Jazz

parecia uma caverna, o lugar. entrei e

da porta tocou um sino

avisando,

uma loira me deu boa noite

se virou pra pegar o cardápio.

eu queria ficar perto

do palco mas

cheguei tarde, as melhores mesas já estavam ocupadas.

me sentei então ao fundo

a loira se aproximou.

passou um pano

na minha mesa, acendeu a vela e largou o cardápio ali.

olhei pra frente,

 

um pilar atrapalhava

 

a minha visão dos instrumentos, pensei aqui não é

um bom lugar, então migrei

como fazem as aves

para o banco que restava

no balcão.

 

a loira mascando chiclete me perguntou de dentro

do bar:

 

– vai ficar aqui mesmo?

agora sim. dali não dava pra ver muita coisa.

-já sabe o que vai beber?

estou escolhendo ainda.

na parte de cima tem uma loja de discos. – ela avisou. – fica aberta a noite toda.

-bom saber.

 

a loira entrou pra cozinha. fiquei imaginando

as pérolas musicais que tinham

em cima da minha cabeça, bastava subir as escadas. mas eu não estava podendo gastar muita grana,

essa noite já era um excesso

caiu hoje a última parcela

do meu pagamento e com essa crise

quem?

vai me contratar pra escrever sobre

livros.

olhei ao redor.

tinha uns velhos

bebendo uísque ainda com a roupa do trabalho,

algumas mesas com casais

as mulheres vestidas elegantemente

coques, colares e uma mesa grande

com amigos

que não saiam do telefone, batiam fotos de si mesmos

e se filmavam.

 

que horas começa a banda, cê sabe? – perguntei pro sujeito ao meu lado.

11. – ele respondeu por cima do copo.

ótimo,

obrigada.

eu sou amigo do pianista.

ah é?

– na verdade sou amigo de todos da banda, nos conhecemos na faculdade. na época eles já tinham esse grupo

só que com outro nome

chamava all that feeling

ou algo assim. mas meu amigão mesmo é o pianista.

 

sorri sem

os dentes. ele continuou.

 

-o cara é bom, viu. a banda toda é. eu

até que me arrisco no baixo, mas

só entre amigos, não toco profissionalmente. apesar que eu poderia,

se eu tivesse me dedicado,

talento eu tinha.

(ele deu um gole na bebida)

sou advogado,

tenho cara? acabo fazendo mais grana que todos esses músicos juntos. faço mais grana que o dono dessa casa. bar dá muita despesa,

cê não acha?

 

balancei que sim

e virei de costas pra

encerrar o assunto, quem fala muito sobre si mesmo não me cheira bem.

chamei a loira. pedi uma

cerveja.

 

você tá sozinha? – o sujeito me perguntou.

 

quando alguém senta

de costas pra você

isso quer dizer que a pessoa não quer mais

falar com você, fiquei com vontade de responder.

disse, ao invés,

 

– eu gosto de mulheres, tá legal? vê se dá um

tempo.

-por mim não tem problema. – ele riu surpreso – até prefiro

que seja à três, você é muito magrinha.

 

 

mas que filho da puta.

fiz questão

de não olhar mais

pra fuça dele

não queria ler os

pormenores

daquela reação que eu já previa

típica desses homens que pensam que as mulheres estão no mundo para satisfazê-los. eu estava completamente sem saco

para homens daquele tipo

então a loira trouxe

a minha cerveja

eu bebi lenta

tentando me acalmar.

foi quando a banda subiu no palco

do inferninho

a bateria

o baixo

e o piano em cima de um grande tapete persa.

como aquele piano entrou ali, meia cauda,

enormemente pela porta de sino? deve ter sido pela janela

ou construíram a casa

ao redor dele que

já estava, sempre esteve, se move pouco o que tem tamanho.

os três homens

assumiram seus postos nos instrumentos

o sujeito do meu lado aplaudiu os amigos com assovios e palmas exageradas.

que grande babaca, pensei, e decidi mudar

de lugar de novo

a loira não vai gostar nenhum pouco

mas o que posso fazer?

peguei uma mesa alta

que um casal tinha acabado de abandonar, pra minha sorte.

 

-vocês não estão mais usando aqui?

-não, – eles disseram indo embora.

 

por que será

que eles foram embora? bem na hora do show.

e milagrosamente eu fiquei

bem posicionada para assistir a banda, longe do camarada

mas não o suficiente

que aquilo era um lugar pequeno.

 

o pianista pegou o microfone.

 

senhoras e senhores, boa noite. eu queria agradecer a presença de todos vocês

em especial de um velho amigo nosso

Carlos Savana.

 

e o pianista pediu

uma salva de palmas para

adivinha quem? o Babaca,

ele levantou do banco como se não quisesse

tamanho alvoroço apenas por estar presente.

agradeceu com o tronco os aplausos

e ficou me olhando

como se dissesse

Viu? esse cara

não entendeu nada, não é que eu estava duvidando que ele era amigo dos músicos, era só que eu estava achando ele um idiota e claramente eu tinha razão.

mas não vou estragar

a minha noite, não por ele, eu vim aqui pra ficar em paz,

maldita hora

que eu perguntei o horário, pra que? saber do horário, deixa

as coisas fluírem, eu tenho que parar

de querer

me preparar pros acontecimentos, preciso perder essa mania de uma vez por todas. na terça eu vou conversar

com a minha psicóloga

e também dizer

que não posso

mais pagá-la, agora que fui demitida. seu tratamento não pode parar, ela vai me dizer. então me atenda de graça, vou replicar,

quero ver a cara dela.

 

nós vamos começar com três músicas do nosso disco novo

que está à venda na loja aqui de cima,

depois fazemos um pequeno intervalo

pra beber um pouco que ninguém é de ferro.

(a plateia riu)

na volta seguiremos com mais música, espero que vocês tenham uma ótima noite.

 

as pessoas aplaudiram animadas. ele sentou no piano, olhou para os companheiros e

os três começaram

a Tocar.

logo na primeira nota

meu corpo todo se

conectou

com a banda virando uma

chave em mim

que me fez

esquecer num estalo

do idiota,

da demissão,

da loja de discos que não posso

comprar, a Música tem

esse poder.

dei um gole na minha cerveja

meu pé já balançando

no ritmo

como tocavam bem aqueles caras

que sintonia

que coração. eles se olhavam

rindo como se fosse

fácil, transavam com os instrumentos

de vez em quando fechavam os olhos,

as mãos rápidas pareciam tocar uma mulher

até o

gozo.

tive a impressão que eu os conhecia de séculos,

esqueci que eu estava em

são paulo

me senti em nova orleans

aqueles quadros de billie holiday na parede

chet baker

miles davis

e como deve ser calejada

a mão do baixista

olha a grossura

daquelas cordas

e a delicadeza do som que ele tira

eu poderia morrer

numa nota

que nada em mim ficaria pra trás.

 

-você gosta mesmo de jazz, né. – a loira me disse, levando embora

minha garrafa vazia – quer mais uma?

 

seu humor

havia melhorado consideravelmente

ela nem comentou

minha terceira mudança

de mesa.

 

-não, obrigada. você também gosta de jazz?

-e de mulheres, – ela disse saindo

 

reparei na simetria

do corpo dela se afastando

depois voltei meu olho

pra banda

me sentido aberta como uma flor.

 

 

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