escrita noturna

risco um fósforo enquanto penso no texto que descansa

na folha,

tem alguma coisa nele que está fora do lugar, alguma descrição, talvez

do bairro que o personagem visitou.

digito no google o nome da rua:

 

passo

de foto em

foto

 

nenhuma me diz do cheiro que a noite tem ali, da cor das crianças quando dormem se elas

amarelam, do nome do dono do pub,

já sei.

meu personagem vai passar a noite sozinho no hotel

muito cansado depois da festa

por isso

ele vai dormir rápido

e de terno

enquanto a prostituta

do outro lado da cidade

toma coragem pra

discar um número, mas

não disca. é,

ela não disca, e assim eu não preciso me preocupar com a vista da janela. prefiro pensar nos meus personagens por dentro, investigar a vida interior que eles têm, porque as cidades não são nada

sem alguém olhando pra elas

não há descrição que fuja

do estado de espírito de quem as descreve.

 

 

(latidos na rua)

 

 

apago o fósforo.

acendo outro, eles sempre me ajudam a dissecar um texto, eles são a minha luz de cozinha. a prostituta, olho pro fogo pensando, vai se matar nesta noite, será que fica muito trágico? a maquiagem borrada na banheira. as olheiras enormes e cintilantes.

na exposição da Yoko Ono

eu li em uma das placas

exatamente isso

 

 

Acenda um fósforo.

 

 

nunca tinha lido antes qualquer coisa a respeito da força de um pequeno fogo ainda controlável nas mãos, o fazia intuitivamente

para me arejar os pensamentos

e a Yoko também

e quantas pessoas mais, ou seja, somos tão parecidos, alguns de nós.

ontem

eu disse para um amigo sobre o quanto a gente era diferente, ele riu. não concordamos em praticamente nada, nem nisso,

mas nos damos relativamente bem. apesar que

meu amigo

não me sai da cabeça

fico tentando entender como cabem aquelas opiniões nele sem doer, às vezes penso que ele está dizendo o contrário só pra me provocar

como se tudo fosse sobre mim

sendo que na verdade ele nem é exatamente meu amigo. não ligamos um para o outro quando temos problemas, ele está precisando de dinheiro e eu

não emprestei. ofereci carona e ele não quis. queríamos transar, há uns meses.

acabou não indo pra frente

então estamos

com essa amizade arrastada

com ele me dizendo o que não cabe na minha boca, gosto mais quando encontro semelhanças

porque a única coisa que sei amar é a mim mesma.

 

 

(alguém dá partida no carro)

 

 

apago mais um fósforo. na mesa

uma coleção

de palitos queimados. ajusto mais alguns detalhes no texto, distancio em léguas os personagens, penso agora em colocar cada um em um país. a puta

já é um cadáver na banheira, o homem

está roncando na cama. de barriga pra cima. com sapato no pé.

tem

um ponto de encontro

entre essas

duas cenas

a morte e o sono, o pau mole, o seio inerte. a água da banheira balança levemente por conta do vento, ela esqueceu a janela aberta. então, de vez em quando, o bico

do peito dela fica

de fora. na cena dele, no hotel, começa a chover. ninguém acorda. por enquanto nenhum dos dois acordarão. leio o texto

mais uma vez.

não é um poema

nem um conto

e ainda está faltando

alguma coisa. um encaixe. talvez

um título, vou dormir um pouco, quem sabe amanhã

eu acorde com uma ideia. tendo tido sonhos tão estranhos. noite passada mesmo

sonhei que meu pai esmagou uma borboleta pra mim

e depois que a minha amiga tinha amputado as pernas.

dei google e

sonhar com borboletas

é aparentemente bom, não sei se esmagadas, não tinha no site esmagadas. agora com amputação

já não era tão bom assim, representava que a vida estava me tirando coisas importantes,

é claro que a vida está me tirando

coisas importantes, respondi pro site, não é assim com você também?

desliguei o computador.

deitei na cama

e de repente me veio

a preocupação de onde

vou estacionar o carro amanhã naquele evento que não tem estacionamento

nem lugar na rua

vou ter que

andar sozinha de madrugada por um trajeto

longo

será que no fundo é tudo medo de morrer?

esquecemos do disco

quando perguntei o preço do cd ele disse 15 de um jeito enroscado como se

não quisesse dizer.

tínhamos nos conhecido há meia hora

e o natural seria cobrar, claro, como se cobra um remédio na farmácia

ou um livro quando o autor não está.

