Nunca mais se viram

estavam frente a frente

mas já não estavam ali no restaurante da rua 12 onde no começo tudo se resolvia num abraço, agora as conversas

facilmente viravam gritos, ninguém queria

carregar a culpa

uma vez ela jogou a taça de vinho

em direção a cabeça dele

não acertou por pouco, o rubro espalhado pelo chão e parede foi

simbólico, o fim

está próximo, ela pensou se sentindo triste

 

este almoço

 

sem dúvida estava mais calmo do que isso, ambos sabiam

que a relação se tornara

insustentável.

ele dormiu na casa de um amigo a semana toda

e assim sem a companhia um do outro eles conseguiram

se acalmar, mas

não estavam ali

na mesa frente a frente, estavam

no passado, ela principalmente

e no futuro, ele

especialmente.

 

-quem vai ficar com o Fred? – a mulher perguntou.

 

a gente pode fazer guarda compartilhada.

 

-não, eu não quero.

 

-por que?

 

-não quero ficar te vendo toda semana.

 

como você dificulta as coisas.

 

-deixa eu ficar com o Fred.

 

-eu também preciso dele.

 

-então tá,

então me tira mais isso.

 

-eu não quero te tirar nada, marina. estou propondo uma guarda compartilhada

algo super natural e saudável de se fazer, você leu o e-mail que eu te mandei?

 

-ah claro. e eu tenho que ficar vendo sua cara toda semana.

 

-você não sabe conversar.

 

desaprendi com você.

 

-nada é culpa sua, né? impressionante.

 

quem decidiu ter um caso com a secretaria não fui eu.

 

-eu não tive caso com ninguém.

 

ela que me disse, bruno, me escreveu uma carta. a menina não tem motivo pra mentir.

 

vamos tentar ser objetivos, você consegue? ser objetiva pelo menos uma vez na vida?

 

ela o olhou com raiva.

 

-você pode ficar com o apartamento. eu vou ficar na casa do meu amigo por enquanto.

 

-por que você não vai morar com ela de uma vez? tem medo de emendar um relacionamento no outro?

 

-você não para.

 

você quer ficar solteiro, né? não quer se comprometer. faz bem, covarde, melhor do que ficar arrumando um caso em cada esquina.

 

-o que eu faço ou deixo de fazer não é mais da sua conta, entendeu?

 

eu quero ficar com o Fred, além do apartamento.

 

não, nem pensar. ou guarda compartilhada ou

 

-deixa eu ficar com o Fred, Bruno.

 

ele ficou pensando

que agora na casa do amigo seria mesmo complicado

levar o cachorro

ele tinha que arrumar um lugar primeiro

e enquanto isso

ela ia se acalmando

Ceder

lhe pareceu uma estratégia.

 

-tudo bem. pode ficar com o Fred.

 

ele esperava que ela fosse lhe agradecer

com um sorriso, pelo menos, mas a marina não esboçou nenhuma reação.

pediu a conta,

cada um pagou o seu.

 

levantaram da mesa.

 

na porta do restaurante

se despediram friamente.

 

ele subiu

a rua 12 e acendeu um cigarro

acenou também para um conhecido

dono da loja de discos, passa lá amanhã.

 

ela desceu

a avenida 7

 

mão no bolso e

chorando, preferia ter esperando chegar em casa, mas

não conseguiu.

 

Anúncios

Abismo

a certa altura o museu desembocava em uma biblioteca de 6 andares

que estava desativada, víamos de cima, suspensos por uma espécie de andaime.

 

-não sabia

que tinha biblioteca aqui, não está

no folder. – o Otávio disse.

-deve ser uma atração surpresa.

 

fiquei impressionada

com a quantidade de livros até o teto ao redor de tudo.

tentei aproximar a vista de uma das prateleiras

pra identificar algum título, o que teria? Sócrates, Platão, mas

era impossível

o terraço móvel aonde estávamos ficava bem afastado das paredes

será que alguém já tocou naquele último livro ali de cima?

no térreo mesas comunitárias

levemente parecidas com as da biblioteca da minha cidade

ao nosso lado um guia

explicando em inglês para um grupo

a história por trás desse lugar. ele disse que na década de 20

uma menina

acompanhada pelos pais no último piso

de repente se jogou

biblioteca abaixo

foi muito rápido, ninguém conseguiu segurar. até hoje não se sabe a causa desse impulso, se

por curiosidade, se

um acidente, será que a menina tinha alguma dimensão do que estava fazendo?

na época a biblioteca tentou abafar o caso

mas os boatos correram solto

e as pessoas começaram a achar que os livros daqui eram amaldiçoados, cada vez menos gente visitando os pisos até que tudo ficou pras moscas.

-quantos anos a menina tinha? – uma mulher do grupo perguntou.

