calcanhar de aquiles

te li meia dúzia de poemas eróticos

da mais alta

qualidade, não esperava que você fosse rir tanto.

 

gostei

de te ver rindo

 

e deixei o livro aberto como que

esquecido

na mesa dos

best sellers

assim quem sabe alguém

pudesse ser

sugado por aqueles versos e

rir também, isso de livro que vende não deixa de ser uma questão estratégica.

o livreiro

organiza os títulos na mesa

com a legenda de os Mais Vendidos (ainda que sejam) num mundo que só pensa em dinheiro: bingo. a maioria das pessoas julgam aqueles livros como bons e alguns podem ser mesmo, outros não, mas nunca pelo motivo certo.

então a pessoa compra

achando que aquele livro é

melhor que os outros, por estar ali na vista, quando muitas vezes o livro da vida está escondido na estante

tem lombada fina

cor que

não chama atenção muito menos o título que dirá o autor

mas aquelas palavras reunidas

mudariam tudo caso a pessoa as encontrasse, já aconteceu comigo, de um livro num canto que de repente eu achei me transformar a tal ponto que depois da leitura eu

era outra,

mais próxima da minha essência

é claro que o caminho é longo

mas eu tinha dado passos com aquela leitura, passos importantes.

 

-eu acho que as livrarias não deviam colocar os livros assim na prateleira. – eu disse. – devia ficar tudo esparramado

num esquema sensitivo

sem privilegiar o lugar de nenhum livro, todos exatamente no mesmo plano.

 

-mas aí não ia caber. – você me disse, olhando as prateleiras que iam até o teto.

 

-pois então que as livrarias fossem maiores. as farmácias não aumentam o tempo todo? pois que as livrarias fossem gigantes

do tamanho de um parque de diversão.

 

-algumas são realmente grandes, você sabe, e ainda assim não caberia.

 

-por isso tem que ser do tamanho de um parque de diversão.

 

-isso é inviável.

 

eu não tô falando de algo viável, eu tô falando de um mundo impossível, onde as pessoas podem se espalhar sem se preocupar com a ideia de caber.

os livros também

porque os livros são como pessoas

todas as obras de arte são como pessoas, a vantagem delas é alcançarem esse estado de humanidade e ainda por cima não morrerem. podem morrer, claro, sendo esquecidas

ou censuradas

ou assassinadas pelo próprio autor

mas elas tem a chance de não morrer, a gente nem isso.

 

-você está louca.

 

vou te ler mais poemas eróticos pra você ficar no estado lúdico que eu gosto como você estava antes, rindo.

 

– os poemas são como drogas pra você?

 

– são como

aviões.

 

olha essa livraria,

 

que horror,

eles arrancaram todos os sofás daqui.

 

se eu for sentar no chão pra ler um livro

eu não me incomodo de sentar no chão, até gosto, o problema são eles

eles iam me mandar levantar na hora.

 

-não acho.

 

-aposta quanto.

 

sentei no chão com um livro do Jorge amado no colo. dois minutos depois o atendente me disse:

 

Senhora, não pode sentar aí.

 

encarei aquele homem de avental

não sei onde

ele mora

nem se gosta mesmo de ler

ou se a livraria é só um emprego, mas

o que me pegou de verdade foi o

 

Senhora.

 

o Tempo

 

está passando pra mim

não só no corpo

principalmente no

Prazo

de fazer as coisas que só eu posso fazer aqui na terra por ser eu mesma

e as pessoas estão percebendo isso

antes de mim. Senhora.

antigamente me chamavam de

moça

uma criança,

quem é essa menina? perguntavam pra minha mãe e eu brilhando

por trás da franja

segurando minha bola

de vôlei

eu tinha tempo, meu deus, todo o tempo do mundo.

fico desejando no espelho viver até os noventa

e acredito nisso, mas

esse homem me lembrou

que existe a possibilidade de eu não durar tanto. vejo esses meninos

com 23/24 anos, rindo de tudo, tomando cerveja em mesas de esquina

talvez na prática eles tenham menos tempo do que eu já que os jovens também morrem. ainda assim,

parece que eles carregam alguma vantagem

igual esses livros

mais vendidos em destaque. Bolt o corredor fez 30 anos

e perdeu, encerrando a carreira,

para um rapaz mais novo que

não é melhor do que ele, é mais novo

apenas.

 

viu?– eu disse levantando

depois que o atendente se afastou- eles querem o nosso dinheiro, não a nossa salvação

que pode estar perdida em alguma página por aqui

só que é preciso folhear primeiro, sem pretensões,

respirar sentindo a beleza dos escritos, a livraria moderna não respeita esses tempos.

 

-(você olhou pro relógio) falando nisso, vamos? se não a gente se atrasa pro filme.

 

-vamos. – eu disse conferindo se o livro de poemas ainda estava aberto na mesa.

 

-um dia você constrói essa livraria sem estante. – você disse pondo a mão no meu ombro.

 

– ela vai ser no topo de um prédio

a livraria em cima sustentando o edifício pelo que ela tem de antena

e não de raiz.

quando chover, os livros vão ficar ouvindo a água cair pelo vidro da janela e nenhum barulho além disso.

 

será uma espécie de igreja, então?

 

-subversiva.

 

-ainda assim uma igreja.

 

-não. então não vai ser uma igreja, não vai ter silêncio além do silêncio das páginas, as pessoas vão poder falar, não vai ser como nas bibliotecas que não pode dizer. acontece que as pessoas

não vão precisar usar a boca

elas vão conseguir se comunicar em outros níveis muito mais interessantes.

vai ter jazz numa vitrola. eternamente um disco de Lester young tocando.

minha livraria

vai ser uma vontade de congelar o tempo pra quem estiver ali

e por haver a vontade, a pessoa vai sentir mesmo que o tempo congelou.

 

-ela pode chamar A Geladeira, o que você acha?

 

-não, mórbido demais.

a livraria será um não- movimento do tempo lá fora

e não do corpo das pessoas que vão estar dentro dela,

entende?

 

-tchau, Senhora. – o atendente me disse de novo

como se adivinhasse.

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