educação

-eu também fazia isso quando era mais novo. – ele disse.

 

quantos anos você tem?

 

– 30.

 

-a gente também.

 

-mentira, com essa cara de menina. – ele disse olhando pra minha amiga

e eu ali, segurando a lanterna, enquanto ela enrolava

a seda,

meu irmão sabe fazer isso melhor do que eu.

 

abracei meus ombros.

 

-você tá morrendo de frio, né? eu já tô acabando aqui, prometo.

 

e eu pensei na minha mãe dizendo

que as drogas eram

o maior desastre desse mundo, ela quase chorava quando dizia. aumentava o volume da tv toda vez que passava um caso de alguém viciado,

a casa inteira escutava fulano de tal está tremendo

fulano de tal está tão magro, uma caveira

a família abandonou

o fulano de tal

agora ele está morrendo

e não se importa.

uma vez eu pedi um chope numa pizzaria.

mais tarde e por acaso

meus pais apareceram no lugar. você está bebendo? minha mãe perguntou.

 

– é só um chope. – eu disse como se não me importasse

meu coração batendo rápido

meu pai pôs a mão

no ombro da minha mãe, eles saíram sem dizer mais nada.

demorei pra voltar pra casa naquele dia.

quando voltei

meus pais já estavam dormindo, a porta do quarto sempre aberta, eu entrei pro meu sentindo abandono e era

só um chope.

mas naquela noite com a minha amiga

era maconha, eu

não estava fumando

apenas fazendo

companhia pra ela

escondidas atrás de um fiat

olhar o preparo do fumo era como assistir uma dança.

foi quando chegou o dono do carro

dizendo que ele fazia o mesmo quando era mais novo

ele gostou da minha amiga

ela também gostou dele, principalmente depois que ele disse que ela tinha cara de menina, a minha amiga não quer morrer. então ela conserva o rosto, com cremes e máscaras de

rejuvenescimento, assim a Morte

fica perdida e se um dia Ela se irritar

vai ser do tipo de óbito que comove as pessoas, quem morre com o rosto jovem vira uma espécie de herói. até no cemitério,

uma vez eu caminhei por um com a minha irmã. a gente viu o túmulo de um homem que morreu com 25, Cristian ele chamava, ficamos olhando a foto dele nunca mais esquecemos daquele rosto.

 

– senta aqui com a gente, – minha amiga disse pro cara.

 

-não, brigado. eu tenho que voltar pra casa.

 

-você não é daqui?

 

-eu moro em Santana. mas venho sempre pra cá na casa do meu primo. eu gosto, dá pra ver bem o céu.

 

ali era serra

o ar era menos

poluído.

então o cara se despediu. entrou no carro, ligou o motor. por um segundo eu pensei que ele podia

passar por cima da gente ao invés de ré,

cometei com a minha amiga

 

-ele pode nos matar com esse carro.

 

– cala a boca – ela disse rindo. – quer um pouco?

 

-não sei tragar.

 

(o cara deu ré, buzinou e foi embora. minha amiga acenou, eu fiquei parada)

 

-você pode engolir a fumaça enquanto eu assopro na sua boca, dá no mesmo,

quer?

 

-pode ser. – eu disse um pouco tímida, não gosto de abrir a boca perto das pessoas

fico com medo de estar com o hálito ruim

porque uma vez eu estava

e beijei um garoto, ele me odiou para todo

o sempre.

 

-vem mais perto. – minha amiga disse

engoli sem jeito

a fumaça

dentro dela o choro

da minha mãe.

