não sou a única

comprei o ingresso da peça
era pra daqui três semanas

essa lota, um amigo me avisou.

certo, respondi

e fui

até o teatro,

saí da bilheteria com o ingresso na mão

me sentindo

estranhamente incomodada.

mal dormi

naquela noite

a cabeça pesando por eu ter comprado algo pra daqui três semanas ou seja

para um mundo que ainda não existe.

quem serei eu até lá? já que cada minuto me molda

e quando chega a hora de dormir

sou outra

sendo a mesma sendo

outra em mini transformações. não gosto

de me organizar pro futuro, é como se eu me organizasse pro Nada e o ridículo que cabe nisso.

me sinto uma fruta

caindo da árvore

imóvel depois da queda

até que venha um cão e coma

a fruta que sou

sem que eu possa evitar.

o futuro é sempre uma previsão ingênua

baseada no que geralmente acontece em determinadas situações

como comprar um ingresso para uma peça

e ir na peça

mas

cabe tanta coisa acontecendo em três semanas. meu pai, por exemplo,

ele pode morrer.

então ao invés de ir na peça

vou enterrá-lo

sem jamais enterrá-lo

em mim.

claro que comprar tão antes um ingresso

não vai fazer meu pai morrer

ou outra pessoa que amo morrer

mas isso

poderia acontecer naturalmente enquanto espero.

quem? no mundo

sabe quais são

suas últimas semanas de vida.

podemos estar vivendo nelas

exatamente neste instante

sem notar, se notarmos

morreremos antes

ou então os dias vão nos escorrer

numa urgência de despedida

mesmo sabendo que não há tempo e principalmente por isso.

se alguém que amo morresse antes da peça

minha vida viraria do avesso

se eu morresse

nem tanto

mas em qualquer possibilidade a peça seguiria seu curso, o público rindo não precisa de mim.

a atriz brilhando

tampouco. o figurino depois da peça

no cabide. outra coisa que não gosto

é de arrumar mala. me sinto

arrogante em estar preparando uma roupa pro futuro

como se tudo na minha vida fosse dar certo e mesmo que dê: o medo que carrego escolhendo

o melhor sapato pro

Desconhecido.

depois que já estou no lugar

relaxo um pouco

afinal o que estou vivendo ali é presente

virando passado

e ninguém pode tirar de mim o que já me aconteceu.

as pessoas só podem me tirar o que eu ainda não tive. a sensação de ter tido

elas não podem me tirar. quando eu era

pequena

direto eu não podia ir pro lugar que planejei.

pra casa da minha amiga, eu tinha marcado,

em cima da hora minha mãe não me deixava mais ir. as coisas dão errado mesmo, ela me dizia. Pare de chorar por isso.

em excursões de escola acontecia sempre. meus pais assinavam a autorização

pagavam o valor. mas quando chegava no dia do passeio

minha mãe falava você não vai.

me acordava com a voz mais mansa

e dizia você não vai.

preciso da sua ajuda

pra cuidar da casa, da roupa,

da sua irmã. tá pensando que aqui é hotel?

e eu ficava imaginando

o ônibus indo

embora com os meus amigos

rumo ao parque de diversão, ao museu da língua portuguesa,

eles sem saberem porque eu não estava lá se tinha dito que ia.

aos poucos

todos foram percebendo

que não podiam contar comigo

e a surpresa de eu não estar

diminuindo, a falta que eu fazia também.

só em prova

eu não faltava nunca

ou na casa dos meus amigos quando marcávamos de fazer trabalho. terminávamos

e eles queriam brincar

eu brincava pensando tenho que ligar pra minha mãe e dizer que já

acabei (se eu conseguir assistir essa peça

será um

passo a mais pra tampar meu medo de não dar certo as coisas que planejo, preciso de muitos passos,

não menosprezo nenhum).

eu via meus amigos indo

em festas sem mim

e chorava

por dentro (se chorasse no rosto

apanhava

que chorar não é coisa de menina que tem tudo, minha mãe dizia)

então por dentro aquela chuva

por isso nasceu uma árvore em mim. foi quando eu acabei virando

uma pessoa que escreve

por conta da árvore de não ir que me nasceu. parei de acreditar que a vida me daria

um dia bom, parei de

esperar a diversão acontecendo pra mim

e ainda que ela aconteça: me vejo sempre de fora,

em câmera lenta. aí ontem

quando tentei marcar um café na sexta com uma amiga,

temos que conversar sobre poesia de um jeito que só consigo quando estamos juntas,

então ela me disse

que não podia confirmar nada

sexta era muito longe

ela não sabia nem se estaria viva.

Anúncios

2 comentários sobre “não sou a única

  1. ah essa angústia do futuro distante ou do próximo minuto, como superar?
    no fundo não passamos de loucos ansiosos, será?
    ou doidos por saber ou pra confirmar nossas previsões quase sempre tão negativas, por isso criamos esse pavor sufocante de expectativas a serem frustadas?
    aff

    Belo texto, Aline!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s