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abrindo álbuns vi

uma foto minha

com o rosto depois do choro, me conheço, o úmido estava discreto mas eu

me conheço e li

meu olho descendo pro âmago, imagine uma galáxia. é como se por dentro eu não tivesse limite, imagine um pântano. é como se eu me afogasse em mim.

naquele dia, me lembro, tinha sido a minha colação de grau.

a foto

foi tirada num restaurante

todas as famílias depois da cerimônia foram pra lá

a minha

não foi nem na cerimônia

e uma amiga chamada

camila

me convidou pra jantar na mesa dela.

 

– está bem. – eu disse aceitando

 

eu tinha 14 anos, precisava

desesperadamente de

afeto,

bastava um passarinho voar

rente ao meu topo

para que eu não quisesse que ele morresse nunca mais.

prevendo o grito, decidi avisar minha mãe só depois de chegar no restaurante,

ela ia me mandar voltar pra casa

e a palavra casa

soava como um tiro pra mim.

uma vez, faz muito tempo,

eu dormi

na casa de uma amiga, a marília. tínhamos uma festa pra ir, então eu perguntei pra minha mãe

 

-posso? dormir lá. a festa vai acabar tarde

a marília mora perto

do lugar.

 

e nesse dia, milagrosamente,

minha mãe deixou.

experimentei então uma felicidade indescritível, passar a noite fora de casa era ser livre

por algumas horas e mais do que isso, era ser

eu mesma por algumas horas

sem a interferência materna na minha personalidade, minha mãe sempre quis que eu fosse

uma continuação dos passos que ela deu.

a festa

acabou 6 horas

da manhã. voltamos pra casa da marília

eu dormi no colchão, ela

na cama. quando deu nove horas

minha mãe me ligou

berrando

dizendo vê se pode

ficar dormindo até tarde

pior ainda na casa dos outros, isso era coisa de vagabunda. volta agora, ela mandou. eu preciso de você pra me ajudar.

desliguei o telefone

com aquela sensação de horror no peito.

arrumei minhas coisas com pressa

agradeci a marília

que estava dormindo.

 

-tá tudo bem? – ela me perguntou sonolenta.

 

(segurei o

choro) – tá sim. obrigada por tudo.

 

você não quer tomar nem um café? eu preparo pra você rapidinho.

 

-não, muito obrigada. eu preciso ir agora, sério. a gente se fala mais tarde.

 

no elevador me olhei no espelho,

a feia.

na rua eu corri até o ponto

prevendo a surra

imaginando os

detalhes

e era assim

que a minha mãe me controlava, era assim que ela me mantinha por perto.

o pior

é que o ônibus demorou, era domingo, e quando finalmente eu cheguei em casa

 

na chave virando um peso

 

o apartamento estava de pernas pro ar.

 

minha mãe disse:

 

-agora limpa.

 

e eu limpei

enquanto ela fiscalizava cada cômodo

cada canto que eu tinha passado o pano.

 

-aqui tem pó. – ela dizia eufórica.

 

e eu limpava de novo

por horas.

 

 

nesse dia da colação,

eu liguei pra minha mãe do banheiro, a camila foi comigo.

avisei que eu estava no restaurante

e que eu ia demorar

então ela começou

a cena de sempre

mas

nesse dia, de repente, eu enxerguei o que era aquilo

que a minha mãe fazia comigo, não era minha culpa, não era eu quem estava errada,

aquilo que minha mãe fazia era ela sentindo medo

da solidão. então eu disse pra ela, e não sei de onde me veio essa força, então eu disse que só voltaria pra casa quando terminasse de me divertir

eu estava comemorando a minha formatura

e puta que o pariu caralho porra, eu tinha esse direito.

 

desliguei o telefone

 

meu corpo

trêmulo.

então eu chorei

sentada no vaso, minha amiga jovens que éramos não sabia ao certo o que me dizer. limpou meu rímel borrado

tirou da bolsa

o dela e retocou a minha maquiagem.

 

-vou apanhar quando chegar em casa. – eu disse.

 

você já ia apanhar de qualquer jeito, pelo menos hoje você fez alguma coisa por você.

 

e me abraçou, minha amiga era a minha mãe.

ela sempre me dizia

que a vantagem de eu ser morena

era que, depois de secar tudo, não dava nem pra perceber que eu tinha chorado.

já ela, muito clara,

quando chorava ficava inchada, todo mundo vinha perguntar o que tinha acontecido. o problema

é quando o acontecido não cabe

em palavras, ainda não nasceu um jeito de explicar o que me aconteceu.

minha mãe é horrível eu não podia dizer

porque minha mãe não era horrível

minha mãe

era a minha mãe. então prefiro

deixar essa dor sem nome

ainda bem que sou

morena

e de fato quando me sentei na mesa com os pais da camila

e com a irmã e o irmão dela

ninguém percebeu nada, foi nessa hora que o fotógrafo se aproximou.

