tempo

nos sentamos. você começou a falar

das suas estrias, eu estava

especialmente cansada naquela noite

sua voz parecia vir de dentro de uma lata.

senti saudades

de quando não falávamos o tempo todo sobre o corpo, eu entendo a importância de um corpo, a gente só existe na terra se tivermos um. quando não temos mais chama morte o que acontece, eu entendo a importância e te olho

falando sobre traços brancos também nos peitos. é tão pouco

estar vivo, eu sempre imaginei que era mais.

fico esperando

esse mais que não chega

e a nossa amizade longa

como uma missa.

será que

já não era tempo da gente se afastar? olha pra nós, olha

pra esta mesa cheia de

comida.

tudo isso é medo

de não termos o que dizer uma pra outra

porque assim ficaria claro

que não temos mesmo mais nada pra dizer,

levantei.

 

-que foi?

 

-acabou.

 

-acabou o que?

 

-eu não quero mais te ver.

 

-eu falei alguma coisa?

 

-não, você não falou nada. faz 5 ou 6 anos que eu não te escuto falando nada, só sobre você mesma e nem é sobre você, é sobre a máscara que você construiu. faz muito tempo que a gente não conversa de verdade ou a minha perspectiva de conversa mudou.

 

-você tá passando bem?

 

-eu te amo

muito

e pelo menos isso nunca vai mudar. mas esse peso de termos que nos encontrar só porque um dia foi bom estarmos juntas, isso eu não quero mais.

 

-você tá louca?

 

-vou pagar minha conta no caixa, tá?

 

-espera aí, você tá sem carro.

 

-eu vou andando.

 

paguei minha parte e

saí, minha amiga não veio atrás de mim.

sempre fui do tipo que tem uma melhor amiga

até que meu namorado perguntou precisa ser melhor, não basta ser amiga?

e na hora eu respondi larga a mão de ser besta, mas

depois

depois eu

fiquei pensando.

ventava e quase chovia

nessa noite que andei de volta pra casa e não era frio, será que a minha amiga ainda estava no restaurante? acho que no íntimo ela entendeu perfeitamente o que eu disse

apesar de na superfície ela ter preferido fazer o jogo do você está louca.

mas quando ela deitar na cama, encostar no travesseiro,

aí sim ela vai reconhecer a minha coragem

de ter dito que está morto algo que já morreu. pessoas que mudam de país têm muita sorte

porque esses finais de

ciclos

ficam camuflados pela distância geográfica, ninguém percebe direito como ou quando morreram as relações. outro dia mesmo

eu encontrei a ana na rua,

quando nadávamos no clube éramos tão próximas.

ela me viu primeiro,

buzinou chamando meu nome, fui até lá. a gente se abraçou pela janela do carro, sorrimos, ela me perguntou se eu ainda morava na platô. sim, respondi distraída

 

-tchau – ela disse acelerando

 

nada nessa vida se sustenta.

 

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no café

-ela me humilhava muito. porque era mais velha, porque a casa era dela. meus amigos me avisaram, essa mulher está te matando.

eu briguei com eles, com todos eles.

 

-eu entendo,

você

estava apaixonado, mas

da próxima vez abre o olho quando um amigo te avisar. o cara joga no seu time, ele não quer seu mal.

 

-eu sei. pensei muito sobre isso, pedi até desculpa. eles disseram tudo bem, relaxa

mas eu senti que alguma coisa se quebrou.

fazer o que, agora

já foi

e em alguns momentos eu até me sinto bem de ficar assim, sozinho, com o meu tempo voltando a ser meu.

 

-estar sozinho é legal pra trabalhar, a gente fica com mais foco.

 

-é, pelo menos profissionalmente eu tô vivendo um momento bom.

 

-sabe que

eu também já humilhei alguém?

 

-sério?

