inversão

na garagem meu pai bate uma foto minha, estou usando a calça que ele me deu.

entramos no carro, peço coloca o cinto

olho pra ele colocando depois

coloco o meu.

abro

o portão da garagem

dirijo trocando

a marcha pro meu pai ver.

antigamente

era ele quem estava sempre ao volante, eu assistia o mundo do banco de trás,

assistia também o rosto dele

pelo espelho

nenhuma ruga, 30 anos,

a barba por fazer.

não sabia se ele me percebia olhando

eu reparava muito forte no rosto que ele tinha, ficaria com vergonha

se ele percebesse.

Agora,

ele respondia uma mensagem no telefone

sem notar que eu

estava dirigindo finalmente tão bem e não era isso, afinal,

dirigir bem? o passageiro se sentindo tão confortável que o motorista acaba invisível.

comecei a imaginar

meu pai daqui uns anos, com a morte

já perto

da boca. será que

ficaremos mais próximos quando ele estiver assim? precisando de ajuda até nas intimidades,

levemente a colher

entrando sem bater nos

dentes.

eu queria perguntar pro meu pai tanta coisa.

queria saber como foi

de viagem, quantos países ele conhece, chega de mentiras ou inconversas, você tem medo de morrer, pai?

você ainda sofre

com as humilhações que a mãe faz você passar? sinto que

você a ama

só não ama mais

porque ela te afasta com todas as forças do mar que ela é

então você não consegue chegar, já está muito fraco, porque vocês estão juntos há quarenta anos.

não desista dela, pai. quando você não está

ela fala coisas lindas a seu respeito, diz até que você a salvou.

abrace ela,

eu acho que vocês vão se resolver se ficarem abraçados por um momento, talvez por algumas horas. quando saírem do laço

estarão como eram quando tinham 14 anos

se conhecendo nos arredores do colégio. quase posso ver

exatamente como aconteceu

de tanto que a mãe me conta, de tanto que esse dia é importante pra ela, pai.

ela não te diz por medo

do amor, ela que nunca teve isso na infância

e a infância é essa potência de vida em poucos anos nos marcando pra sempre

e porque ela apanhou de fio de ferro, porque o pai dela tratava mulher feito lixo,

então agora ela não sabe o que fazer

quando percebe que finalmente pode confiar em alguém.

eu sei que o seu amor sozinho não vai salvar a mãe do Trauma, pai.

mas vai ajudar, tenho certeza,

eu também a amo e estou tentando,

um monte de pedra junta uma hora não deixa o caminhão passar.

o terreno seguro da mãe

é a dor, isso

não é sobre a gente, você sabe,

e eu tenho achado

que você está levando as coisas com mais leveza como eu tinha dito que seria melhor. mas agora

me diga de você, vamos,

me conte da sua

enxaqueca, senti-la se parece com que?

com uma luz explodindo? não pra quem vê de fora e sim a própria luz de dentro, explodindo.

ou é como o corpo

de alguém que estava

na beira e

de repente caiu? me dê uma imagem, pai, eu quero entender o que você sente. e porque sente há tanto tempo,

pelo hábito a dor diminui? é tanta coisa pai,

que eu queria saber.

você já leu algum texto que escrevi? você acha que sou melhor escrevendo do que no teatro? me lembro daquele seu livro

do telê Santana

deixa eu te contar uma coisa, eu

roubei esse livro pra mim.

é o único de futebol que tenho, sabia? gosto de tê-lo,

gosto de pensar que tenho

o único livro você fez questão de ter.

é tanta coisa que eu queria te perguntar, pai. pelo acúmulo

acabo sem coragem

não sei nem por onde

começar.

fico te olhando do meu banco

enquanto você digita a mensagem

por um segundo penso que você está enviando a foto que tirou de mim pra alguém.

divido minha atenção com o que você escreve

e a estrada

também a sua

presença

também o quanto tudo muda no carro quando você está.

aumento

o volume do rádio, porque o locutor está comentando

de um exposição na pinacoteca que acabou de chegar no brasil.

tive a impressão que a sua cabeça

levantou um pouco

e eu querendo que você saiba

o quanto eu me interesso por Arte

ao ponto de

aumentar o volume do rádio mesmo quando estamos em silêncio.

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