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na estrada de aldeia

um pássaro no fio elétrico rouba a minha atenção. ele está bastante concentrado na vista, será que ele pensa?, no tamanho das coisas. em relação ao tamanho dele, o mundo parece um lugar hostil. ainda assim

nunca vi um pássaro com má postura ou seja desistido, não, eles são todos de peito pra frente

mas esse que vi, especialmente, parecia guardar um segredo.

estava escurecendo,

eu descia de carro a serra da aldeia

depois de uma festa.

adoro olhar a cidade do alto, todas essas luzes que jamais saberemos,

então me lembrei

do filhote de canário

que uma amiga, a camila, resgatou.

ele tinha caído do ninho

estava agonizando quando ela viu o corpo no chão. a camila podia ter pisado nele, sem querer eu digo, a grama estava alta. mas não sei como ela viu o canário, pegou no colo, levou pra casa. agora e meses depois ele está curado

mas a veterinária disse se ele voltar pra rua

ele morre em uma

semana.

 

– tem certeza, doutora?

 

minha amiga voltou pra casa

com ele na gaiola dando aqueles

pequenos pulos que é o jeito de andar dos pássaros, é o jeito que eles esperam também,

então ela decidiu guardá-lo

no quarto

fechou as janelas, a porta,

e deixou o canário morando ali.

vale mais? pergunto porque não é uma questão fácil, eu mesma não saberia decidir, é melhor? viver por muito tempo sem ao menos uma janela

ou viver solto

como o pássaro do fio

sabendo que é curto existir num mundo que destrói tudo o que é de vidro, mas na verdade o pássaro não sabe, na verdade quem sabe é a gente, o bicho viveria sem peso pelo tempo que fosse o problema é a culpa, a nossa, é isso que a camila sente toda vez que pensa em abrir a janela. se ela abrir

o pássaro voa

apesar dela ter cuidado dele, apesar do perigo na rua, ele vai voar simplesmente, é o que ele nasceu pra fazer.

a camila poderá apenas assistir

o voo triste

já que Ir é o mesmo que dizer sim pro risco (pássaro vê as coisas se apegando a elas como a gente faz com tudo o que gente pensa que é nosso?)

ninguém é livre depois de saber que está matando

ninguém é

livre de jeito

nenhum

os metros quadrados, os grandes espaços, eles só aumentam a solidão.

 

 

 

não acabou

estava com o pedro quando trombei com você no cinema, esse meu amigo parecia um irmão caçula.

você me deu oi de longe, o pedro não parava de falar um minuto,

sobre o livro que ele estava lendo

do Carver, gesticulava e sorria, eu tão distante querendo apenas te dizer isto: esse cara aqui do meu lado

é só um amigo, queria te deixar claro

que era só

um amigo

enquanto eu lia

nos teus olhos

a dor de me ver

em outra.

todo o tempo do mundo

eu gostava de imaginar que aquelas louças

eram presidiários

que tinham tomado banho e agora voltariam

para as suas celas,

eu secava os pratos pensando que eles tinham assaltado um banco

colocava os bandidos um em cima do outro.

 

Muito bem, por hoje chega

 

e com força eu guardava todos

no armário.

 

-ei.

cuidado pra não quebrar a louça. – minha mãe dizia.

 

o prato que ficava por baixo

tinha matado alguém durante o assalto

então agora ele tinha que carregar o peso de todos os outros pratos, merecidamente.

eu ficava pensando em quantos assassinatos as facas já tinham cometido

prisão perpétua, eu dizia pra elas, vocês

vão envelhecer aqui.

mas era da panela

o mais terrível dos crimes

numa noite de setembro ela tinha cozinhado uma criança igual a bruxa

do 71

e eu disse pra ela você será queimada

todos os dias

sem morrer.

 

tenha piedade, elas pediam.

 

calem-se! –eu respondia

nenhuma louça se metia comigo

mas secretamente, eu sabia, elas bolavam planos de fuga.

 

-seca essa louça direito hein menina. – minha mãe dizia.

 

– já volto, Nicole.

 

eu avisava minha amiga

quando minha mãe aparecia na rua

me chamando pra ajudar na cozinha. minha mãe não gostava que eu me divertisse muito, quando eu estava no ápice brincando de bola

minha mãe vinha até a porta

e me chamava pra ajudar.

 

-como era você criança? – eu perguntava pra minha mãe quando ela estava calma, mas ela estava tão

calma que

dormia,

não me ouviu.