15, ele disse, mas alguma coisa em nós

já estava estabelecida

um rio de intimidade que, não nego,

me incomodou pela rapidez com que nasceu. como podíamos ficar tão a vontades um com o outro sendo que tínhamos acabado de nos conhecer?

ele puxou o violão, começou a cantar.

meu amigo disse:

 

-ele é um caetano, um lenine.

 

a voz dele me levou pro colo

da minha mãe.

enchi a xícara de café. derrubei

um pouco no balcão.

desculpa, tem um pano?

Ninguém me respondeu.

antes desse cara aparecer

eu estava conversando com o meu amigo sobre moto, a moto que ele tinha

e que estava no conserto,

quando detrás do sofá surgiu esse homem

feito um bicho.

 

– ele mora comigo – meu amigo disse. – é gringo, não entende 1 palavra em português.

 

 

e o cara me olhando

como se fosse de outro

planeta

com um quê de ingenuidade típica dos bebês.

eu sabia

que aquilo era uma cena

e mandei os dois pararem com isso.

eles sustentaram a história

por mais um tempo

até que sozinha a brincadeira se

desmanchou.

então o cara pegou o violão e começou a cantar, foi quando eu ouvi

a voz que me levou pro colo

foi aí que eu perguntei

o preço do disco

você tem aqui?

 

-tenho.

vou cantar outra música pra você

antes de pegar. (percebi que ele estava querendo

ganhar tempo

para que criássemos ainda mais

intimidade

que transformaria esse Nós em um lugar seguro pra ele me dar o disco ao invés de vender, sem desvalorizar a arte dele,

mas sim como uma troca

tão justa quanto o dinheiro, um disco por um momento de escuta reflexiva como eu estava fazendo ali)

 

 

o telefone do meu amigo tocou.

 

a minha moto ficou pronta. – ele disse animado, desligando. – vou dar um pulo lá na oficina, tudo bem se vocês ficarem um pouco sozinhos?

 

claro – eu disse – vai lá.

 

meu amigo foi e na sala nasceu um silêncio sem peso.

então o sujeito começou a me contar

da sua vida nômade

ele que já tinha morado até na china.

 

– imaginando? que você estava na china?

 

-não, eu fui mesmo pra lá. um voo longo o mais longo do mundo tão

longo que

me acostumei a voar.

quando saí do avião, andando pelo aeroporto,

estranhei usar os pés.

 

ele falava lentamente

de uma maneira que dava pra

degustar cada sílaba.

 

-é o ácido que te deixa assim?

Não- ele disse rindo da

impossibilidade de ser o ácido.

– desculpe, eu não entendo nada de drogas.

– tudo bem.

 

fiquei fazendo

carinho no gato que estava ali

no sofá.

 

-é seu?- perguntei.

-ele não é de ninguém. está aqui, apenas.

como eu e você.

 

o gato cedeu ao meu toque

e eu comentei

exatamente disso,

 

olha como são os bichos, a gente os toca e eles se abrem, aproveitam o momento.

quando acaba

não nos cobram nada. já uma pessoa

quando a tocamos

ela cria uma ligação conosco

e coisas começam a serem cobradas a partir disso

como atender o telefone

e estabelecer um relacionamento

pode ser de amizade ou de amor, mas há cobrança, o ser humano precisa dar nome aos bois.

agora com bicho a liberdade é total

nem existe a palavra liberdade. a partir do momento que precisamos da palavra é sinal de que a coisa em si ainda não é forte o suficiente pra pulsar sozinha.

 

ele balançou a cabeça concordando.

continuei.

 

sabe que

às vezes eu duvido do meu toque? não sei se meu carinho é bom. acho que é porque eu não tive carinho na infância e também minha mãe nunca me deixou tocá-la, entre nós duas era sempre algo pra fazer

nunca um não fazer nada e se tocar, apenas, e isso me fez falta. agora eu não acredito mais

no meu toque.

 

-vem cá. – ele disse esticando o braço. – faz um teste em mim.

sentei mais perto

e comecei passear os dedos

nele e também no gato

nos 2 ao mesmo tempo

como faria um maestro.

aquilo

durou alguns minutos.

quando parei ele abriu os olhos

o gato seguiu dormindo.

