a primeira surra

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cortou o cabelo, tesoura da vó naná, os fios no chão lembravam o sono de um cachorro todo preto, pegou também uma blusa no armário do irmão. tirou os brincos, lançou os brincos o mais longe que pode com seus braços de 6 anos e decidiu assim, olhando no espelho, que esse rosto exatamente desse jeito lhe vestia bem melhor, passos da Mãe no corredor. mão da Mãe na maçaneta. Mãe abrindo a porta, 1887.

 

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Brutal

quando chegou em casa a primeira coisa que ela fez foi pegar a gaiola.

o prego

inesperadamente órfão sem ter que carregar um peso, nada, começou por isso a reparar no próprio corpo

enterrado na parede há tanto tempo

um mundo de parede

ao redor de seu ferro magro.

eles se olharam, o prego e a parede, mal e mal como podiam se olhar duas criaturas assim tão mortas. pressentiam algo

de ruim.

a mulher

colocou a gaiola em cima da mesa com uma força desnecessária.

o canário

virou a cabeça e seu olho por inteiro preto

parecia perguntar o que, afinal, estava acontecendo ali.

a mulher se apoiou na pia.

chorava, se alguém escutasse, mas

não tinha ninguém

na cozinha

tampouco pro pássaro o ângulo era bom pra entender, a grade na frente, ele mexia ansioso a cabeça de um lado

pro outro.

finalmente ela se virou pra gaiola.

abriu a

grade

o pássaro no pauzinho beliscou o jiló e o jiló escapando

a mulher deu as costas e

foi pro quarto

lentamente fechou

a porta

deitou de bruços na cama vazia

tentando farejar um

rastro dele

algo que tenha ficado, qualquer coisa,

o canário o último vestígio.

 

ela abriu a gaveta da cômoda, tomou um remédio pra dormir. o jesus no quadro

daqueles que se mexem conforme a gente anda

também dormia.

 

na cozinha o pássaro

ainda na gaiola

que ele fecharia, se possível, e tentou

 

 

o prego e a parede assistindo

 

o pássaro puxando a grade com o bico

mas

era tudo tão pesado que ele

se desiquilibrou e

caiu

da mesa

com seus olhos tão pretos.

 

 

anoiteceu.

 

 

foi quando a mulher

reapareceu na cozinha, o rosto inchado,

e viu

 

o pássaro no chão perto da mesa

ele já tinha virado bolinha pra dormir.

 

suspirou.

 

pegou o bicho

ele acordou de sobressalto uma mão de repente em mim.

começou a virar o pescoço daquele seu jeito de lidar com o medo para não

explodir, a mulher

bem que poderia ter dito uma palavra de afeto

algo como

 

calma,

vai ficar tudo bem

 

mas seu marido agora estava morto

e ela não sabia mais por onde começar.

 

 

caminhou até o quintal

 

 

colocou o pássaro

em cima do muro

 

 

pensando que ali ele entenderia

o seu novo

Estado

 

ela bem que poderia ter contado uma história pra ele entender, uma anedota como fazia o seu marido,

 

ao invés ela voltou

pra cama arrastando os

chinelos

de propósito, jesus observou.

 

no quintal

 

o prego e a parede teriam feito alguma coisa se pudessem, o passarinho olhou pra eles. socorro, ele parecia pedir

virando tanto

o pescoço que

uma hora a cabeça caiu.

 

pequeno teatro sobre o desespero

Ato 1.

 

 

 

peguei no colo a menina enrolada no cobertor, ela não acordou. nosso trem partiria às seis, agora 4:30, na mochila pouca roupa e um livro

sobre a américa.

caminhamos até a estação, não era longe, o vento que fazia parecer distante.

a rua de terra. minha bota surrada.

passei a mão pelo rosto da menina tão

gelado. apertei o corpinho contra o peito. cantei pra ela

uma música do chile que

minha mãe costumava cantar pra mim, uma música que me acalmava toda vez que eu sentia medo do meu pai batendo nela. minha mãe cantava a música depois que meu pai batia. depois que meu pai já estava dormindo. hola chiquita, eres un mar. eres tan grande como todo el mar

um cão começou a nos seguir.

 

não tenho comida –avisei.

 

ele me olhou de volta como se dissesse

não estou aqui por você.