 

-já volto. – eu dizia pra minha amiga Nicole.

 

mas eu demorava tanto

que escurecia

eu demorava tanto que

a Nicole começou a parar

de brincar comigo

arrumou outra amiga na rua debaixo

comecei a dizer já volto só pra bola.

eu

me sentia sem sorte

por ter calhado de nascer numa casa com mãe precisando muito

de mim.

um dia secando louça

a brincadeira da prisão já perdendo

a graça

repetir as coisas vai tirando mesmo

a graça

quando ouvi um estouro

tremendo.

 

 

-o que foi isso? – minha mãe perguntou virando o pescoço

 

 

foi a minha bola

eu tinha certeza que foi a minha bola, mas

não disse.

se dissesse

minha mãe ia me chamar de irresponsável

por largar brinquedo no meio da rua, ia falar que

meu pai trabalha como um louco pra trazer as coisas pra mim e eu largo tudo por aí como uma idiota.

continuei secando a louça

imaginando minha bola segundos antes do carro passar quando ela ainda tinha chance

 

 

e segundos depois

 

 

que o carro passou

na rua com bola esperando a menina que disse:

 

– já volto.

 

e não voltou.

 

agora não precisa mais me chamar. – eu disse pra minha mãe. – agora

eu estarei sempre aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

preconceito

abri a porta de casa, você estava na cozinha e me olhou,

começou a cantar uma música.

 

-é tua? – perguntei tirando

os sapatos.

 

-não, 

é do Caetano. – você me disse

 

e a música, de repente, ganhou um lado mais atento

do meu ouvido.

o risco

ficava tentando me enforcar com as mãos quando eu ia pra cama

mas faltava algo, uma roupa,

aquele pijama não estava ajudando.

não era de triste

que eu fazia isso, era

científico, uma pesquisa pra descobrir em que ponto da vida uma pessoa morre,

como é o quase ir

pra onde ninguém sabe

o pior é pensar que pra lugar nenhum. no entanto tem gente que se sente confortável com isso, com o lugar nenhum, porque a vida é tão

dura, não devolve nada,

eu assistia tv

tomava leite

com chocolate

e nada

da vida me devolver o que eu estava dando pra ela, meu Tempo.

apesar que

eu tinha uma amiga

que era a minha vizinha e isso me dava algo, uma alegria, trocávamos cartas e adesivos. eu tinha também uma coleção de gibis

que ficava dentro do meu armário e toda vez que eu abria aquilo

era como abrir a janela num dia de sol. eu só emprestava a coleção pra minha vizinha, afinal ela tinha um buggy

e sempre me levava pra dar uma volta

me fazendo sentir já com 18

anos

andando de carro por aí. a fê

direto vestia uma camisa branca

a blusa mal secava e ela

já pegava de novo

passava e vestia

eu ficava com vontade de passar roupa quando via ela passando

e também com vontade de usar a camisa dela.

a fê

era bem maior do que eu

a blusa pra mim viraria um vestido

de casamento

perfeito para uma virgem que quer testar

a morte, era o figurino ideal.

posso experimentar? eu não tinha coragem de pedir. mas um dia

estávamos no quarto dela e a blusa no canto da cadeira, pra lavar.

a fê foi ao banheiro

aproveitei e vesti finalmente

a blusa

me senti uma noiva casando com um homem

parecido com o meu pai. quando ouvi a porta do banheiro abrir

enfiei rápida a camisa na mochila

a fê ia perceber que a blusa tinha sumido

mas

ela não ia achar que fui eu.

amanhã eu devolvo, pensei.

assim vestida de noiva eu vou conseguir

fazer o teste

e a fê ali na hora não percebeu a falta

da blusa, seguimos conversando sobre os garotos do colégio.

naquele mesmo dia, mais tarde,

tomei banho e coloquei meu pijama normalmente. boa noite, minha mãe me disse, dorme com deus.