 

-junta a família. –ele disse

 

 

eu dei um leve

sorriso.

dinheiro

– dá sua mão – o porteiro me disse,

eu dei.

ele passou creme nela, espalhou bem.

– não é maravilhoso?

-sim, parece ótimo.

– leva a revista pra você dar uma olhada com calma nos produtos. 

-isso, leva a revista. –  incentivou o outro

que também estava na portaria, esse era morador.

– certo. – respondi pegando. 

 

– tá vendo como é fácil? –  o morador disse

piscando pro porteiro como se eu não estivesse ali.

 

 

 

 

 

primeiro rio

ela levantou o vestido

abaixou a calcinha e

sentou no vaso.

 

o xixi escorreu

 

mais denso do que de costume.

ela se secou e

no papel o sangue

que dia é hoje? ela pensou

olhou no celular.

pegou um pacote de absorvente na gaveta,

abriu e grudou

aquele barco anatômico na calcinha.

por que será que nas propagandas de absorvente o líquido que eles despejam pra mostrar que o produto aguenta

é azul?

um líquido vermelho ficaria muito forte para as pessoas que estão assistindo?

o que uma mulher vê saindo do próprio corpo

ela não pode ver também na tv?

e pensar que antigamente, a mãe da greta que conta, as mulheres usavam paninhos. depois lavavam no tanque, as mais endinheiradas jogavam fora,

o lixeiro pegando

podia pensar que alguém se machucou. engraçado

sangrar sem doer, a mulher.

dói a cólica

mas dói diferente da dor das coisas que sangram.

na cólica parece que tem uma

mão por dentro revirando tudo, mas não é dor de corte,

a anatomia da mulher já tem um corte

dividindo a carne da buceta como um sanduiche. a cor do sangue menstrual também é diferente, amarronzada, mas não dói

nada dói

e a greta ergueu

a calcinha. lavou as mãos. se encarou no espelho por alguns instantes. a primeira vez que menstruou ela tinha 11 anos

e estava com um rabo de cavalo igual a Britney Spears

que ela tinha visto na MTV.

ela queria ser a Britney

mas ser a

Britney

era tão diferente de ser ela mesma. então a greta colocava pó no rosto

pó de arroz da mãe

ela pegava escondido e passava

pra treinar as coreografias, a menina ficava parecendo um fantasma.

nesse dia

pulando e dançando na saleta perto dos quartos, ela

sentiu um algo descendo de uma vez só

 

Ploft.

 

correu pro banheiro, o melhor lugar do mundo pra tentar entender o nosso corpo quando coisas inesperadas acontecem com ele e

abaixou a calça

já manchada de sangue, seu rosto esquentou.

a vida inteira

a mãe dela tinha dito que

quando ficar mocinha você vai ver só o que é ser mulher

e aquilo

de ser mulher

parecia difícil

e confuso

será que agora eu não vou poder mais dançar Britney? e vou ter que fazer coisas como a minha mãe faz o dia todo varrendo

lavando

servindo as

pessoas da família?

 

Mãe. – ela gritou.

 

a porta do banheiro estava fechada

a casa um sobrado

a mãe trabalhando na lavanderia não ouviu.

 

-Mãe,

ela gritou de novo

 

abrindo a porta

saindo do banheiro, andando pelos corredores com a calça arriada

os olhos molhados, o medo

do desconhecido, ali a mãe ouviu.

largou os lençóis no tanque e correu pra ver.

 

que foi filha?

meu deus greta, levanta essa calça

olha os moços lá embaixo a janela tá aberta.

 

e de fato os homens

que trabalhavam no jardim

estavam olhando

praquela bunda de

11 anos

que já tinha jeito de bunda adulta

inclusive lembrava muito

uma bunda adulta

eles

não puderam deixar de notar.

a mãe subiu as escadas, a menina não subia as calças,

estava em desespero

no carpete uma poça

aquela mancha nunca mais saiu porque secou.

a mãe foi tirando

o chinelo

ao mesmo tempo levantando a calça da filha

e dando umas

na menina

que aquilo era uma pouca vergonha. os homens trabalhando no jardim continuaram de olho

até o fim do que sobrou pra ver, até a mãe levar a filha pro banheiro de novo.

a greta chorava

copiosamente, assustada com seu dia de caça.

no banheiro a mãe trancou a porta, os olhos vivos.

ligou o chuveiro

mandou a menina tirar a roupa. depois do banho ela ensinou a greta a colocar o absorvente na calcinha,

 

– tem que grudar bem as abas pra não vazar. assim, tá vendo? como um barco.

 

naquele dia mais tarde

a mãe levou a menina no

carrefour. disse:

 

-nós precisamos comprar algumas coisas pra você.