 

-preciso ir agora. – eu disse levantando.

 

senti que ele quis me dizer não vá

mas se lembrou

da minha fala sobre tocar uma pessoa e o compromisso que vem logo depois disso, especialmente quando o toque é bom.

se segurou. me levou até a porta.

 

-tchau.

até. – eu disse

 

e desci as escadas.

meu celular

começou a tocar na bolsa

me senti uma caixinha de música ambulante

não virei pra trás.

na rua,

quando eu olhei o telefone pra ver quem estava me ligando

era aquele maldito número

que me liga direto

e quando eu atendo

a pessoa simplesmente não responde.

 

então por que você me liga? – um dia eu perguntei

sem saber se aquilo era um ser humano

ou uma máquina

e por um segundo pensei que tinha escutado algo no inaudível como Porque com você eu converso pela respiração, mas

duvido,

acho que

não ouvi nada mesmo.

inversão

na garagem meu pai bate uma foto minha, estou usando a calça que ele me deu.

entramos no carro, peço coloca o cinto

olho pra ele colocando depois

coloco o meu.

abro

o portão da garagem

dirijo trocando

a marcha pro meu pai ver.

antigamente

era ele quem estava sempre ao volante, eu assistia o mundo do banco de trás,

assistia também o rosto dele

pelo espelho

nenhuma ruga, 30 anos,

a barba por fazer.

não sabia se ele me percebia olhando

eu reparava muito forte no rosto que ele tinha, ficaria com vergonha

se ele percebesse.

Agora,

ele respondia uma mensagem no telefone

sem notar que eu

estava dirigindo finalmente tão bem e não era isso, afinal,

dirigir bem? o passageiro se sentindo tão confortável que o motorista acaba invisível.

comecei a imaginar

meu pai daqui uns anos, com a morte

já perto

da boca. será que

ficaremos mais próximos quando ele estiver assim? precisando de ajuda até nas intimidades,

levemente a colher

entrando sem bater nos

dentes.

eu queria perguntar pro meu pai tanta coisa.

queria saber como foi

de viagem, quantos países ele conhece, chega de mentiras ou inconversas, você tem medo de morrer, pai?

você ainda sofre

com as humilhações que a mãe faz você passar? sinto que

você a ama

só não ama mais

porque ela te afasta com todas as forças do mar que ela é

então você não consegue chegar, já está muito fraco, porque vocês estão juntos há quarenta anos.

não desista dela, pai. quando você não está

ela fala coisas lindas a seu respeito, diz até que você a salvou.

abrace ela,

eu acho que vocês vão se resolver se ficarem abraçados por um momento, talvez por algumas horas. quando saírem do laço

estarão como eram quando tinham 14 anos

se conhecendo nos arredores do colégio. quase posso ver

exatamente como aconteceu

de tanto que a mãe me conta, de tanto que esse dia é importante pra ela, pai.

ela não te diz por medo

do amor, ela que nunca teve isso na infância

e a infância é essa potência de vida em poucos anos nos marcando pra sempre

e porque ela apanhou de fio de ferro, porque o pai dela tratava mulher feito lixo,

então agora ela não sabe o que fazer

quando percebe que finalmente pode confiar em alguém.

eu sei que o seu amor sozinho não vai salvar a mãe do Trauma, pai.

mas vai ajudar, tenho certeza,

eu também a amo e estou tentando,

um monte de pedra junta uma hora não deixa o caminhão passar.

o terreno seguro da mãe

é a dor, isso

não é sobre a gente, você sabe,

e eu tenho achado

que você está levando as coisas com mais leveza como eu tinha dito que seria melhor. mas agora

me diga de você, vamos,

me conte da sua

enxaqueca, senti-la se parece com que?

com uma luz explodindo? não pra quem vê de fora e sim a própria luz de dentro, explodindo.

ou é como o corpo

de alguém que estava

na beira e

de repente caiu? me dê uma imagem, pai, eu quero entender o que você sente. e porque sente há tanto tempo,

pelo hábito a dor diminui? é tanta coisa pai,

que eu queria saber.

você já leu algum texto que escrevi? você acha que sou melhor escrevendo do que no teatro? me lembro daquele seu livro

do telê Santana

deixa eu te contar uma coisa, eu

roubei esse livro pra mim.

