o artista

ele chegou cedo no ateliê, tinha brigado com a mulher mas não por isso

 

– o desenho que ele deixou em suspenso ontem à noite –

 

era como se os traços implorassem me termine para que eu possa viver.

 

antônio trabalhava rápido,

geralmente construía suas obras em um dia único, até mesmo os desenhos que viraram quadros e depois lhe renderam prêmios, dinheiro que ele gastou mal e mal comprando uma mesa

de jacarandá

e um bolo

de confeitaria

que ele comeu sozinho no ateliê, os pés no piso frio.

era um lobo solitário, sua esposa reclamava

com razão, era um homem inatingível, se escondia na própria arte antônio, em que mundo você vive? também não fora pai,

ele foi alguém na cozinha enquanto a esposa preparava o café das filhas,

e as levava pra escola,

tudo passava por ele tão depressa

os acontecimentos, natal, ano novo, páscoa, aniversário

um trem que ele jamais alcançaria ainda que corresse em fôlego máximo, por isso

preferia o ateliê afastado de tudo

chegou ali

naquela manhã tão cedo

tirou o casaco, deixou na cadeira e era como se ele já estivesse sentado ali.

lentamente pegou o desenho que ficou pra hoje, um início de vaso que tendia a ser antigo, ele estava inclinado a desenhar algo antigo

apesar da pouca experiência com louças.

 

Antônio se sentou em sua grande mesa de jacarandá

 

2 Antônios agora, o da blusa e o de carne e osso

 

brigou com a esposa, horas antes, mas

não por isso

 

pegou o lápis, deixou que a mão o guiasse

pelo desenho

igual ele fazia criança quando sua mãe o levava até o rio

pra brincar, o que tem no vaso? o que poderia ter

no vaso

 

Antônio pensou um pouco,

 

e se fosse de vidro? por dentro um cemitério

de borboletas, ele nunca tinha visto um corpo de borboleta, pra onde elas vão depois da morte? pro vaso, esse imã,

depois que terminou o formato ele pintou com diversas cores

a pilha de corpos depois da guerra que era existir na cidade grande sendo pequena e voadora, ele foi experimentando

texturas possíveis para asas inúteis, o suor lhe cobria a testa, lá fora um tipo vento que costumava trazer chuva quando uma leve ereção lhe ocorreu.

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date

você colocou sua mão na minha, eu quis tirar

minha mão uma flor

esquecida, entre escombros, você alisou a pele

não estou pronta, tentei te dizer

mas saiu outra frase, saiu algo como

já estive aqui, uma vez.

sinto vergonha

do jeito que meus dedos se arredondam em formas humanas, meus ossos, e você me olhando para além do que sou sem nunca me ver, eu também não te vejo, mal vejo a mesa em que estamos, os pés se esbarram, será que estou com o sapato certo? será que,

 

chegou a lagosta

 

não sei

comer lagosta.

-eu te ensino,

 

suas mãos.

 

penso o tempo todo

nas impressões que te causo, queria viver, simplesmente, assistir nunca mais. você me pergunta

sobre o meu trabalho, respondo que

bom, faço o que posso.

mas você gosta?

claro e

mudo de assunto, comento do vinho, você lida em silêncio com o fato de eu não estar sendo cem por cento sincera

e quem está? sendo cem por cento sincero,

você segue

em silêncio

parece quase triste

eu não devia ter aceitado esse encontro, onde eu estava com a cabeça? me conheço o suficiente para saber que não mudei uma vírgula e então te escuto dizendo você é muito dura consigo mesma, por que?

ah, meu amor.

você devia passar uma tarde

lá em casa

com a senhora minha mãe

mas achei melhor dar outro tipo de resposta menos íntima

até porque

não vamos passar dessa janta, então eu disse

 

-como? não entendi.

-nada, esquece.

 

e eu já sentindo saudades do que nunca tive com você,

em algum universo paralelo e se eu evoluísse muito, acredito que nosso encontro poderia se estender pelos anos, só não estou conseguindo passar dessa noite, quem dera eu passasse

você pediu a conta.

sua mão está longe agora, a minha

está na perna

ainda dá tempo de

fazê-la voar

até você, vamos, que em breve será tarde, a mão a coisa mais pesada, não sai do lugar, não sai.

 

semente

-queria viajar pelas Américas, abrir os braços no topo de uma montanha.

-paulo, você anda lendo muito os beats.

-eu tô falando sério.

-eu também. tira a cara dos livros, coloca no mundo. olha o preço que tá a passagem.

-você me acha ingênuo.

-muito pelo contrário e exatamente por isso. a vida do lado de fora precisa de você.

-elisa, há quanto tempo somos amigos?

-desde a faculdade.

-isso. e desde lá, escuta bem, desde lá nós dois não estamos indo a lugar nenhum.

-como não?, olha essa festa.

-não estou falando da festa.

-da próxima vez não te chamo.

-para de bobagem, você me entendeu. vamos viajar juntos, eu, você e mais nada.

-ai, paulo.

-vamos? a vida é uma só.

-tá, e começaríamos por onde?

-tem muita coisa em Cuba que eu gostaria de ver. você sabia que o Hemingway morou lá pra escrever um romance?

-todo mundo sabe disso.

-eu podia fazer o mesmo.

-ótimo. e depois?

