrou aos 50. o banco dela era logo o primeiro: o homem

sequer a notou. Passou por ela como se passa por uma

galinha.

A mulher entristeceu, o homem

era um teste. Ela sentia muito medo de ser aquela primeira imagem que via todos os dias de manhã no espelho do banheiro de casa, com a pele amarela, os lábios sem viço, o tempo

passou

e mesmo antes de passar,

ela nunca tinha sido bonita na vida, dela diziam: Que Silvia?

A mulher que o espelho do banheiro vê de manhã não é A mesma mulher que o espelho da bolsa vê de manhã, – ela repetia baixinho pra si.

Vestir o batom é

Vestir batom no peito, também. Muda alguma coisa dentro

depois que uma mulher usa maquiagem. Mesmo feia, alguma coisa

mudou. Era pouco. Era semi invisível. Mas era melhor vê-la com batom do que

vê-la

sen (do)

A mulher se levantou pra descer do ônibus. De calça branca,

sua Bunda

era Ok e desceu sem alarde a ladeira da

esquina. Com o sol que tava, o batom cor de boca não dura mais que 15 minutos. Se beber algo, então,

Pior

e a vida sem ela no ônibus seguiu normalmente.

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Fiu Fio

das cores
podemos só
escolher
meia dúzia
pra passar nablade-runner-tournage-polaroid-01
boca.
Podiam ser mais, podiam ser todas, o azul 
o verde
o banqueiro
o médico
todo mundo que quisesse passar batom que passasse
os feirantes, os rabugentos, imagine aquele puto brigando contigo de
batom, seria bom, seria
humano, minha avó, tua sogra,
passar cor na
boca devia ser decreto
pra antes das refeições, assim
a gente não esqueceria nunca do quanto existir é
efêmero, a Morte
estraga festas como um
guardanapo estraga
a pintura, esse
creme de
lábios,
amanteigado e
didático
devia ser also
democrático,
assim como
o Amor e também
Deus,
no dia do juízo
final,
deve
passar Batom pra
conversar com a gente sobre
suas
Sapecagens.

 

(c)oração da ex

tumblr_ldvjwpO32Y1qcaz72o1_500_thumbAcordei com um gosto na boca que não sei se era seu.

Ontem

dormi com pessoas que não eram você.  Pra te esquecer, amor,  que bobagem, mas não deu certo. O gosto daquela gente

lembrou-me o seu.

 

 

Que dor de cabeça, me olhei no espelho. Estava linda, que estranho.

Tu ia gostar.

Tomei um gole de whisky antes do café. Foi tu que me ensinou assim. Estava de camiseta sem calcinha mas com meia que,

em São Paulo,

outono parece inverno

e eu não tenho mais você.

Escovei o dente.

Teu terno ainda está aqui.

Eu o odeio, mas que merda.  Um dia

tu terá que vir busca-lo.

 

 

O porteiro contou, viu, do teu carro.  Estacionado,

de olho na minha janela. É vontade de boceta? Sei que é.

Aposto que cê ouviu dizer que agora eu faço dança. Te amo

mas não quero te ver. Corro o risco de sentir-te feliz. Constar penosa e lentamente que eu

já não te faço tanta falta.

Por deus não, que maçada, prefiro a saudade. Lembra dos nossos domingos sem tédio?

Líamos poesia um pro outro, nus, grifando frases, você sempre perdia o teu lápis mas nunca as mãos. Minha bunda era teu parque.

A gente beijava beijo longo

que molha

que leva

que agita.

Até filme de terror a gente via e eu não sentia medo. Com você nem da morte.

Nem da vida.

Morar contigo era melhor do que ter um cachorro.

Melhor que ouvir na vitrola

as canções malucas dos Mutantes.

Meu amor

Volta.

Tua vida sem mim não é tua.

Vamos tomar uma ducha

esquecer das besteiras que te fiz.

Cê me chupa e me perdoa, toma um drink, deixa a louça.

Volta. Que eu te mostro o quanto é lindo

comer a mulher da tua vida,

além dos novos truques que eu aprendi na aula de dança.

Lolita Pimenta ou A presa

Olhos azuis tão azuis os seus. Coisa rara, linda de se ver. De se ter e você
tem.
São olhos pequenos
rasgados
que me causam arrepios
por todos os lados. Olhos celestes de uma terra muy distante.
Têm um quê de loucura também, um tempero, uma malícia de homem que já viu muita estrada, comeu poeira e mais de mil mulheres, ao som de Johnny Cash. Sempre o Cash, que eu te conheço. Sou menina, mas cê não me engana. Na cama
es um lince.
Um bárbaro.
On the road, o asfalto tem seu cheiro. Cê é livre, prematuro e sabe que a poesia vem do sexo.
Não tem casa só tem carro e claro,
não se apaixona nunca
(ou quase nunca)
porque sabe do poder de uma buceta.
Sou menina, mas leio muito
e achei Bukowski outro dia, na sua prateleira.
Entrei no teu quarto, fucei nas tuas coisas, cheirei tuas cuecas e
levei uma.
Minha mãe descobriu, me deu uma surra.
é que ela não entende que eu

gosto de tu.

E gosto também da sua cara. Cê é jovem
mas tem ruga.
No cartório, 29, mas te olhando uns 34.
35.
Boca fina
Avermelhada
que se abre em gozo quando passa uma mulher que te agrada.
Já te vi olhando uma mulata.
Tua boca denuncia o desejo,
te reparo.
cê me mata.
amo tua barba, que é das grossas e é morena, como eu. Sou pequena, mas cê me cabe. Cê me ensina, eu te aprendo.
Quando tu senta na calçada de perna aberta e jeans antigo
eu sinto que o mundo inteiro
podia parar ali,
acabar em ti.
Cê é a soma de todos os homens que eu sonhei pra mim.

Daí num belo dia, foi na quarta ou na segunda,
Você provou da minha boca.
Eu tava lavando teu carro, do jeito que cê tinha mandado. Fazia um calor da peste e eu vestida de branco. Me molhei um pouco.
Fiquei transparente.

Você, que me olhava da rede, abriu a boca de desejo
daquele jeito que eu tanto conhecia.
Senti um frio na barriga. Há anos que eu morava ali,
contigo,
e você nunca
tinha me visto.
Agora me vinha assim, sem pressa, andando safado em minha direção.
Teu jeans
Tua bota
Teu cheiro cada vez mais perto.
Eu tremia por dentro, era menina. Te provocava do meu jeito mas não sabia das coisas. Tive medo.
Me virei de costas pra ti. Minha calcinha
era vermelha, eu tinha
15 anos e você cada vez mais perto.
Mais perto
Feito lince.

Já podia sentir tua respiração.

Me virei de novo. Dei de cara com a sua
boca.
Teus olhos azuis
ainda mais azuis
por causa do fogo.
Cê me pegou pela cintura e sussurrou entre os dentes:
– Você cresceu demais, Mariana. Tua mãe te criou direito.
– Senhor, eu..
Me beijou a boca
me arrancou a roupa e me comeu ali, do lado do carro. Não deu nem tempo de desligar a mangueira.

 Imagem