pequena aula de literatura

 

decidi sair pra escrever num café perto de casa. ando muito reclusa, quase me perco quando tento me comunicar naturalmente com alguém.

se eu continuar assim

olhando só pra parede enquanto escrevo

meus textos vão secar de um jeito pouco criativo ou interessante pra literatura de boxeadores que eu gosto, aquela que tira o leitor do lugar, esmurra, mata, beija, rouba a alma, como eu posso tirar alguém do conforto estando tão confortável? o bom escritor é aquele que nem parece estar escrevendo. é aquele que transpassa o livro e chega

direto no peito, uma flecha

uma flor, um copo d’agua que seja, mas

no peito.

um amigo me disse

que um verdadeiro músico

tem que fazer as pessoas esqueceram do tamanho de um instrumento

ou seja transpor a matéria

pra virar só o som

como se caísse do céu. um escritor

deve fazer o mesmo. todos os artistas

se são artistas

devem fazer

isso de deixar a mesa

limpa.

então eu peguei

meu caderno, a caneta, coloquei na bolsa e saí caminhando na manhã fria

cheia de pombos como naquele filme do macaulay culkin

sozinho no natal.

engraçado que

os pombos demoram pra levantar voo quando passa um carro

parece que o carro

vai pegar o pombo

quase vejo pegando

mas naquele milésimo de segundo do antes da roda tocar na pena

o pombo voa

sem classe alguma

para um lugar baixo

um banco de praça, um degrau. e ali ficam, entre eles, ciscando como quem não quer nada. eles são ótimos

em não serem influenciados pelas coisas ruins que lhe acontecem. ou as boas, o que também distrai. eles são sempre serenos, intocáveis, vez em quando passa alguém comendo

eles caminham logo atrás. são ratos que voam, uma amiga costumava dizer. mas agora ela está morta, não de fato, só pra mim,

já que nunca mais nos telefonamos e o tempo vai tornando completamente fora do contexto alguma de nós nos ligarmos, vai ficando

esquisito, mas

não dói.

cheguei no café. escolhi uma mesa do lado de fora, com os fumantes, não que eu seja. acontece que os fumantes costumam soltar o que sabem

pela fumaça

e sentada perto eu posso sugar o que eles jorram, discretamente.

na mesa ao lado, por exemplo, tinha um homem que fumava. ele estava sentado de frente para uma mulher que não vi o rosto

tampouco tentei qualquer truque

pra descobrir

preferi ter dela só o cabelo, o casaco xadrez,

além de vê-la pelos olhos daquele homem.

pedi meu café,

a garçonete cansada me disse:

 

-já trago.

 

se eu trabalhasse num café

os primeiros dias poderiam ser interessantes, no começo as coisas são.

depois passa

e no fim até as paixões mais genuínas acabam virando um pequeno inferno particular.

abri meu bloco de notas,

li desanimada meus últimos rabiscos

esse romance que estou escrevendo não está ficando bom, acho que vou deixá-lo de lado por um tempo e

ler mais, quem sabe fazer uma viagem. pra argentina

esse antro de grandes

escritores, lá as pessoas leem nos cafés o tempo todo,

foi quando eu comecei a ouvir

a conversa do fumante com a mulher de costas,

 

 

-não consegui terminar de ler essa parte da história. – ele disse. – sou pai, entende. pensei na morte da minha filha e comecei a tremer. juro pra você que eu tremia dos pés a cabeça. você chegou a ver o filme?

 

-vi. – ela respondeu.

 

eu também, o filme eu consegui ver inteiro. o livro eu pulei toda a parte da morte da menina, é muito duro aquilo, meu deus, tem muito detalhe.

e o pior é que me virou uma chave. de que é possível morrer muito jovem,

é claro que a gente sabe que é possível morrer muito jovem,

mas a ficha caiu de verdade pra mim. eu fico colocando o dedo no nariz da minha filha quando ela tá dormindo

pra ver se o ar tá saindo mesmo, a coitada deve sentir um puta cheiro de cigarro.

 

cê não acha que tá levando essa história muito a sério?

 

acho, claro, mas o que eu posso fazer? a porra toda entrou em mim de um jeito que eu não consigo mais tirar. eu acho que uma parte do meu cérebro acredita mesmo que aquilo aconteceu.

 

– se as pessoas soubessem o quanto um livro pode ser poderoso elas leriam mais.

ou menos.

 

-o foda é que eu sou cristão. aí você imagina como eu fiquei naquela parte da cruz, que a menina ressurge.

 

mas esse é um tipo de história que precisa da fé do leitor, né? porque na verdade o autor não consegue provar nada.

 

-ah sim, isso é. o problema é que eu sou exatamente esse cara. eu acredito em qualquer coisa.

 

eu nem tanto. quando eu era assim (ela apontou com o queixo para uma menininha que estava comendo com o pai) eu ia na igreja todo domingo,

minha mãe era muito religiosa.

eu sentava no banco e me sentia uma idiota ali, não conseguia encontrar significado em nada, achava um porre. quando era hora de rezar depois de receber a hóstia, todo mundo abaixava a cabeça, eu aproveitava pra reparar nos meninos.

 

o cara riu. disse Cê não presta e

acendeu um cigarro.

eu lembrei de mim

criança

sentada no banco da igreja imaginando que aquilo era uma árvore morta

aí a minha bunda morria um pouco também.

a moça continuou,

 

-no enterro da minha mãe veio um padre rezar pra ela, antes de fechar o caixão.

 

-ah isso é normal, sempre vem. é pra dar paz pro morto.

 

sim, mas eu tive que pagar esse padre. fiz um cheque pra ele dar a benção pra minha mãe. agora me diz como

eu vou acreditar

que uma benção paga tem algum contato com o sobrenatural? dinheiro é uma energia crua

ele não tem nada a ver com elevação espiritual.

 

o cara concordou com a cabeça.

 

-como eu posso pagar por uma coisa invisível?

 

-pensa, o padre tem as contas dele, o cara também não é nenhum monge.

 

-não mesmo.

 

o homem chamou a garçonete.

 

– você fecha pra gente?

-claro.

 

a moça de costas puxou a carteira.

 

-deixa que eu pago. – o homem disse.

-Magina.

– é sério. eu faço questão.

– para de bobagem, vai.

– faz assim então, eu pago essa e na próxima você paga.

 

a garçonete se aproximou com a conta. ele tirou a carteira do bolso, pegou o cartão. errou a senha,

depois acertou.

 

-tenham um bom dia– a garçonete disse,

se retirando.

 

os 2 se levantaram, eram altos,

o homem me deu uma olhada

eu fiz que estava

introspectiva.

 

-vamos continuar marcando esses papos. – ele disse pra ela. – eu gosto de conversar com você . – e ensaiou um abraço

meio de lado

que acabou se tornando uma tentativa frouxa de algo naquela imagem deles dois se afastando

de mim, claramente,

deles mesmos

especialmente.

 

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