eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

sobre seu luto

– seu pai morreu,

telefonaram te avisando

 

não te vi recebendo a Notícia

mas Imagino

seu corpo derretendo

sobrando só duas bolas

soltas

com um preto no meio que é a sua íris

Petrificada.

todo dia

imagino o que seria de mim se o meu Pai

morresse,

se alguém me ligasse

contando o que já sei

mas espero que seja num futuro tão Longe

lá pra depois

do último

país

do mundo.

acontece que o futuro

Chega

e quando chega

cai no colo que ainda é nosso.

seu pai morreu jovem, 60 e

poucos,

o tempo passando é físico,

os cabelos brancos do meu namorado me assustam.

a morte

tem que ficar distante pra ninguém se matar,

o relógio guardando

o poder da data, mais um domingo passou.

e outro.

e nove. quem inaugurou a morte

na sua família foi seu pai desbravador,

homem-coragem que primeiro passou pelo estado de sexo, depois

o embrião que venceu.

depois vivo dentro da barriga crescendo,

depois vivo saindo da vagina elástica,

depois vivo na vida, andando

pintando, estudando,

pegando taxi, tendo você.

depois ele passou pelo estado de um pouco antes de morrer, os segundos antes, até que

finalmente

pela Morte em si

e o nada,

quando alguém

morre

a esperança de que deus existe morre junto.

seu pai

passou por tudo antes de você, ele te conta disso em detalhes

através do corpo

agora amarelo.

você teve que comprar caixão,

escolher uma roupa, foi terno?, pagar as despesas do velório

desde a gasolina pra chegar no velório

até o padre, no meio

as lágrimas, seu peito rasgando, aquela sensação de não Acredito ontem mesmo

ele estava vivo,

todos os mortos de hoje

ontem

respiravam.

também uma risada que brota tímida em você

por lembrar do quanto teu pai era maluco,

 

nesse exato

instante

no quarto que ele pintava

bate

um sol.

 

no dia daquela viagem pra praia teve briga, você voltou antes

e odiou seu pai por semanas.

passou quando vocês almoçaram juntos,

morrer desperta memórias

que nos fazem olhar pra elas com mais

carinho,

de que adianta brigar ou ser triste agora que Acabou?

você lidou com a morte de um jeito que fez o amor saltar.

o amor

virou protagonista da perda, o amor pela vida do seu pai.

naquela dia que conversamos,

e se você soubesse que seu pai tinha só mais 1 mês de vida?

o que você faria

antes de

enlouquecer?

pegaria um carro, um voo

pra Roma?,

pra casa da sua vó? comeria um bolo de fubá com eles

implorando tempo

ao Tempo?

sabe,

eu acho que você faria tudo igual.

seu jeito de ver a morte

me fez perder o medo e meu pai

eu vejo

só de fim de semana.

ou da minha

memória

quando ele me agride dizendo

que merda você ser assim com essa cabeça que não entra dinheiro,

e também aquele sorriso pequeno que ele tem.

pra rir escancarado

só se for criança.

ou 1 velho

tão velho que o medo nele já virou

algo inofensivo tanto quanto um lápis,

apesar que um caderno escrito a lápis quando cai no rio

não borra

nem some

as letras.

vou escrever a lápis

que aprendi alguma coisa com seu pai morto e você olhando pra isso,

andando de bicicleta com a sua esposa no domingo, tristíssimo mas também Alegre

e seguindo,

 

é como uma música.

 

 

