um homem

lentamente ele caminhava, nunca foi do tipo que se importa com relógio. às vezes

ele se sentava no

velho sofá (era como se sentar na mãe

da maneira que ele fazia quando criança

se abandonando no colo materno e ela conversando com o pai, com a vizinha,

sem jamais tirá-lo dali) e lia

o mesmo poema de sempre

cada dia aquilo lhe batia de um jeito

era parecido com acordar e viver a

rotina, é igual ao mesmo tempo que nunca é.

ele tinha uma calma também pra vestir o pijama

tirar a bota, o jeans,

e se deitar

cobrir o corpo com aquele cobertor de casal, a parte dela escorria pelo chão.

ficou um buraco na cama desde que ela se foi

mas ele nunca esticava o corpo pra preencher o que fosse

gostava de dormir no seu canto

quando estava frio ventava um pouco no buraco que ela deixou.

até tinha

1 mulher

que ele pensou em convidar pra tomar um vinho

interfonar e dizer

-escuta, quer fazer alguma coisa? eu sei que a gente não se conhece,

mas todo grande amor

um dia não passou de um desconhecido. é preciso que se dê uma Chance.

era isso

que ele queria dizer toda vez que trombava com ela no hall de entrada

mas ela

tinha dia que olhava pra cara dele e cumprimentava

em outros (a maioria) não.

então ele não sabia bem Como ela o via, com olhos de que.

vamos ficando velhos e

algumas coisas até que

amaciam na gente

mas a angústia diante de uma pessoa que nos interessa sexualmente nunca passa. se diminuir diante de alguém que nos interessa amorosamente

não Passa com a maturidade, é mentira o que dizem nas propagandas sobre longevidade e planos

de saúde.

ele escreveu um poema sobre isso

e depois

jogou fora

achou aquilo pueril demais. foi até a janela

com a sua cerveja e seus goles.

morava no centro

com vista para uma praça de skate.

era uma boa janela, aquilo, quando tinha gente andando, tentando andar.

quando não tinha ninguém

dava a impressão de que ele estava vivendo tão só ao ponto de se transformar em uma parede,

quem?

vez em quando

não precisa de um cenário humano.

fazia tempo que ninguém passava um pano naquela casa.

os móveis

esperavam pacientes

a camada de pó formava um casco.

no fundo

os móveis sabiam

que o pó é o tempo passando

em cima da mesa que apoia os livros, em cima dos livros,

as letras guardam uma época

– hoje em dia ninguém mais fala assim,  – dirão quando abrirem aquilo em 50 anos.

os móveis sabiam que ninguém lhes tirariam o tempo de cima,

ninguém tem o poder de tirar o tempo de cima, só o amor.

então o homem lento

saiu da janela. deitou no sofá e dormiu com a boca

ligeiramente aberta. a barriga dele subia e

descia, aquilo dava uma vontade de chorar. porque a vida é isso

esse sobe e desce

ficar imóvel é como morrer por isso tantas esculturas no cemitério.

(um gemido involuntário escapou da boca do homem,

parecia um frase dita em russo e talvez fosse)

se alguém estivesse ali

assistindo aquele sono

acharia graça

um homem enorme do tamanho de um hipopótamo dormindo

igual a um bebê, igual a uma música no momento em que ela acaba.

mas não tem ninguém ali, o assistindo

apenas eu

imaginando

a noite de um homem que mal conheço

a noite de um homem que quando entra no lugar em que estou

me deixa em pavor e glória

quase não consigo ser o que sou perto dele.

parece frágil demais existir sendo eu enquanto ele lê um poema ou conversa com poetas, imagino que esse homem

morrerá antes de mim.

é mais velho

bebe mais

e seu enterro será lotado de amigos que não se aguentam, choram e se abraçam numa saudade insuportável.

eu também estarei lá

invisível já que não sou da turma.

tirarei uma foto daquela gente toda

cada um gostava do homem lento que morreu de uma maneira específica, o meu jeito de gostar era imaginando como ele fazia

quando estava totalmente só.

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