é o único de futebol que tenho, sabia? gosto de tê-lo,

gosto de pensar que tenho

o único livro você fez questão de ter.

é tanta coisa que eu queria te perguntar, pai. pelo acúmulo

acabo sem coragem

não sei nem por onde

começar.

fico te olhando do meu banco

enquanto você digita a mensagem

por um segundo penso que você está enviando a foto que tirou de mim pra alguém.

divido minha atenção com o que você escreve

e a estrada

também a sua

presença

também o quanto tudo muda no carro quando você está.

aumento

o volume do rádio, porque o locutor está comentando

de um exposição na pinacoteca que acabou de chegar no brasil.

tive a impressão que a sua cabeça

levantou um pouco

e eu querendo que você saiba

o quanto eu me interesso por Arte

ao ponto de

aumentar o volume do rádio mesmo quando estamos em silêncio.

insônia

ela caminha. quando me vê

estica até o máximo o tempo de não me cumprimentar antes que vire má educação.

então me cumprimenta

com o hálito quente

 

a tati não te chamou pro casamento?

 

-não – respondo calma. – ficamos mais próximas agora

e ela disse que era pequeno, o lugar, pra poucas pessoas.

 

-é,

eram pra poucas.

 

e ela me fala

mais duas ou três coisas

que não prendem a minha atenção

ao invés fico imaginando

a pele dela de manhã bem cedo

com o sono acumulado ao redor da boca.

outra vez que cruzamos, ela estava com o neto e não me viu, naquele dia

eu a senti um pouco mais real. agora comigo é sempre essa máscara

sempre esses dois

degraus acima.

então ela diz tchau

e se afasta

deixando um rastro

invisível.

semana passada eu estava correndo na rua e

trombamos novamente, nossas casas são próximas (no peito uma vontade

de mudar

de bairro

pra nunca mais

vê-la

é pra tanto?) e ela me perguntou se eu estava correndo ali pra paquerar.

 

não – eu disse

depois contei pra ela

que comecei a lutar boxe.

 

– é mesmo? você?

 

sim, respondi, e mostrei meu jab

depois outro

no ar

no meio

da rua.

 

ela riu de um jeito que me fez parar.

disse:

 

– tudo isso?

 

e olhou para as minhas roupas.

lembrei de uma amiga que tive

com essa mesma energia

tudo ficava guardado no como essa amiga me olhava

também nos monólogos, eu a ouvindo sem vontade de responder

tampouco queria que ela parasse de falar

era penoso demais

o silêncio entre nós.

demorei anos

pra sair dessa amizade

na época eu não tinha certeza do que eu sentia

às vezes pensava que era um sonho

a opressão, que eu estava

exagerando

e à noite quando eu fechava o olho

era o rosto da minha amiga que eu via. é difícil

existir alguém que de verdade nos queira

bem, as pessoas não se gostam

se suportam. as pessoas se machucam

e é sutil, parece um vento gelado

na nuca

parece um jogo

de olhar pra trás pensando que viu algo

era um gato?

 

 

(a rua vazia)

 

 

então você volta devagar

a cabeça

mas aquela sensação de alguém nas costas não passa.

houve um tempo que

eu até tive

uma amiga que se importava comigo.

mas agora

ela não está se sentindo bem, está triste e quer

morrer, eu adoraria que a nossas conversas fossem como antes pra eu dizer pra ela Pare, a vida é uma pizza

a gente vai de um pedaço pro outro, são

fases, eu ia dizer

no jantar que combinamos

mas em cima da hora ela me avisou

que estava com

 

cólica (eu acho

 

que era Mentira.

 

eu acho que o esforço pra me ver

seria muito grande

ela prefere constantemente estar sozinha).

 

o hálito das pessoas que vem falar comigo

é parecido. se aproximam

penso que elas querem uma conversa amena

oi, tudo bem?

eu digo tudo

e imagino

que teremos ali

alguns minutos prazerosos de contato.

de repente elas me pedem

um dinheiro

ou querem o número

daquele cara que estava conversando comigo ontem,

o Jorge?

de repente elas perguntam

por que eu me visto daquela maneira

ou pior, apenas olham

sempre parecido

esse olhar.

então eu me sinto

tão distante daquele corpo falando comigo, é como se nascesse um deserto entre nós

e eu vejo

lá no fundo

alguém minúsculo

me acenando não sei

nem se

é Humano, mas quando eu coloco a cabeça no travesseiro

fica na fronha o rosto

dessas pessoas, eu

esmago tentando

 

dormir.

