um quarto na estrada, pelo amor de d(eus)

Conversei com um poeta não sobre poesia,

foi sobre o Brasil ser um país tão grande e ainda assim, continuar sendo 1 país e não

países. Ele me disse pra trocar a grana que gasto com plano de saúde

por

cair na estrada de bolso

cheio, já que a Saúde no brasil é nota

preta e eu

ainda sou moça, a chance de ter doença é curta ou vale o Risco pra ver o Rio

são Francisco

passar.

Outro amigo me disse que

no ano próximo

Ele larga Tudo

e pega o trailer

que tem montado ao longo dos anos até com gasolina

pra conhecer a América

Latina, só volta

Quando acabar de ver, mas

essas coisas de conhecer lugares

não acabam

nunca. Uma pessoa

só vira pé

soa

na Cidade, mergulhando nela. Pode ser uma cidade com ruas de terra batida, cadeiras na calçada onde sentam a gente pruma prosa sem pressa ou

pode ser uma cidade

de aço

que mal vê seus habitantes em carne

e osso, só

prédio,

terno,

sapato, não

importa, tendo várias vidas dentro, então a Cidade transforma e

transformará.

Uma vez fui pra Minas Gerais e vi

perto da rodoviária

um homem deitado na rua dormindo com o cabelo

duro, dormindo às 3 da tarde, se eu voltasse às 7 da noite

Ele ainda estaria dormindo, uma vida

de morte,

onde os que moram na rua Arranjam aqueles cobertores cinzas todos iguais? Ou já tinham, antes de morar sem casa, e depois sabendo que a noite é fria, levaram de mala 1 cobertor?

Onde eles cagam?

Cadê a merda das pessoas sem casa? Nunca trombei com merda humana fora dos banheiros públicos, mas penso nela

o dia inteiro

E depois de ver

Tanta gente pela janela do ônibus e depois de ver

Tanto asfalto9520039294_68c981a5b6_b

pela janela do táxi, dentro

e fora da cidade que

moro, eu

já não posso

escrever do mesmo

Jeito. Vou cancelar meu plano de saúde por telefone. Vai me demorar um bom (?) tempo

já que ninguém

nunca quer

Perder

Dinheiro. E quando eles me perguntarem do outro lado da linha por que raios

eu gostaria

de cancelar algo tão importante como o acesso à saúde, então eu direi que Ver o que der do Mundo é muito

mais importante, e que eu não tô falando de hotéis. Tô falando do ato

De se movimentar por terra em busca

Dela e do que as pessoas fizeram

Com ela. a Estrada

Abre

o terceiro olho

que fica sendo o

primeiro num buraco largo na cara

diante da Potência da vida rápida e nova que não é sua, mas

passa a ser, a partir do momento em que você coloca os olhos nela.

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o dia em que eu gastei dinheiro demais

era um cantor preto, careca, voz de

sereia, o meu cantante preferido daquele programa que, em meados dos anos 90, estava só

começando, mas

agora

já é a velha forma de reality

show.

Eram uns 15 cantores concorrendo a sabe-se lá o que, tinha a ver com 1 prêmio em dinheiro e

Vaidade, todos

tentavam muito ser o melhor segundo o público e os

jurados. Eu,

só tinha olhos pro meu calvo cantor preto.

Ele não era como os outros, bitolados na tela da televisão. Ele,

era trejeitado pra falar quando não estava cantando mas

na hora das suas apresentações

ele deixava

o acaso agir e destampava o palco que virava um buraco fundo de muito blues e sou(l). Eu acreditava em deus ouvindo esse homem

cantar. Ele carregava na voz

Aberta

a história da família inteira, a vó cantava na beira

do Rio

Lavando roupa, a dela e da metade da vizinhança, mulher-trabalho,

a gordura

nunca a impediu de acordar cedo todos os dias e

que Timbre!

A bisavó era coro na Igreja, ficou mais famosa que o padre, o pessoal só ia na missa pra ouvi-la

cantar. Rezava o terço em voz de lamuria e nunca se ouviu coisa mais bonita

em toda Minas

gerais.

O pai

Cantava na Obra e a voz do homem

se ouvia lá do último andar no prédio que morava colado no que ele construía.

Depois andando pro ponto de camisa aberta e

a pinga,

ninguém dava nada pelo sujeito, um tipo cu seco, vesgo, boca torta. Agora da janela dos prédios tinha gente que chorava ouvindo o homem cantar. Dona Dora, a síndica, dizia pro marido que pagaria até ticket

em teatro grã-fino só pra conhecer o dono

da voz

do blues. O marido ficava puto. E passava duro na rua

pelo pai do meu preto, procurando o maldito cantor que deixava Dona Dora tão acesa sem nem desconfiar

da reza

1/3.

