preconceito

abri a porta de casa, você estava na cozinha e me olhou,

começou a cantar uma música.

 

-é tua? – perguntei tirando

os sapatos.

 

-não, 

é do Caetano. – você me disse

 

e a música, de repente, ganhou um lado mais atento

do meu ouvido.

o risco

ficava tentando me enforcar com as mãos quando eu ia pra cama

mas faltava algo, uma roupa,

aquele pijama não estava ajudando.

não era de triste

que eu fazia isso, era

científico, uma pesquisa pra descobrir em que ponto da vida uma pessoa morre,

como é o quase ir

pra onde ninguém sabe

o pior é pensar que pra lugar nenhum. no entanto tem gente que se sente confortável com isso, com o lugar nenhum, porque a vida é tão

dura, não devolve nada,

eu assistia tv

tomava leite

com chocolate

e nada

da vida me devolver o que eu estava dando pra ela, meu Tempo.

apesar que

eu tinha uma amiga

que era a minha vizinha e isso me dava algo, uma alegria, trocávamos cartas e adesivos. eu tinha também uma coleção de gibis

que ficava dentro do meu armário e toda vez que eu abria aquilo

era como abrir a janela num dia de sol. eu só emprestava a coleção pra minha vizinha, afinal ela tinha um buggy

e sempre me levava pra dar uma volta

me fazendo sentir já com 18

anos

andando de carro por aí. a fê

direto vestia uma camisa branca

a blusa mal secava e ela

já pegava de novo

passava e vestia

eu ficava com vontade de passar roupa quando via ela passando

e também com vontade de usar a camisa dela.

a fê

era bem maior do que eu

a blusa pra mim viraria um vestido

de casamento

perfeito para uma virgem que quer testar

a morte, era o figurino ideal.

posso experimentar? eu não tinha coragem de pedir. mas um dia

estávamos no quarto dela e a blusa no canto da cadeira, pra lavar.

a fê foi ao banheiro

aproveitei e vesti finalmente

a blusa

me senti uma noiva casando com um homem

parecido com o meu pai. quando ouvi a porta do banheiro abrir

enfiei rápida a camisa na mochila

a fê ia perceber que a blusa tinha sumido

mas

ela não ia achar que fui eu.

amanhã eu devolvo, pensei.

assim vestida de noiva eu vou conseguir

fazer o teste

e a fê ali na hora não percebeu a falta

da blusa, seguimos conversando sobre os garotos do colégio.

naquele mesmo dia, mais tarde,

tomei banho e coloquei meu pijama normalmente. boa noite, minha mãe me disse, dorme com deus.

amém eu disse

e quando percebi a casa em silêncio

então eu troquei

meu pijama pela blusa

deitei de barriga pra cima

e coloquei as duas mãos no pescoço. nada de covardia agora, eu pensei

bum bum bum

castelo rá tim bum

eu cantava por dentro

forçando a mão no pescoço

esmagando a garganta

a camisa era mesmo

perfeita

vou parar só quando eu estiver

morrendo

senhor me ajuda

a parar um pouco antes

quando um carro buzinar ou

um cachorro latir eu

paro, é bom

estar morrendo

tem prazer no

desistir e uma

leveza que

fic a

 

 

(na rua nenhum carro

 

nas casas o sono dos cães).

compreensão

eu poderia passear com o meu cachorro por toda a vida, a cidade nunca me cansa, olhar as pessoas é uma distração parecida

com ouvir música,

vejo dois homens

andando na calçada

com uma falta de coragem pra dizer um pro outro que se gostam, a atração que eles sentem fica clara pra mim.

perceber as faíscas

é tão prazeroso quanto ouvir miles davis,

eu que não entendo

tecnicamente de música, só aprecio

é como no amor, também não entendo e aprecio.

agora sair sem o meu cachorro

sem ter que passar no mercado ou na farmácia

apenas caminhar

sem rumo

então não, assim eu não gosto, assim as pessoas podem descobrir meu olho e virar eu a observada, aí eu prefiro sentir a cidade pela janela de casa.

uma vez, me lembro, antigamente eu fazia isso de marcar encontro com desconhecidos pra dar uma pausa na escrita

e respirar um pouco, ver o mundo, então teve uma vez que eu topei

uma cerveja

com um ator que ficava me mandando mensagem na internet dizendo que eu parecia ser do tipo que conversa sobre tudo

música, artes plásticas, política,

mas no fundo, sabíamos, ele estava querendo era me comer.

