pequenos burgueses

-entra no carro.

-não.

-agora, renata.

-me solta.

-o que ele te fez, hein?

-nada.

-fala. – ele disse apertando a bochecha da menina.

 

entraram no carro,

ela estava chorando muito.

o pai disse bota o cinto e

antes de acelerar ficou olhando

pra filha, perdido

por completo.

 

em silêncio eles seguiram o caminho de casa

 

sempre as mesmas árvores mas hoje

estava difícil, tudo lembrava Lúcio, a Renata encostou a cabeça no vidro se deixando levar pelos movimentos do carro

queria se afastar do pai e fez isso

colando o corpo na porta.

as árvores.

que vontade de

ser uma delas, sumir

entre tantas, farol vermelho

 

um casal

atravessou na faixa

uma mulher de salto

atravessou na faixa

 

verde.

 

o pai acelerou, não gostava de ver a filha triste

tanto menino no bairro e ela foi se apaixonar logo por esse lúcio que

fumava o dia todo, queria

ser poeta

-ele É

poeta.

-poeta tem que estudar, esse menino é um vagabundo.

 

é claro que durante a juventude o pai também

deu seus pulos, mas

Passou, agora

só cerveja, de vez em quando um vinho do porto, mas era diferente, ele era um homem feito. estacionou na garagem

a menina desceu antes do carro frear.

 

-Ei. – disse o pai.

 

ela soltou a porta, subiu pro quarto

a mãe na cozinha virou o pescoço

 

-o que aconteceu? – perguntou pro marido

que entrou minutos depois afrouxando a gravata.

-brigou com o lúcio – ele cumprimentou a mulher com um selinho.

-de novo?

 

e deu um beijo também no filho que brincava na sala, a tv ligada no show do Patolino.

 

-eles terminaram? – a mãe quis saber.

-não faço ideia. – ele disse lavando a mão na pia com detergente.

-pega o alho pra mim? – a mulher pediu.

 

ele abriu a geladeira, pegou também uma cerveja.

 

-nesse frio?

-estou precisando. quer um pouco?

 

a mulher fez que não, o fogo ligado

o pai abriu a tampa pra sentir o cheiro

da carne

colocou a mesa, sentou.

 

-será que ela vai querer jantar?

-você não viu o que ela aprontou na frente do colégio.

-o que?

-ficou gritando, não queria entrar no carro de jeito nenhum.

-você não acha que seria melhor a gente arrumar um psicólogo pra ela?

-David, não.

 

o menino estava jogando bolinha de gude na tela da tv.

 

-talvez. – o pai continuou.

-vê com aquele teu amigo médico. pra igreja não adianta levar a renata, ela odeia.

-tava pensando em conversar com o pai do lúcio.

-tá louco?

-por que?

aquele homem é um xucro, Carlos, pelo amor de deus. outro dia mesmo ele caiu aí na rua de tão bêbado, não acho

que você devia se expor assim.

-e tem jeito? esse namoro precisa acabar, Marcela, não dá, você reparou como a nossa filha tá magra?

 

a mãe sentou na mesa, eles se serviram.

 

-a carne está ótima.

-vou chamar a renata.– a mulher disse apoiando o talher.

-deixa ela se acalmar primeiro.

-a comida vai esfriar.

-depois ela esquenta.

-comida requentada é horrível.

 

a mãe levantou.

deu uma olhada no David que agora estava mais calmo e levantava as mãos

como se dançasse.

 

ela subiu os degraus.

 

com cuidado abriu a porta,

 

deu um berro quando viu o corpo da filha

nu, as pernas abertas, o lúcio com a boca mergulhada ali.

 

 

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por enquanto

o casal está na cama, as pernas sobrepostas, no criado mudo dele tem um livro, no dela um copo

 

-alguma coisa mudou em mim. – ela diz.

-o que?

-não sei, estou com mais coragem.

-mas aconteceu alguma coisa?

