Ribeirão

as pessoas estavam reunidas dentro de casa, nasceu

o menino jesus

e tantos outros meninos que ninguém jamais saberá o nome

 

-vou brincar lá fora.

 

-está bem. – minha mãe disse distraída, ela voltava a ser filha na presença da minha vó e

me esquecia

 

ao mesmo tempo que isso machucava

 

me dava também uma certa liberdade

que eu gostava, apesar do medo

e de não saber muito bem o que fazer com o tempo sem a minha mãe comandando o navio das horas que me pertenciam, por direito, afinal

eu estava viva com o meu corpo no mundo, cada um tem o seu

pra cuidar.

 

cuidei do meu naquela tarde,

 

peguei a bicicleta que trouxemos de São Paulo.

a rua da minha vó era plana

e antes de começar a pedalar eu ia pra ponta

da rua

ficava olhando pra frente, fileiras de casas até onde a vista alcança.

dia 25 nasceu

tanta gente

por que então? só falar de um.

 

me sentei na bicicleta.

pedalei, era fácil

 

-só na rua da vó. – minha mãe dizia

 

a voz dela ecoando

dentro do meu peito que respirava sobe e desce querendo países inteiros

e todos os pássaros

e todos os parques

do beto carreiro, mas

quando chegava no fim da rua

solene eu

dava meia volta, começava tudo outra vez.

 

pedalei mais rápido

 

para pelo menos Ter alguma coisa, o vento no rosto, as casas passando

 

e no fim da rua eu virei tão brusco que acabei me derrubando no jardim da dona glória. caí na terra, o fofo da terra, demorei um tempo para me levantar. não era vergonha, não estava doendo

demorei porque de repente eu me dei conta

ali e com pouca idade que

aquela terra

num belo dia

será inevitavelmente o meu último lugar nesse mundo.

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Outra

vomitou a janta, caldo amarelo descarga

abaixo, depois olhou

a própria barriga e

chorou um pouco, ainda estava gorda, amanhã não comeria nada nem café.

foi pro quarto,

pegou uma tesoura. cortou a gola da camiseta do colégio, experimentou, a clavícula saltada. procurou então um colar na penteadeira, aquele com a mão de buda.

o inspetor do colégio achava ela bonita, sempre dizia que menina bonita, mas os seus amigos e os outros alunos, não.

ela pegou a calça do uniforme, a mãe bateu na porta, filha?

 

-estou terminando a Lição.

-quando acabar tome seu banho, não quero você dormindo tarde outra vez.

 

ainda bem

 

que a mãe não abriu a porta

 

mas a menina foi rápida, colocou toda a roupa que estava cortando embaixo da cama.

 

pegou de novo

 

quando sentiu que a mãe tinha se afastado

e fez na calça do colégio uma pequena fenda que se abriria mostrando a meia enquanto ela caminhasse.

provou a calça, se olhou no espelho. não era o ideal porque ela estava gorda

e também porque essas calças de colégio não são feitas para deixar ninguém bonito, claro que a Tuti e a Mafê ficavam bem bonitas

vestindo isso ou vestindo o que fosse, tirou a camiseta, botou um sutiã.

com bojo e além do bojo

experimentou colocar em cada peito duas ombreiras que ela tinha arrancado dos casacos que herdou da mãe. então sim, vestiu de novo a camiseta, mal podia olhar a própria barriga no espelho, mas até que de roupa ficava melhor e as mamas altíssimas

e o colarzinho

de buda

amanhã as pessoas vão pensar a Amanda está no mínimo diferente.

agora

ela só precisava dar um jeito naquelas malditas olheiras.

passou base corretivo base corretivo tantas camadas que a pele mudou de cor. ela se maquiava com força pensando nas pessoas bonitas que conhecia, a Luana, por exemplo, aquela tinha o rosto de um anjo. algumas pessoas até já disseram que ela parecia irmã da Luana, a irmã feia só se for, mas sabe que assim maquiada

de bojo e tentando

ser magra, talvez ela consiga apresentar com alguma dignidade o seu seminário sobre o tiradentes

amanhã no palquinho da sala de aula, o palanque, e as pessoas impressionadas com a pessoa que a Amanda virou.

estado noturno

viro de bruços, como se boiasse, e percebo que o meu estômago ainda dói. tenho comido muito rápido, como se a comida fosse um ódio, imagino que nado em uma piscina que cresce, quando vejo estou em alto mar. desisto do bruços, me sento na cama. Bruges, na Bélgica. eu estive lá, uma vez.

procuro meu chinelo com os pés, calço

caminho até a geladeira de funcionamento incansável.

abro a porta

em busca do pote de melão, por engano pego o de alho e desisto

de tudo, vou pra sala, me sento no sofá.

que desespero no peito

por não estar fazendo o que outros estão fazendo, dormindo. parece tão simples, as crianças fazem à beça, fechar os olhos, desligar a mente do mundo.

outro dia sonhei que

tocava um feto de nascimento prematuro e isso escureceu a minha mão, fui ficando cinza, Não encoste em nada, os médios gritaram, mas eu já tinha encostado nas paredes, nas cortinas, senti que ia morrer.

quando acordei anotei o sonho. foi a última vez que dormi.

pego a revista que está na mesa de centro. folheio no escuro

aquelas marcas de roupa querendo o dinheiro de todos nós e então me aborreço, sou manada, era pra eu estar dormindo igual a todas as outras criaturas.

fecho a revista, visto um robe.

desço o elevador de costas para o espelho.

 

-olá. – digo para o marcos porteiro da noite.

-dona Mirtes. – ele responde balançando a cabeça e aquilo é tão pouco, me sinto desamparada, sento no banco ao lado da portaria.

as velhas senhoras do meu prédio sentam ali na parte da tarde

conversando com o porteiro da tarde

 

sem sono? – o marcos de repente me pergunta, sorrio como se não me importasse

 

 

a brisa noturna invade meu robe num pequeno arrepio.

 

 

-e você, dorme que horas?

-não sou muito de dormir, dona Mirtes.

 

entrou um morador.

 

-boa noite.- ele disse pra nós dois

ficou no ar um cheiro de cigarro depois que ele passou.

 

penso que é melhor dormir menos. – o marcos prosseguiu. – assim quando eu morrer, terei vivido quase a idade completa do meu ano de morte, não apenas os dias.

-bom, isso é verdade. mas eu não sei se.

-o que?

 

 

de novo a brisa

 

crescendo grande boca.

 

 

está ficando frio. – eu disse, me levantando.

boa noite, dona Mirtes.

-boa noite. –palavras frouxas

 

e o elevador me levando para o Abismo que é não saber o que fazer com o tempo, minha mente está suspensa, eu só queria tocar no feto e escurecer.