 

 

não sou a única

comprei o ingresso da peça
era pra daqui três semanas

essa lota, um amigo me avisou.

certo, respondi

e fui

até o teatro,

saí da bilheteria com o ingresso na mão

me sentindo

estranhamente incomodada.

mal dormi

naquela noite

a cabeça pesando por eu ter comprado algo pra daqui três semanas ou seja

para um mundo que ainda não existe.

quem serei eu até lá? já que cada minuto me molda

e quando chega a hora de dormir

sou outra

sendo a mesma sendo

outra em mini transformações. não gosto

de me organizar pro futuro, é como se eu me organizasse pro Nada e o ridículo que cabe nisso.

me sinto uma fruta

caindo da árvore

imóvel depois da queda

até que venha um cão e coma

a fruta que sou

sem que eu possa evitar.

o futuro é sempre uma previsão ingênua

baseada no que geralmente acontece em determinadas situações

como comprar um ingresso para uma peça

e ir na peça

mas

cabe tanta coisa acontecendo em três semanas. meu pai, por exemplo,

ele pode morrer.

então ao invés de ir na peça

vou enterrá-lo

sem jamais enterrá-lo

em mim.

claro que comprar tão antes um ingresso

não vai fazer meu pai morrer

ou outra pessoa que amo morrer

mas isso

poderia acontecer naturalmente enquanto espero.

quem? no mundo

sabe quais são

suas últimas semanas de vida.

podemos estar vivendo nelas

exatamente neste instante

sem notar, se notarmos

morreremos antes

ou então os dias vão nos escorrer

numa urgência de despedida

mesmo sabendo que não há tempo e principalmente por isso.

se alguém que amo morresse antes da peça

minha vida viraria do avesso

se eu morresse

nem tanto

mas em qualquer possibilidade a peça seguiria seu curso, o público rindo não precisa de mim.

a atriz brilhando

tampouco. o figurino depois da peça

no cabide. outra coisa que não gosto

é de arrumar mala. me sinto

arrogante em estar preparando uma roupa pro futuro

como se tudo na minha vida fosse dar certo e mesmo que dê: o medo que carrego escolhendo

o melhor sapato pro

Desconhecido.

depois que já estou no lugar

relaxo um pouco

afinal o que estou vivendo ali é presente

virando passado

e ninguém pode tirar de mim o que já me aconteceu.

as pessoas só podem me tirar o que eu ainda não tive. a sensação de ter tido

elas não podem me tirar. quando eu era

pequena

direto eu não podia ir pro lugar que planejei.

pra casa da minha amiga, eu tinha marcado,

em cima da hora minha mãe não me deixava mais ir. as coisas dão errado mesmo, ela me dizia. Pare de chorar por isso.

em excursões de escola acontecia sempre. meus pais assinavam a autorização

pagavam o valor. mas quando chegava no dia do passeio

minha mãe falava você não vai.

me acordava com a voz mais mansa

e dizia você não vai.

preciso da sua ajuda

pra cuidar da casa, da roupa,

da sua irmã. tá pensando que aqui é hotel?

e eu ficava imaginando

o ônibus indo

embora com os meus amigos

rumo ao parque de diversão, ao museu da língua portuguesa,

eles sem saberem porque eu não estava lá se tinha dito que ia.

aos poucos

todos foram percebendo

que não podiam contar comigo

e a surpresa de eu não estar

diminuindo, a falta que eu fazia também.

só em prova

eu não faltava nunca

ou na casa dos meus amigos quando marcávamos de fazer trabalho. terminávamos

e eles queriam brincar

eu brincava pensando tenho que ligar pra minha mãe e dizer que já

acabei (se eu conseguir assistir essa peça

será um

passo a mais pra tampar meu medo de não dar certo as coisas que planejo, preciso de muitos passos,

não menosprezo nenhum).

