perfil da internada

a Márcia levantou por acaso, pra pegar um copo d’água. quando entrou no quarto do filho

foi só pra checar

a respiração dele

que dorme sempre tão profundo quando ela viu uma barata

bem na cara do menino: gelou.

a Márcia era mesmo muito abençoada, que timming, ela podia estar dormindo mas conseguiu ver a barata, graças a deus. foi pegar uma toalha, qualquer coisa, não ia enfiar a mão assim no bicho

não encontrou o que precisava, estava nervosa, acabou voltando pro quarto com um rolo de papel alumínio.

se aproximou do berço

pé ante pé

a barata era maior que o rosto do seu filho.

pensou então em, sei lá, fazer uma luva

com o papel

assim ela já jogava aquela praga janela abaixo

foi quando a barata levantou

a asa

pra mostrar que poderia

voar a qualquer momento

e o pior, para onde quisesse, por exemplo dentro da boca do bebê.

a barata sorria – aquele som intragável que fazem os insetos.

a Márcia tentou pensar rápido

mas bem na hora

seu bebê maldito seja

acordou

e viu

algo inédito até mesmo para pessoas bem mais velhas do que ele: uma barata de baixo pra cima

e quem? poderia culpá-lo

o pobre começou a chorar.

NÃO!, a Márcia gritou prevendo

a tragédia

e

no instante em que a barata levantou seu voo

a Márcia deu o rolo na fuça do bicho: pegou no nariz

do bebê que era

puro espanto, nunca tinha visto

a mãe daquele jeito e a barata ainda viva, musculosa rumo a boca. a Márcia deu outra cacetada, Cuidado!, e outra

teu bebê, mulher, tá embaixo!

o rolo parecia um taco

de beisebol até que

tudo virou

silêncio.

 

 

 

 

pronto.

 

 

 

 

 

agora sim

eu posso dormir.

 

 

meia hora depois a enfermeira entrou no quarto.

cobriu a paciente com uma manta,

era noite fria.

depois tirou

o boneco do chão, apertou pelos lados a cabeça e

ficou assistindo

o ar devolvendo

volume pro plástico mais uma vez.

 

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perfil da presidiária

pilar dirigia em ruas locais com tanta velocidade que

os telhados das casas

chegavam a

não sei, posso estar exagerando, mas os cães se

não estivessem presos e as crianças

se não estivessem dentro

dos computadores,

meu deus. o problema da pilar é que ela dirigia como se não houvesse mundo do lado de fora

culpa da música

sempre alta

ela aprendendo inglês cantando beatles, as frases finalmente entrando.

pilar também gostava de escutar salsa

no carro

se imaginava em cuba, queria ser fotografada depois transar

com o fotógrafo em algum muro e

seguir caminhando

suada de sexo

ela se imaginava bonita fazendo isso

porque nunca se olhava no espelho vendo a si mesma, ela

via seus sonhos.

o último aniversário de pilar fora das grades foi em um clube de salsa. ela quase acendeu um charuto

mas achou caro

no fim das contas preferiu tomar um dry martini.

Pilar.

você

dirige muito

rápido,

é pressa?

Não.

é que

quando eu entro

em um túnel

tenho vontade de

engolir o túnel.

 

às vezes

a pilar pensava em se jogar da ponte

com o carro

não era uma ideia suicida de alguém que estava deprimido

era curiosidade

pilar queria saber o que aconteceria se o carro virasse, igual nos filmes,

queria saber da dor, se a pessoa desmaia ou

sente tudo.

perguntaram pra ela, numa festa, como você gostaria de morrer?

 

– queimada.

– Nossa. – disseram. – mas essa deve ser a pior morte.