Essas historias,

meu cantor contava em entrevistas rápidas

nos bastidores do vídeo Show. Suas falas nunca eram protocolares,

Ele aumentava as lentes das câmeras de televisão e chegava imenso na gente sentada no sofá o assistindo, aquele sujeito

Era Incrível. Eu tinha 10,

11 anos, pouca coisa pra fazer na parte da tarde e um dia,

No programa dos cantantes,

meu cantor ficou na Berlinda,

Estava pra sair do programa e dependia das nossas

ligações. Pediu ajuda olhando pra`s câmeras, eu gelei.

As minhas tardes sem ele, imagine, ficariam

Desastrosas de tristes naquele calor horroroso de novembro, minha mãe me chamando

Pra secar louça e eu

sem desculpas pra dar de que estou fazendo

Outra coisa, mãe, agora não, porque eu não estaria fazendo absolutamente nada e ela perceberia, meu ócio estava por 1 fio. Além do mais o preto ainda não tinha cd gravado,

o programa era a sua chance,

aos 11 anos eu não sabia que existia Muddy Waters e Nina Simone, meu cantor era único e eu queria que ele tivesse

todas as chances do mundo, meu primeiro

grande

Amor.

Peguei o telefone e disquei o zero

800

do time dele. Liguei quantas vezes, 1000,

2000? Eu tinha tempo, era menina e meu preto

saiu coisa nenhuma do programa, ficou que foi uma beleza até a semifinal, o problema foi quando

veio

a conta de telefone e meu pai gritou meu nome

lá da cozinha de

cinta

com uma voz

Rasgada

que não lembrava em nada

meu cantor voz de

sereia.

Ela queria demais

ouvia blues

descontroladamente

e pintava as unhas do pé

de vermelho,

numa tentativa frustrada de

tentar ser mais feliz. Não lembrou do que sua mãe lhe dizia, que

ser um pouco

feliz já está muito bom, queria mais

queria tudo, olhava até pra Lua

com uma certa

desconfiança.

Achava que escutando a música mais triste e usando um esmalte de musa

ela ficaria quente por dentro. Porque assim estaria

pronta pra quando

o mal viesse, feito um amuleto. Um pouco ela ficava mesmo, mas a vida

tem outras necessidades. Como amar os animais

e comer comida boa.

Ela fazia exercícios, chamava Martha, inclusive um

específico

de ignorar as pessoas do mundo.

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Mesa pra um

Nas ruas os pés sem cabeça,tumblr_ljyo6lHa8t1qe7ucso1_500

as placas.

Não olho nunca pros rostos,

nunca pros olhos, que eles dizem demais pra quem sabe de menos.

Prefiro a janela e uma bela macarronada.

O apartamento em paz e sem tv.

Cortinas cremes, um suco, alguns livros que não sei qual começar, é difícil,

me parece definitivo escolher uma história só. Sou mulher de muitas, não há vazios por onde amo.

Tentei o rádio, mas é só notícia e eu não quero notícia: quero voar.

Voltei a vitrola, olhei discos.

Talvez eu devesse voltar a pintar. Ou talvez eu devesse continuar a dormir. Não sei. De que vale a vida, afinal? Me vem vontade de morte toda vez que o céu

fica assim rosado.

Mas quando escurece passa. É que escurece também em mim o medo e as coisas podres.

Queria juntar no peito todas as contradições do mundo. Queria que nada fizesse sentido, nem meu corpo, e que nenhum homem jamais se aproximasse de mim por causa dos seios.

Mas é sempre pelos seios e eu me sinto sozinha. Não quero ser carne, o desejo me assusta. Não gosto de festas e nem de sertanejos.

Da música,

preciso do blues e da cerveja e de alguns compassos que me façam ter coragem de olhar nos olhos.

Semana passada eu estava na rua.

Mês passado também, de bicicleta, que uma mulher, once in a while,  precisa de ar. E de amor. E de algumas carícias na coxa.

Qual o quê!

Impossível encontrar um ser que te queira como és. O que vejo são seres que querem a-si–mesmo, num dueto do sozinho infinito. Assim fica fácil, assim fica sexo. Eu passo.

Prefiro a janela e uma bela siririca.

Não me importo de ficar nua ao meu lado, pelo contrário, me sinto leve.

Tenho Bukowski no travesseiro e Beatles no meu carro, eu tô legal.

Entre o amor só

e o amor egoísta

eu fico com o livro.

 

 

(Smiths aqui)

O diário da amante

(leia ao som de um cigarro)

Nossos olhos se encontraram pelo espelho.

Puta que pariu.