 

-humn, exatamente como a sua ex

com essa coisa de

ser mais velha.

eu não era namorada do cara, a gente era colega de faculdade. e ele me mandou uma mensagem outro dia, um texto enorme, dizendo que se sentia humilhado por mim. ele tinha uns 17 anos na época, eu 24.

e toda hora eu falava que

ele era jovem demais pra isso, jovem demais praquilo.

o duro

é que eu nunca percebi o que eu fazia com ele, pra mim era tão normal brincar com isso. mas pra ele nunca foi uma brincadeira

e a mensagem que ele me mandou ficou ressoando na minha cabeça

porque eu também já fui muito humilhada, por um menino que eu gostava no colégio. tínhamos nos beijado

e ele deslizou a mão pela minha bunda.

então no outro dia ele me chamou de puta na frente de todos, porque eu deixei que ele deslizasse a mão, afinal a bunda era minha. mas não era, né? o corpo de uma mulher nunca é dela. engraçado que sobre ele ninguém comentou nada, o problema foi eu ter deixado.

e se eu falasse ali pra todo mundo que ele era um puto, o que na língua portuguesa já tem uma outra conotação, se eu falasse que ele era sei lá, um vagabundo,

também não daria, se eu

falasse que ele era um galinha mas galinha também não é a palavra, ou seja.

não tem nenhuma expressão na língua portuguesa para eu chamar o cara, até no filho da puta a puta é a mãe,

mas vamos supor que tivesse. eu chamaria ele de X

e não seria levada em consideração,

qualquer coisa que eu falasse não teria peso nenhum

mas o que ele falava tinha a força de uma lei.

 

-eu entendo o que você está dizendo.

 

-foi uma época difícil. eu perdi meus amigos, a escola inteira me odiava. por isso que hoje em dia eu tomo muito cuidado com os sentimentos das pessoas, eu nunca quis magoar ninguém.

mas é claro que magoamos, mesmo assim.

 

-eu sempre falei pra minha ex que ela me oprimia, mas ela me chamava de maluco.

quem sabe daqui uns anos ela pense melhor sobre isso agora que ela tá fazendo terapia.

 

-o problema é que a gente não tem noção do que as nossas ações podem gerar nos outros. tudo o que fazemos está conectado com o mundo inteiro por uma teia

e qualquer acontecimento, por mais simples que ele pareça, produz na outra ponta uma reação.

 

-o jeito, pra quem se importa, é tentar viver sem causar muito estrago.

 

-você se importa?

 

-às vezes. e você?

 

-eu tento, mas

é impossível.

depois de tomarmos esse café, por exemplo, terá alguém lavando a nossa louça,

alguém que poderia estar correndo atrás de um sonho

como o de ser um grande cantor.

mas acontece que pra ser um grande cantor

é preciso dedicação

e uma pessoa que passa 8, 9 horas por dia trabalhando num café

não terá tempo pra se dedicar.

 

-mas se ela não tivesse lavando as nossas xícaras, se não tivesse nenhuma xícara pra lavar, o café fecharia.

 

-e então estaríamos causando um outro tipo de mal para as pessoas envolvidas com esse lugar aqui. entende? é impossível ter um mundo inteiro feliz. porque a sua felicidade depende da não-felicidade de um monte de gente.

a sua ex agora, por exemplo. ela estava de saco cheio, provavelmente não te amava mais. agora que vocês terminaram ela está se sentindo leve

enquanto você está se sentindo morto por dentro, percebe?

é interminável.

 

-não existe uma vida que não sacrifique outras, é isso que você quer dizer?

 

– o que eu quero dizer é que. (um gole no café) às vezes o melhor é não pensar.