depois que eu saí o segurança do mercado tirou elas de lá

fui comprar pão
além de algumas frutas, minha geladeira estava começando a ficar vazia e isso
é um sinal de que eu
ainda não
morri.
no corredor de entrada do mercado
1mãe
e
1filha
sentadas no chão me Pediram dinheiro,
a mãe com a boca falando pra eu comprar seus panos de prato e no fundo nós duas sabíamos que eu não precisava de pano de prato, a filha
com os olhos, os maiores
do mundo.
não dei. menti:
-não tenho.
e o peso do meu corpo aumentou em 300 quilos quando eu disse isso,
andei pelo mercado devagar.
ao invés de pão e fruta peguei detergente, couve e leite eu estava muito distraída pensando no meu
Não
sempre vindo antes de qualquer sim possível.
paguei com cartão minhas compras inúteis, 4 litros de leite na geladeira de uma pessoa sozinha estraga.
o dinheiro
eu dei
pra elas,
quase não achei os 50 reais escondidos em algum compartimento da minha carteira grande
e no Susto de não ter o dinheiro que eu imaginei que teria,
novos 300 quilos
se instalaram no meu corpo com sede de fazer alguma coisa, agora deu sede,
era como se 2 pessoas diferentes
morassem
em mim.
eu sei que são mais, pelo menos umas 30. exclusivamente naquele momento
pareciam só
2:
a que não deu o dinheiro antes
e
a que estava fazendo de tudo para achar o dinheiro agora.
a segunda
era um touro.
Achei.
entreguei pra mãe dizendo:
-espero que ajude.
ela sorriu:
-tudo ajuda.
e me ofereceu os panos de prato.
expliquei que não seco louça porque quando criança eu secava muita louça e mal tinha tempo pra brincar, agora eu deixo
a louça secar perto da janela, eu disse também que a filha dela
era muito Bonita com os seus 3 ou 4 anos.
a mãe me contou que a pequena chamava Giovana Bianca,
2 pessoas em 1 feito eu
naquela noite
esquisita.
sentei no chão com elas. fiquei da altura da pequena de pé que estava comendo a bolacha que uma moça tinha dado minutos antes de
eu
também
dar, não sei se Ajuda porque ajudar alguém não é em 5 minutos, mas
pelo menos
alguma Atenção.
Giovana Bianca comia e cantava uma música que eu nunca ouvi,
acho
que era inventada.
repeti:
-que rosto, o da sua filha.
a mãe disse:
-eu sei. tô vendo de inscrever ela num concurso de bebês.
e me contou também que a pequena era mais do que isso,
que ela
era muito Esperta, quando o pai batia
ela corria pro sofá dizendo alto:
-o papai bateu em mim, o papai bateu em mim.
pra casa inteira ouvir.

 

 

a hora mais tarde

eu pegava ônibus à noite com quase ninguém na rua exceto os que muito se atrasavam e corriam de guarda chuva para os seus

carros, apertando na chave

o barulho que abre

a porta.

eles aceleravam sem mim e na noite pelada se escuta tudo

até o barulho do rádio ligando

num programa da madrugada em que se ouve

jazz.

eu seguia esperando o último ônibus antes do hoje virar

ontem,

absolutamente sozinha exceto por um cachorro

dormindo com seu dono encostados no portão da loja de calçados Alaor.

quando meu ônibus atrasava me dava medo de não ter casa pra dormir,

onde?

eu ficaria, na frente da padaria que só abre às 5? até lá

que Exposta, eu fechava

meu casaco

de botão.

casa de amigos eu não tenho,

dos meus amigos eu fugi de todos, fomos parando de nos falar e a culpa foi minha, eu não atendia

nenhum telefonema. quando trombava com 1 na rua eu dizia:

-vamos marcar.

e seguia

não atendendo.

no dia em que o ônibus mais demorou estava uma ventania comigo de saia.

outono pode ser quente até às 6 da tarde, de noite

o tempo vira, eu sabia que não era

verão. coloquei saia porque quis, todo mundo se tortura como pode e é discreto.

depois de quase 1 hora de atraso meu ônibus surgiu no começo da rua com o seu farol

Alto, o seu

tamanho. pensei,

e se eu não levantar a mão

pra pedir que ele

pare?

e se eu ignorar

o último ônibus da noite e simplesmente ficar

aqui

no ponto, já pra amanhã?

algumas horas passam rápido ainda que passem

devagar.

levantei

a mão

com o ônibus quase indo embora, não sei se por escolha ou

reflexo. quando entrei

pensei na minha mãe. a gente pegava ônibus juntas no ano de 1992.

depois melhorou a vida

e minha mãe comprou um monza. fazia feira comigo no braço e as frutas no porta mala do semi

novo.

mas quando a gente pegava ônibus juntas, eu ficava no colo dela pra ocupar só

1 banco

e o cheiro que eu sentia era de terra depois da chuva,

cheiro de mãe limpa,

cheiro de pele que usou sabonete de manhã mas já era tarde, quase 11 horas da noite e o bebê

na rua.