marcamos um boteco ali na augusta. queria ver como se comportava o sujeito quando estava com vontade de transar com uma pessoa mas ficava disfarçando, qual é o rosto que tem alguém que se engana assim. no fundo

eu queria ser uma terceira pessoa

invisível

observando de perto o primeiro encontro do casal

a mão na coxa, os sorrisos, a ida ao banheiro

e a clássica olhada pra bunda. mas como isso não era possível, então o jeito foi topar o encontro e eu mesma ser a garota de dentro.

o cara

chegou bem atrasado. pediu desculpas

e me cumprimentou com um beijo no rosto.

ele era altíssimo

e realmente não fazia meu tipo

nada nele me agradou, nem a voz.

pedimos as nossas cervejas

enquanto ele contava de um espetáculo que ele estava ensaiando 3 vezes por semana, uma releitura de Shakespeare e eu disse

jura? Shakespeare

qual peça.

romeu e julieta, ele disse, mas é diferente de todas as montagens que você já viu, isso eu posso te garantir. o diretor é um maluco

nunca vi alguém ir tão longe no pensamento como esse cara

ele cria umas imagens que nem eu acredito.

que bacana, me avisa quando entrar em cartaz.

aviso, claro, ele disse

e começou a me contar de uma fã que ele conheceu um dia

que do nada perguntou você veio de carro?

ele respondeu que sim

e ela disse então vamos lá

buscar a sua blusa, foi quando ele entendeu o que estava acontecendo, o pau endureceu na hora,

eles transaram loucamente

no banco de trás.

 

– depois nunca mais nos vimos. tentei ligar, ninguém atendia.

– de repente ela era casada. – comentei.

 

-é,

eu pensei nisso. – ele disse jogando o corpo pra frente

tentando me seduzir com aquele tamanho

de tórax

eu já estava ficando com sono.

 

– preciso ir.

– mas já?

pagamos.

 

na rua ele me deu um abraço

longo

e eu senti a pica do cara crescendo

aquilo

me deu tesão finalmente

eu disse olha,

moro aqui perto você não quer subir pra tomar um chá?

quero, ele respondeu surpreso

e assim que chegamos eu pulei mil línguas no colo dele.

tiramos a roupa.

caímos no sofá e eu

sentei no cara, devagar claro, porque a pica era realmente grande e

que delícia

eu estava precisando daquilo

ah, que beleza

a natureza dos corpos é mesmo uma coisa maravilhosa

e meu cachorro começou a cheirar minha bunda

sai mike

sai.

gozei profundamente

e não é que esse cara fez um bom trabalho? eu disse pra ele

você

fez um bom trabalho.

ele sorriu e me perguntou

se podia tomar uma ducha.

 

– lógico, fica a vontade.

tem toalha na gaveta.

 

acendi um cigarro. coloquei o disco da nina Simone pra tocar

uma chuva fina na janela, o mike dormia no tapete, agora você dorme né seu filho da puta.

 

quando o cigarro acabou eu

estiquei o corpo no sofá

ainda úmida

de gozo e suor, quando tudo secasse

eu ficaria com frio,

adormeci.

 

quando acordei (olhei no relógio)

 

-rafael? – chamei pela casa

 

e o cara

não estava mais lá, não deixou nem bilhete,

será que ele não gostou do sexo? o que fiz de errado, meu deus, caramba, eu cavalguei nesse homem com todo o meu coração então sim, algo se perde na observação quando a gente se envolve e claro, lembrando dessa história eu agora entendo esses dois na rua

eles estão com medo daquele momento em que vem alguém e

estraga tudo.

 

casa de chá

os pés das meninas na velha casa de chá. descalças.

correndo

(taco de madeira)

o barulho.

param, de repente. a de vermelho teve uma ideia,

abrir as gavetas da cômoda,

essa casa de chá parece que guarda

um segredo

nas paredes, nos bules,

e as meninas ali

encantadas como se estivessem no circo, eu com 30 anos exatamente na mesma nuvem

e o quanto cada um demora pra chegar em certos lugares especialmente bonitos.

então elas começaram

a executar o plano, abrir e fechar as gavetas compondo

uma música

quando a mãe disse Zara (pra de vermelho) eu nunca mais vou te trazer aqui.

