eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

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o retorno

que rosto, o teu.
é de garoto com esses olhos de janela pro mato,
uma casa nova
num velho bairro que chove muito no verão, você.
Não reparei na sua altura,
Nem na sua falta de tato no
abraço, nem nos seus textos. Quase não
Reparei que reparei em você de tão leve que foi.
Percebi depois, que passou o dia,
e teu rosto ficou insistente no fundo do meu olho enquanto eu dormia e até hoje.
Entro no sono e vejo
teu rosto que percorro com todo o meu corpo como quem viaja de bicicleta pra longe e precisa ir lento
porque a perna é 1 só.
não tive coragem de perguntar a tua idade, você deve ter não mais de 20
anos.
Se veste de caso pensado, acha importante umas coisas
que não tem a menor importância no meu hall de presto atenção, como meu cadarço desamarrado da bota que você me avisou:
– cuidado.
pensando que eu podia cair.
Acho que te ganho em altura por uns 5 centímetros.
Fico imaginado nosso beijo em um lugar dançante. As pessoas aglomeradas nos juntando cada vez mais até que a nossa boca cole, tua língua
Entra,
engulo um hálito
morno e,
Um pouco mais tarde,
engulo teu pau
no que seria
Uma chance que nos daríamos para esse ímpeto de encaixe que bate e é forte, faz o peito crescer.
No fundo, a gente só quer se conhecer
melhor porque estamos muito curiosos nos achando parecidos.
Não seria amor, seria uma
Chance que eu daria também pruma cidade inédita que me fizesse Sentir. Moraria nela, tenho 1 amiga que fez isso e está viva,
tomando cerveja
na rua de quinta, a nova sexta.
Ela Foi pra Porto Alegre e nos bares se sentiu em casa, agora está em busca de um apartamento.
Gosto de pensar em você como um apartamento que quero morar porque tem uma vista das mais Bonitas, inclusive de dentro das minhas pernas com
a tua língua num entra e sai
de buracos, teu pau te fazendo morar
Em mim, com
Você inteiro, homem-menino, dentro de mim e já no útero, no fundo penso
que o apartamento sou
eu.

o Gato

me disseram de você, me disseram tantas coisas sobre o seu olho

verde, seus músculos de

magro, sua cor negra branca, seu hálito com dentes

tortos na medida

certa, imagina as mordidas que ele dá quando

ama, imagina como ele olha quando o pau

está duro.

o humor dele, me diziam.

o pelo dele, suspiravam.

Escutei as impressões das pessoas em você como se escuta

uma história

muito antiga num livro

didático e você

ao meu lado, sem se saber

tão desejado pela esmagadora

maioria.

A gente se olhou algumas vezes

bem na cara. Eu estava distraída à beça com a paisagem, mas

a gente se olhou bem na cara

e aquela conexão dentro de nervos como tomada se dava em silêncio, não prestei atenção.

Só soube o quanto

você me Transtorna depois, que nunca mais te vi.

Agora,

fotos e punhetas no banheiro.

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Não adianta olhar a mesma imagem achando que vai ser diferente

ela puxou o espelho da bolsa,

era só 8 e 15 da matina, um espelho pequeno

que veio

Com o batom que ela também puxou, mas

antes de passar na boca, mexeu insistentemente na franja e no canto

do olho pra

esticar as rugas, como se pudesse mudar qualquer coisa no rosto sendo apenas

persistente.

Queria parecer Bonita, isso

Era certo. Vestiu com cuidado o batom cor de boca. Foi quando na catraca

um homem entrou aos 50. o banco dela era logo o primeiro: o homem

sequer a notou. Passou por ela como se passa por uma

galinha.

A mulher entristeceu, o homem

era um teste. Ela sentia muito medo de ser aquela primeira imagem que via todos os dias de manhã no espelho do banheiro de casa, com a pele amarela, os lábios sem viço, o tempo

passou

e mesmo antes de passar,

ela nunca tinha sido bonita na vida, dela diziam: Que Silvia?

A mulher que o espelho do banheiro vê de manhã não é A mesma mulher que o espelho da bolsa vê de manhã, – ela repetia baixinho pra si.

Vestir o batom é

Vestir batom no peito, também. Muda alguma coisa dentro

depois que uma mulher usa maquiagem. Mesmo feia, alguma coisa

mudou. Era pouco. Era semi invisível. Mas era melhor vê-la com batom do que

vê-la

sen (do)

A mulher se levantou pra descer do ônibus. De calça branca,

sua Bunda

era Ok e desceu sem alarde a ladeira da

esquina. Com o sol que tava, o batom cor de boca não dura mais que 15 minutos. Se beber algo, então,

Pior

e a vida sem ela no ônibus seguiu normalmente.

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O Prego

da beleza das flores estão todos
cansados
de saber.
Ela é
linda, dizem,
desde a Grécia dizem, desde
o começo do Amor.
Mas
e quanto ao
Vaso, esse
pai
esquecido?
Flor não tem asa nem mão. Das que saem do jardim, das
adotas na Floricultura,
quem
segura
todas as barras?
Quem é o Discreto que sustenta o belo?
Quem é transparente mesmo se colorido?
O foco não é dele mas ele
não liga, não
há ego num vaso, há terra
ou
água, é como o chão do mundo e
ser útil
é tão comovente
quanto ser
bonito.

 

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(*ilustra by Leonardo Ramadinha)