amém eu disse

e quando percebi a casa em silêncio

então eu troquei

meu pijama pela blusa

deitei de barriga pra cima

e coloquei as duas mãos no pescoço. nada de covardia agora, eu pensei

bum bum bum

castelo rá tim bum

eu cantava por dentro

forçando a mão no pescoço

esmagando a garganta

a camisa era mesmo

perfeita

vou parar só quando eu estiver

morrendo

senhor me ajuda

a parar um pouco antes

quando um carro buzinar ou

um cachorro latir eu

paro, é bom

estar morrendo

tem prazer no

desistir e uma

leveza que

fic a

 

 

(na rua nenhum carro

 

nas casas o sono dos cães).

compreensão

eu poderia passear com o meu cachorro por toda a vida, a cidade nunca me cansa, olhar as pessoas é uma distração parecida

com ouvir música,

vejo dois homens

andando na calçada

com uma falta de coragem pra dizer um pro outro que se gostam, a atração que eles sentem fica clara pra mim.

perceber as faíscas

é tão prazeroso quanto ouvir miles davis,

eu que não entendo

tecnicamente de música, só aprecio

é como no amor, também não entendo e aprecio.

agora sair sem o meu cachorro

sem ter que passar no mercado ou na farmácia

apenas caminhar

sem rumo

então não, assim eu não gosto, assim as pessoas podem descobrir meu olho e virar eu a observada, aí eu prefiro sentir a cidade pela janela de casa.

uma vez, me lembro, antigamente eu fazia isso de marcar encontro com desconhecidos pra dar uma pausa na escrita

e respirar um pouco, ver o mundo, então teve uma vez que eu topei

uma cerveja

com um ator que ficava me mandando mensagem na internet dizendo que eu parecia ser do tipo que conversa sobre tudo

música, artes plásticas, política,

mas no fundo, sabíamos, ele estava querendo era me comer.

marcamos um boteco ali na augusta. queria ver como se comportava o sujeito quando estava com vontade de transar com uma pessoa mas ficava disfarçando, qual é o rosto que tem alguém que se engana assim. no fundo

eu queria ser uma terceira pessoa

invisível

observando de perto o primeiro encontro do casal

a mão na coxa, os sorrisos, a ida ao banheiro

e a clássica olhada pra bunda. mas como isso não era possível, então o jeito foi topar o encontro e eu mesma ser a garota de dentro.

o cara

chegou bem atrasado. pediu desculpas

e me cumprimentou com um beijo no rosto.

ele era altíssimo

e realmente não fazia meu tipo

nada nele me agradou, nem a voz.

pedimos as nossas cervejas

enquanto ele contava de um espetáculo que ele estava ensaiando 3 vezes por semana, uma releitura de Shakespeare e eu disse

jura? Shakespeare

qual peça.

romeu e julieta, ele disse, mas é diferente de todas as montagens que você já viu, isso eu posso te garantir. o diretor é um maluco

nunca vi alguém ir tão longe no pensamento como esse cara

ele cria umas imagens que nem eu acredito.

que bacana, me avisa quando entrar em cartaz.

aviso, claro, ele disse

e começou a me contar de uma fã que ele conheceu um dia

que do nada perguntou você veio de carro?

ele respondeu que sim

e ela disse então vamos lá

buscar a sua blusa, foi quando ele entendeu o que estava acontecendo, o pau endureceu na hora,

eles transaram loucamente

no banco de trás.

 

– depois nunca mais nos vimos. tentei ligar, ninguém atendia.

– de repente ela era casada. – comentei.

 

-é,

eu pensei nisso. – ele disse jogando o corpo pra frente

tentando me seduzir com aquele tamanho

de tórax

eu já estava ficando com sono.

 

– preciso ir.

– mas já?

pagamos.

