sobre sonhos

ela chegou do trabalho, abriu a porta de casa. ele estava no sofá, lendo, a tv ligada no mute.

ei. –ela disse.

-oi. – ele se levantou.

deu um beijo

nela. – tudo bem?

-tudo. – ela disse tirando a bolsa do ombro, colocando em cima da mesa. – o que você tá lendo assim

tão compenetrado?

seu texto novo.

mentira? você imprimiu?

-uhum.

– olha só! que milagre você me lendo.

que absurdo você dizer isso. eu te leio sempre.

mas você não gosta.

– eu adoro o que você escreve.

– você me adora, – ela disse sentando no sofá. – mas você não gosta das coisas que eu escrevo.

o que me tranquiliza é que você não se interessa por literatura.

você gosta de dizer isso, né? diz de boca cheia.

mas é verdade. você não se dá ao trabalho de ler outras coisas

sem ser esses livros tijolões,

na livraria você já vai direto pra bancada de  best sellers, não lê nada de literatura, muito menos brasileira.

ele deita no colo dela.

-me coça um pouquinho? – ele pede, tirando a camiseta. ela diz que não, mas

acaba coçando. suas unhas, agora, estão grandes. ela mal reconhece a própria mão.

– os livros bons que você tem são da época do colégio. eles até destoam da sua prateleira. vou roubar eles pra mim.

-pode roubar.

-o que cê tá achando do meu texto?

– lindo.

– fala a verdade, vai

é sério, é lindo mesmo,

eu só acho que

você devia escrever

mais histórias, entende? com enredo e tal.

você anda escrevendo muitos textos sobre sensações. sobre cantores que você gosta, pintores. eles parecem ensaios, seus textos. eu prefiro quando você escreve uma história, sabe? um continho. me prende mais.

eu não sei escrever assim. essas histórias com começo meio

e fim.

claro que sabe. eu já li alguns seus desse jeito. muito bons, inclusive, eu vejo potencial, gosto do como você termina seus contos.

mas faz tempo

que você não escreve 1 desses. às vezes eu acho que

você acaba falando demais sobre si mesma.

– eu escrevo o que eu tenho vontade de escrever. sai naturalmente.

e  também eu não sei fazer isso que você tá dizendo, escrever uma história pra amarrar as sensações do texto. eu escrevo do meu jeito, um jorro.

e outra,

é sempre sobre a gente, viu, não se engane. aquele cara do games of thrones, adivinha? os livros são sobre ele.

– você nunca leu games of thrones, não fala merda.

e claro que você sabe fazer história, você fez isso no seu romance, lembra? tem a parte poética, mas ela

tá à serviço da história. aquilo prende mais o leitor, pelo menos um leitor como eu. acho que contando uma história você consegue aumentar seu público. se você ficar focada só em algo mais artístico

sei lá, o texto fica muito restrito.

-não vejo problema nenhum nisso. eu escrevo o que eu quero

e pronto,

não me importa se eu vou vender ou não.

– você que sabe. foi só uma sugestão. mas todo escritor quer ser lido. se não, pra quê escrever, afinal?

– é claro que todo escritor quer ser lido, não é disso que eu tô falando.

eu tô falando desse querer agradar. tem gente que acha que eu escrevo demais sobre morte, por exemplo. que meus textos são tristes, não dá pra ler

sem chorar. foda-se, eu tô cagando pra isso, entende? a vida também é triste

aliás pra caralho

imagina se eu for ficar mudando meu estilo só pra agradar as pessoas? isso não tem cabimento e também não tem fim.

eu tenho que escrever sobre as coisas que me brotam, as minhas obsessões.

se não, eu nunca vou conseguir escrever um texto com qualidade.

-sim,

você tem razão. 

não vou mais me meter no seu processo criativo. – ele disse acendendo um cigarro.

