solidão n. 47

virou

achando que tinham chamado seu nome.

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as coisas

-tem um negócio na sua barba.

 

-o que?

 

-um pelo, acho, vem cá. (ela tira, joga no

chão. depois dá um beijo no marido que retribui mas não pensa

no beijo

o chão também não pensa

no pelo

mas guarda)

 

-que horas na ana hoje? – ele pergunta.

 

-sete. você vai conseguir?

 

-vou, umas 6 tô aqui, tomo um banho e a gente já sai. (de repente a porta

em alerta

por conta da palavra

Sai) vai fazer o que hoje?

 

-não sei. tô com vontade de nadar um pouco.

 

-me manda foto.

 

-do que?

 

-da Bunda.

 

(ela riu. no dente, enroscado, um pedaço de pão do café)

 

então o marido foi

pro trabalho

 

e ela vestiu

o maiô (só um filho fica mais próximo do útero do que a parte debaixo de um maiô)

 

e antes de descer pra piscina

ela tirou uma foto

no Espelho (você não é assim)

 

empinou a bunda e

tirou outra

 

mandou a segunda

pro marido.

 

escreveu:

te amo

 

o marido respondeu em seguida:

tô de pau duro

 

mas na verdade quem estava conversando

eram os celulares.

 

ela desceu pra piscina.

pulou (legume na sopa)

 

tomou sol por um tempo (o pão ficou com sede, o cheiro

da saliva.

 

às sete ele foi também

pra festa

 

apesar da escova de dente ter tentado

impedir

mas não pode, pra estragar aquela noite só mesmo o fio dental

e justamente

o fio dental

era o que o marido tinha esquecido da última vez que ele foi na farmácia).

humor

tudo estava estranhamente quieto. quero meu envelope de sempre, eu disse sorrindo
pro moço do balcão como se ele
lembrasse
era o mesmo moço de ontem, eu também
era a mesma
mas ele
não lembrava, no fim das contas tive que apontar.
paguei com uma nota
de 5.
ele me estendeu o troco, a moeda estava fria.

preenchi o envelope com o endereço de lígia

rua padre cícero, 213 – Teresina

e então entrei
na fila de envio
na minha frente um velho
acho que já vi esse homem
em algum lugar.
acho que
ele treinava comigo
na acm
e me deu um livro didático
que ele tinha escrito na década de oitenta. jura? eu disse, pegando aquilo nas mãos. um livro didático é pra todos, como você conseguiu escrever uma coisa pra todos?, eu perguntei na época.
não pensando em ninguém, ele respondeu
fiquei com vontade de chamar Fernando
pra ver se ele olhava
mentalmente eu chamei
Fernando
e tive a impressão de que ele me escutou. guardou no bolso
a nota fiscal. saiu deixando apenas a minha vez.

entreguei o envelope pro atendente.

ele digitou o cep no computador sem
dizer tudo bem graças a deus como ele disse ontem quando eu perguntei como ele estava
aquela luz da tela
deixava o rosto dele um pouco azul.
mário estava escrito no crachá
mário o nome
que a mãe escolheu pra ele acabar assim
numa manhã de carimbo
sem olhar nem pra coisa
que ele estava carimbando

-7 reais. – ele disse.

eu estava mandando um livro para uma amiga, gostaria que ele tivesse perguntado.
paguei.

-tchau, eu disse não sem
mágoa

e saí
agora de mãos
vazias
um volume de gente na rua
mergulhei.

escolhas

olhei o mar. a praia ao redor, algumas pessoas. os corpos

das pessoas

denunciavam o tempo

que elas estavam na

Terra

40 anos, 65, 13, o que são

os anos? quem decidiu guardar 365 dias numa caixa

e isso ser a marca da vida de alguém, morreu aos 70, números contando ao invés de palavras. morreu mãe de martha e ângelo. ou. morreu sonhando em andar de barco. seria mais bonito

do que morreu aos 20, aos 58, diria mais sobre a pessoa morta, o que é o tempo se não um jeito de lembrarmos que nada é nosso? quero chegar logo em casa, costumamos dizer. mas estamos envelhecendo

as paredes também. estar vivo é se despedir longamente

de tudo,

quando alguém morre nunca mais é visto

a não ser que seja

gêmeo. olhei o mar de novo. na barraca da frente

uma piscina de plástico

do tamanho de uma bacia, a criança dentro, o mar pra ela era aquilo

enquanto a mãe tomava sorvete

e o pai ajeitava o cordão da sunga pra depois

mergulhar num salto

fiquei esperando

a cabeça voltar

pra superfície

 

 

imagina?