 

e toda gente foi se

afastando, a roda de amigos sumiu.

a pilar só foi se arrepender do que disse meses depois

quando a frase grudou na testa dela certa noite

a fazendo lembrar de uma menina que entrou no metrô com o corpo inteiro queimado e o rosto, porque estava derretido, parecia constantemente triste.

a pilar ficou com medo rolando na cama

o ventilador ligado virando a cabeça

não quero morrer queimada, ela emanou

pro universo

esperando que aquilo fosse mais forte do que o primeiro desejo.

até que ela

pegou no sono

e continuou pegando

pelas noites seguintes

só foi lembrar do medo no carro, de novo e de repente, ouvindo ring of fire.

será que

aquelas pessoas da festa ainda me odeiam pelo que eu disse? ela pensou virando a rua do shopping

com a sua

velocidade de sempre

e na curva atravessando de bicicleta

um homem que

ela soube do rosto, deu tempo.

a pilar freou, foi

enorme

por instinto ela fechou o olho

de tão grande um corpo voando com bicicleta e tudo.

 

começou a juntar gente.

 

 

 

 

o método

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prevendo a altura que ela atingiria, ali bem no olho da janela, meu pai plantou uma árvore nos anos 80. meu pai deixa a luz do quarto acesa, quem passa na rua imagina seu júlio lendo como sempre dessa vez algum poeta, Mas. meu pai não está no quarto dele, meu pai nunca está no quarto, o peito do meu pai está nas minhas costas range a cama e a noite chora uma chuva que se nota apenas pelo ombro do casaco.

 

 

*tela de Magritte.

noite mal dormida

minha mãe abriu a janela, mas antes

a porta, o peso da mão dela interrompendo o quarto escuro

espalhando

pela casa

o cheiro do meu

sono, é tão

íntimo o cheiro de quem dorme e por isso se abandona, por isso está sem máscara sendo quem se é.

depois ela

puxou meu lençol

dizendo que

já era Tempo

meu pobre joelho

ossudo.

que horas são?, pergunto desprevenida, o vento invadindo

a pele

minha mãe falando sobre como ela era

quando tinha a minha idade

eu querendo virar

de bruços

desaparecer na

cama movediça, mas

eu estava de camisola e não podia

deixar que a minha bunda aparecesse.

minha mãe fica muito Brava

quando minha bunda aparece

e me bate

apanhar assim tão cedo eu não consigo mais.

talvez

seja melhor acordar de uma vez por todas

pensei tentando

descolar meus olhos

minha mãe varrendo

o quarto ela não gosta

de sujeira e fala muito

de sujeira

me surpreendo porque sou o próprio silêncio.

 

talvez

talvez eu seja assim

 

 

 

por ela nunca ter me dado espaço

 

 

 

você nunca me deu

espaço

 

 

digo levantando mas ela não escuta

nada além da própria

voz

 

e enquanto me dirijo

pro banheiro

minha mãe me dirige um

 

sorriso

 

que sei, já aprendi, não é

exatamente pra mim, é

pra ela mesma

 

uma vez acreditei na boca e

caí.

 

imaginei ali do chão

uma mãe sem morte aos noventa anos

 

vamos almoçar juntas,

eu só almoço se formos juntas.

 

sei

 

que ela vai precisar muito

de mim

quando ficar mais

velha

logo eu que preciso muito

do silêncio e minha mãe não cala

a boca entra comigo no

banheiro pra seguir contando suas histórias sempre as mesmas

que eu não quero ouvir, mãe, Chega, sinto vontade de bater a cabeça dela

no espelho.

 

vão me prender, se eu fizer isso, dirão que sou uma filha estúpida

 

mas ninguém sabe

Ninguém no mundo imagina

tudo o que eu tive que aguentar até aqui

e bato

a minha própria

cabeça no espelho, ninguém vai me prender por isso,

bato

cada vez mais forte e o espelho

 

 

não quebra, não sangra

 

 

é como se eu estivesse mergulhando

num rio e lá no fundo um peixe a cara da minha mãe.

