a criança dentro do adulto

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dentro da mão a areia invisível lá de Paúba 23 anos atrás quando a mãe disse vamos e o menino disse não e a mãe disse vamos agora de um jeito firmíssimo, o menino arrastado, areia na boca (na verdade ele estava no colo da mãe que não bateu, não encostou 1 dedo, era hora do almoço apenas e o menino precisava comer) mas a sensação que ele tinha. a sensação de ser arrastado, o mar sem onda assistindo, a humilhação meu deus, de ser criança, de volta pra casa da tia que cheirava mofo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*tela de Phil Hale

 

 

 

 

 

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a filha

o almanaque de férias era grosso

tinha umas trezentas páginas

com histórias que a menina queria muito

ouvir,

tanto que até sonhou

ter idade pra atravessar

a rua, dinheiro no bolso, o almanaque na frente

da banca e dava tudo certo, no fim do sonho ela agradecia o vendedor com um aceno. o problema era quando ela acordava

e se via ali

no quarto de sempre

olhava pela janela sentindo que se atravessasse mesmo

a rua

em direção a banca

morreria por não ver

os carros, ela nunca via

os carros por mais que tentasse.

mas ela queria muito

o almanaque, pensava nele como roda de fazer correr o tempo

daquelas malditas férias

mas a menina não podia

pedir Nada

a mãe não suportava deixar de lado o eterno acordar, preparar o café,

lavar roupa, preparar o almoço, descansar um pouco

e depois lavar mais roupa, qualquer coisa que fugisse dessa ordem

daria briga nervosismo gritaria,

a menina não gostava de ver

o grito

da mãe espantando

fantasmas

estourando com quem estivesse

perto,

 

-cadê o pai? a menina perguntava

pro urso

 

depois caia

no sono, preferia a vida assim, dormindo,

 

acordada ela ficava desejando muito

o almanaque

 

sentia medo de não aguentar a força disso e deixar escapar de repente um

 

-me leva? na banca.

 

a mãe virando mostro

a menina tentando escapar daquilo

esticando o corpo feito desenho

animado, quem dera ela fosse,

(a mãe tacando prato

na parede machucada) podia ser a Mônica

ou a Magali, as mães delas pareciam gentis.

se o gênio da lâmpada aparecesse

a menina com certeza pediria pra trocar

de casa, rolava na cama desejando

isso

mentalizando forte nunca mais ver a mãe.

o pai era mais fácil,

já que o pai ela não via mesmo

mal lembrava do rosto dele quando fechava o olho até que um dia ela parou de tentar. ao invés ficou imaginando

uma árvore com balanço, ela ali, e que o balanço fosse

um foguete de levar criança

pro almanaque

lá na parte da história que tem uma mãe

e um pai, por que não?,

no sofá.

degrau

ele puxou o quadro de trás da cômoda

 

-esse aqui deu errado. – ele avisou tirando o plástico

 

eu nunca tinha visto uma tela tão grande

 

-é uma noite? – perguntei.

 

-era. – ele disse

o desembrulho revelou uma pata, depois

o cavalo

todo

meu amigo afastou o plástico já no chão

com o pé.

 

-essa cena aconteceu numa represa, eu atravessei mesmo essas águas,

com os cavalos e

o caseiro.

 

olhei pro rosto do caseiro

e os cavalos atravessando

pele, pelo, dentes

parece que

vão se afogar.

 

-eles estavam muito cansados, mas eu estava pior.

sabe que às vezes eu fico

pensando no

cansaço. deito na cama quando estou me sentindo assim

e fico observando meu corpo

é algo como estar no limite mas

seguir aguentando.

 

-tem um quê de desespero nessa cena que você pintou,

na água principalmente.

 

-é que estava frio.

eu fiz esse quadro com a blusa úmida, por seis meses fiquei molhando a blusa na pia

pra tentar manter a sensação desse dia, do peso das roupas.