-foi depois do que você disse sobre o vestido, que estava com saudade de me ver com o vestido. fiquei uma semana pensando na sua frase e cheguei a conclusão de que

quando eu usava aquele vestido eu era muito mais aberta pra vida, fora que ainda ninguém que eu conhecia tinha morrido, quer dizer, só meus avós, mas era natural, eles estavam velhos, este tipo de morte dói menos e eu era alegre, lembra? estava tentando arrumar um emprego no spot.

-eu lembro.

-e usava aquele vestido azul. saía pra comer hambúrguer com ele, conseguia projetar minha vida pra daqui sei lá

10 anos e

sem medo, mas também muito tranquila com o que estava me acontecendo agora, comer o hambúrguer, tomar meu refrigerante, rir das suas piadas idiotas. quando você falou do vestido eu quis ser aquela mulher de novo,

eu sei que é irreversível, não dá pra simplesmente voltar a ser quem fui, mas. sei lá,

eu senti que ainda era possível encaixar um pouco daquele brilho em mim.

-linda.

-e sabe quando eu percebi tudo isso claramente? ontem na academia, quando do nada uma mulher começou a conversar comigo. ela chama Luciana, é farmacêutica, e ela me contou coisas muito íntimas, por exemplo que era assexuada.

-assexuada, sério?

-juro. e ela me contou isso assim

na bucha

eu podia não entender, né?, onde ela estava querendo chegar me contando essas coisas tão intimas, mas eu fui aberta e gentil como há muito eu não conseguia ser. marcamos de comer uma pizza na sexta, trocamos telefone. ela tinha um hálito esquisito.

-bafo?

-não, era um tipo de ar pesado como se a boca estivesse seca.

-humn.

-mas o fato é que antes ninguém conversava comigo naquela academia, lembra que eu reclamava? achava tudo um saco, mas

entende? bastou eu me abrir

ainda que sem querer

e as pessoas começaram a me contar segredos.

-e você está gostando.

-muito. obrigada por dizer do vestido.

-eu não fiz nada, amor.

 

ficaram abraçados, ela olhando pro teto pensando na Luciana uma pessoa nova e ele mergulhado

nos cabelos da esposa, os dois vestindo camisetas iguais.

 

-e o quadro, como está? – ela perguntou.

-tô com vontade de apagar tudo.

-para.

-riscar um fósforo naquela merda.

-isso é seu alter ego falando, mas o quadro está lindo, dá pra filmar uma história de terror ali naquela floresta, sabia? ou uma história de amor, dá pra fazer o que quiser naquelas árvores, você não pode queimar nada porque seu quadro já queima toda vez que a gente olha pra ele.

-você me superestima.

-eu te vejo, só isso.

 

ficaram em silêncio, os dois.

 

-você vai ler? – ela perguntou com a mão no clique do abajur.

-não, pode apagar. quero ficar aqui com você. – ele disse sorrindo na nuca dela, deu pra sentir os dentes.

se beijaram e

foi durando,

ele encaixou a mão por baixo da blusa dela o mesmo peito há onze anos e aquilo

ainda o surpreendia, o bico, os bicos, ele queria devorar os dois de uma vez. ela foi se esticando

como se voasse, pegou no pau movimento sobe e desce, os dedos dele mais circulares bem no clitóris e ela rebolando, ele montou

cavalo no campo num entra e sai frenético que no fundo era apenas vontade de permanecer.

olha pra mim, ele pediu

gozando e ela

nem perto disso (o gemido dele encheu o quarto) já tinha explicado pro marido que era bom mesmo sem gozo, ele sabia que sim e achava que sabia

quase tudo sobre a garota dos seus sonhos sem que isso anulasse qualquer mistério, ele queria pintar o dentro da esposa numa tela do tamanho de Guernica, era guerra também, talvez ele começasse amanhã ao invés daquela floresta estúpida e terá ciúme

se a tela for selecionada por alguma galeria.

-as pessoas vão se apaixonar por você – ele disse.

