o médico e o monstro

você acordou inchada. toquei no seu

Rosto,

não sabíamos o que era aquilo.

deve ser dente, eu disse

é, você respondeu

mas se fosse dente, pensamos juntas, não era pra estar doendo?

te levei no médico, é melhor,

você querendo esperar

– o que? – perguntei.

Piorar, você pensou

mas não disse

essa vontade que às vezes temos de

ver as coisas ficando

realmente ruins em nós, assim quem sabe

as pessoas nos dão

algum olhar

e assim também flertamos

com a Morte

algo tão distante dos conceitos de estar vivo

e por não a compreendermos querendo tanto

então misturamos

morte com vida, pensamos que dormir é um pouco como morrer

sendo que morrer é morrer

e não se parece com nada que já fizemos antes.

chegamos no hospital.

seu rosto

estava ainda mais inchado

num silêncio de dor.

te ver assim
Crescendo

deixava claro o quanto somos

frágeis, num dia você dorme tranquila

no outro

acorda desfigurada, tem gente que

nem acorda,

o médico

te examinou com os dedos

você fechou os olhos como se aquilo fosse um carinho.

– é caxumba. –ele disse.

e receitou uma porção de remédios.

–até quando eu vou ficar assim? – você perguntou

preocupada com o tempo,

o seu tempo útil.

–de 5 a 7 dias. vou te dar uma licença pro trabalho.

-ah. – você disse querendo

agora mais do que nunca

ser outra pessoa

qualquer uma que não tenha

Doença. – achei que caxumba era coisa que dava só em criança. – você completou.

– não existe doença que dá só em criança.

-é contagioso pra quem nunca teve, doutor? – perguntei, de repente entendendo o risco de ter ficado tão perto do seu rosto pela manhã.

– sim, o vírus pode estar alojado em você.

e o meu rosto já inchando

só por prever que possivelmente incharia,

também uma dor

nas costas, é normal doutor?, esse medo de ter

um rosto grávido, as pessoas vão gostar ainda menos

de mim.

tem risco?

de eu ficar deformada pra sempre, quis perguntar,

o que eu vou fazer se eu ficar deformada pra sempre, sair de casa eu não ousaria, me olhar no espelho muito menos

mas a consulta,

lembrei,

ainda não era pra mim.

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