 

-eu adorava entrar de roupa na piscina quando eu era criança, pra brincar de titanic. o jack e a rose estavam sempre molhados, eu queria sentir o peso disso,

exatamente como você disse.

 

fez-se um silêncio.

 

-mas escuta.

por que você escolheu pintar essa cena numa tela tão grande?

 

-é que eu queria dar espaço pra solidão dos cavalos, pros fantasmas que eles carregam,

não consegui. o problema foi que eu anulei a minha solidão

pra tentar entender a do cavalo

e preenchi os vazios que ficaram com o meu cansaço físico. acontece que esse quadro não era sobre a exaustão,

era sobre estar sozinho e

ser um animal.

 

-você acabou olhando pra cena de cima.

 

-quando eu estava ali nadando

bem perto do rosto deles

eu tentei evitar justamente isso, olhar pra eles de cima,

mas inevitavelmente eu me sentia melhor

do que eles, por não precisar atravessar aquela represa todos dias, por ter uma casa, e ali eu percebi que eu não daria

conta

 

-mesmo assim você pintou. – interrompi.

 

-acontece que

pra ser um verdadeiro artista eu preciso aquietar alguns eus

e tem um eu em mim, especificamente, que precisava ver o quanto eu não estava pronto pra pintar a cena da represa, que na verdade eu não estou pronto pra tudo o que eu gostaria de pintar,

nem caberia, o tempo vai dando conta de arranjar espaços mas não é tudo que vai me caber, claro que não, por isso que existem outras pessoas pintando, fazendo exatamente o mesmo trabalho que eu, porque na verdade ninguém faz

o mesmo trabalho, cada um ocupa um micro espaço na terra e alcança, se tiver sorte, não a distância, mas

a profundidade.

eu gosto desse quadro por isso. porque no fundo ele não é sobre cavalos

ou represas

ou travessias.

 

-é sobre você.

 

-é sobre o ponto exato em que eu estou na minha vida. se eu morrer agora,

esse quadro se torna um mapa de onde eu parei.– ele me disse, como se estivesse em cima de uma ponte

olhando pra Cidade que é

a vida interior de uma pessoa

Caio Augusto Leite: A necessidade das formas

Análise de Caio Augusto Leite sobre o meu romance “O peso do Pássaro morto”

LOID

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É comum, atualmente, ouvir que certas formas literárias estão ultrapassadas. Uma das que sofrem esse tipo de ataque é o romance e, mais especificamente, o romance de formação. Gênero que nos legou clássicos como Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe; David Copperfield, de Charles Dickens; Demian, de Herman Hesse; O retrato do artista quando jovem, de James Joyce; entre tantos outros, o romance de formação tem como premissa a observação da vida de uma personagem desde seus anos iniciais até sua maturidade.

De fato, se tantos autores consagrados já escreveram seus romances de formação, quase que esgotando as possibilidades de movimentação dentro da forma, qual o sentido de continuar a escrevê-los? Primeiro, os detratores do gênero se esquecem de que o uso de um recurso por um grande escritor não deve intimidar os escritores posteriores a ele, se assim o fosse, jamais Joyce ou Hesse teriam se…

Ver o post original 804 mais palavras

medo da vida dar certo demais

não estamos conseguindo nos encontrar, naquele dia na sua peça foi a última vez. quando as pessoas se levantaram aplaudindo

e depois saíram

do teatro conversando

eu te esperei encostada

na porta sem

cansaço, na verdade um medo

de não estar suficientemente bem

pra causar alguma impressão em você

meu peito subindo e

descendo

feito dois garotos

incansáveis na

gangorra.

foi quando você apareceu

com o rosto maquiado ainda

e quem estava se denunciando agora? a pressa

em me ver.

 

 

nos abraçamos.

