por Amor

a gente ia na missa todo domingo, eu gostava de agradar mamãe pra ver se ela me amava mais forte e esquecia da minha prima Lisandra sempre pulando no colo dela, espero que a Lis não venha no natal, ela vem?

eu chegava

de mãos dadas com a minha mãe na igreja

depois ela sentava

no banco

prestando atenção no padre noelzinho muito sono. de vez em quando minha mãe chorava por que você tá chorando?

eu abraçava as pernas dela

por jesus?

minha mãe se

acalmava até que rápido

então eu ia escalar as pedras da capela.

tentava me machucar

pra ver se minha mãe chorava por mim também

o padre noelzinho dava muito sono

mas eu não podia desistir.

o problema é que eu

não conseguia me entregar na queda, sentia medo de machucar o joelho muito grave, tentava todo domingo até que numa missa ao invés de igreja

ficamos andando pela rua segurando um ramo.

fazia sol, minha barriga roncava, tinha muita gente envolta do padre noelzinho mãe, existe padra?

-fica quieta, estamos em procissão.

-prefiro na capela.

 

e as janelas dos apartamentos se abriram.

 

-mãe, tô com febre.

-ana, por favor.

-a Lisandra vai vir no natal?

-filha, agora não.

-ela vai vir?

-Chega. você quer apanhar?

-não. e você?

 

ela se fez de surda

 

estava brava, idaí? eu também estava

que saco ficar andando com esse ramo

o pior é que

eu não sabia rezar direito

pra pedir pra deus vem logo, a Lisandra sabia, já vi minha prima rezando de joelho e

olho fechado

ótima posição pra levar uma machadada na cabeça

vou enterrar o corpo embaixo da minha cama, dormir em cima do corpo

mãe.

viramos na cauaxi

os carros passavam devagar, mostrei a língua, tá olhando o que?

se eu soubesse do calor

tinha vindo de biquíni

muita gente, que cheiro

de gente

-mãe.

o padre noelzinho ficou careca

de sol

um monte de pinta marrom na cabeça dele

comecei a cantar hosana nas alturas

baixo, pra tentar ser fiel

ao meu cansaço

ao mesmo tempo dizendo bem as palavras

assim mamãe perceberia que eu estava cantando, ela parecia

mais calma agora, se eu ajoelhar aqui na rua rezando talvez eu machuque meu joelho ou

quem sabe se eu

 

 

-Ana?

Filha?

Socorro, gente

ajuda aqui!

 

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ghost

a menina aceitou o copo d`água, tomou em grandes goles, depois perguntou, ainda trêmula, por que só as pessoas bonitas tem um lugar no mundo.

 

-isso não é verdade, Nádia. – a professora disse.

 

e a nádia sentindo

que era

 

-o que é a beleza, você sabe?

 

a menina sabia, mas

não conseguiu

colocar em palavras.

 

-vamos fazer assim, pense em alguém que você considera bonito.

 

ela balançou a cabeça positivamente.

 

-e por que você considera essa pessoa bonita?

-porque. ela é gentil comigo.

-pois então. perceba como a beleza está conectada com sentimentos que são seus, não da pessoa em questão. a beleza é uma leitura, nunca uma verdade absoluta. pra você, o bonito e o gentil caminham juntos, certo? pois pra mim a irmã da beleza é a inteligência.

-mas eu queria ser bonita professora, não importa como, seria muito mais fácil vir pra escola, vê a Adriana

como está sempre sorrindo, vê a Ângela.

sendo como sou eu tenho que me arrastar até aqui

porque sei que a partir do momento que eu passar por aquele portão eu vou me sentir um lixo

maior do que já me sinto.

-sua mãe sabe dessas coisas?

-não.

-por que você não conta?

-ela não entenderia.

-quer que eu conte?

-não professora, por favor.

-está bem. mas você sabe que pode contar comigo, não sabe? com a Telma também, ela pode te atender amanhã, se você quiser.

-não adianta, eu tenho que aguentar até eles cansarem de mim, mas ainda que eles cansem. o jeito que eles me olham

nunca vai mudar.

-eu sei o tamanho disso que você está sentindo, querida, pode ter certeza de que suas palavras estão chegando aqui em mim. mas infelizmente você não pode transformar as pessoas, a mudança tem que ser sua, você tem que se fortalecer ao ponto de não se importar mais

e quando você finalmente deixar de se importar

é aí

que eles perdem a força, entende? volte pro pátio de cabeça erguida, Nádia. você não fez nada de errado e ninguém é melhor do que ninguém. todo mundo sente medo, todo mundo sente fome.

 

eu queria sentir medo e fome em outro corpo que não o meu, ela ia dizer, mas

sentiu que a professora também não entenderia.

 

-agora vai, se não você perde o intervalo.

 

a menina voltou devagar

pro pátio, se por acaso aparecesse o gênio da lâmpada dizendo você tem direito a um desejo

ela pediria pra ficar invisível

sentou-se debaixo de um ipê e

ao invés de chorar no banheiro, incontrolavelmente ela começou a chorar ali mesmo na frente de todo mundo, um choro alto, firme, rítmico, chorou de deixar a blusa inteira molhada e o pátio, os alunos do pátio, continuaram fazendo o que estavam fazendo, então sim, pelo menos um desejo ela conseguiu.