Arte

eu estava dormindo, quando acordei

tinha nascido

uma tela do Matisse na parede. não é possível, pensei

era um quarto
em tinta óleo

que poderia ser o meu se não fosse pela janela, meu quarto não tem janela,
tem uma porta mas depois da porta
tem outra parede. então não adianta

ficar abrindo

é até melhor deixar fechada

porque quando me sinto
lúdica

fico imaginando que existe um lugar
depois da porta, se não pra ir pelo menos pra Ver.
às vezes
imagino tanto que de novo abro
a porta
pensando dessa vez vai ser diferente,
nunca é. então me deito
cada dia mais quieta
como um cão esperando o dono que morreu.
pelo menos tem sido sem medo
viver nesses metros quadrados. sei
que ninguém entrará, que nada vai acontecer,
até que hoje eu acordei e meu deus tinha nascido
um Matisse na minha parede mas
por onde?, aqui não tem
buraco,
cheguei mais perto
daquele fenômeno era

Lindo

e na própria parede, não tinha prego sustentando.

deslizei meu corpo
pelas cores

uma coragem foi brotando
em mim, umas
ideias. eu podia acabar
com aquele meu
quarto
até não restar mais parede ou punho
não posso
seguir olhando
pro Matisse, fechei os olhos, a tela

dentro da pálpebra.

meu deus. eu

não posso mais dormir que

coisas fortes nascem sem o meu consentimento

e agora
que nasceram
agora e de repente a vida já não basta.

paz

 

 

alguém decidiu viajar, acho que foi meu pai.

pra ilha bela,

a menina não conhece

o mar

minha mãe tem medo

de mar

mas a menina não.

então fomos

 

arrumamos as malas um dia antes

parecia que tinha um rio na minha barriga

preciso ir no banheiro, mãe.

fui

algumas vezes

e pensei que

peixes estavam saindo de mim.

se sentir bem é estar com o corpo sem incomodo em nenhum órgão,

minha barriga não parava quieta,

acho que estou doente avisei minha mãe. ela colocou a mão na minha testa.

tá fresquinha, ela disse fechando

a mala

não mãe, põe a mão na minha barriga aqui.

 

-você só está ansiosa, filha, amanhã passa.

 

acreditei e no outro dia

acordei melhor.

 

entramos no carro com as malas

meu pai ao volante

minha mãe com a mão na nuca dele.

fiquei olhando a estrada

pela janela

parecia que as árvores eram Uma

que se esticava infinitamente tentando descobrir pra onde

eu ia.

pro mar – contei

quando eu cansava olhava o céu. diferente das árvores esse

era lento,

e não parecia se importar com o lugar pra onde eu estava indo. pro mar, sussurrei

e de repente tivemos que

sair do carro

pra pegar uma

balsa, o que é balsa?

 

-é um barco sem curva.

-e o carro?

-vai junto.

 

fiquei aliviada.

meu pai

me colocou sentada no capô.

 

-este

é o Mar. – ele disse.

 

fiquei olhando o tamanho

parecia com as fotos

só que

molhado

e me deixava sem peixes na barriga enquanto que olhar o mar na foto

me deixava com peixes.

 

-posso nadar?

-não pelo amor de deus. – minha mãe disse.

 

ela tinha se afogado um dia

mas não morreu. ou morreu

porque aquela mãe sem medo d `água nunca mais apareceu na rua, aliás na época ela ainda não era mãe, apenas uma

menina

com nada na barriga

o melhor era o vento.

 

-esse cheiro,

é do mar?

 

queria usar aquele perfume

passaria todo dia antes de ir pra escola, as crianças me amariam bem mais.

abri os braços

pro mar que o vento trazia

minha mãe tirou uma foto,

sorri.

 

quando chegamos na pousada era 6 da tarde,

eu querendo muito

nadar.

 

-leva ela na piscina.

-quero no mar.

-hoje ficou tarde.

-o mar tem hora?

não esquece a boia – minha mãe disse pro meu pai

 

ele colocou

a boia no meu braço

 

-não tira. –avisou se afastando

me senti sozinha naquele espaço

azul.