 

 

quanto tempo, você me disse

uma frase melhor não te veio na cabeça

e na minha eu não conseguia

pronunciar a palavra que eu queria dizer

na verdade eu não sabia exatamente qual era a palavra

que eu queria dizer

pra aliviar essa

espera que sentíamos

como se algo a mais precisasse acontecer além de já estarmos um na frente do outro depois de tanto tempo.

foi quando os atores da peça apareceram

acenderam seus

cigarros

me cumprimentaram com acenos de cabeça e disseram que você

estava velho,

já não queria mais sair pra beber.

 

-agora ele bebe água. – riram.

 

então quer dizer que se um sai

todos devem sair também? sabe que

a minha mãe quando vai ao mercado

ela faz as coisas do jeito dela

e chama uma atenção danada, as pessoas perguntam se ela está bem

porque ela usa umas caixas de plástico ao invés de sacola

as pessoas ficam olhando aquelas caixas coloridas

aquele jeito de fazer compras que não se parece com nada que elas já tenham visto antes

e se assustam,

perdem o chão, então não somos todos iguais? elas pensam.

não.

alguns de nós

simplesmente preferem usar a própria cabeça.

 

os atores ficaram me

olhando, os cigarros acesos

 

te dei um abraço

 

e saí pelas ruas

desde então não nos encontramos mais.

 

por um tempo relativamente longo

não senti saudades suas.

 

você seguiu nos palcos

interpretando gênios, eu vi nos jornais,

Chaplin, Cazuza, você ficou parecido

com todos eles,

acompanhei distraída a sua carreia

pela manhã um copo

de café.

mas a nossa volta a pensar um no outro

só aconteceu quando você me perguntou por email

se eu tinha um livro do gregory corso que um dia te contei que gostava.

 

tenho, respondi.

vamos nos encontrar, você sugeriu

 

mas desde então a gente não consegue

cada hora é uma coisa

tem dia que a culpa é do meu rodízio

em outras dos seus ensaios

eu quase sempre querendo

te encontrar, curiosa pra ver seu rosto depois de três anos

por outro lado nunca

conversamos na frente de um balcão com luz acesa e você quis marcar justamente

num café com balcão e luz acesa,

não recusei.

mas toda vez que aconteceu de nos encontrarmos

tinha um grupo atrás da gente

como aqueles atores, lembra?, e isso facilitou as coisas

sem ninguém sobre o que conversaríamos?

terei que inventar um personagem pra me manter segura na sua frente

um personagem que nasceria carregando o melhor de mim, me inventando uma pessoa incrível que eu adoraria ser para que tudo fluísse entre nós

 

(acabaríamos na cama

ou no chão

perto da cama)

 

quando sei que na verdade acontecerá no máximo

essa promessa de

encontro

pássaro sobrevoando o que poderíamos ter sido,

não deixamos.

Destino

escolhemos poltronas ao fundo

pensando que elas seriam um lugar só nosso

como um copo dividido em silêncio, a festa atrás, duas bocas bebendo

o que tivesse ali.

o nome do nosso filme

estava no

ingresso já no bolso, o escolhemos por notar no hall de entrada

ninguém querendo

assistir tamanha

bobagem, diziam.

 

é esse, pensamos

 

e a alegria curvou nossos rostos, duas crianças numa montanha

russa

na verdade uma pilha

de almofadas no tapete.

 

sentamos nas nossas

cadeiras secretas

 

estávamos acesos

tomada na fonte

sua mão deslizou por minhas

coxas

não sem antes

apertá-las.

eu olhei

para as minhas coxas

pensando se elas eram assim tão boas quanto aquelas que eu via em revistas na mesma situação sendo desejadas, será? que eu merecia isso,

eu essa mulher que sou e mais nada

na casca que tenho

coberta por pequenas feiuras que juntas me transformam nesse mostro discreto

e meu corpo respondendo

ao seu toque, silenciando minha mente sempre pronta pro estrago,

meu ventre entregue às suas mãos que poderiam

tirar um bebê dali.

a criança

será a soma da minha família e da sua.

vamos amar

a nossa criança

especialmente pela parte dela que é nossa

e você colocou o dedo

na minha boca, começaram os

trailers.