 

segui caminhando, esqueci uma parte da canção. esqueci, meu deus, como era?, mas isso não chegou a acordar a menina. quando entrássemos na estação tudo ficaria melhor. mais calmo. sentaremos naqueles bancos onde se sentam os viajantes, sentaremos igualmente

esperando o nosso trem e a vida vai melhorar a partir disso, tenho certeza. cinco da manhã, um frio cortante. sinto sede e o cachorro já não está, perdi o momento

em que ele se foi. quase sinto saudades, imagine. saudades daquela rabugice.

avisto a estação.

estamos chegando, sussurro pra menina. estamos quase lá

barulho dos pés

pela terra

meu som caminhando o único som e se for ouvir bem fundo

o silêncio tem qualquer coisa da nossa própria respiração. volto a cantar o hino do chile, minha mãezinha sempre comigo. agora já avisto a porta, estou vendo a porta, sussurro pra menina.

adentro o lugar,

completamente vazio a não ser pelas pessoas que trabalham ali.

compro meu bilhete, estou nervosa.

a menina precisa? não, a atende responde sem me olhar.

sento, nas cadeiras que tanto imaginei que sentaria, elas são desconfortáveis e alegres, elas

são a promessa de uma nova cidade pra nós cada vez mais perto enquanto o trem não chega. abro os botões da blusa.

tento amamentar a menina.

a boca dela

não se mexe.

tudo bem se você não quer mamar agora. você pode mamar quando quiser.

são quase seis.

Finalmente nosso trem aparece. penso por um instante que perdi o bilhete

mas o bilhete está em cima da minha coxa. entrego pro maquinista. sem bagagem? só a mochila, senhor. entro. o vagão está morno e o mundo pela janela ou parte dele, a cidade que não volto

nunca mais. sento. o trem

está vazio como tudo. a menina pesa no meu braço e não acorda,

vou colocar ela no banco.

o trem

começa a se mover, aqueles barulhos típicos. estou sentada

do lado oposto da vista e

é como se eu fizesse duas viagens. pego meu livro

sobre a américa e

é como se eu fizesse três.

leio

algumas páginas

sobre a terra, sobre a quantidade de terra na américa latina e isso me dá um pouco de

Sono. isso me dá

um tipo de

Sono

 

inédito.

 

**

 

Ato 2.

 

 

Senhora?

Senhora?

 

 

 

 

(o maquinista coloca a mão no bebê.

grita

pedindo socorro.

cai o pano).

 

suicídio

os sapatos na soleira, a memória dos seus pés

mas agora

é hora de ir para o seu enterro, você está morto, você está sendo velado, aquela rede tão fina no seu rosto feito um véu de noiva te protegendo de quê? agora que você está morto. talvez seja um símbolo, apenas, um respeito ao seu corpo sem alma, a pele depois de morta se passar a mão, se der um beijo,

derrete e ninguém quer

pele de morto na unha. eu vou tomar um banho

antes de te enterrar, decido, eu que só voltei pra pegar uma chave.

ligo o chuveiro

a água esquentando

sei que

sentirei sua morte só daqui Muito tempo, por enquanto estou sobrevoando

a perda.

entro no chuveiro.

penso no seu sapato na soleira, a espera eterna, se ele soubesse que você morreu. se ele soubesse

que outro sapato foi escolhido pra acompanhar seus pés em decomposição. penso que ele preferiria ficar na soleira mesmo, o sol, o vento, as nuvens, a chuva. assistir o tempo

medido por noites

e dias

independentemente de quem morreu. melhor isso. do que terra pra sempre

terra na boca

terra a única coisa ao redor.

cai o sabonete.

pego, o ângulo que fica meu corpo, o azulejo me vendo em posições que você, meu pai, nunca me viu. me toco, a água escorrendo, abro a boca e engulo

as gotas, pequena chuva

particular. o sabonete

permanece imóvel na mão que não está trabalhando

o vento bate a janela do

box: gozo.

me seco. coloco

uma roupa preta como de costume apesar de lembrar com carinho da frase de uma amiga certa vez num velório: a morte precisa de cores também.

abotoo a camisa, minha clavícula despontada. pego

a bolsa, a chave motivo da vinda e dou uma última

olhada pra soleira, o sapato lá, a pena que sinto. procuro as palavras. as melhores pra contar o que, o de sempre? que as pessoas se vão, hora ou outra, e de vez em quando bate de ser bem hoje que a pessoa se foi e não volta, tudo aquilo que já sabemos, pois

decido contar exatamente assim pro sapato

como se partidas não me assustassem

ele estava velho, você sabe, velho e bastante doente

eu disse bem perto

do tecido

quase beijando

o tecido

e saí.

tranquei a porta. esperei

o Elevador

 

 

( os sapatos )

 

 

apertei o

– 1

 

 

 

(                                                          em queda                                                            )

 

 

 

 

desci na garagem rumo ao carro, buscando o carro

 

 

(encontram o chão).

