vinte e quatro de dezembro

 

achei uma tela no armário da lavanderia. minha mãe

deve ter comprado

naquela época

que ela começou a

se interessar por Pintura, depois

desistiu. não é pra mim, ela me dizia chorosa. não é

pra mim.

a tela

tinha amarelado nas bordas

os dias passando sem pausa

maltratam devagar

todas as coisas que existem

não escapam nem as sem corpo, as que não vemos,

o amor por exemplo

vai mudando ficando um pai

o que no começo era um salto

do topo

de um prédio. nada resiste

ao tempo, talvez o luto e mesmo ele

um cabelo longo que vai ficando

cada vez mais fino na ponta.

pobre dessa tela

em branco, esperando virar o que fosse, uma espera sem ansiedade de ser o que ela nem imagina, por enquanto ela segue vazia

igual a todas

que moram nas lojas. sorte das que

são escolhidas pelos grandes, o pintor que mora perto,

por uma questão de acaso geográfico ele entra na loja

compra a tela que mais gosta

e promete que paga

depois. o dono

que acredita no trabalho do artista diz:

 

-vá la.

 

pensando naquilo como um

investimento cultural pra humanidade

e o pintor sai alegre

pela rua

com o pacote debaixo do braço e uma garrafa de rum no outro.

me desculpe tela, por essa Falta. eu não sabia

que te tinha no armário

você também

não fez nenhum barulho. se eu fosse tentar

desenhar algo em você

viraria no máximo um depósito

de tinta

você prefere? ser depósito ao invés de nada. prefere guardar a minha tentativa de quadro

ao invés de não guardar, de não ser?

olhei no relógio,

era quase natal. o primeiro

que vou passar completamente sozinha, um sonho antigo, e agora que ele está acontecendo

não é tão bom quanto eu imaginava

não sei o que fazer com o espaço que tenho

acabo não fazendo nada

e logo depois

acabo fazendo uma faxina

no armário da lavanderia, encontrando essa tela

de quando a minha mãe era viva, seu interesse por pintura durou tão pouco.

ela era assim, se distraía rápido,

o mundo ao redor lhe guardava promessas, ela ia pulando

de sonho em sonho, sem jamais se aprofundar em nenhum. será

que tem tinta no armário?

Procurei.

vi

lá no fundo

uma caixa de sapatos.

abri e

sim, tinha um pote

de tinta

azul, outra vermelha, outra

verde e

um pincel. tirei a tampa.

senti um cheiro

denso de quase não perceber que elas já estavam estragadas,

levei todas pra pia.

coloquei um pouco de água quente da torneira

mexi com uma colher.

se eu comesse

aquelas tintas

eu morreria? pesquisei na internet:

 

engolir tinta velha mata?

 

o google disse que

Não.

dores de barriga terríveis, contorções,

estava escrito em um site. mas morte,

não.

então deixa,

peguei um pano molhado e

passei na tela, pra tirar o pó.

lavei o pincel com detergente pra amolecer

coloquei tudo no chão da cozinha

decidida a tentar

um desenho

quem sabe eu não levo jeito (é o que todo mundo pensa

quando começa alguma coisa).

como será que foi o primeiro quadro de Van Gogh? será que

aquilo de pintar tristeza

solar em tudo

já estava ali, na primeira pincelada?

o que ele sentiu

quando pintou pela primeira vez? que era isso que ele queria fazer pra sempre?

ou será que ele não sentiu

nada e

mal se lembra?

um dia eu perguntei pra uma cantora que compõe, você se lembra da sua primeira música?

não, ela me disse, depois de pensar um pouco.

deve ter sido tão ruim que

eu nem considerei 1 música,

 

( o telefone tocou )

 

 

-alô?

 

-oi amor.

 

-oi, e aí? chegou bem?

 

-cheguei. não pegamos trânsito.

 

-que ótimo.

 

-tá um calor aqui.

 

é? aqui tá tranquilo até, mas

tô descalça.

 

-já tá arrependida de não ter vindo?

 

-não começa, vai. a gente conversou sobre isso ontem com tanta

calma,

eu achei que você tinha entendido.

 

– eu nunca consigo te entender. eu só Paro

de discutir

porque sei que a discussão não vai levar em lugar nenhum. quando você mete alguma coisa na cabeça

ninguém tira, fazer o que.

 

-não tem nada a ver com você eu ficar. estou ficando por mim, eu

preciso desse tempo sozinha, eu nunca tenho esse tempo.

e estou no meu retorno

de saturno, lembra?

eu preciso descobrir

as minhas amarras

e pra descobrir eu preciso ficar

em silêncio

que uma casa na praia com a sua família não vai me dar. tenta me entender,

por favor.

 

-eu tento.

 

-que bom. depois a gente se fala melhor, então. que eu tô aqui no meio de uma faxina.

 

-faxina? mas você não precisava ficar em silêncio?

 

-é uma faxina silenciosa. isso faz parte do processo, sabia?

 

-certo. a gente se fala depois, então.

 

-um beijo.

 

 

voltei pra tela.

mexi as tinhas mais um pouco

e fechei os olhos.

tentei baixar as

expectativas de ter que fazer uma boa

primeira tela, daquilo ser um termômetro de qualquer coisa,

um talento por exemplo,

uma faísca na minha vida finalmente, Não. aquilo

era só uma tela

que eu ia deixar

um pouco menos morta. respirei fundo.

peguei no pincel

ele escolheu a cor da tinta. depois soltei

o corpo da mão

na tela.

enquanto ela trabalhava

fui cantarolando, de olhos sempre

fechados, uma música inventada que ficou assim:

 

as cores são como pássaros

nas árvores

são como frutas

pro cão sem casa

como um livro

de poesia na estante

e a morte, a morte é como um gelo

no freezer

em formato de

cruz.

 

era uma música quebradiça, percebi, a melodia principalmente,

mas deixei

minha voz livre

enquanto a mão trabalhava

por mais de meia hora os olhos fechados sem dormir. quando abri

pra ver a

tela

 

 

meu deus era o rosto

da minha mãe.

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