preconceito

abri a porta de casa, você estava na cozinha e me olhou,

começou a cantar uma música.

 

-é tua? – perguntei tirando

os sapatos.

 

-não, 

é do Caetano. – você me disse

 

e a música, de repente, ganhou um lado mais atento

do meu ouvido.

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o risco

ficava tentando me enforcar com as mãos quando eu ia pra cama

mas faltava algo, uma roupa,

aquele pijama não estava ajudando.

não era de triste

que eu fazia isso, era

científico, uma pesquisa pra descobrir em que ponto da vida uma pessoa morre,

como é o quase ir

pra onde ninguém sabe

o pior é pensar que pra lugar nenhum. no entanto tem gente que se sente confortável com isso, com o lugar nenhum, porque a vida é tão

dura, não devolve nada,

eu assistia tv

tomava leite

com chocolate

e nada

da vida me devolver o que eu estava dando pra ela, meu Tempo.

apesar que

eu tinha uma amiga

que era a minha vizinha e isso me dava algo, uma alegria, trocávamos cartas e adesivos. eu tinha também uma coleção de gibis

que ficava dentro do meu armário e toda vez que eu abria aquilo

era como abrir a janela num dia de sol. eu só emprestava a coleção pra minha vizinha, afinal ela tinha um buggy

e sempre me levava pra dar uma volta

me fazendo sentir já com 18

anos

andando de carro por aí. a fê

direto vestia uma camisa branca

a blusa mal secava e ela

já pegava de novo

passava e vestia

eu ficava com vontade de passar roupa quando via ela passando

e também com vontade de usar a camisa dela.

a fê

era bem maior do que eu

a blusa pra mim viraria um vestido

de casamento

perfeito para uma virgem que quer testar

a morte, era o figurino ideal.

posso experimentar? eu não tinha coragem de pedir. mas um dia

estávamos no quarto dela e a blusa no canto da cadeira, pra lavar.

a fê foi ao banheiro

aproveitei e vesti finalmente

a blusa

me senti uma noiva casando com um homem

parecido com o meu pai. quando ouvi a porta do banheiro abrir

enfiei rápida a camisa na mochila

a fê ia perceber que a blusa tinha sumido

mas

ela não ia achar que fui eu.

amanhã eu devolvo, pensei.

assim vestida de noiva eu vou conseguir

fazer o teste

e a fê ali na hora não percebeu a falta

da blusa, seguimos conversando sobre os garotos do colégio.

naquele mesmo dia, mais tarde,

tomei banho e coloquei meu pijama normalmente. boa noite, minha mãe me disse, dorme com deus.

amém eu disse

e quando percebi a casa em silêncio

então eu troquei

meu pijama pela blusa

deitei de barriga pra cima

e coloquei as duas mãos no pescoço. nada de covardia agora, eu pensei

bum bum bum

castelo rá tim bum

eu cantava por dentro

forçando a mão no pescoço

esmagando a garganta

a camisa era mesmo

perfeita

vou parar só quando eu estiver

morrendo

senhor me ajuda

a parar um pouco antes

quando um carro buzinar ou

um cachorro latir eu

paro, é bom

estar morrendo

tem prazer no

desistir e uma

leveza que

fic a

 

 

(na rua nenhum carro

 

nas casas o sono dos cães).