a menina então ergueu os braços

como se morasse dentro de uma caixa

de música

e saiu de perto da mãe

a outra parou

de mexer nas gavetas

pra olhar que raios a irmã estava inventando agora

e a mãe fez um bico

como se tivesse 5 anos também.

nunca mais te trago aqui ela repetiu

e as meninas fugiram pro quintal.

delas

fiquei só com o som que vazava

da porta

e o garçom disse Imagine na escola

várias meninas iguais a de vermelho.

acontece que

não existe ninguém igual, esse homem já devia saber disso com os 35 anos que ele aparentava ter, mas as vezes a gente fala bobagem mesmo, nem tudo o que dizemos é o que está no nosso coração,

na fala o nobre tem hora que escapa

mas dentro da gente seguimos sabendo de algumas verdades e esse parecia ser o caso daquele garçom, por dentro ele sabia.

foi quando o pai das meninas pediu a conta, os olhos dele

cruzaram com os meus.

abaixei a cabeça

fingindo que aquele encontro foi uma

coincidência com a pausa que dei na minha leitura

o livro no colo

eu acho que o pai

acreditou em mim. pagou a conta com cartão,

enquanto a mãe tirava uma selfie perto da cômoda, as gavetas ainda abertas, ela

nem percebeu.

depois foi pro quintal chamar as filhas

vamos, ela disse, que amanhã é segunda feira e vocês precisam dormir.

olhei no relógio

era 6 da tarde.

imaginei aquelas garotinhas chegando em casa

tomando banho

vestindo pijama estampado e

indo dormir como eu fazia

naquele conforto de deitar na cama já arrumada

com bichinho de pelúcia esperando no travesseiro

aquele aconchego de ser pequeno e ter os pais ao lado dando um beijo de boa noite não importa o que você aprontou durante o dia e tudo na geladeira leite, fruta, bolo,

a criança dormindo acima de todo mal.

de repente a menina de vermelho apareceu na porta

com uma bola azul que cabia na palma

dizendo vem pro jogo papai

daquele jeito que as crianças fazem com a linguagem quando estão começando a usá-la, bem pu ogo papá.

o pai levantou guardando a carteira

no bolso

e ela correu

pro quintal

achando que ele ia mesmo

entrar pro jogo afinal ela tinha chamado

afinal ela era dona da bola

e o pai com a cabeça longe, longe,

ele só tinha se levantado porque já era hora

de partir.

uma palavra inadequada

quando temos pouca idade

qualquer quintal pode virar um país.

ainda mais na companhia da nicole, deitei no chão e fiquei tentando

ver o céu igual um galo.

virei meu rosto

todo pro lado, 1 olho

de cada vez. acontece que

testar com o céu esse jeito de ver em quinas

não tem lá muita graça

já que o céu

é um todo

idêntico até nas pequenas variações.

seria melhor se eu deitasse numa rua pra olhar a cidade

apesar que isso

pode ser perigoso, já vi bastante cachorro morrendo assim. agora galo

nunca,

galo fica muito preso ao lugar onde ele nasceu.

minha amiga

também estava brincando

de ver com 1 olho de cada vez,

o quintal dela virou uma fazenda.

 

-em nova jersey! – eu disse,

 

já suada como eu ficava quando me divertia muito. tinha ouvido num filme esse nome nova jersey e

achei bonito, dei ele pra tudo quanto é coisa que eu gostava, boneca, planta na rua, gibi na gaveta.

 

– cansei ser galo. – avisei.

 

me tornei então um tocador de gaita

negro como aqueles cantores de blues que eu via na tv.

além disso

eu tinha um galo

que era a minha amiga nicole

e então ficou tudo acertado, não mudamos mais de personagem.

o sol

estava morno, eu me sentia dona

do mundo. a ardósia era o mato, fui abrindo caminho com o meu facão.

me imaginei com uma galocha que vi no shopping

e pisava

enormemente

como se o chão fosse

degrau. foi quando a mãe da nicole apareceu.

 

-e aí, moça? que horas você vai fazer a sua lição de casa?

 

e foi um corte

na nossa brincadeira, parecia que a mãe dela tinha pego o meu facão e trá na diversão da gente,

fim.

a mãe entrou pra sala com o recado dado, a nicole murchou de um jeito,

o galo dela até morreu.

 

tenho que entrar. – ela me disse.

tudo bem. – respondi sem escolha

 

e a nicole me levou até a porta.