Eu estava mesmo a procura de um amor reviravolta, só achei que ia demorar mais um pouco.

Meus lençóis ainda estão quentes.

Eu quis fugir-te. Essa história de colocar olho no olho me cheira a estupro. Parece que a pessoa está te lendo toda, sugando teus pensamentos, te deixando nua.  Assim mesmo, sustentei tua encarada por alguns segundos. Foi o que aguentei. Minhas costas ficaram úmidas e também minha calcinha. Qual é o teu segredo?

A voz?

A barba?

Socorro, baby.

Esse teu jeito de como-quieto-e- não- te- ligo me deixa louca. Não me olhe mais assim ou eu vou te.

Bom.

Vou te dar uma chave de pernas.

Aposto que tu nem reclamaria. Sei que sonha comigo, que imagina a minha bunda e, na noite passada, imaginou meu peito. Minha barriga. Ai, que cê deve comer tua mulher

pensando em mim.

Teve um dia que cê veio me falar um não-sei-que e encostou a mão no meu ombro: meu sangue subiu pra bochecha. Não sou tímida, repare, só não sei lidar com a paixão.

O que eu sei é que nos daríamos muito bem.  Na cama e fora dela. Discutiríamos García Márquez ao som de John Coltrane. E depois falaríamos de deus

e de como ele tem sido um velho sacana. Conversaríamos sobre trabalho também,

mas só um pouco. Depois nos comeríamos, cada um com seus órgãos, mas nunca gozaríamos juntos.

Sou eu que preciso de mais tempo,  por causa do amor e também

por causa do clitóris.

Tua mão no meu ombro eu nunca esqueci. Prometo. Tu é rústico e isso me excita. Tu é casado e isso me fode.

Gostaria de conhecer tua mulher.

Ela faz o que? É arquiteta? Aposto que trabalha com decoração. Deve ser bonita, que tu merece. Mas não deve ter sal nem pimenta. Ela dorme de calcinha grande, acertei?

Eu durmo só de lavanda.

Ela deve ser loira, nariz perfeito, mas pouca bunda. Eu, amor,

sou puro Blues.

Te deixo louco sem você nunca ter me tocado.

Pensa nisso.

pensa em mim e pensa no meu corpo em cima do teu. As probabilidades de encaixe

são grandes.

Vou te deixar meu número na porta do carro, quer?

A gente combina um café, ué, não tem gente que pede indicação de livro?

Conselho pra vida?

Dinheiro emprestado?

Pois então.

Eu

só tô  te pedindo uma chance.

Homesick

no telefone

ouvi de ti muitas coisas de ontem

enquanto tomava um café

salgado

porque quando se tem sono

sal e açúcar se parecem

tanto

que chega a ser perigoso.

 

 

Ando em minha casa descalçada: de camiseta e sem calcinha porque

porra,

se eu não posso ser

rainha

da minha sala

que puta de merda eu farei na rua?

 

 

Minhas janelas são sem cortina, tá tudo lavando, o que é bem normal em apartamentos de cidade grande. Minha

casa

tá pelada e hoje a tarde me bateu uma vontade

de trocar de roupa bem na  frente da janela, o que é que tem?

um par de tetas não é lá grande coisa

prum vizinho que me olha da esquina.

 

 

Fiquei de jeans sem blusa

pelo tempo de um cigarro na varanda.

O corpo nu é sempre um alarde.

 

 

eu não entendo porque as pessoas se ofendem mais

com bundas

do que com elas mesmas.

Outro dia, pra tu ter uma ideia, fui à uma loja de cosméticos e a moça,

uma tetéia,

tirou de mim a maquiagem, na frente do espelho,

pra ver se a nova base que eu comprara

caia bem na minha pele.

A moça  me pegou de surpresa, me deixou de cara limpa, eu mal conseguia olhar no espelho, tive náuseas,  a tetéia

me fodeu,  arrancou de mim o que me esconde e eu, porra, fiquei mais nua sem rouge

do que sem blusa.

 

 

Sai da varanda, fui pro quarto.

liguei meu abajur em meia luz.

seis da tarde e tu

me ligando

feito louco.

Não atendi  teu telefone.

Ouvi de ti tantas coisas de ontem que queria mesmo

era ficar sozinha.

Coloquei na vitrola o jazz que me faltava porque o blues, baby, esse me sobrava.

A vida

às vezes

é

tão

pesada.

Eu só queria ir ao cinema sem ter que pensar nas mil coisas que vão desde o preço do estacionamento

até a cor do sutiã que combina ou não com a blusa.

Meu deus.

Eu só queria ir na porra

de um cinema

ler o Hank e te mandar

pra puta que pariu.

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