minha mãe sempre teve medo da noite, piorou depois que eu nasci. hoje ela mal sai de casa, não sei se ela

saberia, eu saio todos os dias e

não sei.

meu ônibus

não me levava exatamente de volta pra casa, me levava Perto e isso pra mim já era suficiente para eu me sentir abraçada pelo transporte público.

eu sei

que é por dinheiro,

mas não estou falando do sistema. estou dizendo do ônibus como invenção pra levar muita gente pra mais

Perto.

quando alguém pega ônibus comigo é sinal de que temos algo em comum. muita gente já pegou ônibus comigo, somos

Irmãos e não temos 1 rosto, a cidade tira de nós em troca da máxima de ser

Massa.

eu voltava pra casa, diariamente, apesar de

Tudo. alguma coisa importante

eu deixava lá, por isso

eu voltava muito,

voltava todos

os dias, voltaria ainda que fosse

mais longe

que o japão.

os lugares contam histórias e as histórias que os lugares contam

contam da gente também em números, 20 milhões de pessoas cabem num ir e voltar. atualmente,

eu ando de carro porque meu salário

aumentou e sobre isso posso dizer que dirigir à noite

é

tão Só

quanto ser a única

criança

numa festa de marmanjos.

a dona da loja não é dona de nada

a loja de sapatos

agora

Vazia,

os sapatos sempre foram

mortos, sem ela pra vender eles estão ainda mais

pálidos.

não tem pé possível que compre sapato numa loja

fechada com porta de

vidro, se você colar a cara

verá que o espírito

do couro é uma cobra vingativa, alguns cintos, algumas bolsas, as luzes acesas só da vitrine

lembram uma promessa de volto

já,

o caixa

ainda com dinheiro mas pouco, a loja

não ia muito bem, agora

pior assim fechada por tempo

indeterminado porque uma doença como o câncer

mata aos poucos e se não matar,

mata aos poucos

do mesmo jeito.

trabalhar em vendas tratando tumor no estômago se tornou impraticável,

ela tentou um dia e voltou pra casa antes mesmo da hora do almoço.

deitou na cama e ficou deitada, até hoje.

ela nesse estado

só poderia trabalhar em música tocando um

instrumento na sacada do seu prédio pra molhar

a rua, o violão inerte na dor de ficar careca também por dentro,

remédio trata e mata, simultaneamente.

em casa

ela tem assistindo televisão. escolheu atender o telefone,

manter o bom

humor. pensar que sairá dessa apesar dos seus

90 anos recém chegados, eu também

acho

que ela sairá, todos aqueles sapatos esperando

o que será

deles

depois que ela

morrer. se não for agora por câncer,

pode ser em 1 ano por gripe ou

por queda no banheiro e o osso da bacia

desmoronará porque ser velho é esfarelar ou

morrerá dormindo

com a janta quente ainda na barriga.

a luta pela sobrevivência no máximo atrasa o inevitável.

lutar tão bravamente pelo imutável é ridículo e bonito por ser ridículo.

até hoje

não se teve notícias de alguém que esqueceu de morrer.

até hoje

a morte não errou

ninguém.

os sapatos

não sabem do câncer, não sabem

que estão mortos, que seu couro veio

de um bicho morto e

nu.

a notícia de tumor ela preferiu não contar também porque não saberia

por onde

começar, a verdade cabe numa frase que não cabe

na boca.

os clientes

estão pensando que ela está passando por dificuldades financeiras e, quando alguém está com dificuldades financeiras, ninguém manda flores.

da solidão de ser sapato, tão pouco alguém

sabe, como quase tudo que há no mundo e não

grita.

quem tirou a foto deve ter sido um amor e o amor acabou mas a foto foi antes do amor acabar

no retrato amarelo pelos anos minha mãe vestia um jeans.

a cor do tempo passando é

amarela, por isso não fico bem de blusa amarela, tenho medo de envelhecer mais que de morrer. prefiro azul,
morrer é azul.

