sem barulho

estou começando a entender que meu pai se Foi

enlouqueço quando penso nisso, é uma sensação constante de tiro entrando, então eu

prefiro imaginar meu pai numa viagem Longa.

penso na roda do trem

em contato com o trilho

e no peso do meu pai no banco

com uma mala pequena no colo, um chapéu, rumo a um lugar tão distante que a viagem não acaba nunca.

a morte é isso, nada de

cemitério

ou daquela imagem da fuga de vida no corpo que insiste em roubar todas as outras que tenho dele.

tento pensar só no trem

indo tão

forte

meu medo é esquecer o rosto do meu pai

e imaginar apenas uma pele

sem feição por baixo do chapéu.

 

isso de esquecer um rosto demora, precisa de anos de morte

ou muita dor. – a psicóloga disse

na tv

 

e como eu estou evitando a dor com a imagem do trem

então o rosto do meu pai vai ficar na minha mente

por um tempo (o esforço diário

de uma prisão

de ventre) antes de eu ter que recorrer a alguma fotografia

que nunca trás o verdadeiro rosto

traz uma expressão congelada que se parece um pouco

com a morte. nos túmulos eles colocam uma foto da pessoa

geralmente séria

vestindo paletó.

eu olho praquelas fotos e fico imaginando a vida que a pessoa teve

mas na verdade eu só consigo imaginar a minha própria vida

projetada.

eu devia contar pra minha mãe desse jeito de entender a morte que dói menos

mas a gente não está conseguindo conversar

mal nos olhamos, quando nos olhamos

a dor cresce

é impossível ficar no mesmo cômodo

que ela

é morrer um pouco todo dia junto com o meu pai sem encontrá-lo, encontrando apenas a dor.

então eu passo pela minha mãe como um vento,

(quando eu era criança ela

me ensinou uma oração que tenho de cor e

rezo, isso é guardar em mim

um pouco dela nos bons dias que tivemos) dou oi sem olhá-la (o esforço)

subo as escadas

direto pro meu quarto.

deito na cama tão cansada

as lágrimas me são

diárias e nasce

1 lagoa

entre o pescoço e o osso do colo.

olho pro teto

meu peito vai subindo e descendo no movimento de tirar de dentro o que machuca pra virar

gota, eu sinto a solidão me subindo as pernas

e penso

na minha mãe lá embaixo

na cozinha

mais um dia jantando só

a comida difícil de engolir.

levantei da cama. vou comer com ela, decidi.

não podemos ficar nos evitando desse jeito. vou dizer pra ela que a Culpa

não é nossa

o pai está morto

mas a gente

não. e vou contar pra ela do trem, vou falar

imagine uma viagem longa

lembra quando pegamos aquela maria fumaça em campinas

e a viagem parecia não ter mais fim? é como o pai se sente, mãe, 

Indo,

uma hora também nós

iremos

calma que o mundo inteiro

irá, mas

ainda não.

então a gente vai

se abraçar,

conseguiremos nos olhar

de novo

ainda faltará alguma coisa mas

será melhor do que sofrermos cada uma num cômodo

da casa criando

raízes.

desci as escadas com coragem.

entrei

na cozinha

foi quando eu vi

a faca

enterrada no peito da minha mãe.

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4 comentários sobre “sem barulho

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