-depois vamos vendo. você disse das passagens, mas a gente não precisa de dinheiro. podemos trabalhar nas cidades e ir viajando, vamos conhecer o mundo devagar.

-e a nossa vida aqui?

-estou falando de jogar tudo pro alto, elisa, você não entendeu? não aguento mais trabalhar naquela maldita escola, minha família me odeia, a rita então nem se fale.

percebe? eu não tenho nada a perder.

-você está louco.

-pois o louco aqui

vai te mandar um tremendo cartão postal.

ela deu um tapa no ombro dele, prendeu o lábio com os dentes.

 

-adoro essa música.

-vamos dançar?

 

eles se levantaram e

 

rapidamente sumiram

na pista

 

de vez em quando um braço

de vez em quando os cabelos

de elisa, entre tantos,

 

demoraram pra sair de lá quase três da manhã e então

saíram, cambaleantes, pagaram as bebidas no caixa

 

e ganharam a rua, não é melhor pegar um taxi? não, vamos andando. está uma noite tão bonita.

 

caminharam,

 

até a casa dela

conversando sobre as músicas que a dj tinha tocado

e no quanto ela acertou em colocar Lionel Richie logo depois de Michael Jackson, uma combinação de fato explosiva, na porta de casa ela disse ficou tarde, é melhor você dormir aqui.

 

-dou aula amanhã às duas

-a gente coloca despertador.

 

ele subiu os degraus, ela na frente, procurou a chave na bolsa

o bob não latiu.

 

abriu a porta,

 

o paulo se jogou no sofá como se fosse

uma piscina.

 

-cuidado as costas.

-não sinto nada, estou morto. – e o bob cheirando

-ei. deixa ele em paz.

a elisa foi pro quarto, pegou travesseiro e cobertor.

 

quando voltou

o paulo já estava dormindo

 

-parece criança. –comentou pra si mesma

 

também ela

estava muito cansada

fechou a cortina pra não entrar luz, mas

sempre entrava.

 

antes de se deitar ela tomou um banho

 

(o bob no tapete do banheiro)

 

e enquanto tomava

 

imaginou que

a água na verdade era Chuva

de algum país exótico que ela nunca foi.

Coleção de perdas

Homem de vícios antigos

O peso do pássaro morto. Capa. Reprodução

Romance de formação, O peso do pássaro morto [Editora Nós, 2017, 168 p.; R$ 30] acompanha a vida de sua protagonista dos oito aos 52 anos de idade. A paulista Aline Bei estreia com uma prosa vigorosa, impregnada de poesia – sobretudo ecos de Manoel de Barros, mas também elementos de poesia visual, a disposição das palavras nas páginas por vezes reforçando ideias e tons, além do enorme talento da escritora em fazer grande literatura – seu livro é um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura – se valendo da oralidade.

Se ao longo das páginas acompanhamos o amadurecer da personagem, a escritora Aline Bei desponta madura, num livro quase completamente narrado em primeira pessoa, a expor com delicadeza a dureza de uma vida que é uma coleção de perdas.

Secretária da burocracia de um escritório como tantos outros…

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um pequeno conto de fadas

Pule de galho em galho sim, minha querida, a vida será um inferno de qualquer maneira, pelo menos você movimenta esse quadril.

Madrasta da Cinderela em Cenas Cortadas

 o lápis caiu da bolsa

rolou ladeira abaixo

e ela atrás, só parava quando passava carro, o lápis nem isso, em um primeiro momento ela era apenas alguém perseguindo algo que estava prestes a perder

 

lentamente ela foi se dando conta

 

de que o lápis a estava levando por

caminhos desconhecidos,

 

– belos hot dogs na vitrine –

 

árvores centenárias,

 

pessoas

que ela não cruzaria sem isto, seu lápis escorrendo por uma descida

o que ela agradeceu imensamente

imagine? se fosse subida

não pensou na gravidade

tampouco no caminho de volta

mas o fato é que a moça não voltaria tão cedo, cumprimentava sorrindo

anciões e passarinhos

ninguém entendia muito bem o porquê dela não estar triste

um lápis pode ser importante, afinal

o valor dos objetos está justamente no laço

que criamos com eles,

a moça poderia ter escrito boas histórias e pensado sem o lápis essas palavras dificilmente teriam saído de mim, então

corre-se atrás do bem maior

num passeio pela cidade de um jeito que ela nunca tinha feito

quando a rua virou planície e de repente o lápis parou.

poderia ter sido na frente de qualquer coisa, um pet shop, aos pés de um casal beijoqueiro, mas o lápis foi parar na porta giratória de um cinema.

 

a moça olhou curiosa a programação.

 

em 10 minutos começaria um filme chamado Fátima, estava escrito na descrição

 

baseado na história da família Nice

que foi morar na cidade grande para que a filha estudasse

em uma universidade

sem precisar morar naquelas repúblicas perigosíssimas.

 

na capa uma jovem de costas segurando o chapéu porque ventava

 

que história!,

ela comprou o ingresso

não era hora de ir ao cinema imaginem vocês duas da tarde, tantas coisas em casa por fazer, mas bom

maldito seja

o tempo e as coisas que temos pra fazer

ela pensou mergulhando

no escuro da sala

 

e o lápis, coitado, no meio da rua

sendo o instrumento, não a música, que ele sempre foi