-não me superestime. – ela retrucou

naquele mesmo jogo só que agora invertido

e assim lentamente eles foram pegando no sono de mais um dia juntos, faltam quantos?, até que tudo acabe.

 

 

 

Zoo

a pele do elefante chamou a atenção da clara, parecia o vô no dia da morte dentro

do caixão só que mais úmida

a pele dos elefantes, deu pra ver aguinha

especialmente nas dobras, Le Suor, a menina apontou estava com mania

de fingir que falava francês.

 

é um circo?

-é uma espécie de circo, sim. – disse a mãe.

-faltou a graça. não a garça. a graça.

-nem todo circo tem graça, vamos. ver o leão.

 

elas foram. caminhando por aquela falsa selva que não convencia nem os que tivessem boa imaginação (era o caso de clara)

ela brincava com bonecos como se eles fossem até

uma nave, dependia da história, o princípio do Teatro bem ali.

mas clara

não vai ser atriz, vai ser

professora

e a sua imaginação nata

vai ajudar esses seres que ainda não existem, os futuros alunos de clara,

a serem se não melhores pelo menos gente

que sabe fugir da realidade com os mecanismos do próprio corpo.

 

-clara, o leão.

 

a clara estava pra dentro, ainda pensando na pele dos elefantes. no dia da morte do vô ela usou um shorts com listas vermelhas

 

Clara – a mãe chacoalhou

tinha muito medo que a filha fosse autista. já tinha visto criança na tevê assim voltada totalmente pra dentro, a mãe tentando dar comida e a criança se comportando como se a voz não entrasse. –Clara!

o leão.

 

a menina olhou

pelo espaço entre as grades

ele estava dormindo em cima de uma pedra

em tudo lembrava um cão que tinha crescido demais. a pele

era lisa,

imagina pisar em um leão e ir sendo sugada

pela areia da pele dele

 

-está dormindo. – a clara sussurrou. –olha a barriguinha.

-pagamos ingresso pra ver isso…

-eu gosto dele assim.

 

a mãe afagou a menina.

 

-vamos andando. quer pipoca?

-por que eles ficam presos?

-no circo também é assim.

-eles nasceram aqui?

-alguns.

-eles brotam dentro da grade? por que não fora?

-não são plantas, clara.

-eu sei. mas por que eles ficam presos?

-eles precisam, meu amor, são selvagens. se não estivessem presos

isto aqui seria um pandemônio.

-pandemônio. le pandemoniô.

-vamos. vou te comprar um sorvete.

-eu quero um que tenha cara de leão.

-não existe, filha.

-eu quero comer o leão, graaaaa. – ela abriu a boca

escancarando os

pequenos dentes, as mãos como se fossem

garras, o corpo curvado – Graaaauuuuuuuuuu– bem na hora passou uma excursão

em fila indiana

as crianças foram virando o rosto

pra ver.

uma manhã

ela saiu do quarto, alcançou o banheiro sem fazer barulho

não queria acordar seu cachorro que

em outros tempos se levantava com ela

agora estava assim

esticando o sono

fora que a roupa de cama dele

era nova, uma toalha por baixo, um cobertor cortado e por fim um edredom. assim que ela terminou de arrumar ele pulou ali agradecido

e se mexeu pouco

durante essas noites de inverno.

mas ela

precisava acordar, seu chefe não gostava de atrasos, quem gosta?, o dela especialmente general.

decidiu tomar um banho rápido pra acordar os olhos que apesar de abertos pareciam mortos, uma preguiça incalculável de andar na rua, enfrentar os rostos e placas

depois o trabalho em cima da mesa isso é pra hoje isso também, onde no corpo nasce a preguiça? sempre pensei que fossem nos

olhos, mas

acho que não, acho que nasce no cérebro, ele que é o responsável pelos nossos sonhos

e por quase todo resto, por isso o rosto a primeira coisa assim logo de frente recebendo vento, beijos, lágrimas.