 

a porta do nosso quarto ficou aberta, a luz acesa.

a piscina estava boa mas tinha no prédio

e a minha atenção toda hora voltava pra porta aberta.

as vezes

eu conseguia escutar

o que minha mãe dizia, a menina fica tão presa no apartamento, que bom que ela tá se divertindo.

me senti especial quando ela disse isso, também acima de qualquer mal que pudesse existir no mundo,

eu estava com os meus pais em uma ilha

e amanhã eu nadaria no mar.

então meu pai

voltou, naquele tempo ele não apressava nossos assuntos, hoje em dia no telefone é tudo tão rápido, agora mesmo eu fui contar uma coisa pra ele

e meu pai desligou

o telefone tão

rápido, sinto que ele foge de mim. mas naquele tempo não,

naquele tempo ele tinha o corpo sem pressa

vestia sempre uma camiseta branca, a minha mãe também.

 

-vamos filha? tomar banho pra jantar. (ele se preocupava com as minhas horas de comida)

-entra aqui, pai.

-já tomei banho, amor. amanhã a gente nada junto, prometo.

 

então eu subi as escadinhas da piscina pra chegar logo amanhã, meu pai me embrulhou na toalha

ela tinha um cheiro diferente

das toalhas lá de casa.

 

entramos no quarto,

na parede um quadro de barco e âncora

dava pra sentir o cheiro da tinta se eu chegasse bem perto

 

-sai daí que é sujo.

 

tomei banho, meu cabelo curto molhado

minha mãe me penteou de frente pro espelho

eu me sentia bonita toda vez que ela me dava banho.

então saímos

do quarto

pra jantar no restaurante da pousada

o chão era um taco de madeira escura

parecia um barco.

 

-o que significa pousada? – perguntei pra minha mãe que estava linda

de brinco.

 

-é um lugar onde as pessoas ficam poucos dias, um lugar onde os hóspedes são como borboletas.

 

no restaurante tomei um suco

de laranja meu

preferido. na tv estava passando um show.

 

por que ele tá de óculos escuros? – perguntei.

-ele é cego. – meu pai disse

-ele não tem olho?

-tem, mas não enxerga.

 

que grave, logo mais ele deve

morrer.

no dia seguinte bem cedo

fomos à praia.

era do lado da pousada

mas na praia o chão

era mole, eu pisava naquilo e meu pé sumia.

 

-vamos? – meu pai disse me estendendo a mão

 

fiquei com medo mas não olhei pra minha mãe

foquei no meu pai brilhando ao sol

e na minha boia de braço

e nas crianças que estavam na água e pareciam felizes.

meu pai me pegou no colo.

feito saia o mar foi vestindo

a parte debaixo

dele e

meus pés, minha barriga,

era frio, depois

passava,

era enorme o cheiro também

fechei os olhos

cantando por

dentro

jogia iso mamad.

estratégia

minha vó estava no hospital. contando daquele domingo que fui visitá-la

ela teria mais dois dias

de vida

eu não sabia, ela

também não.

entrei no quarto

-oi vó.

não achei que ela estava de todo mal. me cumprimentou com um sorriso, o

mesmo que me recebia toda vez que eu chegava na casa dela.

a vó vai sair dessa, todos pensavam,

mas meu pai quando pegamos o elevador

pro térreo meia hora depois me disse ela não vai conseguir.

Vai sim, pai.

não,
não vai – e os lábios dele se curvaram delicadamente

aquilo não era um sorriso, claro que não,

mas de vez em quando a dor e o riso

tem um pequeno encontro na curva que a boca faz.

dois dias depois ligaram do hospital,

atendi.

enquanto me davam a notícia imaginei a cara do meu pai com a certeza que ele já tinha agora se confirmando, será que os filhos
sempre sabem?

-já pensou quando eu morrer? – uma vez eu disse pra ele – o tanto de livro e disco pra doar.
-não fala assim, você acabou de nascer e já tá pensando na morte.

eu não estava
pensando na morte, eu só estava pensando
no futuro.

entrei no quarto da vó
a enfermeira entrou logo depois com
uma bandeja.

