a hora mais escura

a escola ainda estava vazia se não fosse pelo zelador que abria a porta e o cumprimentava sempre pelo nome

 

o professor retribuía

o cumprimento

 

olhando de relance para aquele rosto que por sua vez ele não lembrava

do nome, era Lalo? ou talvez fosse Tito. vou perguntar de novo pra diretora

e dessa vez anotar.

 

com os alunos acontecia a mesma coisa, o Antônio só lembrava do nome de alguns não porque tiravam boas notas, mas porque dali de cima do tablado

os nomes que ele lembrava eram de seres que despertavam a sua curiosidade

seja pela curva da coluna

seja pela timidez excessiva

 

especialmente o silêncio que fazia um determinado aluno chamado Manuel.

 

o menino ficava desenhando grandes navios no caderno enquanto Antônio explicava na lousa uma ou outra regra gramatical sem que isso se tornasse uma afronta, pelo contrário, para o professor aquilo era sinônimo de resistência. a escola impõe uma escuta cega e pouca escuta do lado de dentro,

 

espontaneamente o Manuel olhava para dentro

 

desenhando grandes barcos que o professor jamais vira em lugar nenhum. quando o menino ia mal nas provas, Antônio ficava com ele depois da aula explicando e explicando a matéria incansavelmente, o próprio Manuel não entendia bem aquela proteção, não era proteção, era quase um espelho.

 

– obrigado, meu querido. – Antônio disse ao zelador.

 

adentrou a escola,

 

o barulho do sapato no piso fazia nascer o prelúdio de um samba que morria quando o Antônio entrava na sala dos professores.

 

ele pendurava a bolsa no cabideiro, pegava um café na máquina.

 

sentava em uma das poltronas, a mais próxima da janela, tão cedo que lá fora parecia noite, seus alunos ainda estavam dormindo, os que moravam mais perto da escola com certeza estavam dormindo

 

e assistia

a transição do céu

assim, totalmente só e sempre perdendo o momento exato em que o marinho vai ganhando tons de rosa era seu jeito de desenhar navios.

 

saudade,

um barco nos levaria pra longe, a morte também, um beijo seu

com certeza me faria soltar o balão invisível que carrego comigo especialmente para os dias sombrios, meu balão passaria

pelas janelas dos apartamentos

subiria até seu máximo décimo oitavo andar, depois

 

explodiria,

arde

pro balão explodir assim, mas

 

para as janelas dos apartamentos ele teria sumido, apenas, sem nenhuma dor ou som, também a música

nos levaria pra Longe e tem nos levado

para lugares que, por deus nem o sexo, a música e o sexo,

 

dançar com você aqui

 

na sala da nossa futura casa, o piso fresco, o bebê que ainda não temos, você me levanta, cheira meu ventre enquanto toco

o teto da nossa futura casa onde chorarei em filmes que pelo trailer

não pareciam tão tristes, vou pra longe

também quando balanço no parquinho que me viu crescer, o vento sempre tentando levar consigo os

cabelos, as

saias, numa pequena coreografia do adeus.