fardo

a casa escura, os pais dormiam, ela gostava deles assim

dormindo, lhe davam paz e ao mesmo tempo não estavam mortos.

acordada sua mãe falava alto, seu pai

fazia perguntas, você foi na lotérica? pagou a conta de luz?

e a cabeça dela querendo

apenas ser

casulo, o pescoço querendo o silêncio de uma floresta

já que o silêncio completo não existe, nunca atingimos o nível máximo de nada, nem do amor, nem da permanência, mas o som de uma floresta parece calmo o bastante, o som do vento encostando

nas folhas, nos pelos. ela deslizou

pelo escuro da sala

de all star e ainda morando

com a dona Neusa e com o seu

Adelino sempre tão conhecidos na feira de sábado não acredito

que sou filha dos meus pais.

daqui a pouco

eles estariam tão velhos que

ela não poderia mais

ir embora, teria que ficar

de enfermeira, sempre alguma coisa, algum trabalho que ela precisava fazer. também não tinha namorado

ou roupa preferida, encostou a porta do quarto, tinha livros, no entanto se houvesse um incêndio ela não choraria por nenhum.

 

não ter nada

 

era pra deixar seu corpo mais leve na cama, pois acontecia justamente o contrário, ela colocou a mão no rosto

com angústia, com vontade de

trocar de vida, deve ter alguma porta, deve ter

tanto mundo que nós humanos não enxergamos e que uma pomba por exemplo

enxerga, de repente ela percebe

o rosto da mãe na penumbra, toma um Susto

a dona Neusa pede desculpas, queria saber se você tinha chegado bem ao mesmo tempo que se ofende olha aqui, Marina, eu não sou nenhum fantasma.

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