-deixa comigo – eu disse.

e alimentei minha vó como se ela fosse de vidro.

me lembro do tamanho da boca bem pequena que ela abria enquanto eu dava

a sopa

lembro também do jeito que ela cruzava o braço na frente da casa dela quando

ligávamos o carro pra ir embora, não exatamente com frio,

era mais como um e agora? vou me ocupar com
o que?

ela era muito magra, sempre foi. e a magreza, nos velhos, aumenta o medo
que sentimos de ficar sozinhos com eles num quarto, no fundo
medo
da morte.

-tchau vó – a gente dizia.

e nesse dia do hospital, depois da sopa,

em vez de conversar com ela

eu comecei a folhear uma revista

e olhar como aquelas mulheres eram

elegantes

é só ter dinheiro, pensei, assim fica fácil

e minha vó assistindo

tv, meu pai também,

nas poucas horas que faltavam pra ela se despedir desse mundo.

mas e se ali

naquele quarto

nós três tivéssemos nos esforçado para termos uma tarde mais

agradável,

teríamos deixado de perder alguma coisa assim que a vó partisse?

por acaso nos sentiríamos menos ocos diante da morte

só porque tivemos uma tarde profunda, digna de uma memória que muito

acessaríamos toda vez que sentíssemos saudades da vó?

eu tive um amigo, o Leandro, ele morreu de uma forma muito

inesperada, foi viajar com a família e

passou mal de repente

semanas antes estávamos combinando um almoço. numa terça ele me ligou

perguntando se eu podia hoje

e alguma coisa me disse que era melhor eu não ir. dei uma desculpa qualquer e

desligamos, na semana seguinte

ele morreu.

se tivéssemos almoçado juntos

eu ia ficar lembrando dolorosamente desse almoço

e do quanto ele se abriu, do quanto

eu me abri,

do som dos nossos talheres

do rosto dele
mastigando
em contraste com este rosto agora imóvel
no caixão.

PROBLEMÁTICA

-você não quer levar o pão também? é a mesma massa da pizza.

 

-ah é?

tá quanto? (eu sabia o preço,

já tinha visto uma porção de gente comprando, mas

eu estava tentando ganhar tempo

porque na verdade eu não queria comprar aquilo, não por mal, eu realmente gostava da massa, acontece que

eu nunca tinha comprado um pão na vida tirando os franceses de domingo

então por que justamente hoje

eu compraria um?)

 

-15.

-não sei se tenho dinheiro aqui. (uma pausa) vocês aceitam cartão?

-sim.

então vou levar. pego depois da aula, pode ser?

-claro. vou deixar ele esfriando um pouco antes de embrulhar.

-obrigada.

 

sentei na mesa com o meu pedaço de pizza

desde ontem eu estava com vontade de comer isso quando

achei que não teria e pedi uma torta

de repente a moça chegou da cozinha com a pizza numa badeja.

amanhã não erro, pensei.

 

abri meu livro,

 

caiu um pingo de gordura do queijo em cima da palavra Sussurro.

limpei rápida com o dedo pra não manchar

e segui a leitura

daquela história da menina que mata uma amiga do colégio

tudo narrado pela própria menina

eu adoro narradores crianças

as emoções, mesmo as mais densas, ficam todas na superfície

do texto, boiando feito um morto.

foi quando passou o meu professor

se inclinando pra tentar descobrir o que eu estava lendo.

fingi não perceber

o que ele tinha feito

mas eu tinha percebido

e como, no curso inteiro era exatamente isso que eu estava querendo,

ser vista por ele. e foi o que aconteceu, de alguma maneira,

tanto que ontem eu consegui entregar com certa naturalidade meu livro pra ele

mas hoje, engraçado,

hoje eu não estava conseguindo conversar naturalmente

com ninguém.