ela começou a sentir o peso da própria cabeça

ensaboou os cabelos, inclinou pra enxaguar. jornalista. será mesmo essa a profissão que lhe cabe? escolheu ali, de acordo com o que conhecia de si mesma aos 18 anos e também baseada nas matérias que ela gostava no colégio, era curiosa, falava bem.

mas e se essas qualidades culminassem por exemplo em um amor pelas montanhas? se não por escalá-las, talvez

por desenhá-las, como ela saberia se nunca tentou?

fechou o chuveiro sentindo que levava sua vida de uma maneira menor do que poderia, como se morasse num casarão de fazenda e ficasse vivendo dentro de um único cômodo

que tinha suas janelas e quadros, mas isso não quer dizer que ela ficaria ali pra sempre. coragem pra abrir a porta, ela pensou

coragem pra seguir pelos corredores

explorar outros cômodos

ser expulsa aqui já tem gente demais. continuar caminhando

até mesmo pra longe

da fazenda

o mundo é tão Grande, dá pena

dos mapas.

é isso, ela pensou. tenho que me contentar com a mesa no jornal da minha cidade porque se não fosse essa

seria outra

e no começo as coisas até pareceriam boas, mas

logo viria a crise

mata o sonho quem o realiza

ao mesmo tempo não estou assim tão infeliz. é só

muito cedo

e faz

muito frio

de toalha enrolada no corpo ela procura uma roupa pra hoje.

 

o cão

hiberna

 

isso não a preocupa porque o tórax dele está se mexendo

mas vê-lo dormindo sem acompanhá-la como de costume

acaba sendo uma prévia da vida sem ele e

é horrível, ela se sente desamparada

precisando de um conselho que a fizesse enxergar algo profundo e pensa que até nisso seu cão é muito generoso

está velho, uns poucos anos e

pronto, ele se vai

até pra isso

ele a prepara

dorme cada vez mais pra que ela vá se acostumando

mal e mal

com a solidão.

relações de poder

o escritório do meu pai era todo de vidro

e tinha um rio

que mais tarde descobri ser uma espécie de aquário aberto

no chão

mas quando menina eu imaginava que a água tinha brotado ali, simplesmente, apesar das mesas e dos papéis.

quem me buscava na escola era a secretária bibi

almoçávamos juntas

de preferência no restaurante da

beterraba, a cor que meus dentes ficavam, depois ela

me levava pro escritório de vidro

meu pai estava lá.

ele me dava um beijo

e sumia

às vezes eu tirava um cochilo no sofá da recepção. se ficava frio a bibi me cobria com o seu lenço tão

cheiroso,

atchim.

de repente meu tio chegava

de moto

eu acordava instintiva.

ele entrava com jaqueta de couro

e anéis, largava o capacete num canto

dava oi

pra bibi e fazia

um Carinho no meu cabelo.

 

( aquilo )

 

me dava uma

energia tão

Grande

 

eu saia correndo

pelo escritório

cantado

e usando as mãos

pra voar, fingir que voava

aos poucos eu

ia me acalmando, mas

não era fácil

depois que meu tio chegava meu coração virava um bicho.

minha mãe

costumava me buscar no final da tarde

me achava cansada

por conta das minhas olheiras

mas eu estava feliz e contava isso

pra ela

 

mãe,

eu Tô feliz.

 

ela me olhava como se eu fosse uma criança bêbada

de sono

 

-amanhã você volta. – a bibi me dizia

tão calma

 

eu ia embora olhando pra trás.

 

se não fosse ela pra cuidar de mim

ou o meu tio

pra me deixar daquele jeito encontrando vida em tudo, nas prateleiras, nas paredes

 

então minha alegria era o rio.

 

-peixe não chora? – eu perguntava.

-tem gente que também não.

 

mas além dos peixes

tinha uma tartaruga no aquário, ela era do tipo que podia sair da água sem morrer. direto eu pegava ela no colo

quem dera eu pudesse fazer o mesmo com os peixes, apesar de achar que eu me assustaria

com a viscosidade deles

e soltaria rápida

peixe na água

imaginando minha mão virando molusco.

pois eu pegava

a tartaruguinha

ela ficava se debatendo

 

-não adianta fazer isso, eu sou maior que você.