 

na rua ele me deu um abraço

longo

e eu senti a pica do cara crescendo

aquilo

me deu tesão finalmente

eu disse olha,

moro aqui perto você não quer subir pra tomar um chá?

quero, ele respondeu surpreso

e assim que chegamos eu pulei mil línguas no colo dele.

tiramos a roupa.

caímos no sofá e eu

sentei no cara, devagar claro, porque a pica era realmente grande e

que delícia

eu estava precisando daquilo

ah, que beleza

a natureza dos corpos é mesmo uma coisa maravilhosa

e meu cachorro começou a cheirar minha bunda

sai mike

sai.

gozei profundamente

e não é que esse cara fez um bom trabalho? eu disse pra ele

você

fez um bom trabalho.

ele sorriu e me perguntou

se podia tomar uma ducha.

 

– lógico, fica a vontade.

tem toalha na gaveta.

 

acendi um cigarro. coloquei o disco da nina Simone pra tocar

uma chuva fina na janela, o mike dormia no tapete, agora você dorme né seu filho da puta.

 

quando o cigarro acabou eu

estiquei o corpo no sofá

ainda úmida

de gozo e suor, quando tudo secasse

eu ficaria com frio,

adormeci.

 

quando acordei (olhei no relógio)

 

-rafael? – chamei pela casa

 

e o cara

não estava mais lá, não deixou nem bilhete,

será que ele não gostou do sexo? o que fiz de errado, meu deus, caramba, eu cavalguei nesse homem com todo o meu coração então sim, algo se perde na observação quando a gente se envolve e claro, lembrando dessa história eu agora entendo esses dois na rua

eles estão com medo daquele momento em que vem alguém e

estraga tudo.

 

casa de chá

os pés das meninas na velha casa de chá. descalças.

correndo

(taco de madeira)

o barulho.

param, de repente. a de vermelho teve uma ideia,

abrir as gavetas da cômoda,

essa casa de chá parece que guarda

um segredo

nas paredes, nos bules,

e as meninas ali

encantadas como se estivessem no circo, eu com 30 anos exatamente na mesma nuvem

e o quanto cada um demora pra chegar em certos lugares especialmente bonitos.

então elas começaram

a executar o plano, abrir e fechar as gavetas compondo

uma música

quando a mãe disse Zara (pra de vermelho) eu nunca mais vou te trazer aqui.

a menina então ergueu os braços

como se morasse dentro de uma caixa

de música

e saiu de perto da mãe

a outra parou

de mexer nas gavetas

pra olhar que raios a irmã estava inventando agora

e a mãe fez um bico

como se tivesse 5 anos também.

nunca mais te trago aqui ela repetiu

e as meninas fugiram pro quintal.

delas

fiquei só com o som que vazava

da porta

e o garçom disse Imagine na escola

várias meninas iguais a de vermelho.

acontece que

não existe ninguém igual, esse homem já devia saber disso com os 35 anos que ele aparentava ter, mas as vezes a gente fala bobagem mesmo, nem tudo o que dizemos é o que está no nosso coração,

na fala o nobre tem hora que escapa

mas dentro da gente seguimos sabendo de algumas verdades e esse parecia ser o caso daquele garçom, por dentro ele sabia.

foi quando o pai das meninas pediu a conta, os olhos dele

cruzaram com os meus.

abaixei a cabeça

fingindo que aquele encontro foi uma

coincidência com a pausa que dei na minha leitura

o livro no colo

eu acho que o pai

acreditou em mim. pagou a conta com cartão,

enquanto a mãe tirava uma selfie perto da cômoda, as gavetas ainda abertas, ela

nem percebeu.

depois foi pro quintal chamar as filhas

vamos, ela disse, que amanhã é segunda feira e vocês precisam dormir.

olhei no relógio

era 6 da tarde.

imaginei aquelas garotinhas chegando em casa

tomando banho

vestindo pijama estampado e

indo dormir como eu fazia

naquele conforto de deitar na cama já arrumada

com bichinho de pelúcia esperando no travesseiro

aquele aconchego de ser pequeno e ter os pais ao lado dando um beijo de boa noite não importa o que você aprontou durante o dia e tudo na geladeira leite, fruta, bolo,

a criança dormindo acima de todo mal.

