carta para V.

-você gosta de campo? – um amigo me perguntou.

-gosto. – eu disse, mas a minha cabeça estava

longe,

estava no corpo

do poeta que morreu.

-você gosta de montar a cavalo?

-não, tenho pena. prefiro o bicho livre.

-te entendo.

minha cabeça no poeta

morto que eu não conheci.

estava estranhando mesmo

o silêncio dele por esses

meses.

cheguei a pensar nisso

vagamente, como o poeta está calado.

voltou de viagem

arrastando malas, comeu grilos por lá. parecia feliz mas andava calado, eu pensava lá no fundo misturado com outras preocupações.

-e de praia, você gosta?

prefiro campo. – respondi com saudade

do mar.

-você está tão distante hoje.

eu queria pedir pro meu amigo não fazer mais perguntas

precisava de paz

pra pensar na morte do poeta que eu nunca vi

mas imagino

pelas ruas cariocas, seus óculos, suas camisas.

 

-com licença. – pedi deixando

meu amigo sozinho

 

me afastei o quanto pude

querendo chorar.

 

se eu tivesse o telefone do poeta.

telefonaria, antes de tudo, pedindo não se vá pelo amor de deus. eu sei

que a gente não se conhece, e que talvez nunca nos conhecêssemos sem que isso afetasse qualquer coisa em nossas vidas. mas a dor da sua perda, V., não é

sobre a impossibilidade de um encontro nosso, é sobre você não estando mais no mundo deixando órfãos os espaços que ocupava nas ruas, nas casas,

nos aviões

e nas pessoas que já conversaram com você que já olharam pro seu rosto contando uma história

ou o jeito que você beijava, um sorteio que você ganhou.

suas roupas estão te esperando, V.,

ainda tem uma camisa sua no varal e tudo ganha áurea ao redor da sua falta, um espirro, sua cama,

o sabonete no box. porque acabou você existindo com um corpo,

a orla sem V. acordou devastada, estamos sem forças olhando para as palavras que você deixou procurando sabe deus o que, um sentido, um conforto, enquanto um cavalo corre perpassando cercas pra nunca mais.

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meu ensaio sobre a cegueira

a praça estava vazia. eles se sentaram no banco, o vento varria as folhas e o som das folhas se arrastando

-não dá mais, ele disse, a gente não pode seguir brigando assim.

-eu sei, ela disse tão triste. desculpa, ela disse inaudível.

-é sempre a mesma coisa, clara.

a ex casa deles não muito longe

da praça

os móveis cobertos

com lençóis.

-pensei que se a gente se separasse não brigaríamos mais porque acabou mas não acaba, você não entende o que é um fim.

-eu vou me controlar, prometo.

-a gente tem que resolver nossas coisas civilizadamente, clara

-eu vou tentar.

-você não se esforça. você pensa que vai me prender sendo louca.

-eu não faço isso de forma racional, mário, pelo amor de deus.

-você precisa se tratar.

-não fala assim comigo.

os móveis cobertos

por lençóis. o estalo do taco. os tempos áureos vividos ali. na cama, mas não só. também na cama conversando

sobre medos a coisa mais íntima, a mão debaixo do travesseiro

clara começou a chorar.

ele acendeu um cigarro. – minha mãe conhece um terapeuta excelente, trabalha com ela na usp – ele disse.

-eu não preciso de terapeuta muito menos amigo da sua mãe.

-tá vendo como você é impossível?

 

nos tempos áureos

ele dizia isso em

outro tom

quando ela queria sexo de manhã bem cedo

ele era muito preguiçoso

de manhã bem cedo.

 

chegou na praça um casal

com filha tão agasalhada que a menina mal se mexia.

 

ainda assim

 

ela pegou um galho

da grama

 

e fincou o galho

 

na direção contrária que as folhas corriam

tentando frear

o movimento

 

a clara pediu um cigarro pro não mais seu marido.

 

ele tirou do bolso, emprestou também

o isqueiro

 

ela tragou cerrando os olhos

que ainda estavam

molhados

por isso caiu uma gota.

 

os pais um pouco a frente chamaram a menina.

ela ouviu o próprio nome despertando

 

largou o galho

e correu

até eles, pequeno desespero nos pés.

 

a menina então ficou no centro

dos pais

uma mão pra cada um.

 

 

agora se você perguntar

pra clara e

pro mário

vocês se lembram daquela família que passou na praça?

 

que família? – eles diriam

 

não, eles não viram

nada.