 

ela se escondia no casco

 

-sai daí.

 

eu enfiava o dedo

nos buraquinhos dela

 

meu tio chegava de moto

dizendo deixa

a pobre em paz e

voltava a tartaruga pro rio. ela nadava

até o fundo mais impossível onde eu não pudesse alcançá-la e

isso me aborrecia

ao mesmo tempo que eu sentia muita vergonha por ter levado bronca justamente do meu tio. não sou idiota eu dizia ou tentava dizer

 

e ele vinha

com aquele Carinho

no meu cabelo

 

me deixando de novo cheia

de energia.

 

a única parte triste do escritório

era quando a minha tia chegava.

ela entrava de salto geralmente de sexta

e dava um beijo meu deus na boca

do meu tio.

 

depois ela vinha

me dar um beijo também

 

eu fugia pro sofá

me cobrindo toda

com o lenço

como se ali fosse

meu túmulo

eu me sentia feia quando ela chegava

feia, sozinha, doente, morrendo

 

sua puta, um dia eu tive coragem de dizer.

 

meu pai quando ouviu isso

me arrancou do sofá a tapa

me bateu na cara, na bunda

(a tia chorando, a bibi pedindo

chega)

mas o pior

não foi a surra

que eu só fui sentir horas depois amortecida como eu estava pela raiva

o pior de tudo mesmo

foi apanhar na frente do meu tio que ficou

imóvel

assistindo aquele circo como se fosse pouco.

 

saída

a turma se acomodou no balcão, alguns ficaram de pé. eu não sabia nada sobre eles, se chegaram juntos ou

há quanto tempo se conheciam

pareciam íntimos, isso é certo, mas sabemos que essas proximidades dentro de um grupo enganam bem. se você separar o todo

e aleatoriamente escolher

um e outro

pra sentar olhos nos olhos

conversar, sobre o que for

então eles

ficarão mudos,

tensos

precisariam da volta do grupo pra se recompor.

na época da faculdade eu também fui assim. éramos muitos e riamos juntos, ficávamos corajosos e bonitos subindo e descendo a rampa com nossos livros e xerox, nossos sonhos. nunca mais atingi algo parecido na vida, nunca mais me senti tão bem ao redor das pessoas,

agora prefiro sair sozinha, sinto medo de marcar encontros e não ter nada pra dizer

medo

do silêncio desmascarando o que há de mais terrível em mim bem na frente de alguém A testemunha,

quando eu tinha amigos

essas coisas não pesavam, depois que a turma se dispersou algo se perdeu também em mim. talvez a inocência

e vontade de flertar

não só com pessoas, com a vida, quando eu tinha uma turma eu me sentia alguém. por isso entendo

esse grupo de amigos, aqui do canto assistindo o jogo eu compartilho

da felicidade deles

levanto o copo

um brinde a vocês. foi quando me desceu

um coágulo de sangue

lembrei que preciso

me trocar em breve

abro a bolsa e vejo

se ainda tenho absorvente

de repente eles riram, a turma de amigos

alguém contou uma piada

porque eles ficaram rindo por um bom tempo

apoiando cabeças e testas

nos ombros uns dos outros. pouco depois o time da casa

fez um gol na televisão

e os garçons se juntaram

ao redor

de uma mesa

cantando parabéns com um bolo nas mãos. fechei os olhos por alguns instantes.

imaginei que pelo menos o aniversário era meu.