-14.

e eu me lembrei de um taxista, seu Antônio,

que peguei um dia em belo horizonte rumo a ouro preto, ou seja, uma viagem longa, deu tempo

pra conversarmos bastante

e conforme o papo foi se aprofundando

a estrada também, se aprofundando

o seu Antônio me contou que a filha de 14 anos

se matou.

pulou da janela

em pleno domingo

quando os pais abriram a porta do quarto

pra chamar a menina

pro almoço

não tinha mais ninguém lá.

ela deixou uma carta, a mãe não teve coragem de ler.

-e você, leu?

-li.

-o que dizia? se não for muito ruim perguntar.

ah, falava sobre o quanto ela se sentia sozinha

mesmo rodeada por pessoas, sobre o quanto esse mundo era cruel com ela e

não a acolhia

 

nesse ponto seu Antônio parou.

 

-vamos falar sobre outra coisa. – sugeri.

 

então ele me contou que se casou de novo

depois da morte da filha não teve como não se separar da primeira esposa.

 

ficou uma distância enorme, a gente não conseguia mais se olhar.

era como se fossemos culpados

o espirito da nossa filha sempre entre nós.

-e como você conheceu a sua segunda esposa? – desviei, não queria fazer seu Antônio chorar.

-no táxi.

-vamos? – o Otávio me disse, estendendo a mão. – o museu fecha às cinco e a gente não viu nem metade.

-vamos. – eu disse aceitando

o encontro dos nossos dedos

não sem antes dar uma última olhada

agora pro chão

da biblioteca

tentando adivinhar o lugar exato em que a menina

implodiu, como dizem que acontece

com um corpo que despenca.

chuva no fundo da boca

não pretendo ficar olhando pro céu o dia todo, preciso talvez só de mais cinco minutos, alguma coisa no chão me dando forças, penso que o próprio chão com suas camadas debaixo da terra ou seja: ainda não é o fim.

não quero morrer, apesar que tenho começado

a compreender os suicídios, a vida está com as mãos

na minha garganta

termine, grito

ela não me escuta

a vida tem um tempo próprio

e muito lento.

está difícil, desabafo com frequência

me surpreendo com essa minha vontade de

ora conversar com estranhos

ora não falar

com ninguém.

o que eu gostaria mesmo era de ter muita gente morando em bonecos no meu peito

pra toda vez que eu me sentir sozinha

tirá-los de mim e

criar cenas entre eles.

não tem motivo pra você ficar tão triste, me dizem, sua vida está indo muito bem.

sim, mas por dentro. tem algo acontecendo dentro de mim despedaçando o que já acontecia, esse movimento não tem deixado espaço pra eu ser a mesma de antes, alegre, distraída, se continuar nesse ritmo chego a ficar com medo

do tempo

acima do medo da morte.

vou seguir deitada aqui na grama por mais alguns minutos,

experimentar desistir.

de que eu não sei, morrer está fora de cogitação.

se o céu fosse verde e as árvores azuis, as coisas seriam melhores?, as cores tem o poder de mudar nosso estado de espírito? a casa que moro. o estalo do taco, especialmente em dias frios. o que seria da janela sem o vidro? uma violência, o clima não perdoa nem o sono,

onde estão as pessoas que eu ainda vou conhecer?

ontem mesmo

conheci algumas, não percebi porque estava pensando nas pessoas que ainda vou conhecer.

 

-tem qualquer coisa muito errada comigo. – repito para uma amiga

 

mas ela não quis saber. disse que eu devia ter atendido o telefone

a porta

a pele

que eu pareço um fantasma de tanto que eu sumo

 

e assim as pessoas vão se dissolvendo

 

na minha frente

 

 

vou perdendo quem gosto e assisto tudo

com uma clareza absoluta: meus amigos ou as possibilidades de amigos

desistindo de mim cada um à sua maneira

 

e eu não faço nada

pra que isso mude

 

quero meu mal e não quero

morrer.

 

encontrar

enfrentamos uma escada em caracol antes de chegar no apartamento.

subi olhando pra cima, me apoiando no corrimão, o teto cada vez mais próximo. me lembrei de repente da caixa

que encontrei na casa da minha mãe cheia de

recortes de revistas e alguns desenhos que ela fazia, eu tratava aquilo como um tesouro, pequeno tesouro de quem foi a minha mãe. de resto uma cama, um sofá. e meus livros, depois de um tempo vou comprar um tapete.

 

-caso eu goste desse apartamento, espero que o elevador não esteja quebrado no dia da mudança.

-duvido. o zelador disse que demos azar.

 

chegamos no décimo segundo piso finalmente

 

-deu pra cansar? – o Júlio me perguntou colocando a chave na fechadura

-parece um corredor de hotel – comentei, e a porta abriu nesse instante

 

 

fazia sol dentro da sala.

 

 

-a planta desse apartamento é especial. – o Júlio me disse.

 

 

fui entrando, logo eu que nunca soube com qual rosto se entra num lugar que te agrada muito.

 

 

olhei a cozinha

de azulejos azuis

e um quadro

do Bergman.

 

-deixaram aí. – o Júlio explicou.