 

morrer assim, por escolha. com calma e sem planejamento

embaixo d`água de repente não voltar

 

 

mas o pai

voltou

 

logo sua cabeça estava reinando de novo

acima das águas

 

balançando com as

ondas

não porque ele queria mas porque o mar é quem dita

o ritmo

 

e a esposa levantou da cadeira pra jogar o palito.

a bunda dela

era alta

parecia um implante

a criança na piscina

ainda distraída

com a água pouca e aquele mundo

de areia e mãe.

o pai voltou do mar.

deu um beijo na esposa que lhe perguntou qualquer coisa e ele disse que

não.

de repente apareceu um cachorro

correndo, um cachorro de ninguém, ele

corria pela praia não por fuga, pelo ato,

o movimento das patas

fazia a areia

voar

pros cabelos pernas bocas

mas não era

agressivo, era

uma inocência

por isso as pessoas riram

pra ele, depois

entre elas

depois seguiram

conversando

o pai sentado na cadeira

a mãe

sentada na cadeira

o filho ainda na piscina mas já a beira

do cansaço.

o cachorro seguiu correndo

agora em direção ao mar.

deu um salto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

e nada da cabeça voltar.

 

colo

o Marcelo ainda queria leite

mas ficou com medo

da mãe, você não tem mais idade pra peito, ela disse furiosa e então ele

se afastou,

foi brincar no quarto.

ele fica vendo o irmão e quer fazer igual, a mãe contou pro pai

de porta fechada, mas o Marcelo escutou, as crianças

sempre escutam. largou o barquinho. deitou na cama se sentindo injustiçado.

o jonas

podia fazer um monte de coisa legal inclusive bagunça, inclusive gritar

pra logo depois ganhar o peito

da mãe sempre carinhosa, pra ele ela até cantava.

já com o Marcelo

era só bronca, saí daí menino, quer

apanhar?

eu faço tudo errado, ele pensou com sono

dormiu sonhando que morava em marte.

 

no dia seguinte, era sábado, o telefone tocou.

 

-posso buscar o Marcelo? pra gente passar a tarde juntos?

-claro. – a mãe disse por telefone. – quer ir na vó, filho?

-quero! -ele disse pulando do sofá.

 

e depois de algumas horas ela veio buscar o neto, eles se abraçaram.

ficaram ouvindo música clássica no carro, as músicas que tocavam no desenho.

quando chegaram na casa dela a vó

tinha um presente, uma pedra da sorte

cor de

alumínio, guarde

pros dias ruins.

 

depois

eles ficaram jogando conversa fora.

 

-a minha professora de classe até que é legal, mas ela passa muita tarefa, eu fico cansado.

 

a vó disse que ele não precisava levar a escola tão a sério, que as crianças aprendiam muito mais convivendo com os amigos, brincando no pátio. ela contou sobre Artistas que largaram tudo, casa, família,

pra viver na estrada e isso foi mais importante do que qualquer escola.

 

-tá na hora do Pernalonga. – o Marcelo disse, olhando no relógio.

 

-pode ligar.

 

-faz bem assistir desenho?

 

tudo o que você gosta te faz bem. não escute as pessoas, geralmente elas querem nos afastar das coisas que amamos.

 

(uma pausa)

 

-tô te achando tão tristinho.

-não tô, vó.

-vem cá – ela disse o abraçando. – tá acontecendo alguma coisa?

-não.

-quer dormir aqui hoje?

-uhum.

 

e eles ficaram assim por um tempo

no colo um do outro

foi quando o Marcelo percebeu o relevo

então ela tem também?, ele pensou. começou a procurar com a boca

igual ele tinha feito

com a mãe.

 

por um segundo

 

a vó pensou em

afastar o neto

mas

 

ficou com pena, viu os olhinhos virando,

tá com fome? ele balançou que sim.

 

então ela levantou

a blusa

abriu o sutiã

 

sem susto o Marcelo alcançou

um bico

apoiou a mão no outro

e ficou buscando um leite que

faz tempo não estava mais ali.

 

-mama meu amor, finge que eu sou a sua mamãe

 

enquanto o Patolino tentava

enganar o Pernalonga pela milésima vez.