o jeans

da minha mãe

era curto, ela estava em cima do muro da casa da minha

vó em

tijolos que eu não conheci, só ouço dizer que é a casa da Narcisa, a vizinha que alugou

pro meu vô ou era o nome da rua, Narcisa, não sei

tem coisas que eu não me lembro

mesmo tentando muito.

no muro baixo minha mãe sentou pra sair na foto com o rosto fazendo um charme que eu nunca vi

jogando o cabelo pra trás,

longos

cabelos

morenos, no máximo 18 anos ela tinha.

fiquei olhando tanto aquela foto mesmo depois que guardei de volta no álbum, olhei da minha cabeça,

a foto grudou na testa por dentro, um imã.

a minha mãe não morreu mas morreu daquele jeito que era, ela passou pelo corredor me perguntando:

– o que você tá fazendo aí?

como se soubesse

o que eu estava fazendo e não quisesse

que eu visse o estrago do tempo na gente porque aquilo de mudar tanto era muito

assustador. não vai acontecer comigo, é o que todo mundo pensa.

passa os anos.

Acontece.

tô vendo a mulher que você era, eu queria dizer e não disse.

ao invés, falei:

– não tô fazendo nada, mãe. é domingo.

a expressão dura que habitava seu rosto de hoje me deu vontade de parar de ouvir música pela vida inteira, minha mãe sempre borrava

a maquiagem

pelo choro fácil de dor e de sono mas não no retrato. lá

nem parecia que a minha mãe seria capaz de brigar com alguém pra depois chorar. na foto ela era 1 Ilha

deserta com seios quietos
nunca antes
mamados, naquele frescor de ser jovem no

osso atumblr_static_bparlij18408oso8kkww0wgco.gif

pele

passada

a ferro,

me olhei no espelho pra ver se encontrava 1 pingo da velha mãe em mim: não, nada.

aquela mulher no muro

mudou pruma rua que derreteu.

quero saber o nome da última pessoa que a viu tão flor, a gente vai mudando aos poucos

o resquício existe

não acaba tudo de uma vez. preciso guardar nos olhos aquela candura da foto

vou dormir eternamente sem morrer, vou dormir fingindo acreditando que durmo igual o menino ontem no banco roncando

de mentira tão real.

vou me trancar num vestido justo pra não me escapar esse

vento, essa sede de

chuva, esse riso leve que mostra um pouco do dente mas não tudo e depois

todos os dentes, é um começo de sorriso

e por ser começo é bonito

porque traz

esperança.

minha mãe esqueceu como sorrir assim. ela diz que a culpa é da asma,

o tempo também

é culpado mas o nome

da culpa maior é A Perda e Jeito que a gente lida com ela

um nome comprido, de fato, preciso anotar

pra não esquecer.

o homem que eu vi só de costas

uma moto ouvindo música ecoa pela cidade até o fim da rua.

depois

quem vai ouvir a música

é quem estiver

na próxima rua que a moto

passar, não eu. eu

escuto pequeno do lugar em que estou e sempre

estou

em poucos lugares, 1

de cada

vez. Não

Lembro qual era a música que tocava, mas lembro que ela era

Gorda

dentro da moto, mal sobrava espaço pro homem de capacete dirigir.

Ele estava orgulhoso disso, provavelmente a música não era filha da rádio,

era filha

de uma escolha pessoal e também sair naquele horário era pessoal, também fazer aquela

Rota, também usar

aquela roupa, o homem do capacete escolheu tudo menos nascer, além do clima.

A moto passou tão rápida por mim.

Fiquei a pé de boca aberta e o abandono dentro

da minha

boca.

Andar é lento, faz a gente ver

tanta coisa que passa num segundo virando vulto.

eu estava a caminho do supermercado. a moto com música me deu 1 galho de apoio, não cair no Abismo era

por enquanto, um galho

é magro e a rua está molhada de uma chuva

que durou 4 minutos mas molhou. Muita gente esperou a chuva passar sem assistir gota nenhuma da janela.

Eu mesma

não assisti,

preferi só ouvir e lembrar da chuva que conheço dos dias que

Namorávamos de frente pro janelão do teu quarto,

um império de quarto não pela grana, mas porque

teu quarto

era todo o seu apartamento de 50 metros

quadrados. Esse amor

nosso

acabou mas a gente se encontra e somos amigos. Muitos amores acabam. O duro seria nunca mais te ver. Não é como o Meu primeiro namorado que hoje tem 34 anos.