de repente a menina de vermelho apareceu na porta

com uma bola azul que cabia na palma

dizendo vem pro jogo papai

daquele jeito que as crianças fazem com a linguagem quando estão começando a usá-la, bem pu ogo papá.

o pai levantou guardando a carteira

no bolso

e ela correu

pro quintal

achando que ele ia mesmo

entrar pro jogo afinal ela tinha chamado

afinal ela era dona da bola

e o pai com a cabeça longe, longe,

ele só tinha se levantado porque já era hora

de partir.

uma palavra inadequada

quando temos pouca idade

qualquer quintal pode virar um país.

ainda mais na companhia da nicole, deitei no chão e fiquei tentando

ver o céu igual um galo.

virei meu rosto

todo pro lado, 1 olho

de cada vez. acontece que

testar com o céu esse jeito de ver em quinas

não tem lá muita graça

já que o céu

é um todo

idêntico até nas pequenas variações.

seria melhor se eu deitasse numa rua pra olhar a cidade

apesar que isso

pode ser perigoso, já vi bastante cachorro morrendo assim. agora galo

nunca,

galo fica muito preso ao lugar onde ele nasceu.

minha amiga

também estava brincando

de ver com 1 olho de cada vez,

o quintal dela virou uma fazenda.

 

-em nova jersey! – eu disse,

 

já suada como eu ficava quando me divertia muito. tinha ouvido num filme esse nome nova jersey e

achei bonito, dei ele pra tudo quanto é coisa que eu gostava, boneca, planta na rua, gibi na gaveta.

 

– cansei ser galo. – avisei.

 

me tornei então um tocador de gaita

negro como aqueles cantores de blues que eu via na tv.

além disso

eu tinha um galo

que era a minha amiga nicole

e então ficou tudo acertado, não mudamos mais de personagem.

o sol

estava morno, eu me sentia dona

do mundo. a ardósia era o mato, fui abrindo caminho com o meu facão.

me imaginei com uma galocha que vi no shopping

e pisava

enormemente

como se o chão fosse

degrau. foi quando a mãe da nicole apareceu.

 

-e aí, moça? que horas você vai fazer a sua lição de casa?

 

e foi um corte

na nossa brincadeira, parecia que a mãe dela tinha pego o meu facão e trá na diversão da gente,

fim.

a mãe entrou pra sala com o recado dado, a nicole murchou de um jeito,

o galo dela até morreu.

 

tenho que entrar. – ela me disse.

tudo bem. – respondi sem escolha

 

e a nicole me levou até a porta.

 

voltei pra casa

ainda tocando minha gaita imaginária

pra segurar o cantor de blues em mim, não queria que ele morresse

como o galo da nicole tão

rápido.

bati

na porta de casa, demorou pra minha mãe atender.

não bati de novo

sabia que minha mãe não gostava quando eu batia de novo.

então ela abriu, finalmente,

estava com o queixo duro.

 

– oi. – eu disse entrando, ela me puxou pela gola.

 

– que horas eu mandei você voltar?

 

hum. 5? – respondi ainda cantor.

 

e que horas são?

 

não sei mãe, não tinha relógio na casa da nicole.

 

ah não?

 

– não.

 

-e esse relógio aí no seu pulso?

 

é mesmo, eu tinha me esquecido dele, na verdade eu tinha tornado meu relógio invisível porque cantor de blues não tem nada no pulso, eles sabem da hora pelo sol.

 

– e que horas são agora? – ela perguntou de novo.

 

– 6 e 15. – respondi depois de uma pausa.

 

então minha mãe puxou

o cinto da calça

e estalou o primeiro couro em mim.

perguntou:

 

– que horas eu mandei você voltar?

– 5?

5? – ela disse me imitando– eu mandei voltar às 5, repete firme, 5.

5.

e que horas você voltou?

– 6 e 15.

 

outra cintada, agora na coxa.

 

sua mal criada. você precisa aprender a me obedecer. que horas eu mandei você voltar?