 

voltei pra casa

ainda tocando minha gaita imaginária

pra segurar o cantor de blues em mim, não queria que ele morresse

como o galo da nicole tão

rápido.

bati

na porta de casa, demorou pra minha mãe atender.

não bati de novo

sabia que minha mãe não gostava quando eu batia de novo.

então ela abriu, finalmente,

estava com o queixo duro.

 

– oi. – eu disse entrando, ela me puxou pela gola.

 

– que horas eu mandei você voltar?

 

hum. 5? – respondi ainda cantor.

 

e que horas são?

 

não sei mãe, não tinha relógio na casa da nicole.

 

ah não?

 

– não.

 

-e esse relógio aí no seu pulso?

 

é mesmo, eu tinha me esquecido dele, na verdade eu tinha tornado meu relógio invisível porque cantor de blues não tem nada no pulso, eles sabem da hora pelo sol.

 

– e que horas são agora? – ela perguntou de novo.

 

– 6 e 15. – respondi depois de uma pausa.

 

então minha mãe puxou

o cinto da calça

e estalou o primeiro couro em mim.

perguntou:

 

– que horas eu mandei você voltar?

– 5?

5? – ela disse me imitando– eu mandei voltar às 5, repete firme, 5.

5.

e que horas você voltou?

– 6 e 15.

 

outra cintada, agora na coxa.

 

sua mal criada. você precisa aprender a me obedecer. que horas eu mandei você voltar?

– 5. – repeti já sentindo

desespero

 

e cada vez que eu repetia

tomava outra cintada

na perna, na bunda, nas costas

menos no rosto, no rosto minha mãe nunca me bateu.

àquela altura, meu personagem já tinha me abandonando

ficou em mim só a tentativa de encontrá-lo, não o culpo, ninguém gosta de apanhar assim.

 

-por favor. –pedi

não gostava de olhar pro rosto da minha mãe enquanto ela me batia, eu sentia medo de desejar que ela morresse

porque uma vez eu desejei

e depois que a raiva passou eu fiquei muito arrependida.

rezei por horas

pra desdesejar aquilo, não queria perder a minha mãe, ela não era calma

como as da tv

mas no mundo existiam mães piores do que a minha.

como a minha tia, por exemplo, que não deixava minhas primas usarem os brinquedos que elas ganhavam de aniversário.

então minhas primas brincavam com os cabelos umas das outras

às vezes embaraçava e isso

dava trabalho pra minha tia que, enfurecida, batia nelas no banho,

minha mãe nunca me bateu no banho.

também não fecho os olhos

enquanto apanho

tenho medo de fechar e isso

ser morrer

quando de repente aquela surra, assim como as outras, chegou ao fim.

minha mãe voltou o cinto pra calça

me botou sentada numa cadeira.

disse:

 

– tá de castigo.

 

sentar me doía o corpo

posso ficar de pé?, eu quis perguntar, achei melhor não

e fiquei ali

pelo tempo do meu atraso, 1 hora e 15, demorou bem mais do que no quintal da nicole.

 

– teu pai vai saber do que você aprontou, ouviu?

depois que você sair do castigo

vai direto pro quarto pedir perdão pra Deus

que Ele só gosta de criança que obedece

as que não obedecem você nem imagina pra onde

essas crianças vão . – ela me disse,

evitando falar a palavra inferno.

 

 

 

 

 

calcanhar de aquiles

te li meia dúzia de poemas eróticos

da mais alta

qualidade, não esperava que você fosse rir tanto.

 

gostei

de te ver rindo

 

e deixei o livro aberto como que

esquecido

na mesa dos

best sellers

assim quem sabe alguém

pudesse ser

sugado por aqueles versos e

rir também, isso de livro que vende não deixa de ser uma questão estratégica.

o livreiro

organiza os títulos na mesa

com a legenda de os Mais Vendidos (ainda que sejam) num mundo que só pensa em dinheiro: bingo. a maioria das pessoas julgam aqueles livros como bons e alguns podem ser mesmo, outros não, mas nunca pelo motivo certo.

então a pessoa compra

achando que aquele livro é

melhor que os outros, por estar ali na vista, quando muitas vezes o livro da vida está escondido na estante

tem lombada fina

cor que

não chama atenção muito menos o título que dirá o autor

mas aquelas palavras reunidas

mudariam tudo caso a pessoa as encontrasse, já aconteceu comigo, de um livro num canto que de repente eu achei me transformar a tal ponto que depois da leitura eu

era outra,

mais próxima da minha essência

é claro que o caminho é longo

mas eu tinha dado passos com aquela leitura, passos importantes.