Quando namorávamos ele me

dava uma rosa de presente por nada. A saudade é nenhuma porque saudade não nasce das coisas que já passaram e sim das que

Ficam.

Não quero deixar de tentar nenhuma pessoa possível de virar

1 grande amor, eu disse isso também pra Chuva. Quando ela parou

desci pro mercado pensando em comprar sabão pra lavar minha roupa de solteira, mas pensando principalmente que eu precisava dar pra mim mesma um bom motivo que justificasse minhas

andanças: foi quando a moto passou

deslizante

direito pro

fim

da esquina, a rua molhada

ficou lotada com a música do homem mais ou menos livre porque

ele usava capacete, então

estava claro pra mim que ele tinha Medo.

Da sua moto, era como se ele concordasse comigo quando digo que não quero deixar de tentar pessoas possíveis de virar 1 grande amor.

Mas ele também pedia pra eu ter cuidado

só pelo fato

de usar capacete.

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Meti a colher

deitado na cama o Homem de olhar congelado como alguém que morre de olho aberto, mas ele

estava vivo, por isso

era ainda mais triste.

aquela deitada tinha o peso da desistência de um time de futebol inteiro

antes mesmo

de soar qualquer apito, só porque disseram1333264506433072159

no vestiário

que o time adversário era muito bom.

Chamei seu nome,

-Pai.

Pra soprar vida nele, já que era o seu aniversário e aquilo parecia tudo menos 1 comemoração.

Pai.

Chamei de novo porque ele não me olhava. Passei a mão no seu ombro numa tentativa de carinho.

-Que foi, Pai?

não tenho mais paciência pra isso

foi o que ele

me respondeu. Aconteceu 1 briga

de amor

com a mãe em pleno dia de fazer os anos e era assim sempre, as memórias de aniversário dele estavam intimamente ligadas com brigas

de amor

com ela.

-Não fica assim, pai.

Ele me olhou e quando me olhou

a vida voltou de leve no olho dele. Acho que ele lembrou dos velhos tempos, pois

em algum lugar do Antes,

meus pais se deram bem o suficiente pra fazerem filhos.

Eu queria muito ajudar a ficar tudo certo sem saber qual era o próximo passo depois de querer. Queria fazer ele mudar

de vida, mas sei que se ele mudar, tanta coisa vai cair e ficar devastada como num terremoto, a Cidade morre do jeito que a conhecíamos depois do abalo

sísmico, a cidade

seria a

mãe. E o terremoto seria

o pai.

Conversamos. Ele não queria presente de aniversário tipo um sapato novo pra usar com jeans, ele

Queria

um pouco de paz no amor, se ainda era amor, só porque algum dia

Foi. E disse que seu pai morreu aos 64 anos, então

pela lógica

ele teria mais 15 anos de vida pra conseguir

a paz.

Isso pela lógica, mas a vida

não tem lógica, eu sempre posso morrer antes de ver alguém que amo

Morrer.

Posso bater as botas

agora, podemos bater as botas

juntos, pai e filha se jogando do décimo segundo andar de tanta

tristeza.

Eu queria conseguir demostrar mais o meu amor pelo meu pai, como por exemplo preparar o café da manhã dele diariamente, mas isso seria rotina e toda rotina é uma pequena escravidão

silenciosa.

Somos silenciosos meu pai e eu. Somos castos nas escolhas das palavras.

Nunca dizemos de nós mesmos, ao menos que sejamos solicitados que sim então

dizemos com

conversas silenciosas.

Quando estamos juntos nunca ligamos a televisão, apesar que ele sempre me diz:

-tá tarde, vai dormir.

o que também é um jeito de se livrar. Eu entendo, pai.

É difícil ficar junto com alguém que conhece muito

dos seus rombos, é pior que espelho. Por isso é tão duro pra gente estar no mesmo cômodo, sabemos as cores

dos ternos

das dores que moram na gente. Ainda assim,

essa noite eu vou dormir do seu lado, nem que seja do alto da minha

própria cama.

