durações

o corte era próximo do olho e na pele machucada já nascia uma casca

rubra. me pergunto que horas

essas cascas se

formam

sempre perco o momento

gostaria de assistir o corpo criando

camadas, querendo deixar o que já existe exatamente onde está, que nada vaze, é o que faz também um ovo

na sua dinâmica

protegendo seu íntimo até que se encontre

uma mão, mas isso

é o acaso, isso não tem nada a ver com o ovo,

um ovo é o símbolo máximo

da força.

 

-você não vai me contar o que aconteceu?

 

-eu tô bem. – ele disse lendo.

 

-você andou brigando?

 

foi a porta do carro, já disse.

 

-na hora de abrir?

 

-sim.

 

-mas como você não viu a porta?

 

-tanta coisa que a gente não vê.

 

-não é melhor você ir no médico? teu rosto tá muito inchado.

 

-não gosto de médicos. eles dão receitas

e eu não acredito em receitas.

 

-você acredita em quê, então?

 

ele pensou um pouco.

 

– eu acredito numa espécie de cura individual

que só a gente pode se dar. ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos quando paramos de mentir pra dentro, não pra fora, pra fora e pros outros se pode mentir à vontade, é até divertido, um bom exercício de autoficção. mas mentir pra dentro é perigoso, porque daí paramos de tentar descobrir quem somos

e a cura se torna impossível.

 

– e você por acaso já descobriu seu verdadeiro eu?

 

-tenho minhas suspeitas. mas é muito grande saber quem somos, é como dizer que alguém conhece o mundo só porque já viajou bastante.

mas com certeza eu me conheço melhor do que um médico que nunca me viu.

 

fiquei olhando pra ele, na verdade pro rosto machucado. Suspirei.

 

-tem certeza que você não se meteu em nenhuma briga?

 

ele fechou o livro.

 

você está mentindo pra fora, eu te conheço. e o vizinho? parou de telefonar?

 

-não.

 

-tem certeza que

 

-você quer saber a verdade?

 

-por favor.

 

-isso não vai fazer meu olho melhorar mais rápido.

 

-conta.

 

-a gente trocou uns

socos na garagem, sim. quer dizer. ele me acertou um só

bem dado, não nego. mas ele ficou pior,

você vai ver

quando trombar com ele no elevador.

 

-meu deus. e quando foi isso?

 

-anteontem.

 

-alguém viu?

 

-não, estávamos completamente sozinhos. poderíamos ficar brigando até um de nós morrer.

 

-e a briga parou como?

 

-é uma pergunta que também me faço, eu não sei. é parecido com o mecanismo do sorriso. você abre por conta de alguma coisa que viu ou sentiu

e depois fecha

tão naturalmente

a briga foi assim. eu estava no chão, ele estava no chão.

nos sentíamos conectados, segundos antes, pela raiva que nutríamos um pelo outro e de repente

passou

de repente não tínhamos mais motivos pra brigar

estávamos esvaziados, exaustos

Respirando, apenas.

 

ele apagou o abajur.

 

 

-a gente precisava disso, desse combate. a gente

precisava se machucar e nos machucamos

por isso acabou, entende? porque agora estamos resolvidos.

 

 

ele me deu um beijo no ombro

e virou pro lado.

fiquei olhando pro teto

depois

pro céu que carregava

uma promessa de

tempestade.

segui assim, o corpo voltado pra janela,

tentando captar o exato

momento em que pinga

e para

uma chuva.

Anúncios

alunas

-o problema de operar um Cavalo é que ele pode ficar bem

agressivo durante a cirurgia. – o professor disse

mas a gente não viu

nenhum cavalo no largo corredor daquele hospital. vimos apenas a sala

com Guindaste

e no fim

deu no mesmo, imaginamos o tamanho do bicho, a força dele

Controlada

por máquinas e sedativos,

um cavalo aberto

na mesa de
cirurgia
ninguém pegando
um talher.

mas e se fosse uma galinha? e fosse no mato

uma fome

maldita

-gostaram do tour?- o professor pergunto

circo

 

matei o pernilongo justo em cima de uma foto

do Mar,

horas

de perseguição ou pelo menos parecia pra coisa acabar assim

bestamente, minha mão em cheio nele, a foto atrás.

as ondas

levaram o corpo do mosquito

(não pedi)

e as pessoas

nadaram por cima disso e

de tudo.

RESENHA: O peso do pássaro morto, de Aline Bei

Margens

Chiaroscuro

por Matheus Guménin Barreto* 

O peso do pássaro morto (2017, Editora Nós) – romance de estreia de Aline Bei – deixa nas mãos do leitor, após a leitura, o peso de algo que ele não sabe muito bem nomear, mas que também lhe parece vagamente familiar após tê-lo apalpado durante mais ou menos 150 páginas de vertiginosas linhas de prosa quebrada. O peso do que não se ouve da boca de uma pessoa, mas que fazem-na o que ela é, no núcleo mais duro de si; o peso do que não se vê nos gestos de uma pessoa, mas que fazem-na o que ela é, no núcleo mais duro de si; o peso do que não se chega a saber sobre uma pessoa e que morre entalado nela, mas que fazem-na o que ela é, no núcleo mais duro de si.

Em O peso do pássaro morto Bei…

Ver o post original 545 mais palavras