 

-eu acho que as livrarias não deviam colocar os livros assim na prateleira. – eu disse. – devia ficar tudo esparramado

num esquema sensitivo

sem privilegiar o lugar de nenhum livro, todos exatamente no mesmo plano.

 

-mas aí não ia caber. – você me disse, olhando as prateleiras que iam até o teto.

 

-pois então que as livrarias fossem maiores. as farmácias não aumentam o tempo todo? pois que as livrarias fossem gigantes

do tamanho de um parque de diversão.

 

-algumas são realmente grandes, você sabe, e ainda assim não caberia.

 

-por isso tem que ser do tamanho de um parque de diversão.

 

-isso é inviável.

 

eu não tô falando de algo viável, eu tô falando de um mundo impossível, onde as pessoas podem se espalhar sem se preocupar com a ideia de caber.

os livros também

porque os livros são como pessoas

todas as obras de arte são como pessoas, a vantagem delas é alcançarem esse estado de humanidade e ainda por cima não morrerem. podem morrer, claro, sendo esquecidas

ou censuradas

ou assassinadas pelo próprio autor

mas elas tem a chance de não morrer, a gente nem isso.

 

-você está louca.

 

vou te ler mais poemas eróticos pra você ficar no estado lúdico que eu gosto como você estava antes, rindo.

 

– os poemas são como drogas pra você?

 

– são como

aviões.

 

olha essa livraria,

 

que horror,

eles arrancaram todos os sofás daqui.

 

se eu for sentar no chão pra ler um livro

eu não me incomodo de sentar no chão, até gosto, o problema são eles

eles iam me mandar levantar na hora.

 

-não acho.

 

-aposta quanto.

 

sentei no chão com um livro do Jorge amado no colo. dois minutos depois o atendente me disse:

 

Senhora, não pode sentar aí.

 

encarei aquele homem de avental

não sei onde

ele mora

nem se gosta mesmo de ler

ou se a livraria é só um emprego, mas

o que me pegou de verdade foi o

 

Senhora.

 

o Tempo

 

está passando pra mim

não só no corpo

principalmente no

Prazo

de fazer as coisas que só eu posso fazer aqui na terra por ser eu mesma

e as pessoas estão percebendo isso

antes de mim. Senhora.

antigamente me chamavam de

moça

uma criança,

quem é essa menina? perguntavam pra minha mãe e eu brilhando

por trás da franja

segurando minha bola

de vôlei

eu tinha tempo, meu deus, todo o tempo do mundo.

fico desejando no espelho viver até os noventa

e acredito nisso, mas

esse homem me lembrou

que existe a possibilidade de eu não durar tanto. vejo esses meninos

com 23/24 anos, rindo de tudo, tomando cerveja em mesas de esquina

talvez na prática eles tenham menos tempo do que eu já que os jovens também morrem. ainda assim,

parece que eles carregam alguma vantagem

igual esses livros

mais vendidos em destaque. Bolt o corredor fez 30 anos

e perdeu, encerrando a carreira,

para um rapaz mais novo que

não é melhor do que ele, é mais novo

apenas.

 

viu?– eu disse levantando

depois que o atendente se afastou- eles querem o nosso dinheiro, não a nossa salvação

que pode estar perdida em alguma página por aqui

só que é preciso folhear primeiro, sem pretensões,

respirar sentindo a beleza dos escritos, a livraria moderna não respeita esses tempos.

 

-(você olhou pro relógio) falando nisso, vamos? se não a gente se atrasa pro filme.

 

-vamos. – eu disse conferindo se o livro de poemas ainda estava aberto na mesa.

 

-um dia você constrói essa livraria sem estante. – você disse pondo a mão no meu ombro.

 

– ela vai ser no topo de um prédio

a livraria em cima sustentando o edifício pelo que ela tem de antena

e não de raiz.

quando chover, os livros vão ficar ouvindo a água cair pelo vidro da janela e nenhum barulho além disso.

 

será uma espécie de igreja, então?

 

-subversiva.

 

-ainda assim uma igreja.

