no mesmo prédio vai ser melhor pro garoto, disse a psicóloga

noite fria, eu querendo chegar

logo em casa

arrumar essas coisas que estão

no carro, tapete, umas flores, lá no meu apartamento e ainda dormir

o mais cedo possível

pra amanhã não acordar

escura no olho

me arrastando pelas

horas,

 

 

o menino já jantou?

 

 

perguntei pro pai

por mensagem

 

sim

 

até que ele respondeu rápido hoje

meu fim de semana

tinha sido um sonho (longe dele). por mais que agora nossas frases fossem

curtas e

monotemáticas, sempre sobre o menino, o que é muito melhor do que a convivência diária de briga que tínhamos,

ainda assim

o melhor mesmo é

não vê-lo. (ver meu filho

é vê-lo, um pouco, só que mais devagar. eles se parecem de lado,

dormindo se parecem ao ponto

de me deixar incomodada

vi uma foto do meu ex criança

eu não sabia que as pessoas podiam ter rostos tão parecidos assim. eles eram alegres de um jeito parecido, sem amarras, sem vínculos com as coisas que acontecem no dia

eram alegres, simplesmente, me lembrei então de

ontem, da criança que vi na rua

de mãos dadas com a mãe.

a cidade ao redor não engoliu aqueles dois, a cidade que aguenta a dor de ter uma ponte

também o peso de tudo o que passa pela ponte

não engoliu

aqueles dois e

apesar do caos

a criança dançava uma música que não estava tocando.

a mão da mãe não impedia

mas tentava endurecer o pulso do menino

que não estava ali, ao seu lado,

estava na música inexistente. a alegria dele

era maior que a mãe, maior

que a rua

era um grito

de liberdade que daqui uns anos ele terá cada dia menos.) dei seta.

mudei de

faixa

quando vi uma coisa que pensei ser um caminhão

daqueles que carregam presos. fui chegando mais perto

desacelerando pra não bater

na verdade aquilo

era um ônibus

com uma parte do motor aparecendo de tão velho.

mudei de novo de faixa pra ultrapassar e fui

lendo

o que estava escrito na lateral dele

 

E             s             c               o           l              a                r

 

esse ônibus me lembrou 1 que vi

numa viagem à campinas, mas aquele ficava parado como um museu

dizendo Era assim que as crianças iam para escola antigamente, com estofado.

agora esse da marginal,

estava ativo apesar de caindo

aos pedaços.

não tinha ninguém dentro, duvidei até que tinha motorista.

fiquei tentando

ver o rosto do motorista.

previ um pedaço

do braço

mas não ter visto o rosto

quer dizer que não sei quem é a pessoa, um braço se mistura

entre tantos pelo mundo

um rosto, bem menos. o ônibus

estava bastante

empoeirado, tanto espaço ocupado na estrada pra

carregar ninguém.

virei à direita

o ônibus continuou, alheio a mim, a noite alta

na janela do carro e

já quase

na minha rua

vi alguns meninos

correndo na calçada em direção contrária a mim.

a velocidade deles

vinha dos poucos anos nos pés

e um dálmata no meio. eu nunca tinha visto

um dálmata sem coleira, falam que essa raça é

brava, não parecia,

eles se olhavam correndo, o cão inclusive,

não pra ver quem chega primeiro

parecia ser apenas pra se ver.

a imagem deles

foi ficando

pra trás como tudo

se esticando

na minha mente

me acompanhando até a casa

do pai

do meu filho

virando um quadro

que quando fecho o olho

vejo,

cada vez uma parte, cada hora um rosto que invento. eu só queria ser alegre

como aqueles meninos, um dia eu fui

 

lá no quintal da minha vó quando eu tinha uns

7 anos

 

mas agora

agora a alegria me é

uma gaveta

trancada, não lembro onde

guardei a chave.

 

bati na porta.

meu filho atendeu.

 

 

oi mãe

e esse tapete

é pro meu quarto?

e essas flores

quer ajuda?

 

– vamos esticar o tapete lá em casa,

você me ajuda?

 

-a nossa casa não pode ser aqui?

 

– aqui é a casa do papai. o tapete é lá na casa da mamãe.

 

-a nossa casa não pode ser aqui? – ele repetiu

 

– a sua pode, amor,

você tem 2 casas,

a minha

e a do papai, olha só que menino de sorte.

 

meu filho

vestia uma blusa com a estampa de um

ônibus, engraçado.

 

você que deu? – perguntei pro pai.

 

-foi.

 

mas sou eu que levo

o menino pra escola (sempre desconcentrada, confesso,

não presto atenção nas perninhas dele

balançando a cada vista que ele descobre

da janela

no fundo se descobrindo, o que vemos carrega o que somos

e eu perdendo

o olho do menino

por tudo que está na minha cabeça que não é ele.

eu achei que

quando eu fosse mãe

esqueceria tudo pra pensar só no meu filho

mas 6 da manhã é muito

Cedo

tão cedo que

ser mãe me escapa.)

 

– vamos amor? precisamos ir.

 

e meu filho começa

a chorar

não quero,

não quero.

 

pego

ele no colo.

 

-ei, que é isso? vai ficar chorando aí com essa cara feia?

 

ele esfrega o olho

está com sono,

deita

o rosto no meu ombro e para.

 

 

meu ex segura o tapete

 

e as flores

deixa que eu te ajudo, ele

diz.

 

subimos calados

o elevador pro meu apartamento

 

olha só os 3

juntos como antigamente, pensa o

porteiro nos vendo

pela câmera,

eu fico olhando pra câmera

fixamente.

 

 

 

 

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