 

a greta ali

adulta no espelho

não lembrava de tudo que elas compraram naquele dia.

mas lembrava de um roupão

e da mãe dizendo

 

-agora que você menstruou não pode mais ficar pelada na frente do papai.

 

por que? ela quis perguntar, mas sentiu que

tinha a ver

com os moços do jardim.

no seu primeiro banho de mulher, a greta vestiu o roupão como se o tecido daquilo fosse de seda. com ele

ela se sentiu uma pessoa importante

pensou que não era tão ruim assim ser mocinha, acho que foi aí

que os peitos da greta começaram a crescer. e toda vez que ela menstruava eles inchavam de um jeito, pareciam duas mangas

despontando.

 

 

 

 

 

escrita noturna

risco um fósforo enquanto penso no texto que descansa

na folha,

tem alguma coisa nele que está fora do lugar, alguma descrição, talvez

do bairro que o personagem visitou.

digito no google o nome da rua:

 

passo

de foto em

foto

 

nenhuma me diz do cheiro que a noite tem ali, da cor das crianças quando dormem se elas

amarelam, do nome do dono do pub,

já sei.

meu personagem vai passar a noite sozinho no hotel

muito cansado depois da festa

por isso

ele vai dormir rápido

e de terno

enquanto a prostituta

do outro lado da cidade

toma coragem pra

discar um número, mas

não disca. é,

ela não disca, e assim eu não preciso me preocupar com a vista da janela. prefiro pensar nos meus personagens por dentro, investigar a vida interior que eles têm, porque as cidades não são nada

sem alguém olhando pra elas

não há descrição que fuja

do estado de espírito de quem as descreve.

 

 

(latidos na rua)

 

 

apago o fósforo.

acendo outro, eles sempre me ajudam a dissecar um texto, eles são a minha luz de cozinha. a prostituta, olho pro fogo pensando, vai se matar nesta noite, será que fica muito trágico? a maquiagem borrada na banheira. as olheiras enormes e cintilantes.

na exposição da Yoko Ono

eu li em uma das placas

exatamente isso

 

 

Acenda um fósforo.

 

 

nunca tinha lido antes qualquer coisa a respeito da força de um pequeno fogo ainda controlável nas mãos, o fazia intuitivamente

para me arejar os pensamentos

e a Yoko também

e quantas pessoas mais, ou seja, somos tão parecidos, alguns de nós.

ontem

eu disse para um amigo sobre o quanto a gente era diferente, ele riu. não concordamos em praticamente nada, nem nisso,

mas nos damos relativamente bem. apesar que

meu amigo

não me sai da cabeça

fico tentando entender como cabem aquelas opiniões nele sem doer, às vezes penso que ele está dizendo o contrário só pra me provocar

como se tudo fosse sobre mim

sendo que na verdade ele nem é exatamente meu amigo. não ligamos um para o outro quando temos problemas, ele está precisando de dinheiro e eu

não emprestei. ofereci carona e ele não quis. queríamos transar, há uns meses.

acabou não indo pra frente

então estamos

com essa amizade arrastada

com ele me dizendo o que não cabe na minha boca, gosto mais quando encontro semelhanças

porque a única coisa que sei amar é a mim mesma.

 

 

(alguém dá partida no carro)

 

 

apago mais um fósforo. na mesa

uma coleção

de palitos queimados. ajusto mais alguns detalhes no texto, distancio em léguas os personagens, penso agora em colocar cada um em um país. a puta

já é um cadáver na banheira, o homem

está roncando na cama. de barriga pra cima. com sapato no pé.

tem

um ponto de encontro

entre essas

duas cenas

a morte e o sono, o pau mole, o seio inerte. a água da banheira balança levemente por conta do vento, ela esqueceu a janela aberta. então, de vez em quando, o bico

do peito dela fica

de fora. na cena dele, no hotel, começa a chover. ninguém acorda. por enquanto nenhum dos dois acordarão. leio o texto

mais uma vez.

não é um poema

nem um conto

e ainda está faltando

alguma coisa. um encaixe. talvez

um título, vou dormir um pouco, quem sabe amanhã

eu acorde com uma ideia. tendo tido sonhos tão estranhos. noite passada mesmo

sonhei que meu pai esmagou uma borboleta pra mim

e depois que a minha amiga tinha amputado as pernas.

dei google e

sonhar com borboletas

é aparentemente bom, não sei se esmagadas, não tinha no site esmagadas. agora com amputação

já não era tão bom assim, representava que a vida estava me tirando coisas importantes,

é claro que a vida está me tirando

coisas importantes, respondi pro site, não é assim com você também?

desliguei o computador.

deitei na cama

e de repente me veio

a preocupação de onde

vou estacionar o carro amanhã naquele evento que não tem estacionamento

nem lugar na rua

vou ter que

andar sozinha de madrugada por um trajeto

longo

será que no fundo é tudo medo de morrer?