 

foi quando entrou uma família

com pipoca e dois filhos.

 

a sala estava vazia, mas

eles sentaram justamente na poltrona da frente.

 

nos olhamos

como se aquilo fosse a grande metáfora da vida

e é.

 

-vamos ter que ser mais silenciosos. – eu te disse no ouvido

e os arrepios que nascem

quando a boca solta

palavras no

ouvido.

 

então você voltou devagar

a mão pro meu ponto

exatamente onde se deve

colocar o dedo pra que eu desfrute

do tremor que há no meu corpo

um raio implodido, o lugar onde nasce o raio.

atrasada encaixei

minha mão no seu

debaixo

agora nós dois

no mesmo ritmo

tanto que senti ter um pau você um útero

nossas respirações tentando

um volume baixo, não queríamos parecer animais e a família comendo pipoca

meu queixo pra cima procurando

resposta pra essa sensação de poder que é quando os corpos

se encontram, nossas coxas abertas, no líquido o espectro

do nosso futuro filho.

 

 

limite

ele sentou na minha cama

as paredes se fecharam em volta dele, o pai,

um estranho ali pro meu quarto que ele nunca entra e agora está

assim

sem camisa.

 

-fala, filha. – ele disse, prevendo o amargo

da notícia que eu daria

porque eu nunca chamo meu pai pra conversar sobre algo terno ou cotidiano, quando a gente conversa é sempre pontual.

 

então eu comecei a contar pra ele

da minha viagem

 

-vou ter que me ausentar por uns dias,

a empresa

precisa de mim em Paris.

 

as mãos do meu pai me

ouvindo em riste

mas aquilo não tinha nenhum apelo religioso

era só que

ele não sabia muito bem o que fazer com as mãos, nunca soube,

toda vez que a vida lhe acessava um canto mais emocional

meu pai se apoiava no garoto de 5 anos que ele foi

voltando pra algo que deu errado lá trás com a sua família.

meu pai filho mais velho

teve que ver os irmãos nascendo

a mãe amamentando

não ele, outros meninos, meu pai já crescido, meu pai

cresceu depressa

por isso ficou assim calado, encostado na porta perdido

nas horas

achando que, como numa relação amorosa que termina,

o que ele tinha com a mãe dele terminou.

 

-vou ter que me ausentar por uns dias – repeti.

 

pra ver se ele reagia de alguma forma, espero que meus pais não se matem enquanto eu não estiver,

a energia da minha casa até dos móveis fica a beira de um colapso quando eu não estou, sei disso pelo que minha mãe me conta depois que eu volto

e também pelo rosto dela

sempre envelhecido depois que eu volto

 

-a empresa está com problemas

na sede em

Paris

 

ele não me olhava

e quando olhava

era tão breve

meu pai está sempre de partida até no olho

sou eu que fico no lugar dele

quando ele se vai.

agora quando sou eu que vou

é neste momento que ele precisa ocupar o próprio lugar de pai dentro da nossa casa

e deus que abismo tem sido

pro meu pai ocupar o lugar que lhe pertence na nossa casa

sentar pro almoço

conversar com a minha mãe e

comigo,

ele levanta da mesa toda hora como se estivéssemos esquecido um copo, um talher (a mesa sempre completa, ele levanta e diz

que precisa de um

guardanapo, tem aqui pai, ó)

parece que

ele não lembra

onde guardou as

máscaras que usava pra viver com a minha mãe que também não está entendendo mais nada, pra onde foi o marido com quem me casei?

quando eu era menina

a tristeza do meu pai morava na

boca

 

-quando você volta? – ele perguntou finalmente.

 

(e ainda mora,

vocês deviam se separar de uma vez)

 

– em 3 semanas.