 

De primeira viagem, por Souza Pereira

Philos

É natural a compreensão de esgotamento de algumas experiências estéticas na literatura. Desde Ana Hatherly no início dos anos 60, com a obra O Mestre, poucos escritores lusófonos foram capazes de debruçar-se sobre si com o alheamento do real para construírem narrativas que nos despertassem o interesse por sua poesia ou por seu experimentalismo.
O pintor Henri Michaux nos disse uma vez que “não é no espelho que devemos observar-nos”, para ele devíamos “nos contemplar no papel”. Ao iniciar a leitura de O peso do pássaro morto (Editora Nós, 2017), somos convidados à contemplação de nossas inquietudes e humanidades. De primeira viagem, Aline Bei nos entrega um livro que reflete sobre o próprio ato narrativo.
De acordo com a física, o peso expressa uma força com que um corpo é atraído para a terra pela ação da gravidade. Palavra derivada do latim pensum, também…

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diário de viagem

o trem finalmente atingiu uma velocidade constante. ao meu lado conversavam duas mulheres

numa língua que eu

não conheço. parecia sério

pelos gestos, um assunto inesgotável, na mesa de apoio repousava uma

flor.

a rosa

estava tão exatamente no centro das duas que eu não saberia

dizer de quem era, tampouco percebi o momento em que a flor apareceu, se saiu de algum bolso, perdi como sempre

o começo das coisas

notei apenas a permanência

da rosa

quase morta e ainda muito

bonita

daquele jeito que só as flores sabem morrer.

pensei no porteiro

do meu prédio, o Geraldo. a gente

se conhece há tanto tempo, eu

tinha quinze anos quando me mudei pra lá.

e então um pouco antes

de eu embarcar nessa

viagem de trem, quando eu estava saindo do prédio com mala e passaporte, o Geraldo me contou que foi

demitido.

-como assim? –perguntei estarrecida

prevendo meu

choro, malas e casacos na mão.

– eu não queria ter te contado isso agora, não quero

estragar

a sua viagem. mas seria pior

se você voltasse e

não me visse mais por aqui sem saber porquê.

 

dei razão a ele.

claro,

ele tinha razão. mas

como isso aconteceu? o Geraldo é tão querido. no natal as pessoas levam frango pra ele. vinho.

-o condomínio aumentaria se os moradores quisessem me manter. agora eles vão terceirizar tudo.

-não acredito. – lágrimas deslizavam

pelo meu rosto

exatamente como essa vista pela janela

com árvores que me parecem

melancólicas

só porque por dentro eu estou me sentindo assim.

-mas eu vou ficar bem. – o Geraldo disse me consolando,

era eu quem devia estar fazendo isso.

 

nos Abraçamos.

 

a memória do nosso abraço

ainda está comigo

ainda deixa

meu corpo quente.

 

o trem avisou em painéis o nome da próxima estação.

 

as duas mulheres se levantaram.

afastei as pernas

para que elas passassem,

me ocorreu que talvez fossem irmãs.

pegaram as malas

no alto dos bancos, as sacolas também (e a flor?) ainda conversando mas agora com menos

volume ou era eu? que estava amortecida

 

o trem foi parando.

 

a porta

abriu (vocês estão esquecendo da rosa).

 

 

elas desceram na última

vez que nos vimos e isso

me tirou

alguma coisa, me fez perder brevemente o eixo por me lembrar que somos finitos, todos, que temos um tempo na terra que passa sem ninguém ter muito tempo para lamentar o fim de um ciclo, essas renovações constantes

de pessoas

em prol da nossa vagarosa evolução.

mas e a flor?

a pobre flor

quase morta e muito linda

bem aqui

na minha frente, não, não era delas,

a rosa não é de ninguém.

 

o trem voltou a se locomover.

 

qual?

é a história dessa rosa

pra merecer essa morte esquecida em cima da mesa

é total

o abandono de uma

planta

já que ela não pode, não

consegue

se mover. o Geraldo também não

na portaria por horas

mas isso acabou, agora ele vai tocar a vida de outro jeito, vai fazer um curso

de inglês, me disse, e quando eu voltar para casa um desconhecido

abrirá

o meu portão, penso, como se o sujeito valesse menos

só porque Eu não o conheço.