 

não sou de falar muito, meu professor tinha dito numa aula. falo aqui porque preciso.

 

mas na hora do intervalo ele caminhava desinibido

conversando com os alunos e

rindo

eu gostava especialmente do riso

era como se na vida ele nunca tivesse perdido nada.

 

minutos depois ele passou de novo pela minha mesa,

dessa vez perguntou

o que eu estava lendo.

mostrei a capa.

 

– não conheço. é bom?

-excelente.

-tem muita gente escrevendo bem, não é?

-humn.

-eu dei uma folheada no seu livro ontem. – ele disse balançando a cabeça como se quisesse me contar mais.

-que legal. mas leia sem pressa,

quando puder.

 

ele sorriu

e entrou pra sala

entrei um pouco

depois.

 

a aula recomeçou

com ele falando sobre a Marina Abramovic e o Ulay, de como era forte uma relação amorosa se estendendo pro trabalho

e

pela primeira vez eu olhei pra ele de peito aberto, sem medo,

como se fôssemos exatamente do mesmo tamanho. vi ali um homem tímido, com uma roupa que parecia ter sido usada por dias, um homem brilhante e cansado, com saudade dos pais. ele falou dos pais em vários momentos da aula

enquanto nos explicava do grande amor, das pessoas que de fato podemos confiar.

e então, depois de mostrar vídeos de Marina e Ulay, alguns extremamente eróticos,

ele pediu pra gente dizer

dos desejos que tínhamos, quais são os vossos

desejos? –ele perguntou.

 

a sala ficou em silêncio

 

até que uma mulher disse eu gostaria de controlar o Tempo

 

e eu de ser invisível, disse a outra

 

eu gostaria de tocar numa baleia.

 

(risos na sala)

 

eu queria perder o medo da morte.

 

olhei ao redor

pra ver Quem tinha dito aquilo

 

foi ela, claro, uma mulher que reparei desde o começo do curso.

ela tinha uma tatuagem enorme que eu não sabia bem onde começava

e na maioria das vezes ela ficava quieta, escutando,

mas quando falava

alguma coisa, qualquer coisa, ela sempre me emocionava.

 

-eu quero perder o medo da morte – ela repetiu – saber como é viver sem isso, me desprendendo de tudo.

 

e alguns alunos a questionaram, será que é bom mesmo perder o medo da morte? será que funciona?

 

é claro que não funciona, nada funciona, mas é lindo

é o desejo mais bonito que já ouvi.

 

então o professor começou a falar sobre um livro de um escritor japonês

que contava a história de um lugar com mulheres que não eram exatamente prostitutas

elas apenas dormiam

nuas

e os homens pagavam pra dormir ao lado delas

sem tocá-las, era um compromisso ético não poder tocar, era esse o jogo,

e quando o meu professor disse que eram as mais belas mulheres da cidade

eu me acendi inteira

e pensei que gostaria de ser uma bela mulher aos olhos dele.

 

-mais algum desejo? –ele perguntou.

 

-eu tenho. – eu disse levantado a mão. – queria fazer uma festa com todos os autores que estão na minha estante, os vivos e os mortos.

 

as pessoas riram

o professor também

você estaria na minha festa, fiquei com vontade de dizer pra ele, tenho tantos livros seus.

 

depois que a aula acabou

alguns alunos ainda brincaram me convida? e de repente eu me lembrei

 

do pão

 

ele estava embrulhado me esperando na mesa.

 

merda, pensei. se a moça que me vendeu não estivesse ali eu ia fingir que tinha esquecido.

 

peguei ele.

 

agradeci a moça,

depois fui me despedir do professor, aquela era a última aula.

 

-tchau. – eu disse num abraço.

