no lobby

vejo seu mário passando, meu deus como ele está

velho,

a humanidade inteira

envelhecendo, acontece que nele

de longe se nota

na corcunda, especialmente, aquilo parece a morte escapando.

mas seu mário aguenta, Quer aguentar,

talvez isso dê a ele um tempo extra,

talvez isso

não dê a ele coisa alguma, eu mesma já vi

velhos que lutam

morrendo como pássaros numa cama de hospital.

 

-foi de gripe. papai morreu de gripe. – o filho diz

no enterro, também o filho já velhíssimo

e ainda dizendo papai.

 

nunca vi

seu mário com gripe. se tossir, à essa altura, é capaz que ele

exploda.

sinceramente eu gostaria

de ver seu mário pelado, deve ser uma aula de como a vida pode

curvar um corpo pra terra

já que é pra ela que iremos

assim que tudo

acabar.

seu mário

anda sempre com uma pasta

debaixo do braço

como se ele fosse resolver algo

na rua.

meu avô fazia isso também,

no fundo

absolutamente nada pra resolver, mas seu mário se veste,

dá beijo no porta

retrato da esposa e pega

a pasta,

sai pelas ruas com ela e com um pouco de dignidade.

quando vejo seu mário passando

sinto uma

vontade de puxar-lhe o braço e perguntar o que tem nessa pasta, afinal.

cartas? papéis

em branco, essa pasta, sabemos, é o jeito que o senhor encontrou pra seguir sobrevivendo. sinto vontade de furar com faca

a corcunda do seu mário pra ver se ela

murcha,

estatisticamente ele está mais perto da morte

do que qualquer um no meu prédio,

quantos velhos já soubemos que se foi por um recado de missa no elevador?

uma vez

eu estava numa praça cheia de cachorros.

de repente chegou um boxer

e os cachorros

pararam de brincar

alguns ficaram agressivos, outros abaixaram o rabo. eu pensei que aquilo era

uma rixa entre eles

mas a dona do boxer me disse que

não,

que aquilo era porque o seu cachorro estava velho

e os animais não aceitam

nenhum tipo fraqueza.

outro dia eu desci

o elevador do meu

prédio, precisava ir no mercado e

esbarrei com o velho.

ele estava conversando com o porteiro, animado como sempre, a farsa diária de ter um trabalho dentro de uma pasta e se sentir importante.

no banco ali da área comum

tinha um menino com a mãe

esperando a vã do colégio.

seu mário ficou

reparando no menino

e na mãe brincando com o filho cantando uma música.

 

oi Ângelo, tudo bem? – o velho disse. – bons estudos pra você.

 

o menino não respondeu.

ficou olhando

pro velho

a mãe olhando pro menino

que a educação que ela dava era de responder o que perguntavam, o Ângelo mudo.

então ela cutucou o filho,

responde o vovô.

 

-brigado. – ele disse finalmente.

 

com uma mochila de rodinha ao lado, a lancheira em cima,

o logo da escola no peito da camisa como se fosse um país. que orgulho estudar

lá, ter amigos, uma professora,

o Ângelo não sabia que professores tinham uma vida além da escola,

sem aluno ele achava

que os professores dormiam esperando,

o menino era branco e liso como porcelana

pela cabeça dele não passava que, se não morresse antes, um dia ele ficaria velho também

igual aquele vovô

e veria criancinhas

indo pra escola de vã

ingênuas por isso animadas

com o dia que virá

e sentiria uma certa

inveja

do Tempo que elas tinham pela frente

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