-é melhor.

vou tomar banho. – ela disse se levantando.

no banho

a água do chuveiro parecia uma chuva se não tivesse gosto de

cano,

chuva tem gosto de

tempo, ela abriu as mãos, passou sabonete nos dedos, pelo corpo. pensou em escrever um texto sobre o banho

de uma mulher triste

(aquilo dela não conseguir escrever histórias ainda latejando).

será que esse formato mais tradicional de escrita simplesmente não a interessava

ou será

que só não interessava por ela não conseguia fazer bem esse tipo de texto?

seu marido nunca gostou

das coisas que ela escrevia, não entendia muitas delas

e na vida ele era a pessoa que mais a entendia.

era estranho

tanta distância nas letras, será que a sua escrita era codificada demais?

fraca demais, fazendo o leitor pensar em outras coisas e não se prender aos acontecimentos do texto? que merda, ela

era uma escritora de

merda. então ela

se lembrou de uma entrevista que assistiu com um escritor famoso no mundo todo. não desista, ele dizia no vídeo, continue tentando

escrevendo e lendo, uma hora as coisas vão começar a fluir pra você.

mas ela também ouviu

de outro escritor uma vez

que é preciso ter talento para

escrever,

se não

era melhor parar.

será que ela tinha talento? será que ela

escrevia apenas como um costume, a única coisa que ela tinha só dela e então de repente ela se habituou com aquilo, com aquela rotina de pôr no papel, o mecanismo da escrita, a fuga que as palavras proporcionam. mas talento,

talento mesmo,

será que ela tinha algum?

o marido devia achar que não,

o marido devia sentir pena dela tentar tanto.

ela desligou o chuveiro.

começou a se secar com a toalha

e pegou outra, menor, pra enrolar no cabelo.

disse pro marido, que ainda estava fumando na sala,

-vou ler mais philip roth. esse cara tá num limite perfeito entre uma obra de arte pura e uma clareza de linguagem em prol do enredo. –  a voz dela

ecoou pelo corredor carregada de

esperança, ela era assim,

cheia de esperança, apesar dos pensamentos sombrios.

então, Mia, tá vendo? – ele disse,

dando um último trago e depois apagando o cigarro no cinzeiro. – é possível dosar arte com uma história mais linear

adaptada numa linguagem única

que é a sua.

é, talvez seja possível. vou estudar esses caras que ficam no limite.

você já jantou?

comi na minha mãe.

– acho que eu vou te esperar aqui na cama, então, tá?

tá bem. já tô indo, só vou ver a rodada de

gols.

ela deitou sem roupa

por baixo dos lençóis.

puxou da mesinha de cabeceira

o livro que ela estava lendo

uma história sobre um homem que tinha obsessão por putas

e gostava de competir com a própria esposa

sem ela saber que o casamento deles era uma competição.

o livro

era de elvira vigna uma escritora

carioca

que morava há anos em são paulo, mas ela e Mia nunca tinham se cruzado na vida.

ainda assim, é tão pessoal ler alguém,

é fazer o autor não morrer e também fazer

o autor estar

ao seu lado ainda que ele esteja em outro lugar.

várias pessoas lendo o mesmo livro é multiplicar o autor, ele estará em todos os lugares ao mesmo tempo

abrindo as próprias feridas

e as nossas, principalmente.

ela escrevia muito bem, a Elvira. tinha 60 anos. e desenhava, além de tudo.

será que com 60 anos eu vou escrever bem assim?

terei leitores

pagarei minhas contas

e não me sentirei uma fraude? saberei falar sobre o que escrevo sem dor. será que aos 60 anos

eu estarei pronta? a mia se perguntava

ela podia sentir o cheiro

de tinta

que saia do local de trabalho

da elvira

uma mesa enorme de madeira rústica, a mia imaginava,

e tudo em cima dela, as ideias, as tintas, os papéis. alguns livros importantes. quais? o livro raro de poemas de egon schiele

enquanto que mia

mal tinha tempo de terminar 1 texto medíocre por semana.

ela não via a hora de se tornar uma escritora paga

por seus escritos, assim ela poderia manter a vida funcionando, largar o emprego na loja de lustres

e escrever, apenas,

o que não era pouco.

quando o marido dela veio

pra cama

ele começou a beijar

o pescoço da mia

as costas, a curva da cintura, (o livro voltou pra mesinha de cabeceira).

a mia se imaginando

já sendo uma escritora respeitada, ela se virou pra beijar o marido imaginando isso com todas as suas forças,

e assim que ele a tocou

com o dedo que também tocou

o cigarro, o texto impresso, o sofá, a tv,

ela gozou.

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