 

 

 

 

não existe ex atriz

na peça que assisti os atores se trocavam em cena, bunda, pernas e então a roupa, tira, põe exatamente do jeito que fazemos quando acaba um dia, começa outro. nos trocamos, determinados, como se isso pudesse frear alguma coisa (a morte) quando moça também eu quis ser atriz. achava (e ainda acho) o corpo do ator bem mais Vivo que o do resto, repara nessa gente toda na plateia e por mais que eles se levantem: não têm o mesmo brilho e ainda que batam palmas, eu nem isso, eu sentada de óculos escuros, nunca sei direito o que fazer com as mãos.

visita

os 3

trancados no quarto de hóspedes

alguns brinquedos meus no armário agora com roupa

da tia e dos primos que não têm um rosto parecido com

o meu ou

o da minha mãe. ontem

eles entraram no quarto

com malas e

nunca mais saíram

me revirei na cama, meus brinquedos, tentei avisar mamãe. Chega, ela disse

então fiquei esperando amanhecer.

 

 

 

Amanheceu.

 

 

 

fiz xixi, escovei os dentes

 

 

a porta do quarto de hóspedes ainda fechada

 

 

no quarto de mamãe a cama já com

colcha

 

desci as escadas

 

fui pro quintal no canto em que dava pra ver

a janela do quarto de hóspedes

também trancada.

será que a tia e os primos morreram? fechei o olho

pra virar por dentro um quarto escuro igual o deles

imaginei colchões, lençóis, as bocas respirando. então fui até a frente de casa, a mamãe estava molhando o jardim.

apoiei no portão

minha mãe cantarolando

aquela música

das maçãs

fiquei amortecida

assistindo mamãe molhando as plantas

e um pouco da rua

meu rosto

na grade, cheiro de ferro gelado.

 

Mãe. – chamei.

quer que eu acorde a tia?

 

-você já tomou seu leite?

 

sim. (menti)

 

-então vai brincar.

 

-mas e eles? vão ficar dormindo até quando?

 

minha mãe me

lançou um olhar por cima do ombro

como se eu tivesse feito a pergunta errada

meus gibis dentro

do armário, uma manga de blusa da tia quase encostando

na capa turma da mônica, que dor.

 

-aquele quarto também é meu – gritei e saí

correndo

 

fui pegar a bola

no quintal

 

 

passei pelo leite na mesa

 

 

minha mãe molhando

o jardim. isso me dava tempo

pra tomar aquilo

só na hora em que ela desligasse a mangueira

e no quintal fiquei batendo

bola

na parede minha parceira

de vôlei

 

mas na verdade era eu

fazendo tudo

 

seria mais divertido se a parede tivesse mãos.

 

desenhei nela

com os dedos no vento

 

pelo menos me deu fome

 

e tomei o leite

chocolate na borda

do copo

minha mãe ainda no jardim.

 

espiei pelo vidro da sala.

 

ela estava conversando

com a dona tereza.

 

subi as escadas

(barulho de pé na madeira)

 

e parei

na porta do quarto de hóspedes

 

altíssima olhando assim, de frente.

 

tentei pensar num plano

pra acordar minha tia e meus primos

se pelo menos eu pudesse entrar um pouco.

 

espiei pela fechadura

 

mas a chave não deixava espaço

pra ver.

 

foi quando me bateu um medo

da chave

que a mando de deus bem que podia se enterrar no meu rosto bisbilhoteiro

me transformando numa

porta humana

as pessoas na rua nunca mais me olhariam

nem mesmo eu teria coragem

por isso eu jogaria todos os espelhos num rio.

ficaria bonito

se os rios fossem cobertos por espelhos, o Céu pensando que no mundo só existe azul.

 

– é sua irmã? – perguntei ontem sobre a tia.

-sim.

-e a minha irmã, cadê?

você não tem.

-por que você tem e eu não?

 

 

 

Eu

 

 

na frente da porta do quarto

de hóspedes

 

as mãos ao longo do corpo

 

minha camiseta escrito

i l h a    b e l a

c a p i t a l  da  v e l a

 

fechei os olhos imaginando todos

os desenhos animados que eu conhecia

eu precisava de um plano, só um, qualquer coisa menos essa espera.