 

-não. então não vai ser uma igreja, não vai ter silêncio além do silêncio das páginas, as pessoas vão poder falar, não vai ser como nas bibliotecas que não pode dizer. acontece que as pessoas

não vão precisar usar a boca

elas vão conseguir se comunicar em outros níveis muito mais interessantes.

vai ter jazz numa vitrola. eternamente um disco de Lester young tocando.

minha livraria

vai ser uma vontade de congelar o tempo pra quem estiver ali

e por haver a vontade, a pessoa vai sentir mesmo que o tempo congelou.

 

-ela pode chamar A Geladeira, o que você acha?

 

-não, mórbido demais.

a livraria será um não- movimento do tempo lá fora

e não do corpo das pessoas que vão estar dentro dela,

entende?

 

-tchau, Senhora. – o atendente me disse de novo

como se adivinhasse.

não tem nome

lembra quando a gente se encontrou naquele café?

você estava com um namorado

ou amigo, não sei.

 

– era amigo.

 

-naquele dia eu estava me sentindo tão mal, em crise, não sabia se eu era mesmo um escritor, na verdade

eu não sabia quem eu era. e você foi lá

na minha mesa

me deu oi depois de tantos anos como se a gente tivesse se visto ontem

e me chamou de escritor, você se lembra?

 

-sim.

 

-oi escritor, você disse. e por você ter me chamado assim

justamente naquele momento

me fez ganhar uma força. você comentou também da residência na casa da Hilda Hilst, que aquilo era a minha cara, que eu tinha que me inscrever. eu fui atrás no mesmo dia, conto essa história pra todo mundo. foi você quem me fez ir pra casa sol.

 

sorri, essa revelação me

abraçou. eu estava no ateliê dele há meia hora

num clima um pouco tenso que às vezes acontece quando vemos alguém que gostamos mas

não temos intimidade e também não temos certeza

se rola uma tensão sexual ali

se é amizade ou

se é uma mistura de tudo e não há problema algum nisso,

com ele me dizendo essas coisas foi ficando claro que não havia problema.

 

eu não tenho amigos. – contei pra ele. – tenho só dois que óbvio

são maravilhosos, mas

não enchem uma sala.

não sei como será o lançamento do meu livro, acho que vazio demais pra ser um sucesso. aliás, o que é sucesso?

uma sala cheia de gente

ou uma sala com gente que me transborda por dentro?

melhor seria uma sala cheia de gente transbordante, ainda bem que vai ter um outro autor lançando comigo

porque senão

ia ficar um deserto.

 

não fala assim. eu sou seu amigo, você sabe. não amigo de telefonar, etc. sou seu amigo num nível mais

espiritual, entende?

o que eu quero dizer é que você pode contar comigo.

 

aquele homem, que eu conheci na faculdade há tanto tempo e realmente nunca fomos próximos, mas

nos gostávamos à distância pelo menos eu

que o via tocando gaita no pátio.

algumas amigas minhas tiveram um caso com ele

e eu ia o conhecendo

através do que elas me contavam, a maioria apaixonada ou gostando muito dos amassos no banheiro.

teve um dia

que eu acabei indo na casa dele

pra buscar um pôster do Allen Ginsberg que ele emprestou de bom grado para uma exposição que eu estava organizando. na hora que eu entrei no apartamento

a mãe dele descansava no quarto

numa cadeira de balanço que eu vi só pela sombra na parede.

ali

foi a vez de entendê-lo agora não mais pela perspectiva das mulheres que ele teve e que me contavam que ele era gentil na cama

mas no café da manhã

era outro

já não se relacionava com aquela troca de olho que acontecia nos lençóis. ali

na casa dele

eu comecei a descortina-lo pelas coisas que ele tinha, os discos,

o edredom embolado,

o escuro do quarto luz de

abajur o cheiro

de maconha

a máquina de escrever. agora

anos depois

cá estamos novamente

nós que lançaríamos livros perto um do outro

o dele já era no sábado

o meu em 2 semanas.

ele me disse que veio correndo para o encontro que marcamos

deixando louça na pia

e também os poemas

espalhados pelo quarto

com ele tentando entender a ordem que eles teriam no livro

e eu pensando

que isso já era pra estar pronto se o lançamento seria em 3 dias.

por acaso seu livro ainda não nasceu como projeto gráfico? eu quis perguntar

mas preferi não entender

escolhi ficar com a imagem dos poemas espalhados na cama

esperando ele voltar pra casa

uma folha beijando

as costas da outra de acordo com o que o autor desejar

e ele me dizendo dos imprevistos

e do quanto a vida tem que ser menos racional, olha essa tatuagem por exemplo. (ele levantou a blusa pra me mostrar)

começava no braço

e ia até a barriga

parecia feita de linha

parecia que era só puxar e o desenho desmancharia.