 

você consegue? eu ia emendar. fazer isso por mim.

mas ele

se levantou da cama, os braços apoiados no colchão deram o impulso,

meu pai não estava

bravo ou aborrecido

ele estava cansado, apenas

cansado de um jeito tão profundo que ali eu soube, paris não entraria no meu peito enquanto eu estivesse por lá, não caberia, já que eu estarei lotada

pensando no inferno que é meu pai e minha mãe juntos

sem a ponte que sou eu.

 

a conversa

– é melhor você soltar o estilete – eu disse, tão calma quanto uma viúva há muito viúva.

 

-solta. -pedi num sussurro. – você não precisa se matar agora.

 

e o tamanho

que ficou o Olho dela

quando eu disse isso, era como se a íris buscasse

a todo custo

um jeito de

sobreviver.

 

– vem aqui. deixa eu te contar uma coisa.

 

eu não queria me aproximar muito

não queria encurralar, seria melhor se ela

soltasse o estilete e

caminhasse apenas

na minha direção.

 

-por enquanto você não precisa – eu disse

 

tentando me conectar com a linha

de raciocínio dela, tentando sumir pra me tornar apenas

a voz da consciência dela, nenhum salto, nenhuma afronta, apenas um eco do que ela mesma já estava pensando lá na íris a parte

que ainda acredita.

foi quando o canivete deslizou

pro tapete.

o estrago que ele faria

agora no chão sem barulho. a mão dela

ficou um pouco aberta,

órfã.

 

-Vem – eu disse.

 

ela foi dando

passos, as costas em U.

o rosto dela, tão jovem, estava desfigurado pela coragem

que ela descobriu ter

uma parte dela queria mesmo

morrer agora

outra parte preferia seguir tentando.

 

ela se encaixou no meu corpo.

respirava parecendo um animal pequeno

depois da fuga.

 

eu a abracei de uma maneira que

flutuássemos

até o sofá

 

que eu também precisava de

apoio

 

por isso que gosto

desses móveis antigos

eles têm a força do passado que carregam.

 

ficamos abraçados,

os três.

 

a regata cinza que ela vestia

estava escura de suor

e susto

eu disse

 

-nenhum amor vale isso

eu sei, parece que a sua vida vai desmoronar. e talvez ela desmorone mesmo

deixe que tudo pegue fogo

você vai assistir isso sem morrer. você só vai morrer se quiser, juro que é possível aguentar, já aconteceu comigo, eu fui rasgada

por alguém que eu amava muito

numa idade que eu não tinha voz. o que aconteceu comigo me aconteceu calada

e o mais incrível, eu superei. duas coisas

das mais importantes nesta vida:

o tempo

e a resistência.

se você aguentar um dia

você aguenta o outro

e assim a dor vai se

esvaziando bexiga no céu

até não restar mais nada

além do silêncio.

você se lembrará de hoje pra sempre, claro que sim,

mas vai doer num lugar cada vez mais distante da superfície do corpo. é um fundo de mar, imagine assim. dói mas

tem tanta vida por cima. aos poucos você vai conseguindo começar de novo

encher seus dias

se não com amor

quem sabe com uma música

longa o bastante pra te fazer dormir. quem sabe uma cor

na parede. talvez até um livro.

 

ela chorava sem

pausa

entregue aos meus

braços

 

(lembrei do chuveiro

no quintal da minha avó. meu avô na porta da cozinha não perdia um banho

o cigarro interminável

ninguém percebendo

nada,

apenas eu)

 

coloquei o cabelo dela

todo pra trás num

rabo que não amarrei, uma promessa de rabo que se desmanchou também num choro

e assim abraçadas

comigo dizendo o que me vinha na cabeça

e nessas horas temos que usar toda a nossa intuição

para que se diga exatamente o que deve ser dito

fazendo a pessoa voltar

pra esse mundo

será

que vale a pena voltar?