– 5. – repeti já sentindo

desespero

 

e cada vez que eu repetia

tomava outra cintada

na perna, na bunda, nas costas

menos no rosto, no rosto minha mãe nunca me bateu.

àquela altura, meu personagem já tinha me abandonando

ficou em mim só a tentativa de encontrá-lo, não o culpo, ninguém gosta de apanhar assim.

 

-por favor. –pedi

não gostava de olhar pro rosto da minha mãe enquanto ela me batia, eu sentia medo de desejar que ela morresse

porque uma vez eu desejei

e depois que a raiva passou eu fiquei muito arrependida.

rezei por horas

pra desdesejar aquilo, não queria perder a minha mãe, ela não era calma

como as da tv

mas no mundo existiam mães piores do que a minha.

como a minha tia, por exemplo, que não deixava minhas primas usarem os brinquedos que elas ganhavam de aniversário.

então minhas primas brincavam com os cabelos umas das outras

às vezes embaraçava e isso

dava trabalho pra minha tia que, enfurecida, batia nelas no banho,

minha mãe nunca me bateu no banho.

também não fecho os olhos

enquanto apanho

tenho medo de fechar e isso

ser morrer

quando de repente aquela surra, assim como as outras, chegou ao fim.

minha mãe voltou o cinto pra calça

me botou sentada numa cadeira.

disse:

 

– tá de castigo.

 

sentar me doía o corpo

posso ficar de pé?, eu quis perguntar, achei melhor não

e fiquei ali

pelo tempo do meu atraso, 1 hora e 15, demorou bem mais do que no quintal da nicole.

 

– teu pai vai saber do que você aprontou, ouviu?

depois que você sair do castigo

vai direto pro quarto pedir perdão pra Deus

que Ele só gosta de criança que obedece

as que não obedecem você nem imagina pra onde

essas crianças vão . – ela me disse,

evitando falar a palavra inferno.

 

 

 

 

 

calcanhar de aquiles

te li meia dúzia de poemas eróticos

da mais alta

qualidade, não esperava que você fosse rir tanto.

 

gostei

de te ver rindo

 

e deixei o livro aberto como que

esquecido

na mesa dos

best sellers

assim quem sabe alguém

pudesse ser

sugado por aqueles versos e

rir também, isso de livro que vende não deixa de ser uma questão estratégica.

o livreiro

organiza os títulos na mesa

com a legenda de os Mais Vendidos (ainda que sejam) num mundo que só pensa em dinheiro: bingo. a maioria das pessoas julgam aqueles livros como bons e alguns podem ser mesmo, outros não, mas nunca pelo motivo certo.

então a pessoa compra

achando que aquele livro é

melhor que os outros, por estar ali na vista, quando muitas vezes o livro da vida está escondido na estante

tem lombada fina

cor que

não chama atenção muito menos o título que dirá o autor

mas aquelas palavras reunidas

mudariam tudo caso a pessoa as encontrasse, já aconteceu comigo, de um livro num canto que de repente eu achei me transformar a tal ponto que depois da leitura eu

era outra,

mais próxima da minha essência

é claro que o caminho é longo

mas eu tinha dado passos com aquela leitura, passos importantes.

 

-eu acho que as livrarias não deviam colocar os livros assim na prateleira. – eu disse. – devia ficar tudo esparramado

num esquema sensitivo

sem privilegiar o lugar de nenhum livro, todos exatamente no mesmo plano.

 

-mas aí não ia caber. – você me disse, olhando as prateleiras que iam até o teto.

 

-pois então que as livrarias fossem maiores. as farmácias não aumentam o tempo todo? pois que as livrarias fossem gigantes

do tamanho de um parque de diversão.

 

-algumas são realmente grandes, você sabe, e ainda assim não caberia.

 

-por isso tem que ser do tamanho de um parque de diversão.

 

-isso é inviável.