 

 

 

Nunca mais se viram

estavam frente a frente

mas já não estavam ali no restaurante da rua 12 onde no começo tudo se resolvia num abraço, agora as conversas

facilmente viravam gritos, ninguém queria

carregar a culpa

uma vez ela jogou a taça de vinho

em direção a cabeça dele

não acertou por pouco, o rubro espalhado pelo chão e parede foi

simbólico, o fim

está próximo, ela pensou se sentindo triste

 

este almoço

 

sem dúvida estava mais calmo do que isso, ambos sabiam

que a relação se tornara

insustentável.

ele dormiu na casa de um amigo a semana toda

e assim sem a companhia um do outro eles conseguiram

se acalmar, mas

não estavam ali

na mesa frente a frente, estavam

no passado, ela principalmente

e no futuro, ele

especialmente.

 

-quem vai ficar com o Fred? – a mulher perguntou.

 

a gente pode fazer guarda compartilhada.

 

-não, eu não quero.

 

-por que?

 

-não quero ficar te vendo toda semana.

 

como você dificulta as coisas.

 

-deixa eu ficar com o Fred.

 

-eu também preciso dele.

 

-então tá,

então me tira mais isso.

 

-eu não quero te tirar nada, marina. estou propondo uma guarda compartilhada

algo super natural e saudável de se fazer, você leu o e-mail que eu te mandei?

 

-ah claro. e eu tenho que ficar vendo sua cara toda semana.

 

-você não sabe conversar.

 

desaprendi com você.

 

-nada é culpa sua, né? impressionante.

 

quem decidiu ter um caso com a secretaria não fui eu.

 

-eu não tive caso com ninguém.

 

ela que me disse, bruno, me escreveu uma carta. a menina não tem motivo pra mentir.

 

vamos tentar ser objetivos, você consegue? ser objetiva pelo menos uma vez na vida?

 

ela o olhou com raiva.

 

-você pode ficar com o apartamento. eu vou ficar na casa do meu amigo por enquanto.

 

-por que você não vai morar com ela de uma vez? tem medo de emendar um relacionamento no outro?

 

-você não para.

 

você quer ficar solteiro, né? não quer se comprometer. faz bem, covarde, melhor do que ficar arrumando um caso em cada esquina.

 

-o que eu faço ou deixo de fazer não é mais da sua conta, entendeu?

 

eu quero ficar com o Fred, além do apartamento.

 

não, nem pensar. ou guarda compartilhada ou

 

-deixa eu ficar com o Fred, Bruno.

 

ele ficou pensando

que agora na casa do amigo seria mesmo complicado

levar o cachorro

ele tinha que arrumar um lugar primeiro

e enquanto isso

ela ia se acalmando

Ceder

lhe pareceu uma estratégia.

 

-tudo bem. pode ficar com o Fred.

 

ele esperava que ela fosse lhe agradecer

com um sorriso, pelo menos, mas a marina não esboçou nenhuma reação.

pediu a conta,

cada um pagou o seu.

 

levantaram da mesa.

 

na porta do restaurante

se despediram friamente.

 

ele subiu

a rua 12 e acendeu um cigarro

acenou também para um conhecido

dono da loja de discos, passa lá amanhã.

 

ela desceu

a avenida 7

 

mão no bolso e

chorando, preferia ter esperando chegar em casa, mas

não conseguiu.

 

Abismo

a certa altura o museu desembocava em uma biblioteca de 6 andares

que estava desativada, víamos de cima, suspensos por uma espécie de andaime.

 

-não sabia

que tinha biblioteca aqui, não está

no folder. – o Otávio disse.

-deve ser uma atração surpresa.

 

fiquei impressionada

com a quantidade de livros até o teto ao redor de tudo.

tentei aproximar a vista de uma das prateleiras

pra identificar algum título, o que teria? Sócrates, Platão, mas

era impossível

o terraço móvel aonde estávamos ficava bem afastado das paredes

será que alguém já tocou naquele último livro ali de cima?

no térreo mesas comunitárias

levemente parecidas com as da biblioteca da minha cidade

ao nosso lado um guia

explicando em inglês para um grupo

a história por trás desse lugar. ele disse que na década de 20

uma menina

acompanhada pelos pais no último piso

de repente se jogou

biblioteca abaixo

foi muito rápido, ninguém conseguiu segurar. até hoje não se sabe a causa desse impulso, se

por curiosidade, se

um acidente, será que a menina tinha alguma dimensão do que estava fazendo?

na época a biblioteca tentou abafar o caso

mas os boatos correram solto

e as pessoas começaram a achar que os livros daqui eram amaldiçoados, cada vez menos gente visitando os pisos até que tudo ficou pras moscas.