eu via meus amigos indo

em festas sem mim

e chorava

por dentro (se chorasse no rosto

apanhava

que chorar não é coisa de menina que tem tudo, minha mãe dizia)

então por dentro aquela chuva

por isso nasceu uma árvore em mim. foi quando eu acabei virando

uma pessoa que escreve

por conta da árvore de não ir que me nasceu. parei de acreditar que a vida me daria

um dia bom, parei de

esperar a diversão acontecendo pra mim

e ainda que ela aconteça: me vejo sempre de fora,

em câmera lenta. aí ontem

quando tentei marcar um café na sexta com uma amiga,

temos que conversar sobre poesia de um jeito que só consigo quando estamos juntas,

então ela me disse

que não podia confirmar nada

sexta era muito longe

ela não sabia nem se estaria viva.

o menino que me sumiu

faz pra mim o rosto de alguém que não entendeu a piada. 

ele fez o rosto

envelhecendo sem entender

e tinha 6 anos, estávamos na aula de teatro, eu de professora.

o mais triste

é que eu não consigo lembrar o nome desse meu aluno, era diego?

era antônio?

a blusa que ele usava eu me lembro

e do frio bem cedo em pleno sábado.

 

 

Captura de Tela 2017-06-19 às 13.32.13

 

tinha caído a ligação

o que eu amo é a palavra – eu disse por telefone

para um amigo que

há tempos não conversávamos

e explicando pra ele sobre o porquê de não fazer mais Teatro

fui entendendo também em mim. ter um interlocutor

às vezes proporciona essas

reflexões que

sozinhos ainda não tínhamos tido, só pensado

bem de longe

no fundo de si mesmo e

de repente quando alguém pergunta Como você tá?

então a coisa

se Solta

ganha vida

nem parece que é a gente que está falando aquilo.

as peças que eu lia – contei pra ele – me davam muito prazer

eu amava olhar praquelas letras

grifar as minhas falas

ter frases pra mim que como atriz eu colecionava

pro personagem ter estofo

e então falar

a frase no palco

como se fosse eu que tivesse pensado aquilo

o texto era meu por algumas horas, depois

do mundo de novo,

e isso me dava uma alegria tão grande, eu tinha 18 anos. também amava segurar aqueles textos, levar eles pra casa

toda orgulhosa, me sentindo

finalmente importante, eu carregava Brecht, Beckett, Tennessee Williams

e lia aquelas peças maravilhosas a madrugada inteira.

entrar em contato com uma obra prima

sentir a sua força

perceber de repente que no mundo existem coisas tão belas e eu

não sabia,

seguia vivendo a minha vida como se só existisse o que eu já conhecia, o bule, a tv, o jeito da minha mãe,

mas quando eu li

édipo rei, por exemplo, que foi a minha primeira peça,

aí eu entendi que

meu deus do céu, o mundo é enorme. Pessoas extraordinárias passaram por aqui

e deixaram coisas pra gente

desfrutar, aprender

a gente precisa ir atrás dessas coisas

incansavelmente.

e quando eu li Fernando pessoa pela primeira vez? claro, eu já tinha lido ele no colégio, já tinha achado diferente

um poeta dramaturgo

e aqueles personagens

escrevendo à sua maneira mas tudo saído da cabeça de uma pessoa só

e a obra convivendo entre si

como se fosse uma grande peça

com não sei quantos atos

claro, ali eu já tinha achado o Fernando um gênio. mas anos depois

eu entendi melhor

quando o diretor da escola de teatro pediu pra cada aluno da nossa sala trazer um poema decorado pra semana que vem e fazer uma cena.

advinha de quem eu fui atrás?

Dele,

era o poeta que eu lembrava ser o melhor

e eu não lembrava de muitos mais

tinha saído da escola há dois anos

e na minha casa nunca teve livro além dos meus, foi o teatro que começou a me fazer ler.

então eu fui atrás

do melhor poeta que eu conhecia

e mesmo hoje conhecendo outros, o Fernando continua entre os melhores. comprei um livro dele na banca

dessas edições pocket, sabe?

e li,

os poemas eram todos excelentes, aquele em linha reta um mantra

eram todos

excelentes

e cabiam na minha boca de uma forma impressionante

nem eu saberia dizer tão bem sobre mim.

mas tinha 1

teve 1 que

acabou comigo

e ainda acaba, era o tabacaria.