 

eu não tô falando de algo viável, eu tô falando de um mundo impossível, onde as pessoas podem se espalhar sem se preocupar com a ideia de caber.

os livros também

porque os livros são como pessoas

todas as obras de arte são como pessoas, a vantagem delas é alcançarem esse estado de humanidade e ainda por cima não morrerem. podem morrer, claro, sendo esquecidas

ou censuradas

ou assassinadas pelo próprio autor

mas elas tem a chance de não morrer, a gente nem isso.

 

-você está louca.

 

vou te ler mais poemas eróticos pra você ficar no estado lúdico que eu gosto como você estava antes, rindo.

 

– os poemas são como drogas pra você?

 

– são como

aviões.

 

olha essa livraria,

 

que horror,

eles arrancaram todos os sofás daqui.

 

se eu for sentar no chão pra ler um livro

eu não me incomodo de sentar no chão, até gosto, o problema são eles

eles iam me mandar levantar na hora.

 

-não acho.

 

-aposta quanto.

 

sentei no chão com um livro do Jorge amado no colo. dois minutos depois o atendente me disse:

 

Senhora, não pode sentar aí.

 

encarei aquele homem de avental

não sei onde

ele mora

nem se gosta mesmo de ler

ou se a livraria é só um emprego, mas

o que me pegou de verdade foi o

 

Senhora.

 

o Tempo

 

está passando pra mim

não só no corpo

principalmente no

Prazo

de fazer as coisas que só eu posso fazer aqui na terra por ser eu mesma

e as pessoas estão percebendo isso

antes de mim. Senhora.

antigamente me chamavam de

moça

uma criança,

quem é essa menina? perguntavam pra minha mãe e eu brilhando

por trás da franja

segurando minha bola

de vôlei

eu tinha tempo, meu deus, todo o tempo do mundo.

fico desejando no espelho viver até os noventa

e acredito nisso, mas

esse homem me lembrou

que existe a possibilidade de eu não durar tanto. vejo esses meninos

com 23/24 anos, rindo de tudo, tomando cerveja em mesas de esquina

talvez na prática eles tenham menos tempo do que eu já que os jovens também morrem. ainda assim,

parece que eles carregam alguma vantagem

igual esses livros

mais vendidos em destaque. Bolt o corredor fez 30 anos

e perdeu, encerrando a carreira,

para um rapaz mais novo que

não é melhor do que ele, é mais novo

apenas.

 

viu?– eu disse levantando

depois que o atendente se afastou- eles querem o nosso dinheiro, não a nossa salvação

que pode estar perdida em alguma página por aqui

só que é preciso folhear primeiro, sem pretensões,

respirar sentindo a beleza dos escritos, a livraria moderna não respeita esses tempos.

 

-(você olhou pro relógio) falando nisso, vamos? se não a gente se atrasa pro filme.

 

-vamos. – eu disse conferindo se o livro de poemas ainda estava aberto na mesa.

 

-um dia você constrói essa livraria sem estante. – você disse pondo a mão no meu ombro.

 

– ela vai ser no topo de um prédio

a livraria em cima sustentando o edifício pelo que ela tem de antena

e não de raiz.

quando chover, os livros vão ficar ouvindo a água cair pelo vidro da janela e nenhum barulho além disso.

 

será uma espécie de igreja, então?

 

-subversiva.

 

-ainda assim uma igreja.

 

-não. então não vai ser uma igreja, não vai ter silêncio além do silêncio das páginas, as pessoas vão poder falar, não vai ser como nas bibliotecas que não pode dizer. acontece que as pessoas

não vão precisar usar a boca

elas vão conseguir se comunicar em outros níveis muito mais interessantes.

vai ter jazz numa vitrola. eternamente um disco de Lester young tocando.

minha livraria

vai ser uma vontade de congelar o tempo pra quem estiver ali

e por haver a vontade, a pessoa vai sentir mesmo que o tempo congelou.

 

-ela pode chamar A Geladeira, o que você acha?

 

-não, mórbido demais.

a livraria será um não- movimento do tempo lá fora

e não do corpo das pessoas que vão estar dentro dela,

entende?

 

-tchau, Senhora. – o atendente me disse de novo

como se adivinhasse.