 

minha amiga que fez, ela não sabia o que ia desenhar em mim até começar, foi tudo no improviso.

como no jazz. – eu disse

-é. como no jazz.

 

fiquei olhando

aquele peito tatuado

não como um convite pra beijar o mamilo

mas puramente como um encontro

da pele com o desenho.

então ele me contou uma história de amor. disse que um dia

uma mulher se apaixonou por ele

mas ele

era bicho solto

não queria se amarrar a ninguém. ainda assim eles ficaram juntos

como ficam os leões, depois

cada um prum canto

se lambendo.

anos mais tarde eles se reencontraram ao acaso, ela estava

diferente, ele

estava diferente

e dessa vez quem se apaixonou

foi o meu amigo

dessa vez

quem colocou quem contra a parede

foi ela, por que você está me cobrando o que você mesmo me ensinou a não cobrar?

 

sim, ele disse. você tem razão, ele disse

e

foi embora, nunca mais a viu.

 

ele me contou também dos peitos dela. eram amplos, uma casa,

e o jeito que ele olhou pra frente era como se ele estivesse vendo as tetas.

então meu amigo me disse de uma festa que ele foi.

ele conheceu algumas pessoas

e todas elas, ele foi descobrindo, tinham tido uma história com essa mulher que ele se apaixonou.

num dado momento da noite, estava rolando uma fogueira na festa,

eles olharam pro céu

e gritaram juntos

o nome dessa mulher

pra lua.

 

-nossa. – eu disse desejando

oferecer meus peitos pra ele

morar.

 

-se eu

tirasse a roupa agora,

o que você faria?

 

-tira. – ele me disse

e não era amor.

 

 

uma questão de sobrevivência

quando você me ligou

 

senti na sua voz uma Tristeza

 

discreta, mas

assim que notada

absolutamente infinita

e precisando muito

se derramar em alguém a tristeza líquida

 

enquanto você me perguntava (as coisas que moram

no pó das

palavras) se eu precisaria do carro naquela semana.

 

respondi que

não

 

segurando firme

a tampa da sua

dor

tentando deixar claro que hoje eu

não consigo

preciso de mim

pra lançar meu livro

por isso fingi não perceber

que você e a mãe tinham brigado

de novo

e que você não tinha dormido

de novo

e que por dento você estava quebrado

com alguém varrendo os cacos pra pele

empurrando os cacos com vassoura

pra pele cortando tudo

não me conte pai, te implorei muda, não me conte que quando você me conta eu morro no peito, eu viro você e hoje eu não posso, hoje

não dá

pra brincar de engolir.

 

fez-se uma pausa

 

e então

você me mandou um

beijo, desligamos.

 

 

te imaginei engordando

 

pra fazer caber nos ombros mais essa

lágrima

 

quando passou por mim um cachorro

 

que olhos profundos,

 

me trazendo de volta praquele momento que era meu.

 

 

 

X

abrindo álbuns vi

uma foto minha

com o rosto depois do choro, me conheço, o úmido estava discreto mas eu

me conheço e li

meu olho descendo pro âmago, imagine uma galáxia. é como se por dentro eu não tivesse limite, imagine um pântano. é como se eu me afogasse em mim.

naquele dia, me lembro, tinha sido a minha colação de grau.

a foto

foi tirada num restaurante

todas as famílias depois da cerimônia foram pra lá

a minha

não foi nem na cerimônia

e uma amiga chamada

camila

me convidou pra jantar na mesa dela.

 

– está bem. – eu disse aceitando

 

eu tinha 14 anos, precisava

desesperadamente de

afeto,

bastava um passarinho voar

rente ao meu topo

para que eu não quisesse que ele morresse nunca mais.

prevendo o grito, decidi avisar minha mãe só depois de chegar no restaurante,

ela ia me mandar voltar pra casa

e a palavra casa

soava como um tiro pra mim.

uma vez, faz muito tempo,

eu dormi

na casa de uma amiga, a marília. tínhamos uma festa pra ir, então eu perguntei pra minha mãe

 

-posso? dormir lá. a festa vai acabar tarde

a marília mora perto

do lugar.

