carta para a mãe

não consigo mais te olhar

porque sinto nos seus olhos a loucura.

não encontro amor

nos seus olhos

encontro a sua infelicidade

sedenta por me fazer infeliz também, a sua infelicidade tentando se controlar

porque às vezes você tem um rompante de

ser uma boa pessoa, em público principalmente.

te escrevo essa carta com medo

de que você abra a porta do meu quarto

e destrua

as minha coisas, este computador, meus livros

dentro de você é tudo tão seco que

qualquer gesto, ainda que fosse da sua mãe morta, não te faria parar.

minhas coisas, eu disse.

como se eu tivesse algo nessa casa, nem espaço, nem comida

 

-tudo está a serviço da minha vontade. – você berra pra ninguém.

 

ligo pro pai, ele está na estrada.

 

não há

nada mais simbólico, dirigir pra longe é que o fazemos diariamente

 

ainda que parados te ouvindo dizer absurdos sobre nós como se você nos conhecesse, sinto medo

de engravidar e me perceber parecida

com você.

 

sua irmã me ligou,

depois da briga que vocês tiveram.

ela disse que só mesmo a gente aqui de casa para te aguentar.

 

não ana,

 

a gente também não aguenta

 

estamos mutilados, olhe pra nós, sangra cada parte do nosso corpo

mas é a guerra, entende? não temos

pra onde fugir.

 

te imagino velha, mãe, porque sei que você não vai morrer cedo.

 

sei

que você vai se arrastar ao longo de nossas vidas

 

porque esse é o seu destino, se arrastar pelos anos, você vai enterrar cada um de nós, as testemunhas, e para as pessoas que não te conhecem você contará histórias bonitas sobre o amor.

a loucura nos seus olhos, mãe.

estou cada vez mais sensível a ela

lembrando da sua violência, das suas roupas cortadas e sempre brancas: como em um manicômio,

quando eu era criança você me vestia assim e eu pensando em me enforcar, existir é triste, mas era a sua presença que contaminava o meu espírito, a sua presença

não a minha.

 

numa manhã em que você estava calma eu te disse que não desistiria de você.

 

ainda estou aqui,

 

mas sinto

 

que te

abandono lentamente

e não é algo que eu possa evitar.

 

você está me perdendo, mãe, você está perdendo seu bode

expiatório

 

te assisto

 

e não é raiva o que eu sinto, não é vontade de te matar.

 

eu olho pra você e te vejo, apenas, uma mulher de pele seca

e cabelos muito lisos.

 

até a minha tristeza

está de partida

 

para dar lugar a uma sensação de que preciso me proteger, de que a vida é muito maior do que você tem contado pra gente por esses anos

só para nos manter como cenário

do seu monólogo

como se todos os sentimentos do mundo só coubessem na sua mão.

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pequenos burgueses

-entra no carro.

-não.

-agora, renata.

-me solta.

-o que ele te fez, hein?

-nada.

-fala. – ele disse apertando a bochecha da menina.

 

entraram no carro,

ela estava chorando muito.

o pai disse bota o cinto e

antes de acelerar ficou olhando

pra filha, perdido

por completo.

 

em silêncio eles seguiram o caminho de casa

 

sempre as mesmas árvores mas hoje

estava difícil, tudo lembrava Lúcio, a Renata encostou a cabeça no vidro se deixando levar pelos movimentos do carro

queria se afastar do pai e fez isso

colando o corpo na porta.

as árvores.

que vontade de

ser uma delas, sumir

entre tantas, farol vermelho

 

um casal

atravessou na faixa

uma mulher de salto

atravessou na faixa

 

verde.

 

o pai acelerou, não gostava de ver a filha triste

tanto menino no bairro e ela foi se apaixonar logo por esse lúcio que

fumava o dia todo, queria

ser poeta

-ele É

poeta.

-poeta tem que estudar, esse menino é um vagabundo.

 

é claro que durante a juventude o pai também

deu seus pulos, mas

Passou, agora

só cerveja, de vez em quando um vinho do porto, mas era diferente, ele era um homem feito. estacionou na garagem

a menina desceu antes do carro frear.

 

-Ei. – disse o pai.

 

ela soltou a porta, subiu pro quarto

a mãe na cozinha virou o pescoço

 

-o que aconteceu? – perguntou pro marido

que entrou minutos depois afrouxando a gravata.

-brigou com o lúcio – ele cumprimentou a mulher com um selinho.

-de novo?

 

e deu um beijo também no filho que brincava na sala, a tv ligada no show do Patolino.

 

-eles terminaram? – a mãe quis saber.

-não faço ideia. – ele disse lavando a mão na pia com detergente.

-pega o alho pra mim? – a mulher pediu.

 

ele abriu a geladeira, pegou também uma cerveja.

 

-nesse frio?

-estou precisando. quer um pouco?

 

a mulher fez que não, o fogo ligado

o pai abriu a tampa pra sentir o cheiro

da carne

colocou a mesa, sentou.

 

-será que ela vai querer jantar?

-você não viu o que ela aprontou na frente do colégio.

-o que?

-ficou gritando, não queria entrar no carro de jeito nenhum.

-você não acha que seria melhor a gente arrumar um psicólogo pra ela?

-David, não.

 

o menino estava jogando bolinha de gude na tela da tv.

 

-talvez. – o pai continuou.

-vê com aquele teu amigo médico. pra igreja não adianta levar a renata, ela odeia.