-boa sorte. –ele respondeu

 

e eu pensei em dar o pão pra ele

porque vi outro dia uma poeta dizendo que ganhou um pão e que estava muito feliz com aquilo. ela era tão boa poeta quanto o meu professor, ou seja, a possibilidade de eles pensarem igual sobre um pão como presente era grande.

no fim

fiquei sem coragem e

fui embora simplesmente, ganhei a rua,

ontem eu já tinha dado meu livro pra ele

dois presentes de uma vez era um pouco demais.

 

caminhei até o meu estacionamento, o pão pesando.

 

se eu ver aquela moradora de rua ali na ministro

entrego pra ela

 

 

(a esquina vazia)

 

 

entrei no carro,

coloquei o pão no banco junto com a bolsa e os livros.

quando cheguei em casa minha mãe já estava

dormindo,

acordei ela pra dizer que tinha um pão na mesa, trouxe do curso,

 

minha mãe não gostava de novidades entrando em casa sem ela saber.

 

 

 

 

 

o morto

lentamente os carros passavam

 

até que chegou a minha vez de ver a

cena,

 

um homem esticado

no chão.

 

não era um mendigo

que mendigo a gente sempre vê esticado e não sente muita coisa além do incomodo pelo cheiro que ele exala

 

não, esse

era um homem de camisa.

 

não havia sangue, o carro dele não tinha batido em nenhuma árvore

 

um mal súbito é o que deve ter acontecido

a filha Chorava ao telefone

 

enquanto os carros passavam

lentamente

querendo assistir mais um pouco

daquela fragilidade já tão

conhecida,

a de que tudo o que é vivo

morre. claro que não ficamos pensando sobre isso o tempo todo, até pra que se siga vivendo sem adiantar a própria a morte,

ainda assim e

de vez em quando

é bom lembrar.

 

antes da chuva

o menino se esparrama

no quintal ainda de cimento

a família se mudou antes do combinado

era isso ou eles não teriam

casa. a gente dá um jeito, a mãe disse pro pai, beijando a boca dele que estava seca.

você devia beber mais água, ela disse.

e você? que só sabe implicar.

 

o menino

passava muito tempo ali

no quintal. tanto que começou a pensar num mundo sendo cinza

menos o céu, o céu podia continuar com os seus azuis.

nesse dia esparramado

ele começou a

reparar nos detalhes do chão como fazemos com o rosto de alguém que amamos, o rosto da mãe,

ele começou a passear os dedos

pelo cimento

a pele dele foi ficando Macia. continuou

também no muro

e depois no chão de novo

pensou que o seu quintal poderia ser a barriga de um grande bicho

uma mistura de dinossauro com baleia

e ele morto

morando ali.

imaginou que o bicho estava se sentindo bem hoje

porque a comida que ele engoliu estava fazendo um carinho nele por dentro

mas o dinobaleia não sabia disso, ele não tinha olhos no estômago pra ver a mão do menino acariciando seu avesso,

então ele pensou que aquela sensação era só uma alegria

sem motivo, como às vezes nos acontece.

o menino continuou com a palma

pelo cimento

foi quando ele imaginou um novo corpo sendo devorado pelo bicho.

pegou seu coelho de pelúcia, o Alfred,

correu com ele

simulando a queda

pela garganta

pá, no estômago, o menino soltou o coelho no chão.

 

fez de conta que estava vendo o Alfred pela primeira vez.

 

quem é você? – perguntou como se despertasse de um sono.

-sou alfred. acabei de ser devorado por esse animal gigante.

-eu também fui devorado! estou morando aqui faz mais de 20 anos.

tudo isso? e você continua criança?

-é que eu morri, daí o tempo para. você morreu também, mas pelo menos agora estamos juntos.

. – o coelho disse esperançoso.

 

deu um trovão.

 

-Davi, vem pra dentro.

 

por que? o menino pensou.

 

-é só um arroto, mãe.

 

a mãe parou

na porta da cozinha olhando o céu, depois

o filho.

 

 

 

sentiu pena

 

 

 

não da inocência, mas

 

 

 

da Perda.