-quantos anos a menina tinha? – uma mulher do grupo perguntou.

-14.

e eu me lembrei de um taxista, seu Antônio,

que peguei um dia em belo horizonte rumo a ouro preto, ou seja, uma viagem longa, deu tempo

pra conversarmos bastante

e conforme o papo foi se aprofundando

a estrada também, se aprofundando

o seu Antônio me contou que a filha de 14 anos

se matou.

pulou da janela

em pleno domingo

quando os pais abriram a porta do quarto

pra chamar a menina

pro almoço

não tinha mais ninguém lá.

ela deixou uma carta, a mãe não teve coragem de ler.

-e você, leu?

-li.

-o que dizia? se não for muito ruim perguntar.

ah, falava sobre o quanto ela se sentia sozinha

mesmo rodeada por pessoas, sobre o quanto esse mundo era cruel com ela e

não a acolhia

 

nesse ponto seu Antônio parou.

 

-vamos falar sobre outra coisa. – sugeri.

 

então ele me contou que se casou de novo

depois da morte da filha não teve como não se separar da primeira esposa.

 

ficou uma distância enorme, a gente não conseguia mais se olhar.

era como se fossemos culpados

o espirito da nossa filha sempre entre nós.

-e como você conheceu a sua segunda esposa? – desviei, não queria fazer seu Antônio chorar.

-no táxi.

-vamos? – o Otávio me disse, estendendo a mão. – o museu fecha às cinco e a gente não viu nem metade.

-vamos. – eu disse aceitando

o encontro dos nossos dedos

não sem antes dar uma última olhada

agora pro chão

da biblioteca

tentando adivinhar o lugar exato em que a menina

implodiu, como dizem que acontece

com um corpo que despenca.

chuva no fundo da boca

não pretendo ficar olhando pro céu o dia todo, preciso talvez só de mais cinco minutos, alguma coisa no chão me dando forças, penso que o próprio chão com suas camadas debaixo da terra ou seja: ainda não é o fim.

não quero morrer, apesar que tenho começado

a compreender os suicídios, a vida está com as mãos

na minha garganta

termine, grito

ela não me escuta

a vida tem um tempo próprio

e muito lento.

está difícil, desabafo com frequência

me surpreendo com essa minha vontade de

ora conversar com estranhos

ora não falar

com ninguém.

o que eu gostaria mesmo era de ter muita gente morando em bonecos no meu peito

pra toda vez que eu me sentir sozinha

tirá-los de mim e

criar cenas entre eles.

não tem motivo pra você ficar tão triste, me dizem, sua vida está indo muito bem.

sim, mas por dentro. tem algo acontecendo dentro de mim despedaçando o que já acontecia, esse movimento não tem deixado espaço pra eu ser a mesma de antes, alegre, distraída, se continuar nesse ritmo chego a ficar com medo

do tempo

acima do medo da morte.

vou seguir deitada aqui na grama por mais alguns minutos,

experimentar desistir.

de que eu não sei, morrer está fora de cogitação.

se o céu fosse verde e as árvores azuis, as coisas seriam melhores?, as cores tem o poder de mudar nosso estado de espírito? a casa que moro. o estalo do taco, especialmente em dias frios. o que seria da janela sem o vidro? uma violência, o clima não perdoa nem o sono,

onde estão as pessoas que eu ainda vou conhecer?

ontem mesmo

conheci algumas, não percebi porque estava pensando nas pessoas que ainda vou conhecer.