 

e nesse dia, milagrosamente,

minha mãe deixou.

experimentei então uma felicidade indescritível, passar a noite fora de casa era ser livre

por algumas horas e mais do que isso, era ser

eu mesma por algumas horas

sem a interferência materna na minha personalidade, minha mãe sempre quis que eu fosse

uma continuação dos passos que ela deu.

a festa

acabou 6 horas

da manhã. voltamos pra casa da marília

eu dormi no colchão, ela

na cama. quando deu nove horas

minha mãe me ligou

berrando

dizendo vê se pode

ficar dormindo até tarde

pior ainda na casa dos outros, isso era coisa de vagabunda. volta agora, ela mandou. eu preciso de você pra me ajudar.

desliguei o telefone

com aquela sensação de horror no peito.

arrumei minhas coisas com pressa

agradeci a marília

que estava dormindo.

 

-tá tudo bem? – ela me perguntou sonolenta.

 

(segurei o

choro) – tá sim. obrigada por tudo.

 

você não quer tomar nem um café? eu preparo pra você rapidinho.

 

-não, muito obrigada. eu preciso ir agora, sério. a gente se fala mais tarde.

 

no elevador me olhei no espelho,

a feia.

na rua eu corri até o ponto

prevendo a surra

imaginando os

detalhes

e era assim

que a minha mãe me controlava, era assim que ela me mantinha por perto.

o pior

é que o ônibus demorou, era domingo, e quando finalmente eu cheguei em casa

 

na chave virando um peso

 

o apartamento estava de pernas pro ar.

 

minha mãe disse:

 

-agora limpa.

 

e eu limpei

enquanto ela fiscalizava cada cômodo

cada canto que eu tinha passado o pano.

 

-aqui tem pó. – ela dizia eufórica.

 

e eu limpava de novo

por horas.

 

 

nesse dia da colação,

eu liguei pra minha mãe do banheiro, a camila foi comigo.

avisei que eu estava no restaurante

e que eu ia demorar

então ela começou

a cena de sempre

mas

nesse dia, de repente, eu enxerguei o que era aquilo

que a minha mãe fazia comigo, não era minha culpa, não era eu quem estava errada,

aquilo que minha mãe fazia era ela sentindo medo

da solidão. então eu disse pra ela, e não sei de onde me veio essa força, então eu disse que só voltaria pra casa quando terminasse de me divertir

eu estava comemorando a minha formatura

e puta que o pariu caralho porra, eu tinha esse direito.

 

desliguei o telefone

 

meu corpo

trêmulo.

então eu chorei

sentada no vaso, minha amiga jovens que éramos não sabia ao certo o que me dizer. limpou meu rímel borrado

tirou da bolsa

o dela e retocou a minha maquiagem.

 

-vou apanhar quando chegar em casa. – eu disse.

 

você já ia apanhar de qualquer jeito, pelo menos hoje você fez alguma coisa por você.

 

e me abraçou, minha amiga era a minha mãe.

ela sempre me dizia

que a vantagem de eu ser morena

era que, depois de secar tudo, não dava nem pra perceber que eu tinha chorado.

já ela, muito clara,

quando chorava ficava inchada, todo mundo vinha perguntar o que tinha acontecido. o problema

é quando o acontecido não cabe

em palavras, ainda não nasceu um jeito de explicar o que me aconteceu.

minha mãe é horrível eu não podia dizer

porque minha mãe não era horrível

minha mãe

era a minha mãe. então prefiro

deixar essa dor sem nome

ainda bem que sou

morena

e de fato quando me sentei na mesa com os pais da camila

e com a irmã e o irmão dela

ninguém percebeu nada, foi nessa hora que o fotógrafo se aproximou.

 

-junta a família. –ele disse

 

 

eu dei um leve

sorriso.

dinheiro

– dá sua mão – o porteiro me disse,

eu dei.

ele passou creme nela, espalhou bem.

– não é maravilhoso?

-sim, parece ótimo.

– leva a revista pra você dar uma olhada com calma nos produtos. 

-isso, leva a revista. –  incentivou o outro

que também estava na portaria, esse era morador.

– certo. – respondi pegando. 

 

– tá vendo como é fácil? –  o morador disse

piscando pro porteiro como se eu não estivesse ali.