eu também tinha lido esse na escola, acho que até caiu no vestibular, mas não daquele jeito com tudo entrando me vestindo os órgãos cada dedo cada vírgula no seu lugar perfeito pra me matar de beleza, de compreensão, de

magnitude, de

profundidade, o que é isso? o que é

esse poema? Tabacaria não é um poema é uma língua

tudo o que um ser humano precisa saber de mais fundamental está lá

naquelas páginas. decorei o texto em dois dias

e fiz a cena.

ficou ótima, me lembro, não por mim, eu

era péssima.

foi boa porque meu amor finalmente escorreu

meu corpo descobriu ali o que eu queria fazer pro resto da vida: brincar com palavras

fazer elas virarem

histórias, sons, frases que

confortem alguém que acabou de perder algo

ou que acabou de perceber que nunca teve nada. frases que perturbem

de um jeito que faz a pessoa agir

ou chorar

ou entender qualquer coisa que ela pense que entendeu, mesmo que no segundo seguinte a sensação de entendimento passe, era isso que eu queria fazer

pra sempre.

enquanto eu dizia o

tabacaria

os alunos me olhavam de verdade como nunca tinham feito, o diretor também

e eu senti

uma certeza profunda, naquela hora pensei que era sobre ser atriz

mas agora

anos depois

aqui

falando com você

percebo que não, não era o teatro. era a

Palavra.

é engraçado, né? com essas profissões todas que existem nas faculdades, quando somos jovens ficamos confusos. e às vezes

a nossa profissão não é uma ação

é 1 coisa.

a gente precisa de Tempo pra entender isso, pra entender quem somos,

às vezes parece que a seta está fortíssima apontando para um lado

e só o tempo

pode mostrar que não,

você não acha?

meus pais mesmo

eles falavam direto pra mim

que o meu caminho não era o teatro

mas eu

não ouvia

eu tinha certeza que era

e claro, tudo isso foi muito importante, viver o teatro foi

essencial pra mim.

 

 

( silêncio )

 

 

 

eu nunca tinha contado isso pra ninguém,

sabia?

 

 

alô?

 

 

o médico e o monstro

você acordou inchada. toquei no seu

Rosto,

não sabíamos o que era aquilo.

deve ser dente, eu disse

é, você respondeu

mas se fosse dente, pensamos juntas, não era pra estar doendo?

te levei no médico, é melhor,

você querendo esperar

– o que? – perguntei.

Piorar, você pensou

mas não disse

essa vontade que às vezes temos de

ver as coisas ficando

realmente ruins em nós, assim quem sabe

as pessoas nos dão

algum olhar

e assim também flertamos

com a Morte

algo tão distante dos conceitos de estar vivo

e por não a compreendermos querendo tanto

então misturamos

morte com vida, pensamos que dormir é um pouco como morrer

sendo que morrer é morrer

e não se parece com nada que já fizemos antes.

chegamos no hospital.

seu rosto

estava ainda mais inchado

num silêncio de dor.

te ver assim
Crescendo

deixava claro o quanto somos

frágeis, num dia você dorme tranquila

no outro

acorda desfigurada, tem gente que

nem acorda,

o médico

te examinou com os dedos

você fechou os olhos como se aquilo fosse um carinho.

– é caxumba. –ele disse.

e receitou uma porção de remédios.

–até quando eu vou ficar assim? – você perguntou

preocupada com o tempo,

o seu tempo útil.

–de 5 a 7 dias. vou te dar uma licença pro trabalho.

-ah. – você disse querendo

agora mais do que nunca

ser outra pessoa

qualquer uma que não tenha

Doença. – achei que caxumba era coisa que dava só em criança. – você completou.

– não existe doença que dá só em criança.

-é contagioso pra quem nunca teve, doutor? – perguntei, de repente entendendo o risco de ter ficado tão perto do seu rosto pela manhã.

– sim, o vírus pode estar alojado em você.

e o meu rosto já inchando

só por prever que possivelmente incharia,

também uma dor

nas costas, é normal doutor?, esse medo de ter

um rosto grávido, as pessoas vão gostar ainda menos

de mim.

tem risco?

de eu ficar deformada pra sempre, quis perguntar,

o que eu vou fazer se eu ficar deformada pra sempre, sair de casa eu não ousaria, me olhar no espelho muito menos

mas a consulta,

lembrei,

ainda não era pra mim.