-tava pensando em conversar com o pai do lúcio.

-tá louco?

-por que?

aquele homem é um xucro, Carlos, pelo amor de deus. outro dia mesmo ele caiu aí na rua de tão bêbado, não acho

que você devia se expor assim.

-e tem jeito? esse namoro precisa acabar, Marcela, não dá, você reparou como a nossa filha tá magra?

 

a mãe sentou na mesa, eles se serviram.

 

-a carne está ótima.

-vou chamar a renata.– a mulher disse apoiando o talher.

-deixa ela se acalmar primeiro.

-a comida vai esfriar.

-depois ela esquenta.

-comida requentada é horrível.

 

a mãe levantou.

deu uma olhada no David que agora estava mais calmo e levantava as mãos

como se dançasse.

 

ela subiu os degraus.

 

com cuidado abriu a porta,

 

deu um berro quando viu o corpo da filha

nu, as pernas abertas, o lúcio com a boca mergulhada ali.

 

 

por enquanto

o casal está na cama, as pernas sobrepostas, no criado mudo dele tem um livro, no dela um copo

 

-alguma coisa mudou em mim. – ela diz.

-o que?

-não sei, estou com mais coragem.

-mas aconteceu alguma coisa?

-foi depois do que você disse sobre o vestido, que estava com saudade de me ver com o vestido. fiquei uma semana pensando na sua frase e cheguei a conclusão de que

quando eu usava aquele vestido eu era muito mais aberta pra vida, fora que ainda ninguém que eu conhecia tinha morrido, quer dizer, só meus avós, mas era natural, eles estavam velhos, este tipo de morte dói menos e eu era alegre, lembra? estava tentando arrumar um emprego no spot.

-eu lembro.

-e usava aquele vestido azul. saía pra comer hambúrguer com ele, conseguia projetar minha vida pra daqui sei lá

10 anos e

sem medo, mas também muito tranquila com o que estava me acontecendo agora, comer o hambúrguer, tomar meu refrigerante, rir das suas piadas idiotas. quando você falou do vestido eu quis ser aquela mulher de novo,

eu sei que é irreversível, não dá pra simplesmente voltar a ser quem fui, mas. sei lá,

eu senti que ainda era possível encaixar um pouco daquele brilho em mim.

-linda.

-e sabe quando eu percebi tudo isso claramente? ontem na academia, quando do nada uma mulher começou a conversar comigo. ela chama Luciana, é farmacêutica, e ela me contou coisas muito íntimas, por exemplo que era assexuada.

-assexuada, sério?

-juro. e ela me contou isso assim

na bucha

eu podia não entender, né?, onde ela estava querendo chegar me contando essas coisas tão intimas, mas eu fui aberta e gentil como há muito eu não conseguia ser. marcamos de comer uma pizza na sexta, trocamos telefone. ela tinha um hálito esquisito.

-bafo?

-não, era um tipo de ar pesado como se a boca estivesse seca.

-humn.

-mas o fato é que antes ninguém conversava comigo naquela academia, lembra que eu reclamava? achava tudo um saco, mas

entende? bastou eu me abrir

ainda que sem querer

e as pessoas começaram a me contar segredos.

-e você está gostando.

-muito. obrigada por dizer do vestido.

-eu não fiz nada, amor.

 

ficaram abraçados, ela olhando pro teto pensando na Luciana uma pessoa nova e ele mergulhado

nos cabelos da esposa, os dois vestindo camisetas iguais.

 

-e o quadro, como está? – ela perguntou.

-tô com vontade de apagar tudo.

-para.

-riscar um fósforo naquela merda.

-isso é seu alter ego falando, mas o quadro está lindo, dá pra filmar uma história de terror ali naquela floresta, sabia? ou uma história de amor, dá pra fazer o que quiser naquelas árvores, você não pode queimar nada porque seu quadro já queima toda vez que a gente olha pra ele.

-você me superestima.

-eu te vejo, só isso.

 

ficaram em silêncio, os dois.

 

-você vai ler? – ela perguntou com a mão no clique do abajur.

-não, pode apagar. quero ficar aqui com você. – ele disse sorrindo na nuca dela, deu pra sentir os dentes.

se beijaram e

foi durando,

ele encaixou a mão por baixo da blusa dela o mesmo peito há onze anos e aquilo

ainda o surpreendia, o bico, os bicos, ele queria devorar os dois de uma vez. ela foi se esticando

como se voasse, pegou no pau movimento sobe e desce, os dedos dele mais circulares bem no clitóris e ela rebolando, ele montou

cavalo no campo num entra e sai frenético que no fundo era apenas vontade de permanecer.

olha pra mim, ele pediu

gozando e ela

nem perto disso (o gemido dele encheu o quarto) já tinha explicado pro marido que era bom mesmo sem gozo, ele sabia que sim e achava que sabia

quase tudo sobre a garota dos seus sonhos sem que isso anulasse qualquer mistério, ele queria pintar o dentro da esposa numa tela do tamanho de Guernica, era guerra também, talvez ele começasse amanhã ao invés daquela floresta estúpida e terá ciúme

se a tela for selecionada por alguma galeria.

-as pessoas vão se apaixonar por você – ele disse.

-não me superestime. – ela retrucou

naquele mesmo jogo só que agora invertido

e assim lentamente eles foram pegando no sono de mais um dia juntos, faltam quantos?, até que tudo acabe.