 

-vale. – eu disse.

vale porque a beleza existe

até em momentos como este.

contaminação

confessei sobre seu cheiro

ser o mesmo de uma

carta quando alguém a descobre

desdobra o papel

começa a ler

é esse o seu cheiro, de algo resgatado,

que depois do regaste já não entendemos como

conseguimos viver por tanto

tempo sem ler a carta que, pela Beleza, deveria ser lida diariamente em voz alta.

acontece que se a lêssemos

assim e

pra sempre

a surpresa de encontrá-la se perderia

e definitivamente esse não é o seu cheiro, de algo que se perdeu.

você disse que entendia

e que também não era fácil

ouvir essas coisas tão

íntimas.

 

 

nos abraçamos,

 

 

fiquei feliz de

voltarmos a nos falar. nem sei por que paramos

ou se paramos,

já que considero natural esses silêncios entre amigos. mas você

 

disse que estava tudo bem entre nós

e se estivesse tudo bem desde o começo

você não teria dito nada, foi isso que me preocupou. de qualquer forma um alívio

estarmos bem agora

e pra selar a nossa volta

você leu um texto meu.

 

– chama Quase.

 

as pessoas ao redor

me perguntaram se éramos irmãs.

nunca pensei

que teria uma amizade assim como a sua um pouco suspensa, o cotidiano jamais nos alcançou. se for pra contar deve caber numa palma

todos os encontros que tivemos

mas são enormes, os nossos encontros, misture duas águas no limite de um copo

que pra sempre elas serão apenas uma.

olho para as coisas

que você me emprestou e as amo

porque você está nas coisas, não é todo mundo que está. você sim porque se doa,

já te vi grifando com régua

o que te salta num

livro, já eu dobro páginas

vulgarmente.

no livro de poemas que você me emprestou, por exemplo, todo marcado com as suas anotações, tem uma frase grifada a lápis (o grifo uma cama)

sobre o redondo de uma cabeça, sobre o mundo em cima do pescoço que é ter uma cabeça

e eu imaginei

o seu sorriso com som quando li essa frase

já que uma risada não passa disso,

de um sorriso com som.

 

-vem me visitar, – te disse no meio

do nosso abraço

 

 

e

 

 

no dia em que você vier de fato

então nesse dia eu não estarei

ou melhor estarei

sumida

incorporada na

parede

só pra te ver tocando

nas minhas coisas

e a alma das coisas

se livrando de mim pra virar você.

Roberta

ela não imaginava a falta que o billy lhe faria,

quando algo está permanentemente ali

fica difícil mesmo

perceber o tamanho que esse algo tem pra gente

no geral entendemos por contraste

a bia chegava da escola direto pro computador. então o billy ia

até o quarto dela

se espreguiçando com

as patas

ela dava um abraço nele, depois

voltava para as suas coisas, ouvir música, uma chamada angel, girl you’re my angel era a que mais tocava.

 

vem jantar, filha. – eu dizia da porta

 

a gente comia conversando

sobre a escola, como tinha sido, eu colocava minha mão sobre a dela

os dedinhos desapareciam.

 

-hoje a roberta quase falou. – ela me contava, animada

 

a roberta era uma menina da classe que

não falava, simplesmente,

e o grande objetivo da vida da minha filha era fazer essa menina falar.

não com todos, claro,

com ela apenas.

uma vez a bia perguntou por papel

 

 

você tem voz?

 

 

jogou o bilhete na mesa da amiga.

a roberta respondeu

 

 

Tenho

 

 

 

e jogou o papel

de volta pra bia

 

 

 

então por que você não fala? (juro que você pode

confiar em mim)

 

 

 

minha filha mandou de novo,

a roberta

estava escrevendo a reposta quando a professora se aproximou

e pegou papel.

 

-pra diretoria, as duas.  

 

a bia me contou tudo

quando chegou em casa com a advertência

 

depois dessa, a roberta ficou ainda mais muda. – ela me disse.

 

e o billy encostado

no pé da mesa

feliz

apenas por estar. como eu amava aquele cão. foi por isso que tentei

levá-lo com a gente quando nos mudamos

mesmo sabendo que seria impossível pra ele viver num espaço tão pequeno.