 

 

 

 

 

 

 

 

fácil falar do medo dos outros

descalça pela casa que não era dela, nos pés

um cuidado maior, vai saber se tinha caco (ontem alguém quebrou uma garrafa, ela ouviu) ou merda

de cachorro, ela desceu as escadas devagar.

as cortinas da sala

balançavam pelas mãos

do vento, aquilo a fez lembrar da

infância

ir pra escola sete horas da manhã. ela acordava e o céu

rosado, ela acordava e a vida toda

pela frente, sexta era o dia da bandeira

ela não esquece da primeira vez que hasteou. só podia chegar no topo quando o hino terminasse

não era fácil

calcular o tempo e a distância

de repente todo mundo começou

a olhar pra ela, a professora ao lado, o vento

frio da manhã.

os alunos riram. ela pensou é de Mim, mas

era do seio

aceso da professora

nem tudo é sobre você, as crianças disseram.

 

ela entrou na cozinha. deu bom dia pra Jéssica

e pro Douglas, o cachorro.

 

– quer café?

– pode ser.

 

a Jéssica encheu a caneca

e esticou pra ela

que pegou levantando os ombros, respirando fundo,

assoprou e deu um gole

no café.

depois pegou um pão

no cesto.

 

– dormiu bem?

– muito, que cama gostosa. e esse lugar também, meu deus. eu ouvi até grilo.

bem diferente da cidade, né?

– e como. quero me demorar aqui, se você não se importar.

– fique o tempo que quiser.

 

 

ela estava pensando em começar seu livro hoje mesmo

aquela mesa larga

de frente pra janela

parecia perfeita pra escrever a história de laura a menina sem dente

não adiantava colocar postiço

ou comida

tudo que entrava na boca de laura

morria

ela começou então a se alimentar pelo furo na garganta que o hospital fez.

até que um dia

entrou uma barata pelo furo

que começou a Reinar

dentro de laura

era uma história de terror

pra crianças

um gênero inédito que fará muito bem aos pequenos tão poupados, ela acreditava,

assim eles não crescem com medo do Medo e isso

é bom, deixa a vida mais fluída, ela estava pensando no futuro das crianças.

 

-posso usar a mesa da sala pra escrever? – ela perguntou pra Jéssica.

-se o barulho da casa não te incomodar.

-na verdade o barulho ajuda, toda vez que escrevo num lugar silencioso o texto acaba sem vida.

-então fique a vontade.

 

e ela ficou.

antes de começar o trabalho, cada escritor tem um jeito de se aquecer, ela mergulhou

nua no lago

como fazia Marilyn Monroe

mas sem nenhum homem pra lhe oferecer toalha

e ela estava bem assim, com a energia focada no livro, tinha planos de passar o mês sem sexo como os velhos fazem. ou os viciados, Lee Morgan por exemplo. ele até flertava com as garotas

mas não transava. jantava com elas, abraçava, ouvia música. mas não conseguia ter ereção por conta do seu

passado com as drogas e de repente ela

saiu correndo

do lago

o mais rápido que pode, a água atrasa, pesa,

 

Jéssica, ela gritou.

 

tinha certeza que

um ombro?

gelado e completamente sem vida

tinha encostado nela

 

Socorro, ela gritou se vestindo,

 

ou será que foi só um peixe?

 

 

educação

-eu também fazia isso quando era mais novo. – ele disse.

 

quantos anos você tem?

 

– 30.

 

-a gente também.

 

-mentira, com essa cara de menina. – ele disse olhando pra minha amiga

e eu ali, segurando a lanterna, enquanto ela enrolava

a seda,

meu irmão sabe fazer isso melhor do que eu.

 

abracei meus ombros.

 

-você tá morrendo de frio, né? eu já tô acabando aqui, prometo.

 

e eu pensei na minha mãe dizendo

que as drogas eram

o maior desastre desse mundo, ela quase chorava quando dizia. aumentava o volume da tv toda vez que passava um caso de alguém viciado,

a casa inteira escutava fulano de tal está tremendo

fulano de tal está tão magro, uma caveira

a família abandonou

o fulano de tal

agora ele está morrendo

e não se importa.

uma vez eu pedi um chope numa pizzaria.

mais tarde e por acaso

meus pais apareceram no lugar. você está bebendo? minha mãe perguntou.

