casa de chá

os pés das meninas na velha casa de chá. descalças.

correndo

(taco de madeira)

o barulho.

param, de repente. a de vermelho teve uma ideia,

abrir as gavetas da cômoda,

essa casa de chá parece que guarda

um segredo

nas paredes, nos bules,

e as meninas ali

encantadas como se estivessem no circo, eu com 30 anos exatamente na mesma nuvem

e o quanto cada um demora pra chegar em certos lugares especialmente bonitos.

então elas começaram

a executar o plano, abrir e fechar as gavetas compondo

uma música

quando a mãe disse Zara (pra de vermelho) eu nunca mais vou te trazer aqui.

a menina então ergueu os braços

como se morasse dentro de uma caixa

de música

e saiu de perto da mãe

a outra parou

de mexer nas gavetas

pra olhar que raios a irmã estava inventando agora

e a mãe fez um bico

como se tivesse 5 anos também.

nunca mais te trago aqui ela repetiu

e as meninas fugiram pro quintal.

delas

fiquei só com o som que vazava

da porta

e o garçom disse Imagine na escola

várias meninas iguais a de vermelho.

acontece que

não existe ninguém igual, esse homem já devia saber disso com os 35 anos que ele aparentava ter, mas as vezes a gente fala bobagem mesmo, nem tudo o que dizemos é o que está no nosso coração,

na fala o nobre tem hora que escapa

mas dentro da gente seguimos sabendo de algumas verdades e esse parecia ser o caso daquele garçom, por dentro ele sabia.

foi quando o pai das meninas pediu a conta, os olhos dele

cruzaram com os meus.

abaixei a cabeça

fingindo que aquele encontro foi uma

coincidência com a pausa que dei na minha leitura

o livro no colo

eu acho que o pai

acreditou em mim. pagou a conta com cartão,

enquanto a mãe tirava uma selfie perto da cômoda, as gavetas ainda abertas, ela

nem percebeu.

depois foi pro quintal chamar as filhas

vamos, ela disse, que amanhã é segunda feira e vocês precisam dormir.

olhei no relógio

era 6 da tarde.

imaginei aquelas garotinhas chegando em casa

tomando banho

vestindo pijama estampado e

indo dormir como eu fazia

naquele conforto de deitar na cama já arrumada

com bichinho de pelúcia esperando no travesseiro

aquele aconchego de ser pequeno e ter os pais ao lado dando um beijo de boa noite não importa o que você aprontou durante o dia e tudo na geladeira leite, fruta, bolo,

a criança dormindo acima de todo mal.

de repente a menina de vermelho apareceu na porta

com uma bola azul que cabia na palma

dizendo vem pro jogo papai

daquele jeito que as crianças fazem com a linguagem quando estão começando a usá-la, bem pu ogo papá.

o pai levantou guardando a carteira

no bolso

e ela correu

pro quintal

achando que ele ia mesmo

entrar pro jogo afinal ela tinha chamado

afinal ela era dona da bola

e o pai com a cabeça longe, longe,

ele só tinha se levantado porque já era hora

de partir.

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