 

 

a Leitora

 

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o tempo que ela tem pra ler tantos livros é mais alargado que o tempo dos outros que dizem

não ter tempo pra ler 1 romance inteiro ou tempo

É escolha?, na Lavandaria um cesto de roupa

Suja

 

 

há 30 dias.

São Lençóis

acumulados, calcinhas, toalhas

de banho, na mesa do almoço uma lasanha

Congelada\Descongelada em 15 minutos além do suco de caixinha e de grude

só o micro ondas que vai ficar

pra limpar

depois, também. Porque agora a Rita está na poltrona.

Agora a Rita está na cadeira da cozinha apoiando o livro na mesa.

Agora a Rita está

Grifando uma frase

que vai render tantas outras, que vai render olhar a rua

de um ângulo totalmente novo, vai render

uma torta de limão na boca com mais gosto de limão e menos de danone.

Agora a Rita está pensando em tudo o que o escritor disse

Sem dizer, agora a Rita

está na Internet

pesquisando o escritor pra depois

mandar um E mail pro escritor e discutir aquele conjunto de palavras que rendeu um

Mergulho na piscina do prédio que a Rita mora faz

15 anos e faz 15 anos que a Rita Nunca tinha nadado ali.

A roupa

Suja

não para de receber mais

roupas

sujas, no armário do quarto está um silêncio de algodão.

a lasanha

dura

estocada no freezer está acabando, faltam 2, e o pó

no chão

dança quando bate o vento da Janela sempre aberta, o pó

muda

de lugar mas sempre

Para

nos cantos por uma questão de proteção. As Obrigações

estão todas Mortas, estão todas A sete

palmos, esperando a Rita

pra ganharem

Vida, uma hora ou outra ela

 

Vai

Ter

que Fazer.

o Aborto

O incêndio começou com o cigarro que Nana fumava violentamente com saudade de Caio, seu ex.

Caio, o ex

terminou com Nana pra ficar com Leila, uma gata urbana cheia de perfume porque fumava muito também e queria disfarçar

seu cheiro mas nunca causou

incêndio

nenhum. Talvez porque nunca

fumou violentamente como Nana, naquela tarde com vista pra Cidade da sua

Janela Alta, vigésimo quinto

Andar.

Um trânsito lá em baixo, uma

Gente amontoada, uma

angústia de Nana por ter de companhia só pessoas desconhecidas

pessoas

que não significam

Nada, pequenos vultos inúteis do tamanho de formigas

olhando assim

de cima, o Caio

dá saudade de deitar com ele na Cama pra assistir um filme e o filme

não rendia

Porque toda hora era pausa na tv pra se beijar, pausa na tv pra se chupar,

Pausa.

Que dor

dentro da Nana, ela tinha o cabelo na altura do queixo e ponta

do cabelo no queixo

dava a impressão de ser uma lança.

Nana fumava apertando o cigarro, digitando no

Celular 1 mensagem pra Caio que ela nunca

mandaria, ela escrevia não pra isso era

Pra tirar

a bala

do peito, aquele Chumbo de coito

interrompido, ela cuspia Abandono em palavras

digitadas e lágrimas

nos olhos,

pouca água porque Nana tinha só 45 quilos, mas

à sua maneira

aquilo era um mar.

Ela encostou a cabeça na cadeira, deixou o celular na cama pra desistir e jogou o cigarro na planta da mesa de cabeceira. Estava frio demais ficar sozinha, a Nana esperou passar a dor

asistindo o fogo se espalhar

não tão devagar

pela sua casa, era uma dança

pra matar

o prédio em que

Uma Planta foi a primeira vítima. Não conseguiu com o prédio porque os bombeiros chegaram antes, mas ela conseguiu se matar e destruir uma boa parte do seu apartamento, sim.

E também chamar a atenção de Caio, que percebeu pós morte

que amava a Nana

muito,

o lance com Leila era por conta da bunda na nuca

da gata e aqueles olhos

Caramelados que a Nana

Nunca teve aquele brilho, mas o Caio

Amava

a Nana,

ele pensou sobre isso no velório sem corpo, que

morrer queimado vira

mais rápido.