 

 

casa vazia

o vento gelado não impediu que eles pulassem na piscina

menos ela

que ficou olhando, os braços cruzados como se dissesse admiro

a coragem de vocês. pula, eles disseram, ela fez que não com a cabeça, depois

com os dedos, tinha uma expressão divertida no rosto.

toda vez que via alguém entrando na água com roupa ela lembrava do titanic, costumava ser a rose quando criança e seu primo o jack, eles gostavam de fazer principalmente a cena final quando o dicaprio afundava e de repente ela sentiu incomodo

por um dia ter

brincado disso, afinal

o titanic existiu de verdade, não era filme, e muita gente morreu.

vem, os amigos disseram. estavam bêbados, amanhã

acordarão gripados

ela também

estava um pouco alta, menos do que eles

com certeza.

o paulo saiu da água.

caminhou sorrindo na direção dela

ia empurrá-la

a larissa entendeu que a piscina já não era uma escolha

vocês são foda, ela decidiu pular

antes que o paulo a jogasse.

ele levantou os braços reclamando

voltou pra piscina

se aproximou da larissa dizendo você perdeu tempo de não ter entrado antes e

aquele clima de sempre

entre eles

não está gostosa? a piscina.

as bocas.

elas se

tocaram tão

naturalmente, foram ganhando fôlego, ritmo.

a turma gritou, o junior

deu até um mortal, os amigos aplaudiram, a larissa e o paulo se beijando ali

na frente de todo mundo

e claro a bebida

e claro

a água deixando tudo mais fluído inclusive

no corpo da Larissa, eles nunca tinham reparado no corpo, o paulo e ela se beijando pararam, de repente, rindo

do imprevisto.

foi quando o tomas soltou um também quero

e a larissa disse

vai sonhando

ele chegou mais perto, o peito cheio, ela empurrou rindo mas, engraçado, a mão dele parecia deslizar

por baixo dela que não tinha certeza, a piscina era funda, sai tomas, ela disse ficando séria, ele a beijou segurando

forte, ela tentou arranhar as costas dele.

eu ajudo, o paulo disse

imobilizando as mãos da larissa, o junior as pernas

tira a roupa dela, eles estavam

bêbados, vamos ver

se princesa tem marquinha

a larissa nua chorando muito

tem marquinha, o tomas disse passando a língua

na sombra do biquíni que não estava.

o carlos enfiou o dedo

está molhadinha e todos riram, era a piscina, claro, uma piada pronta

ela fechou os olhos talvez um jeito de fugir.

então eles decidiram

tirar a larissa

da piscina, levar

pro quarto, me Solta

um murro, para que a festa de fato começasse.

um não lugar

separou as roupas

na cama, calça, camiseta

não sabia se daria tempo de ir à praia, em todo caso

decidiu levar um biquíni, encaixou na mala, a última coisa um livro

que estava lendo, contava a história

de um viúvo com filha adolescente.

começou a chover.

ela acendeu um cigarro, vício nascido também

na adolescência, uma tentativa de se destacar

entre tantos, não era bonita ou

inteligente, fumando

se sentia melhor como se entendesse

os lusíadas

não só o texto, a peça principalmente

e usava boina

e cerrava os olhos

enquanto soltava a fumaça.

pela janela do quarto a velha mangueira

ela morava na mesma casa desde os 7 anos

se lembrava pouco da vida antes disso

será que moraria

naquela casa pra sempre? raiz não lhe faltava, sentia dificuldade de se mover em direção ao seu destino, fazer escolhas, pensava demais e quando dava por si

já tinha escurecido.

pelo menos agora ela viajava a trabalho

depositavam dinheiro na sua conta

ela via

os números aumentando

e comprava um remédio

pagava o cinema

mas faltava algo, não na conta,

queria ser do tipo que vive como as águas

de um rio

mas ela era um sapato de sola solta

a natureza nunca seria uma boa metáfora para a sua existência, coisas materiais a representavam melhor. a mãe bateu na porta, foi entrando

já está tudo arrumado? perguntou e o tempo passando

por um instante ela imaginou como seria a vida depois que a mãe morresse.

Terrível, por um mês ou

dois, até que. se acostumaria

e funciona assim pra qualquer morte

dói mas a dor vai se transformando em perda de apetite, insônia

a vida continua, a priori pesadamente

devagar voltando

pro ritmo que tinha e de repente nos escapa

um sorriso, sentimos culpa

o fulano morreu, mas

estar vivo

é maior do que a morte você pegou escova de dente, shampoo

sim.

seu voo sai que horas?

oito e quarenta e cinco.

ela disse apagando

o cigarro

pegar avião com mal tempo não a assustava por conta do seu estado amortecido, raiz era seu forte uma ova, talvez

um voo baixo, voo de quem está aterrissando

mas no caso dela

o avião não pousava nunca.