 

deslizei os dedos pelo quadro, um presente, me sentia como se eu não merecesse tanto.

visitei os três quartos.

um vai ser escritório, pensei. o Júlio acompanhava meus passos sem dizer quase nada

sabia que eu era do tipo que decidia de dentro, nunca por questões externas que os corretores tanto gostavam de listar. o Júlio me parecia diferente,

sensível

o olhei com carinho

ele me sorriu.

 

passeei também pelos banheiros, box, vaso, pia e

era como se eu não estivesse ali. queria tirar aquele amortecimento do corpo,

me sentir inteira no agora, mas

era impossível, eu estava feliz demais.

 

fui até a janela da sala.

 

apoiei no parapeito admirando a vista, me imaginei tomando um café ali todos os dias pela manhã

e fechei um pouco os olhos.

que música tocaria? a primeira música da história dessa casa comigo morando nela. girl from the north country? horses? anunciação.

 

-assim do alto até que são paulo tem seu charme. – eu disse.

-amo essa cidade.

-você nasceu aqui?

-sim. no bairro do limão. e você?

-sou do interior.

-quando se vem de uma cidade pequena é mais difícil se acostumar mesmo.

não tem a ver com a cidade, Júlio.

-com o que, então?

-comigo.

 

acendi um cigarro.

 

-você se importa? – perguntei.

-não, fique a vontade.

-quer um?

 

 

ele demorou pra responder.

 

 

-você nunca fumou?

não.

-então experimenta. – eu disse estendendo o maço.

 

ele tossiu

na primeira tragada

depois fumou como se tivesse feito isso a vida toda.

 

você leva jeito.

-não é pra tanto.

a primeira vez que fumei foi horrível, eu não conseguia tragar. fumava só colocando o cigarro na boca e soltando a fumaça.

-e você pensa que eu tô fazendo o que?

 

rimos.

-eu fazia questão de fumar na frente do colégio, queria provar pra todo mundo que eu era livre.

-deu certo?

-tomei uma suspensão de 7 dias.

 

ventava. olhei no relógio, 4 da tarde. eu gostava muito desse horário das 4.

 

-vou ficar com o apartamento, Júlio.

-eu sei.

 

 

só não me lembro quem

começou o beijo

mas pensando agora friamente

só pode ter sido eu.

 

uniforme

eu corria pelo pátio, fugindo dos marimbondos

e do sol

em busca do melhor lugar pra tomar meu lanche com a Giovana que nunca queria

tomar lanche comigo, eu gostava dela

 

-é isso

que me assusta.

 

-o que?

 

-teu jeito.

 

e fugia, me deixava plantada

comecei a entender as árvores a partir dali.

 

então eu procurava

sozinha mesmo

um lugar, quando encontrava estendia meu pano, depois me servia de suco tomando cuidado pra não derramar. desembrulhava a bisnaguinha

muito macia

antes da boca eu encostava o pão na bochecha.

comia maçã também

mas comia bestamente

porque na terça eu mordi uma em sala de aula, estava chovendo e tínhamos que tomar lanche no coberto, então um menino chamado Guilherme me olhou com nojo e estragou pra sempre

meu momento com as maçãs.

 

*

 

depois das férias de julho,

entrou um aluno novo na escola. ele chamava Fernando

cheirava a talco

e não tinha amigos, como eu.

acontece que o Fernando só não tinha por ser novo

meu caso era outro, as crianças me odiavam

mas pelo menos durante esses

primeiros dias

eu e ele éramos tão sós quanto possível

 

me apaixonei.

 

então no pátio

ao invés de marimbondo

ou Giovana

eu comecei a correr ao lado do Fernando de um jeito discreto e como eu era invisível ficava fácil, o plano estava indo muito bem.

me sentia a mulher maravilha

linda fazendo a coisa certa

com espada e

botas altas.

 

 

*

 

até que um dia eu me distrai tanto com as nossas solidões correndo lado a lado que acabei trombando

com uma pedra

fiquei completamente sem ar.

 

 

tentei me levantar,

não conseguia

 

 

foi nessa hora que o Fernando fez amigos

porque ele riu de mim primeiro

dando coragem pros outros rirem também.

 

 

aquilo durou muito

muito tempo.

 

 

quando as crianças cansaram (chega uma hora que tudo cansa mesmo)

eles começaram a conversar com o Fernando

que era de Lisboa, pelo que escutei, gostava de jogar futebol.

em menos de 5 minutos

ele estava no time do Gustavo e do Maurício,

ligou pra casa dizendo que almoçaria com eles

a mãe deixou, ficou contente.

pensei que

se eu ligasse pra minha mãe pedindo pra almoçar com um amigo

ela me diria vem já pra casa larga a mão de ser besta

tem roupa

no tanque, louça

na pia

 

 

o sinal tocou.

 

 

as crianças foram voltando

pra sala

 

-Teca? – o inspetor me disse, estendendo a mão. –você se machucou?

-muito

-deixa eu ver.

 

levantei devagar e

nenhum sangue.