limite

ele sentou na minha cama

as paredes se fecharam em volta dele, o pai,

um estranho ali pro meu quarto que ele nunca entra e agora está

assim

sem camisa.

 

-fala, filha. – ele disse, prevendo o amargo

da notícia que eu daria

porque eu nunca chamo meu pai pra conversar sobre algo terno ou cotidiano, quando a gente conversa é sempre pontual.

 

então eu comecei a contar pra ele

da minha viagem

 

-vou ter que me ausentar por uns dias,

a empresa

precisa de mim em Paris.

 

as mãos do meu pai me

ouvindo em riste

mas aquilo não tinha nenhum apelo religioso

era só que

ele não sabia muito bem o que fazer com as mãos, nunca soube,

toda vez que a vida lhe acessava um canto mais emocional

meu pai se apoiava no garoto de 5 anos que ele foi

voltando pra algo que deu errado lá trás com a sua família.

meu pai filho mais velho

teve que ver os irmãos nascendo

a mãe amamentando

não ele, outros meninos, meu pai já crescido, meu pai

cresceu depressa

por isso ficou assim calado, encostado na porta perdido

nas horas

achando que, como numa relação amorosa que termina,

o que ele tinha com a mãe dele terminou.

 

-vou ter que me ausentar por uns dias – repeti.

 

pra ver se ele reagia de alguma forma, espero que meus pais não se matem enquanto eu não estiver,

a energia da minha casa até dos móveis fica a beira de um colapso quando eu não estou, sei disso pelo que minha mãe me conta depois que eu volto

e também pelo rosto dela

sempre envelhecido depois que eu volto

 

-a empresa está com problemas

na sede em

Paris

 

ele não me olhava

e quando olhava

era tão breve

meu pai está sempre de partida até no olho

sou eu que fico no lugar dele

quando ele se vai.

agora quando sou eu que vou

é neste momento que ele precisa ocupar o próprio lugar de pai dentro da nossa casa

e deus que abismo tem sido

pro meu pai ocupar o lugar que lhe pertence na nossa casa

sentar pro almoço

conversar com a minha mãe e

comigo,

ele levanta da mesa toda hora como se estivéssemos esquecido um copo, um talher (a mesa sempre completa, ele levanta e diz

que precisa de um

guardanapo, tem aqui pai, ó)

parece que

ele não lembra

onde guardou as

máscaras que usava pra viver com a minha mãe que também não está entendendo mais nada, pra onde foi o marido com quem me casei?

quando eu era menina

a tristeza do meu pai morava na

boca

 

-quando você volta? – ele perguntou finalmente.

 

(e ainda mora,

vocês deviam se separar de uma vez)

 

– em 3 semanas.

 

você consegue? eu ia emendar. fazer isso por mim.

mas ele

se levantou da cama, os braços apoiados no colchão deram o impulso,

meu pai não estava

bravo ou aborrecido

ele estava cansado, apenas

cansado de um jeito tão profundo que ali eu soube, paris não entraria no meu peito enquanto eu estivesse por lá, não caberia, já que eu estarei lotada

pensando no inferno que é meu pai e minha mãe juntos

sem a ponte que sou eu.

 

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