 

-tem qualquer coisa muito errada comigo. – repito para uma amiga

 

mas ela não quis saber. disse que eu devia ter atendido o telefone

a porta

a pele

que eu pareço um fantasma de tanto que eu sumo

 

e assim as pessoas vão se dissolvendo

 

na minha frente

 

 

vou perdendo quem gosto e assisto tudo

com uma clareza absoluta: meus amigos ou as possibilidades de amigos

desistindo de mim cada um à sua maneira

 

e eu não faço nada

pra que isso mude

 

quero meu mal e não quero

morrer.

 

encontrar

enfrentamos uma escada em caracol antes de chegar no apartamento.

subi olhando pra cima, me apoiando no corrimão, o teto cada vez mais próximo. me lembrei de repente da caixa

que encontrei na casa da minha mãe cheia de

recortes de revistas e alguns desenhos que ela fazia, eu tratava aquilo como um tesouro, pequeno tesouro de quem foi a minha mãe. de resto uma cama, um sofá. e meus livros, depois de um tempo vou comprar um tapete.

 

-caso eu goste desse apartamento, espero que o elevador não esteja quebrado no dia da mudança.

-duvido. o zelador disse que demos azar.

 

chegamos no décimo segundo piso finalmente

 

-deu pra cansar? – o Júlio me perguntou colocando a chave na fechadura

-parece um corredor de hotel – comentei, e a porta abriu nesse instante

 

 

fazia sol dentro da sala.

 

 

-a planta desse apartamento é especial. – o Júlio me disse.

 

 

fui entrando, logo eu que nunca soube com qual rosto se entra num lugar que te agrada muito.

 

 

olhei a cozinha

de azulejos azuis

e um quadro

do Bergman.

 

-deixaram aí. – o Júlio explicou.

 

deslizei os dedos pelo quadro, um presente, me sentia como se eu não merecesse tanto.

visitei os três quartos.

um vai ser escritório, pensei. o Júlio acompanhava meus passos sem dizer quase nada

sabia que eu era do tipo que decidia de dentro, nunca por questões externas que os corretores tanto gostavam de listar. o Júlio me parecia diferente,

sensível

o olhei com carinho

ele me sorriu.

 

passeei também pelos banheiros, box, vaso, pia e

era como se eu não estivesse ali. queria tirar aquele amortecimento do corpo,

me sentir inteira no agora, mas

era impossível, eu estava feliz demais.

 

fui até a janela da sala.

 

apoiei no parapeito admirando a vista, me imaginei tomando um café ali todos os dias pela manhã

e fechei um pouco os olhos.

que música tocaria? a primeira música da história dessa casa comigo morando nela. girl from the north country? horses? anunciação.

 

-assim do alto até que são paulo tem seu charme. – eu disse.

-amo essa cidade.

-você nasceu aqui?

-sim. no bairro do limão. e você?

-sou do interior.

-quando se vem de uma cidade pequena é mais difícil se acostumar mesmo.

não tem a ver com a cidade, Júlio.

-com o que, então?

-comigo.

 

acendi um cigarro.

 

-você se importa? – perguntei.

-não, fique a vontade.

-quer um?

 

 

ele demorou pra responder.

 

 

-você nunca fumou?

não.

-então experimenta. – eu disse estendendo o maço.

 

ele tossiu

na primeira tragada

depois fumou como se tivesse feito isso a vida toda.

 

você leva jeito.

-não é pra tanto.

a primeira vez que fumei foi horrível, eu não conseguia tragar. fumava só colocando o cigarro na boca e soltando a fumaça.

-e você pensa que eu tô fazendo o que?

 

rimos.

-eu fazia questão de fumar na frente do colégio, queria provar pra todo mundo que eu era livre.

-deu certo?

-tomei uma suspensão de 7 dias.

 

ventava. olhei no relógio, 4 da tarde. eu gostava muito desse horário das 4.

 

-vou ficar com o apartamento, Júlio.

-eu sei.

 

 

só não me lembro quem

começou o beijo

mas pensando agora friamente

só pode ter sido eu.