 

 

-por que a gente tem que se mudar? – minha filha perguntava.

 

a mamãe não tá mais conseguindo pagar essa casa.

 

-mas eu amo essa casa.

 

-e eu amo você.

 

 

nas férias da escola

nos mudamos

olhei o billy pelo retrovisor sentado parecendo gente ao lado da bia no banco do carro e tudo nele era despedida, todos os pelos

e o formato das patas, era como se ele soubesse ou então era meu olho contaminado de

culpa.

quando chegamos

e começamos a arrumar as coisas, tive que vender quase todos os móveis,

eu precisei ficar descendo com o billy direto, ele só fazia xixi em grama, desde pequeno foi assim.

eu não podia

ficar descendo com ele

tinha que arrumar a casa

e voltar pro trabalho em dois dias, minha filha dormindo no sofá.

 

 

acendi um cigarro.

 

 

olhei a nova vista pela janela

um mar

de outras janelas

 

 

o billy se sentou ao meu lado no silêncio que ele era

 

 

de repente a bia

levantou do sofá. se aconchegou no meu colo.

 

 

-você não estava dormindo?

-te enganei de novo – ela disse e sorriu.

 

apaguei o cigarro, dei um beijo nela. achei que era uma boa hora de contar.

 

-meu amor,

a gente vai ter que deixar o billy na casa do tio maurício durante a semana.

 

-por que?

 

-olha o tamanho dessa casa bia, não tem como a mamãe ficar descendo com o billy toda hora pra ele fazer xixi.

 

-e se a gente comprar um tapete de grama?

 

o problema é a falta de espaço, a mamãe trabalhando o dia todo, você na escola,

quem vai levar o billy pra fazer xixi, pra brincar? ele precisa de espaço, meu amor, cachorros grandes precisam

e lá no tio ele vai ter.

 

-mas ele não vai ter a gente.

 

-ele não vai nem perceber com tanta terra e outros bichos pra ele brincar. é igual quando você tá na escola, você fica pensando no billy ou em mim?

 

 

-não.

 

-então meu amor. na casa do tio maurício vai ser a mesma coisa, ele vai ficar distraído brincando

e quando chegar o fim de semana estaremos lá.

 

-todo fim de semana?

 

-sim, todo fim de semana.

 

-você promete?

 

 

foi difícil prometer. eu sabia que ir tanto assim seria inviável, mas

no começo era o que faríamos,

até que a bia fosse ocupando a cabeça com

outras coisas,

pouco a pouco o billy se tornaria apenas uma lembraça que não dói, como tudo. também quando ele morrer vai ser mais fácil

nós não sentiremos tanto

o perdemos antes

e perder algo com vida dói menos do que perder pra morte.

 

 

liguei pra bia a música angel.

 

 

-você promete? – ela perguntou de novo.

 

 

e no fim de semana levamos o billy pra chácara do tio.

minha filha no carro

estava cabisbaixa mas

a estrada

a distraia

o billy ao lado

sempre tão calmo, dava a impressão de que nada definitivo iria acontecer.

a hora que a bia começou a chorar de verdade foi quando a gente soltou a coleira do billy e ele começou a correr no quintal feito um louco

se jogando na grama, rolando

de barriga pra cima, a língua de fora, ela chorava e ria, o tio mauricio com a mão por cima do olho pra proteger do sol. era um bom sujeito, o tio.

 

– agora ele vai ser livre. – eu disse

 

o billy correndo atrás das galinhas

 

achei melhor pegar a bia no colo

e irmos embora

sem ficarmos nos depedindo demais.

 

voltamos semana que vem. – eu disse.

venham sim, estarei esperando.

 

coloquei a bia no banco de trás

e conforme a gente foi ganhando estrada

o choro dela foi virando

garoa

era bonito ver como a estrada

acalmava a minha filha, ou talvez o tempo

disfarçado de estrada

e depois de

quilômetros em silêncio a bia disse

que agora a roberta era a sua última esperança.