 

– é só um chope. – eu disse como se não me importasse

meu coração batendo rápido

meu pai pôs a mão

no ombro da minha mãe, eles saíram sem dizer mais nada.

demorei pra voltar pra casa naquele dia.

quando voltei

meus pais já estavam dormindo, a porta do quarto sempre aberta, eu entrei pro meu sentindo abandono e era

só um chope.

mas naquela noite com a minha amiga

era maconha, eu

não estava fumando

apenas fazendo

companhia pra ela

escondidas atrás de um fiat

olhar o preparo do fumo era como assistir uma dança.

foi quando chegou o dono do carro

dizendo que ele fazia o mesmo quando era mais novo

ele gostou da minha amiga

ela também gostou dele, principalmente depois que ele disse que ela tinha cara de menina, a minha amiga não quer morrer. então ela conserva o rosto, com cremes e máscaras de

rejuvenescimento, assim a Morte

fica perdida e se um dia Ela se irritar

vai ser do tipo de óbito que comove as pessoas, quem morre com o rosto jovem vira uma espécie de herói. até no cemitério,

uma vez eu caminhei por um com a minha irmã. a gente viu o túmulo de um homem que morreu com 25, Cristian ele chamava, ficamos olhando a foto dele nunca mais esquecemos daquele rosto.

 

– senta aqui com a gente, – minha amiga disse pro cara.

 

-não, brigado. eu tenho que voltar pra casa.

 

-você não é daqui?

 

-eu moro em Santana. mas venho sempre pra cá na casa do meu primo. eu gosto, dá pra ver bem o céu.

 

ali era serra

o ar era menos

poluído.

então o cara se despediu. entrou no carro, ligou o motor. por um segundo eu pensei que ele podia

passar por cima da gente ao invés de ré,

cometei com a minha amiga

 

-ele pode nos matar com esse carro.

 

– cala a boca – ela disse rindo. – quer um pouco?

 

-não sei tragar.

 

(o cara deu ré, buzinou e foi embora. minha amiga acenou, eu fiquei parada)

 

-você pode engolir a fumaça enquanto eu assopro na sua boca, dá no mesmo,

quer?

 

-pode ser. – eu disse um pouco tímida, não gosto de abrir a boca perto das pessoas

fico com medo de estar com o hálito ruim

porque uma vez eu estava

e beijei um garoto, ele me odiou para todo

o sempre.

 

-vem mais perto. – minha amiga disse

engoli sem jeito

a fumaça

dentro dela o choro

da minha mãe.

na estrada de aldeia

um pássaro no fio elétrico rouba a minha atenção. ele está bastante concentrado na vista, será que ele pensa?, no tamanho das coisas. em relação ao tamanho dele, o mundo parece um lugar hostil. ainda assim

nunca vi um pássaro com má postura ou seja desistido, não, eles são todos de peito pra frente

mas esse que vi, especialmente, parecia guardar um segredo.

estava escurecendo,

eu descia de carro a serra da aldeia

depois de uma festa.

adoro olhar a cidade do alto, todas essas luzes que jamais saberemos,

então me lembrei

do filhote de canário

que uma amiga, a camila, resgatou.

ele tinha caído do ninho

estava agonizando quando ela viu o corpo no chão. a camila podia ter pisado nele, sem querer eu digo, a grama estava alta. mas não sei como ela viu o canário, pegou no colo, levou pra casa. agora e meses depois ele está curado

mas a veterinária disse se ele voltar pra rua

ele morre em uma

semana.

 

– tem certeza, doutora?

 

minha amiga voltou pra casa

com ele na gaiola dando aqueles

pequenos pulos que é o jeito de andar dos pássaros, é o jeito que eles esperam também,

então ela decidiu guardá-lo

no quarto

fechou as janelas, a porta,

e deixou o canário morando ali.

vale mais? pergunto porque não é uma questão fácil, eu mesma não saberia decidir, é melhor? viver por muito tempo sem ao menos uma janela

ou viver solto

como o pássaro do fio

sabendo que é curto existir num mundo que destrói tudo o que é de vidro, mas na verdade o pássaro não sabe, na verdade quem sabe é a gente, o bicho viveria sem peso pelo tempo que fosse o problema é a culpa, a nossa, é isso que a camila sente toda vez que pensa em abrir a janela. se ela abrir

o pássaro voa

apesar dela ter cuidado dele, apesar do perigo na rua, ele vai voar simplesmente, é o que ele nasceu pra fazer.

a camila poderá apenas assistir

o voo triste

já que Ir é o mesmo que dizer sim pro risco (pássaro vê as coisas se apegando a elas como a gente faz com tudo o que gente pensa que é nosso?)

ninguém é livre depois de saber que está matando

ninguém é

livre de jeito

nenhum

os metros quadrados, os grandes espaços, eles só aumentam a solidão.